quarta-feira, 30 de junho de 2010

Porque não prego bençãos materiais


Confesso que as lentes com que leio as escrituras hoje, já não são as mesmas com as quais eu lia no princípio da minha conversão.
Acredito estar em um processo de amadurecimento espiritual em todos os níveis.
Como conseqüência, minhas mensagens, já não são mais, as mesmas.
Quem me escutou pelo menos á 3 anos atrás, percebe uma mudança radical em meu modo de pregar.

A ênfase das minhas mensagens era: Vitórias, bênçãos, livramentos, milagres e prosperidades.
Um verdadeiro arsenal de triunfalismo. Do mesmo modo, que os “famosos pop stars” da falácia teologia da prosperidade.
Só pregava promessas de bênçãos, variavam os textos bíblicos, mas o teor da mensagem era o mesmo.

Exemplificando era mais ou menos (qualquer semelhança com fatos reais, (quem lê entenda) é mera coincidência) assim: Mar vermelho abrindo-se para o povo de Israel passar: “Deus vai abrir o mar – mar do desemprego, mar da doença, mar das dívidas e todas as baboseiras que ouvimos – e se o mar não abrir.....vai fazer você andar por cima das águas”. Os três hebreus na fornalha de fogo ardente: “Deus vai te livrar da fornalha de fogo ardente – Novamente, o livramento do desemprego, da doênça e etc.” Daniel nas covas dos leões: “Deus vai te livrar da cova dos leões – E, mas uma vez.......da cova do desemprego, das doênças........e por aí vai longe.”

Não que deixei de acreditar que Deus pode fazer, mas aprendi que nem só de triunfos vivem o homem, mas da presença de Deus. Afinal o Espírito Santo é chamado de consolador, ou seja, para que precisaríamos de um consolador, se sempre iríamos ter vitória? É claro que Deus intervém (nem sempre da maneira como esperamos), porém as intervenções de Deus vem, raramente (a essência do milagre é de ser raro) através do sobrenatural, outras vezes de modo natural. (Porque Deus cura, inclusive através dos médicos)

Mas principalmente, Deus nos consola através da sua presença.
Eis a diferença dos que servem para os que não servem a Deus: O ímpio passa pelo vale sozinho, mas nós, passamos com Deus ao nosso lado.
Abaixo, exponho pelo menos 6 razões (lembrando que, os motivos são numerosos, portanto, faço um pequeno resumo) porque não prego bênçãos materiais:

1- O cerne do Evangelho não é benção, mas justiça.Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. (Mt 6 v 33)
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos. (Mt 6 v 6)
Um dos grandes ideais do Evangelho é a promoção de justiça. (aguardem, pois em breve estarei dedicando uma postagem só para esse assunto)
Não sede de justiça no sentido de vingança, mas, justiça dentro do contexto de solidariedade e reivindicação dos direitos humanos.

Ao invés de marcha pra Jesus, em uma verdadeira concorrência com a parada gay, pra ver quem consegue trazer mais pessoas á Avenida, porque não promovemos passeatas pro vidas humanas?
Reivindicando mais hospitais públicos, empregos e ajuda do governo para os pobres?
Protestando contra á corrupção do poder público?

Estamos esquecendo, que os profetas, protestaram contra as injustiças sociais do seu tempo.
É só ler os profetas para você constatar essas verdades. Não podemos ser seletivos com a palavra de Deus. Ler e receber só as promessas de bênçãos, antes, meditar e tentar viver o verdadeiro chamado para ajudar uns aos outros.
É que, lutar pelos pobres, não dá dinheiro, não é mesmo?

2- O importante não é como alcançar bênçãos de Deus, mas como ser fiel á Ele.Os livros cristãos mais vendidos no Brasil são livros que começam com a palavra; COMO.
E por conseqüência, as mensagens que mais dão "Ibope", são também, as que começam com; "COMO".
São: “COMO conquistar á sua vitória, COMO tomar posse das bênçãos de Deus, COMO fazer sua vida prosperar, COMO ser curado e toda essa ladainha gospel.”
No entanto, o importante mesmo não é saber COMO “manipular” Deus ao nosso favor, ou COMO comprar as bênçãos de Deus, sabe por quê?
Porque mesmo........”Se formos infiéis, ele permanece fiel; não pode negar-se a si mesmo.” (2 Tm 2 v 13)
E mais, Deus......”faz que o seu Sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos.”( Mt5 v 45)

As bênçãos materias de Deus estão sobre todos, inclusive sobre os ímpios, porque Deus não faz chover e levantar o sol, só para os crentes, mas antes, todos desfrutam das mesmas bênçãos, inclusive a maior de todas elas, a saber.........”pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas.” (At 17 v 25)
O maior bem material é a vida, a qual Deus concede á todos sem exceção.

