segunda-feira, 30 de maio de 2011

Bullying ou Abuso Emocional - Confissões de Mefibosete


Lembro de ter ouvido a voz do meu coração, doía muito. Foi ele que me levantou da cama e pôs-me no chuveiro. A água não estava quente, mas morna. Há mese que eu não sabia o que era tomar um banho quente. O calor da água me fazia mal, e ultimamente tudo que eu sentia “me fazia mal”.

Meu estômago virava constantemente, eu dormia cerca de 2 horas por noite e tinha vários cochilos durante o dia. O meu desejo de comer grandes porções de alimento ou até mesmo algo pequeno esvaiu-se. Nas manhãs, acordava tentando prever um melhor dia para mim. Eu estava a meses freqüentando o consultório médico, mas meu médico não conseguia descobrir o que estava de errado comigo. Nem eu conseguia definir a causa da minha doença.

Pensei: “Não pode ser ela a causa dos meus problemas, pois ao lado dela tudo é maravilhoso. Até as amigas dela que me desprezam, tem me respeitado quando fico ao seu lado” Certo!?

O chuveiro nunca aliviou a dor muscular do meu coração. Provavelmente porque eu nunca me sentia em paz...
*Toc-Toc*...
“Oh Senhor,” Pensei eu.
“Quem está batendo na porta? Será que é uma das amigas dela? De novo? O que elas querem agora?” Já virou rotina diária... Era só ouvir alguém bater na porta que eu tinha certeza, era as amigas dela.

Sempre pela manhã ela me mandava um recado por suas amigas. E apesar da minha relutância em atendê-lo, eu sempre saia do banho para abrir a porta e receber o bilhete. As águas que molharam meus cabelos, de vez por outra gotejavam e caiam em cima do bilhete deixando-o com partes ilegíveis. No fundo de tudo isso eu desejava secretamente construir um muro no lugar da porta, ai eu pensei: “Será que isso iria me oferecer alguma liberdade?”.

Eu era um completo idiota. Voltei para o banheiro pensando no melhor jeito de responder o bilhete. Confesso que tentei por inúmeras vezes ignorar os seus recados, só que voltei atrás por me sentir culpado. Era difícil demais suportar o sentimento de culpa.
“Se eu não responder, ela vai mandar outro bilhete me acusando de não se importar com ela, e ainda me discriminará na frente das amigas. Como ela sempre fez.” Geralmente estes eram os meus pensamentos quando eu contemplava o bilhete com um desejo angustiante de não respondê-la.
“Que amigas estúpidas” pensava eu, pois as amigas dela eram regidas pelas suas ordens (Uma verdadeira Maria vai com as outras) era só ela mandar que elas traziam outros bilhetes.

Ela comunicou comigo usando todos os meios. Todos os dias ela dava um jeito de me encontrar, fazia isso sem falhas. Era muito cansativo recepcionar todos os dias as suas amigas. Mesmo assim, afirmo que ela foi incrível, a persistência dela me surpreendeu... Certo!?
“Você tem sorte de me encontrar”, foi uma das primeiras coisas que ela me disse durante aquela semana que ficamos juntos.

Naquela época, eu me sentia feliz. A atenção dela estava direcionada exclusivamente para mim. Ela se preocupava comigo. Conversávamos sobre tudo. Ela me fazia rir a todo instante, e por um impulso eu abracei-a com tanto amor que nunca fiz algo semelhante assim, com ninguém. Seu perfume era doce e misterioso... Sua pele macia e lisa. Olhei para os calos na mão, e usei-os perfeitamente para rastrear os pontos fracos e excitantes que estavam escondidos por cada centímetro do seu corpo.

Em fim, era tudo ilusão... Logo, eu me vi à mercê de sua boca, seu temperamento e seus desejos. Suas palavras se tornaram o meu comando, seu humor se tornou o meu humor, sua felicidade era mais importante do que a minha felicidade, seus desejos se tornaram meus desejos e suas necessidades se tornaram a única coisa que realmente me preocupava.
“Por que você anda de cadeira de rodas? Você sabe que eu odeio quando você está mais baixo que eu. Eu não vou sair com você em público, se você usar aquela cadeira. Retire-o e use as muletas reais”, eu ria. Essas eram as suas palavras quando eu usava cadeira de rodas. Era sempre assim. E rir era tudo que eu podia fazer.

Suas inseguranças eram infantis para mim do tipo lisonjeiro. Ela sempre me questionava sobre tudo. E eu tinha que ter a resposta na ponta da língua, à resposta certa. Às vezes os argumentos eram insuficientes, os meus sentimentos eram rapidamente interpretados de um modo diferente do meu pensar. E ela sempre me desmitia por "entender mal" o que eu dizia. Ou talvez ela pesasse que eu fosse “imaturo” e, portanto, perturbado pelas minhas respostas. Era isso que ela achava de mim.