Mas nós cristãos, não temos bênçãos exclusivas, adquiridas só por aqueles que servem ao Senhor? Sim e são elas:
Comunhão com Deus, dons espirituais, salvação e em fim, todas as bênçãos espirituais.....”o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo.” (Ef 1 v 3)
Em suma (pra finalizarmos esse tópico) a ênfase das mensagens tem que ser, no COMO agradar, servir, adorar, amar e ser fiel a Deus.
Este era o propósito de Paulo.....”porque estou zeloso de vós com zelo de Deus; porque vos tenho preparado para vos apresentar como uma virgem pura a um marido, a saber, a Cristo.”(2 co 11 v 2)

3- Bons pregadores preparam o povo para o sucesso, mas, excelentes pregadores preparam o povo para o fracasso.Em qual circunstancia, se exige mais preparo o, sucesso ou o, fracasso?
Acredito que, para o sucesso, também é exigido um pouco de preparo, afinal, a pessoa pode ser tentada a deixar a fé. Mas com toda certeza, precisamos nos preparar para enfrentar o fracasso.
As lutas, sem sombra de dúvida, virão, isso foi um alerta do próprio Senhor Jesus.
Leia Mt 7 v 24 ao 27.
E perceba que, os dois (prudente e louco) lhes sobre vem ás tempestades.
O problema é que, os pregadores estão se especializando em mensagens, cada vez mais, otimistas. Dizendo que tudo vai dar certo, que Deus vai resolver os problemas.
Gerando assim, decepção nas pessoas, e o pior de tudo, não com o pregador, mas com Deus!

4- A pregação de bênçãos, gera crentes infantis.Isso é um problema tão grave quanto á decepção com Deus.
O crente acostumado com o discurso de: “Deus vai fazer por você ou Deus vai resolver todos os seus problemas”, se torna infantil, ao ponto de jogar para o andar (espiritual) de cima, o que muitas vezes é de responsabilidade nossa.

Exemplo: Em vez de o crente estudar com esmero, para passar no vestibular, ele recorre á divindade para dar um “jeitinho”, e facilitar á prova pra ele.
Ou, em vez dele se dedicar ao trabalho, para conseguir uma promoção, pede pra Deus lhe dar uma “mãozinha”.

Isso é um absurdo! Se Deus atendesse, estaria cometendo uma injustiça. E Ele é totalmente justo. E é por isso que ele é bom, porque se não fosse justo não seria bom, a bondade passa pela justiça. Deus odeia balança enganosa!!!(Am 8 v 4-7)
Deus faz o impossível, não o que compete ao homem.
Na história de Lazaro em João 11, Jesus faz o impossível ao ressuscitar (versículo 43) Lázaro, mas na hora de tirar a pedra, ai é com marta (versículo 39), de desatar o defunto já ressuscitado, aí é com os homens (versículo 44).

5- A palavra de Deus nos ensina á buscarmos bênçãos espirituais.
PORTANTO, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus.
Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra. (Cl 3 v 1-2)
Na primeira e segunda onda do pentecostalismo no Brasil, a ênfase era a busca pelo Espírito Santo. Os testemunhos giravam em torno do batismo com Espírito Santo. As pessoas iam á frente da comunidade para agradecer á Deus, pelos dons recebidos. Hoje, as coisas se inverteram, as pessoas continuam indo á frente da comunidade, mas para agradecer pelo carro, casa e emprego. Antes falava-se: “Estou contente com Jesus, abracei a fé e fui batizado com Espírito Santo. Agora é: “Estou contente com Jesus, abracei a fé e recebi carro, apartamento, dinheiro e emprego".

Eu quero restituição, mas não a material, antes a Espiritual.
Se alguns estudiosos (como acredito) estiverem certos, a carta às sete igrejas da Ásia, representa como simbologia, à situação da igreja na história.
Partindo dessa premissa, á última é a igreja de Laodicéia, leia e veja, se realmente há algo incomum nessa igreja com a atual, á qual fazemos parte:
“Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu.” (Ap 3 v 17)

6- Uma das características dos falsos profetas, é que, só pregam bênçãos materiais.Porque desde o menor deles até ao maior, cada um se dá à avareza; e desde o profeta até ao sacerdote, cada um usa de falsidade.
E curam superficialmente a ferida da filha do meu povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz. (Jr 6 v 13-14)
Quero elucidar que, o falso profeta não chega a ser o que prega bênçãos, antes, são aqueles que só pregam bênçãos.
Como disse Ed. Rene Kivitz: “Uma das características do falso profeta, não é que falam só a mentira, antes não falam toda a verdade.”

Ou seja, pregar que Deus abençoa é uma verdade, mas só falar o tempo todo que Deus vai abençoar e, desprezar a essência do Evangelho que é o arrependimento, é um grande equívoco.
Inclusive a primeira mensagem do Evangelho, que foi com João batista, era:
“Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus.” (Mt 3 v 2)
A segunda pessoa a pregar o Evangelho, foi Jesus é a mensagem era:
“Desde então começou Jesus a pregar, e a dizer: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus.”(Mt 4 v 17)

Na primeira mensagem dos apóstolos cheios do Espírito Santo, Pedro foi o que falou.
Sua mensagem serve como parâmetro, para todos aqueles que querem pregar a Verdade.
Ele iniciou sua mensagem com.....”Homens Israelitas, escutai estas palavras: A Jesus Nazareno...” (At 2 v 22)
Desenvolveu sua mensagem falando acerca de Jesus. (At 2 v 23-25) E a encerrou também com Jesus.....” a esse Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.” (At 2 v 36)
E pasmem, na primeira conversão das almas na igreja primitiva, não foi ele quem fez o apelo, mas o povo interrompendo sua mensagem disse: “E, ouvindo eles isto, compungiram-se em seu coração, e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, homens irmãos?” (At 2 v37)
A o que Pedro respondeu: “E disse-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo;” (At 2 v 38)

Ah, se fosse hoje, e tivessem os “pop stars” da teologia da prosperidade pregando, seria mais ou menos assim suas palavras: “E disse-lhes “pop stars”: Olhe no espelho e diga que você é vencedor, que já nasceu para á vitória, e traga todo o seu dinheiro, cartão, cheque e recebam carros, casas e muito dinheiro.”

Se não fizermos alguma coisa para mudar essa história, talvez, a geração futura se lembrará de nós, como a geração dos acomodados.

“Para que o mau triunfe basta que os bons se calem”

Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.



Postado por: Marcio Alves

Escrito em: Domingo, 14 de junho de 2009

sábado, 26 de junho de 2010

SOBRE NOSSOS DEMÔNIOS INTERIORES



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Tanto a Religião como a Psiquiatria e a Psicanálise têm a alma como seu campo de trabalho ou de batalha. Através dos séculos da história da igreja, os cristãos, de um modo geral, têm interpretado os conflitos emocionais como lutas espirituais contra “seres” vindos de fora. Os religiosos ocidentais têm medo de que a psicanálise ao sondar as profundezas mentais do ser humano, lhes roube “o Pai dos Céus”. A dor existencial e a experiência subjetiva dos indivíduos com perturbações mentais são motivos de uma intensa e profunda abordagem pelos psicanalistas. O que estes profissionais pretendem é restabelecer a harmonia psíquica, trazendo para a consciência do portador de neurose (inclusive a eclesiástica), a origem e o significado de suas práticas ritualísticas compulsivas.

Aos “Demônios” da religião ocidental a ciência deu-lhes outros nomes, como esquizofrenias auditivas e visuais, psicoses e neuroses. As possessões demoníacas ela classificou de quadros histéricos.

O apóstolo Paulo foi um dos primeiros escritores cristãos a expressar a dor emocional resultante de conflitos íntimos:

“Acho então essa lei em mim, que quando quero fazer o bem, o mal está comigo. [...] Miserável homem que eu sou, quem me livrará do corpo desta morte?” (Romanos 7, 21 -24)

O fundador do cristianismo percebia, dentro de si, essa guerra mental interna e imaginária entre as forças divinas e diabólicas, daí ele ter escrito na sua carta aos Efésios (6 , 12):

“Pois não temos de lutar contra a carne e o sangue [...], [...] mas contra as forças espirituais nas ‘regiões celestiais’”. (Essas regiões, Freud traduziu como “o inconsciente”).

Com relação ao demônio como força maléfica, no século V, Santo Agostinho insistia que o mal não vinha de fora, era a vontade do homem que o provocava.

Foi o herege Freud quem ressaltou alguns aspectos do que sobrenaturalmente se denomina “demônio”. Numa tentativa de explicar esse fenômeno, ele realizou uma emblemática abordagem psicanalítica no seu livro, “Neuroses Demoníacas do século XVII” (1923). Vejamos o que ele diz na introdução da sua significativa obra:

“Os estados de possessão correspondem às nossas neuroses, para cuja explicação
mais uma vez recorremos aos poderes psíquicos. A nossos olhos, os
demônios são desejos maus e repreensíveis, derivados de impulsos instintuais
que foram repudiados e reprimidos. Nós simplesmente eliminamos a projeção
dessas entidades mentais para o mundo externo, projeção esta que a
Idade Média fazia; em vez disso, encaramo-las como tendo surgido na vida
interna do paciente, onde têm sua morada”.

Freud considerava que essa questão “sobrenatural” entre “deuses e demônios” era um resultado da ambivalência do filho para com o seu pai: o filho anseia pelo seu genitor, assim como tem medo de desafiá-lo. O pai da psicanálise entendia que as representações mentais do demônio maligno, constituíam-se exatamente a antítese de Deus, e que a “entidade oposta” estava muito perto do Divino, em sua natureza.

Uma coisa não se pode negar: é a de que a guerra entre deuses e demônios vem se travando nas mentes dos religiosos fundamentalistas desde épocas remotas. Com a descoberta do inconsciente ficou claro que esses “deuses e demônios” que os antigos percebiam, nada mais são que produtos da psique humana, traduzidos por eles como forças externas personificadas do mal e do bem. A figura do capeta, diabo ou demônio, ainda hoje, entre os fundamentalistas, é traduzida como potestades do ar que invadem a mente humana para guerrear contra os deuses imaginários. É nesse grande palco mental que o apóstolo Paulo denominou de “lugares celestiais”, que se trava a imaginária luta entre as forças divinas e diabólicas.

Nas narrativas das Escrituras Sagradas os deuses se transformavam em demônios maus quando novos deuses os expulsavam. Quando determinado povo era conquistado por outro, seus deuses caídos, não raramente, se transformavam em demônios aos olhos dos conquistadores. Diz a História que nas épocas primitivas da religião, o próprio Deus possuía todos os aspectos terrificantes que mais tarde se combinariam para formar uma contraparte Dele.

A psicanálise tornou-se a arquiinimiga da religião, ao desvendar que é do porão obscuro (inconsciente) do sectário, que se projetam os impulsos inaceitáveis de sua vida pregressa sob a forma simbólica de demônios. Sendo assim, a “religião” parece funcionar como um sistema repressivo que aparentemente protege o indivíduo das ameaças de suas pulsões instintivas e agressivas, à custa do sacrifício do prazer. Pelo fato do inconsciente ser percebido como algo além da vontade consciente, é que os antigos atribuíam ao mundo sobrenatural do além, a origem dos seus “demônios e anjos internos”.


“É do céu do nosso inconsciente que expulsamos ‘anjos caídos’ todos os dias” (Levi)


Por Levi B. Santos
26 de junho de 2010.

OBRAS CONSULTADAS:

...........................1. FREUD versus DEUS - de Dan Blazer – Editora Ultimato
...........................2.Uma Neurose Demoníaca do século XVII – Freud 1925 .Editora Imago
...........................3.O Futuro e a Ilusão de Karin Heller Wondracek - Editora Vozes
...........................4. Epístolas de Paulo (aos Romanos e aos Efésios)

terça-feira, 22 de junho de 2010

"Eu gosto do seu Cristo; o que eu não gosto é dos seus cristãos"


Isaias Medeiros

Por que o Cristianismo não deu certo? Ou, porque os seus seguidores se tornaram tão diferentes do seu fundador e os seus dogmas tão distintos dos ensinamentos do Rabi de Nazaré? Talvez, porque os que se apossaram das palavras de Jesus tenham sido exatamente as pessoas para as quais Jesus não se dirigia: os religiosos.

Seu público alvo não eram os líderes religiosos, ou aqueles que praticavam formalmente a religião. Quando falava a eles era sempre de forma crítica, mas como quem critica alguém que sabe que está errado, mas não dá o braço a torcer.

Aqueles para os quais o seu discurso era realmente direcionado eram os moradores de rua, as putas, os viados, enfim, todo o lixo que a religião excludente de sua época formava. Ele era sim o Jesus das prostitutas, dos mendigos malcheirosos, dos malandros e de todos quantos já se consideravam condenados e que por isso nem passava pelas suas mentes tentarem uma reconciliação com Deus; e consigo mesmos...

Hoje, os cristãos se identificam muito mais com os antigos fariseus, que pensavam agradar a Deus através de rituais, do que com aquelas pessoas imperfeitas, humanas, e por isso sempre carentes de perdão para quem o Cristo pregava. Tornaram-se assim indiferentes para o Mestre.

E por que O Filho do Homem desaparece definitivamente após os Evangelhos? Por que não são reproduzidas as suas falas nas famosas epístolas paulinas ou de outros apóstolos? O que aconteceu com aquele Provocador-mor? Suas palavras não foram fortes o bastante para ficarem marcadas no coração daqueles mais próximos a si, ou, justamente ao contrário: de tão fortes nunca foram plenamente assimiladas e  aceitas?

Suspeito que a sedução legalista os enganou. Sim, era mais fácil aderir a algo parecido com o que já conheciam do que abraçar a loucura dos ensinamentos do Cristo. Eles se renderam a segurança das normas, das hierarquias, dos rituais, pois nunca se desprenderam verdadeiramente da religiosidade vazia de sua época.

Atualmente, os evangélicos reproduzem o mesmo comportamento: com o passar do tempo se esquecem do personagem Jesus e passam a viver uma rotina religiosa, deixando-se involuntariamente entorpecer pela religiosidade, ou como eu gosto de dizer, pela cultura religiosa igrejeira. Então, já não há mais a consciência do dever de amar ao próximo, e sim o de comparecer aos cultos. O desejo de se santificar, no sentido de tornar-se uma pessoa melhor, é substituído pela busca paranóica pela "santidade" exterior, demonstrada nas vestes e em outros hábitos assépticos no intuito de "não se contaminar com o mundo".

Faço minhas as palavras do Gandhi quando disse que "gosta do Cristo, mas não gosta dos cristãos, pois eles são muito diferentes do seu Cristo". A multidão de "desigrejados", aqueles que não aceitam mais se colocar sob uma liderança religiosa formal não é culpa apenas da mentalidade pós-moderna. É reflexo de mais de dois milênios de mal-entendidos; de se remendar panos novos com velhos trapos teológicos; de se tentar armazenar o vinho novo da Graça nos odres velhos do legalismo.

Aos pensadores cristãos - ou ao menos sob forte influência de uma criação evangélica -, só  resta admirar ao Jesus que sobreviveu em suas mentes e corações, não obstante as pregações distorcidas que foram obrigados a ouvir por toda vida a seu respeito.

Quanto a mim, ironicamente cabe-me terminar um texto sobre Jesus citando, mutatis mutandis, o autor de "O Anticristo": "Cristo morreu cedo demais. Se ele tivesse vivido até a nossa época, ele teria repudiado a sua doutrina". Alguma inverdade?

Imagem: http://i.ytimg.com/vi/Jrwr7CHNYfQ/0.jpg

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Confissões de um "aborto" ao Mestre Jesus.

No seu passado obscuro de promiscuidade ela havia feito um aborto. Corajosa e decidida, tomou a iniciativa de entrar na casa de Simão, o fariseu para cuidar gentilmente do Mestre. A mesa estava farta de alimentos, ao redor os fariseus. Ela tinha o desejo de sussurrar no ouvido dEle, sentia uma culpa profunda do passado.

Ela estava por detrás de Jesus, levantou a cabeça em direção ao seu ouvido e sussurrou: “Mestre, confesso ter transado com um filho de Sacerdote e ter engravidado do mesmo. Como, para tal solução, resolvemos procurar uma clínica de aborto.”

Cheio de emoção e arrependimento. “Ela chorava e as suas lágrimas molhavam os pés dEle. Os cabelos estavam ensopados, na tentativa de enxugar os pés do Mestre. 

Tremula, continuou... “Mestre... Realizaram o procedimento sem maiores problemas físicos, mas, mal sabia que o pior estaria por vir. Toda noite antes de dormir a partir do dia em que o aborto me aconteceu, ouvia o choro de um recém nascido. E anos a fio fiquei ouvindo esse grito de desespero. Por vezes me levantava da cama sobressaltada procurando o filho que eu tinha matado”.

As gotas deslizaram no seu rosto... As seqüelas pós-aborto não foram apenas físicas, mas mentais também. No momento que os olhos deram descanso às lágrimas, ela pegou o alabastro e ungiu os pés do Mestre. Na seqüência, beijou-os sem cessar.   

O fariseu Simão não entendeu nada e pensava: “Ela não é a Maria Madalena, a prostituta?... Será que o mestre sabe com quem está conversando?”

Então o Mestre se virou para a mulher e disse a Simão: “Você está vendo esta mulher? Quando entrei, você não me ofereceu água para lavar os pés, porém ela os lavou com as suas lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Você não me beijou quando cheguei; ela, porém, não para de beijar os meus pés desde que entrei. Você não pôs azeite perfumado na minha cabeça, porém ela derramou perfume nos meus pés. Eu afirmo a você, então, que o grande amor que ela mostrou prova que os seus muitos pecados já foram perdoados. Mas onde pouco é perdoado, pouco amor é mostrado.”

O Mestre olha para a mulher e diz: “Perdoados são os teus pecados.” Os que estavam com ele à mesa começaram a dizer entre si: “Quem é este que até perdoa pecados?” Mas Jesus continuou a dizer a mulher: “A tua fé te salvou; vai-te em paz.”

No encontro com Jesus, ela recupera a harmonia interior e entra em um processo de crescimento e amadurecimento pessoal até atingir a plenitude do seu ser na experiência pascal.  Simão fica boquiaberto pelo fato do Mestre dar ouvido a uma pecadora e perdoá-la do aborto e prostituição. Sobre este assunto, o Mestre tem um ponto de vista diferenciado dos demais...

Textos baseados: Lucas: 7.36-50; Lucas: 8.2; Marcos: 16.9.

Autoria do texto: Hubner Braz

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Ponto critico




Sigo num ritmo acelerado a trajetória de um caminho sem volta. A essa altura não da mais para interromper o processo, não há como retroceder. O único medo que me assalta e me preocupa agora é o medo de não ter mais medo, e perder a noção do perigo. Não sei absolutamente em que fim vai dar, estou pagando pra ver, sei que posso pagar caro, só espero que não custe a minha própria alma.

Não mais me debato e nem ponho em risco a autenticidade do meu ser, em sacrifícios improdutivos contra as exigências legitimas da minha natureza, deixo que tudo corra naturalmente, não me preocupo mais com mandamentos que estão para alem de mim. Se o meu coração for bom, sei que dele procederá  boas coisas, caso não seja, depois de tanta coisa, já não sei se posso saber ou fazer coisa alguma.

Se a minha consciência me engana, então não me resta saída, posto que ela seja o meu único canal de cura. Se o julgamento que sempre fiz de mim mesmo não me resolve, e se tudo que senti e vivi diante Dele não servem de critério, então tudo para mim é nada, e nada é: Nada. Por instantes e momentos nada me é sagrado e nem nada mais me surpreende. E às vezes não espero mais nada de coisa alguma, e se tudo que acredito não for; apenas o ser me basta.

Ando insensível ao desespero de não ter o sentimento de medo algum sobre a tênue linha que me separa do bem e do mau. Ainda que eu me julgue imune no meu vale de sombra e morte, aonde o pecado perdeu seu poder de sedução sobre mim, porque nada mais me é proibido, mesmo assim não busco seguidores, pois sei que na prática estou mais para um espetáculo com um fim trágico do que para alguém que possa edificar a outros.

Atualmente tudo para mim se tornou apenas humano. Dantes tudo que se apresentava como divino intocável vira-se agora algo devassável. Não forço isso, é apenas processo natural do meu modo de ser. Tornei-me diante de toda dádiva e grandeza, apenas um olhar atento, tudo perdeu seu mistério.

Num compasso ritmado de passos que não param pelo tropeço de pedras insignificantes do caminho, sigo e antecipo a maturação dos intentos do meu pensamento sagaz e audacioso. E assim, sendo conduzido ao mais profundo da dúvida, num denso e drástico estado de alma, do fundo do poço de meu ceticismo eu chego num ponto onde não consigo mais passar adiante.

Diante da cena da cruz o meu ser se dobra, a minha alma em sua veemência não mais avança, não por respeito ou por falta de coragem, é que ali as minhas forças se esgotam. Ao olhar o homem posto sobre ela, o meu coração vergado e prostrado a até o mais baixo chão desta terra (pela subjugação da força de atração que emana daquele evento) se derrama. A cruz é o meu limite.


Gresder Sil

Escrito no final de agosto de dois mil e nove.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Foi tudo um sonho

O plano seguia como planejado. Até ali, convencera até seus pais de quem ele era, de que estava numa missão especial.

Ora, tudo indicava isso, dizia ele. Veja bem, nascido de uma virgem (pelo menos esse era a história que sua mãe lhe contava daquela gravidêz fora de hora), a fugida ao egito, o momento histórico. Só faltavam algumas pequenas adaptações, nada muito complicado de ser feito, para ser reconhecido como o tão aguardado Messias.

Seus colegas o ajudaram no plano. Alguns amigos de infância ajudaram a espalhar boatos, do menino que fazia barro virar bicho, cegava quem lhe contradizia, curava só de olhar.

Foi na adolescência e juventude que ele teve essa idéia. Estudou as escrituras sagradas, embora prefiria chamá-la de escrituras de moisés, e viu que os mais religiosos de seu tempo a utilizavam em seu próprio benefício. Havia visto como os sacerdotes se venderam, como tudo era vaidade, e os menos abastados eram oprimidos. Alguém precisava fazer alguma coisa.

E tinha ainda algo também, alguma rixa com os fariseus, um em especial, pois se parecia muito com ele. Ao subir ao templo uma vez ao ano, já havia notado antes um olhar estranho entre sua mãe e este fariseu.

Mas isso não vinha ao caso. Importante mesmo era sua missão.

Ao completar seus 30 anos, sua cabeça estava a mil. Planos e mais planos, algo como salvar seu povo, um novo reino, reconstruir a religião, desmascarar os religiosos. Foi para o deserto, pois era assim que os profetas antigamentes faziam. Lá, brigou consigo mesmo. Se viu tentando a provar se realmente era alguém com algum poder especial, mas no fundo ele não tinha coragem.

Mandar transformar pedras em pão?
- Ah, … é... não sei... quer dizer, eu posso, mas como dizem as escrituras: “Nem só de pão viverá o homem..”..
Jogar-me daqui?
- Ah... eu até sobreviveria, mas não posso tentar a Deus...

Ao voltar de seu retiro, estava convencido da sua missão. Só não sabia que ela ia chegar tão longe. Batizado, juntou seus próprios discípulos. Começou a pregar a sabedoria que aprendera das escrituras, das lendas correntes, de outros sábios. Fez sua própria interpretação do divino e humano.

Pedia a todos que largassem o que tivessem para trás e o seguissem, pois ora, o plano dele era para ali, naquele momento. Quem quisesse ver, o teria de seguir.

Com os seguidores se somando, percebeu que sua missão só seria completa se tivesse um impacto. A única forma de demonstrar como os fariseus não eram a voz de Deus, seria morrendo e ressucitando. Não literalmente, claro, ele sabia ser impossível. Mas que uma peça fosse montada, na qual todos o vissem “morrendo”, e reaparecendo vivo em seguida.

Primeiro treinou com seu melhor amigo. Queria saber se seu truque daria certo. Tudo feito, seu amigo seguiu o plano a risca, e um outro cúmplice o ajudou. No dia marcado, gritou para seu amigo, que após dias aguardando, finalmente saia como que ressucitado.

Tudo certo, o plano se seguiu. Dois de seus discípulos preparavam tudo. Um soldado convertido à causa cuidaria para que seus ossos não fossem quebrados, e daria-lhe uma bebida para que parecesse morto. Seu outro amigo faria o papel de traí-lo, delatando-o, embora não soubesse da farsa.

Mas algo deu errado. As feridas foram fortes demais, um soldado transpassou-lhe uma lança, por pura maldade, de modo que ficara muito debilitado. Seguiram com o plano mesmo assim. Seu discípulo secreto o levara para a sepultura, onde cuidou de seus ferimentos, para em três dias ele ressurgir dos mortos, como era o plano.

Seu amigo no entanto não suportou a dor. Foi levado a traí-lo, mas não sabia que se tratava de um plano, e antes que pudesse ser avisado, se matou pela culpa que sentia.

Isso foi terrível. Embora tenha reaparecido, não era como ele esperava. Tudo aquilo causara alvoroço por um tempo, mas o povo logo esquecera, inclusive seus próprios discípulos já tratavam de voltar à vida normal. Ele os juntou novamente, no entanto, e planejava iniciar a segunda fase de sua revolta. Mas as dores eram grandes, as feridas não saravam, e seu coração se apertava por seu amigo. Uma perda que não lhe dava mais paz. E então, faleceu.

Seus discípulos, como bem treinados, não entenderam sua morte. Ficaram aguardando sua segunda ressurreição, já que agora, após terem visto seu mestre morrer e ressucitar, não mais desanimariam, pois sabiam que ele voltaria novamente. E eles nunca mais desistiram.

Esta é a história de um Rabi, de um plano e seu fracasso, e de como nós fracassamos com ele. Esta é a história da humanidade. Heróis morrem por seus planos, pelos seus ideais, por um mundo melhor, mas nem sempre ele melhora. Esperança! É tudo que temos, até que surjam novos heróis.

domingo, 6 de junho de 2010

Um pouquinho do pré-princípio



Olá amigos, vocês não me conhecem, eu me chamo Zios.

Sou o ser supremo de todos os universos e galáxias, desde antes da existência dos universos e galáxias.

Eu sou antes da existência da matéria, eu sou o criador da matéria.

Eu sempre estive ali, eu e mais nenhum outro ser.

Minha onipresença era repleta da mais triste ausência.

Vivia cheio e vazio de mim mesmo.

Minha existência não fazia sentido.

Eu estava em tudo, e este tudo era o nada.

Não possuo forma física definida.

O meu eu ecoava por todo vazio existente.

Foi quando resolvi dar existência ao universo, às galáxias, aos planetas, aos organismos macros e micros.

Agora não estava mais vagando em minha existência vazia, podendo existir naquilo que havia criado.

Resolvi criar seres parecidos comigo, formados de i-matéria, porém, sem poder de criação.

Chamei-os de angos.

Todos angos eram iguais.

Resolvi modificar um pouco categorizando-os, diferenciado-os, classificando-os de forma a torná-los superiores e inferiores.

Criei também um ser que chamei de Fitlo e outro ser chamado Esplito. Estes sim, eram como eu, superiores a todos os angos.

Os angos foram criados para emitir sons para mim, porque minha existência agora dependia destes sons, assim conseguia preencher toda minha ausência de significado.

Chamamos estes sons repetidos de música, e, a música me alimentava.

Continuamente, músicas, músicas e mais músicas sem fim.

Até que um dos angos resolveu imaginar que poderia ficar em meu lugar e receber todos os sons para ele.

Sim, o pensamento que era apenas uma capacidade minha, eu também dei a eles.

Foi aí que eu o lancei em um dos planetas que criei.

Como ele queria ser igual a mim, deixei-o sentir-se só, assim como eu me sentia antes de tê-lo criado.

Perguntei se alguém queria ir com ele e, vários outros angos quiseram ir.

Desde então, minha existência está voltada ao planeta Azulo, onde coloquei os angos juntamente com este que foi denominado ango rei.

O planeta Azulo foi um dos planetas que criei com intenção de que ele criasse sua própria vida sozinho.

Houve um grande conflito entre os angos, pois, não sabiam o que era pior, emitir sons eternamente aqui, comigo, ou, ficar em um local onde nada existe, existindo apenas outros angos.

Foi quando Azulo produziu os primeiros rumanos, este foi o nome dado ao novo ser gerado.

Os rumanos eram diferentes dos angos, angos não eram seres físicos, os rumanos foram gerados por Azulo, sendo assim, parte do planeta.

Desde então iniciou uma grande guerra entre os angos e os rumanos, desde que os rumanos perceberam a presença dos angos.

Eu me ausentei desta relação, afinal nem os angos que ali estavam queriam estar comigo, nem os rumanos me conheciam.

Foi quando resolvi continuar a minha existência na ausência de Azulo, apenas sabendo de tudo que acontecia através de minha onisciência. O ango rei, chamado de Diango havia dito que os rumanos não seriam como os angos e que os rumanos nunca seriam submissos a mim. Eu havia dito a diango que o ser rumano teria a capacidade de optar entre ele e eu, e que para isto não seria necessária minha intervenção. Por isso deixei Azulo e Diango se entenderem sozinhos.

Desde então Diango se apresentou para os rumanos como duas personalidades, sua própria personalidade e, outras vezes, usando minha identidade.

A primeira coisa feita por Diango foi informar aos primeiros rumanos que não poderiam comer de uma determinada árvore pois, ao fazer, deixariam de existir, não vivendo para sempre. Enquanto, ele, Diango, apareceu em outra forma para tentar induzi-los a comer da árvore, onde, obteve sucesso.

Diango então diz que agora, eles tinham perdido algumas regalias, porém, tal árvore não tinha nada de especial, as regalias não existiam, simplesmente os rumanos, ao deixarem seu ser material, se tornariam angos como os demais, Azulo se tornou capaz de criar angos por sua própria conta, eu não interferi porque preciso demonstrar que os rumanos vão optar por não acreditar, ou desejar Diango.

Os rumanos tinham uma vida muito ligada à sua mãe, Azulo. Ao retornarem para sua mãe, deixando a parte denominada matéria, eles retornam para junto de mim na forma de um ango. Não existe nenhum outro lugar para os angos, ou ficam aqui, junto de mim, ou em Azulo, porém, Diango projetou para os rumanos a idéia de que existe outro lugar para eles habitarem, onde, sua forma de ango sofreria constantemente. O objetivo de Diango foi tirar dos rumanos o prazer de viver em Azulo, forçando-os a viverem seu tempo da pior forma possível, inclusive, destruindo Azulo com intenção de morar em um novo Azulo, porém, eu não fiz e nem farei outro Azulo.

Tenho recebido muitos angos que se surpreendem quando chegam junto de mim, ao descobrirem que perderam todo o tempo em Azulo sem apreciar o planeta e os outros rumanos, vivendo da melhor maneira possível. Muitos angos me pedem para voltar, mas, não posso permitir isto. Ao chegarem, eles se juntam aos demais angos para emitirem sons para mim eternamente.

Tenho observado que Diango tem se saído muito bem quando se trata de enganar os rumanos.

Os rumanos passaram a cultuar, ou adorar a Diango em suas diversas personalidades.

E eles não tem percebido isso.

Mesmo quando dizem que estão adorando ao ser superior, eles estão adorando Diango, porque a projeção deste ser apresentado a eles, foi elaborada pelo próprio Diango.

O tempo que os rumanos vivem em Azulo, estão sendo dedicados quase que totalmente à Diango, mas, percebo também que alguns rumanos conseguem viver fora deste cenário montado por Diango, aproveitando o momento em que estão vivendo em Azulo.

E você? Quer aproveitar este tempo ou apenas viver uma vida baseada nos conceitos elaborados por Diango?

Abraços,

Evaldo Wolkers.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

"Dai-lhes vós de comer"







Tinha sido um dia difícil na vida do Carpinteiro de Nazaré. Seu primo e primeiro mentor, João Batista, tinha sido decapitado por Herodes e isso abateu-lhe os ânimos.  Mas ele não tinha muito tempo para lamentações. Sua missão urgia, os pobres e os injustiçados esperavam dele, palavras que lhes tocassem o coração e mente e que pudessem avivar a esperança de dias melhores quando o Reino irrompesse nas estruturas doentes e seculares que subordinavam o povo numa religião decadente e conformada com o status quo.

Mesmo assim, pensando em retirar-se para curar sua dor, afastou-se com os Doze para um lugar deserto. Ele gostava de lugares desertos. Do silêncio. Onde mais poderia ouvir com clareza a voz do seu Pai? Mas nenhum movimento que ele fizesse passaria despercebido pelas multidões que o buscavam. Dezenas de desesperados, sofridos pela dor, foram ao seu encontro e receberam dele a atenção merecida.

Ainda com a dor da morte trágica de João machucando seu peito, ele pôs-se a ensinar e a curar. De uns curava o corpo e de muitos, curava a alma. O tempo passava muito rápido quando ele levantava a voz para proferir poderosas palavras que eram capazes de mudar e construir novas realidades. E de fato, daí a pouco, mais um paradigma seria questionado.

A noite caía e ninguém arredava o pé dos pés do Mestre.  Suas palavras não eram comuns. Não era como a palavra de tantos outros messias e profetas que pipocavam aqui e ali naqueles tempos na palestina.  Os Doze vieram lhe falar de coisas mais terrenas e burocráticas: Era preciso dar uma pausa para que a multidão fosse aos povoados se alimentar. Então, os Doze ouviram a ordem: “Dai-lhes vós de comer”. “Como poderemos alimentar tanta gente com apenas cinco pães e dois peixes? Jesus, insistindo, repetiu: “Vocês estão comigo há tanto tempo e ainda não aprenderam os códigos da solidariedade?

Então André, fitando os outros Onze, percebeu o que o Mestre falara.  Chamou-os e se retiraram para o meio da multidão. Jesus continuava suas preleções enquanto os Doze iam recolhendo qualquer alimento que encontrassem no poder das pessoas presentes. Algumas hesitavam em entregar seus pães e peixes, com medo que seus familiares presentes não tivessem o que comer. Para estes, André, sorrindo, dizia que o mestre iria ensinar-lhes uma preciosa lição.

Depois de algum tempo, os doze vieram com tudo o que puderam arrecadar no meio da multidão. Não era pouca coisa já que as pessoas sabendo que seguir os passos de Jesus os levariam a ficar horas e horas caminhando, sempre levavam na bolsa algum alimento para o lanche.  Mas era assim com todos. Muitos nem dinheiro tinham para essa despesa extra.

Jesus então abençoou tudo o que os Doze tinham recolhido. Partiu os pães e peixes em vários outros pedaços menores e pediu que os discípulos distribuíssem à multidão. Ao final, todos comeram. Os que não tinham levado nenhum alimento para si beneficiaram-se da repartição feita por Jesus e todos comeram e se saciaram. E ainda sobraram doze cestos de pedaços de pães que foram devidamente guardados para a próxima “multiplicação dos pães”.

Eduardo Medeiros, 2 de junho de 2010

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Crédito da figura: http://4.bp.blogspot.com/_
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