O incrível de toda essa gafe que eu cometia era que ela não gritava comigo e nem me batia, mesmo desconfiando do indesconfiável “eu”. E por isso que acordei tarde, não percebi que era um joguinho que ela estava aplicando sobre mim. Um joguinho de ilusão. Uma ilusão que me fazia acreditar que ela era uma mulher decente, a mulher dos meus sonhos.

Lembrava: “Se ela ficasse com raiva de mim, ela simplesmente iria parar de falar comigo”.
Senti-me patético, pois certamente eu iria implorar pelo seu perdão.
- Amigas, recados, bilhetes tornariam insuficientes na tentativa de reconciliar-se. Sentia medo de ser esquecido por ela, de estar longe dela, tornando-se um ser inexistente.
E o que pesava sobre a tal situação era: “Mas talvez, eu merecesse passar por isso”.

Por causa de tudo, fiz-me louco. O tratamento do silêncio foi o meu castigo... Assim como me senti compelido a responder seus recados dentro do chuveiro com rapidez, senti-me compelido a pedir-lhe o seu perdão. Senão pedisse o perdão perderia a excitação de viver, ficaria perturbado.  Eu não suportava a idéia de que ela estava com raiva de mim. Ela era o meu dia, meu mar, meu mundo. E eu pertencia a ela... Certo!?

Encontrava-me ansioso. Às vezes, evitando pisar em ovos, sempre com o objetivo de agradá-la. Não percebia a violência emocional que estava sofrendo, está violência sem medida.
 “Isso não é comigo... O que estou fazendo?” era o que passava em minha mente com muita freqüência. Mas não tinha tempo para se preocupar porque tinha que trabalhar duro para roubar sua atenção, porque se eu trabalhasse duro, ela finalmente iria perceber que eu sou um bom garoto e que nunca iria traí-la como o seu ex-namorado a vez. Na esperança de ela me aceitar do jeito que eu sou.

Logo, parei de usar cadeiras de rodas, parei de usar as túnicas reais, parei de usar tudo que ela odiava. Minha liberdade, entre gostos e usos pessoais, foi substituída por falsos MRJ "modas da religião judaica" - um estilo farisaico que ela aprovou.

 Iniciei um processo de mentiras, a primeira mentira foi sobre meus exercícios físicos e ortopédicos. Só assim ela iria parar de cobrar em voz baixa sobre a minha “falta de atividades físicas”.  
Eu tinha parado de ir porque a academia não era a mesma sem o meu (ex) melhor amigo Maquir, onde, costumávamos freqüentar o lugar e papeávamos muito sobre vários assuntos. Eu não queria ir à academia, sem ele! Mas para ela, ele era um “amigo” de merda e não merecia conversar comigo. Então eu fiz...

Nada era bom o suficiente. Segunda mentira foi sobre onde eu estava e o que fazia lá, só porque temia deixá-la irritada. A terceira mentira era sobre minhas amigas, ela não podia saber que eu tinha amigos do sexo feminino, quando descobria ela me chamava de “provocador, galinha” dizia que eu estava fazendo joguinhos de ciúmes. Para ela, todas as minhas amigas eram “idiotas, imaturas e não valia à pena ter este tipo de amizade”.
“Ela estava certa, eu realmente tinha algumas amigas péssimas.” Era o que eu pensava, pois estava envolvido em um mar de ilusões.

“Sua família está “louca””... disse ela. Mas sei que este foi o seu raciocínio de recusa, evitando conhecer os membros da minha família. O fato é que fiz a minha parte em conhecer os membros da família dela. Ela disse que não sentiu seriedade entre os meus e a possibilidade de ver-me todos os dias reduzia mais e mais, tudo por causa da minha família.
Ela chamou-os de “Atrapalhados”. E, segundo ela, haviam “muitos atrapalhados”. Esses "atrapalhados" me deixaram apreensivo, temeroso acerca do meu amor.
“Oh meu Deus, não posso me envolver com minha família... Senão, ela vai me despejar da sua vida”. Era o que provocava tanto medo em mim...

Minhas doenças surgiram. Dar atenção a ela tornou-se uma luta diária. Meus músculos doíam, minha cabeça doía. Eu estava atento, a todo o momento, ao movimento das suas amigas na expectativa de receber mais bilhetes. Quando recebia os bilhetes dela eu ficava muito nervoso, cheguei ao ponto de respondê-la dentro da sala de aula, no meio de uma palestra, para que ela não viesse me acusar.

Minhas notas caíram, meus relacionamentos também. Eu comecei a se isolar dos outros porque o meu tempo era apenas dedicado a ela. Eu não conseguia ver nada, nem o abuso emocional que sofria das suas amigas e dela própria. No momento, é claro poderia refletir, mas eu estava completamente sego. Até agora eu ainda não consegui entender como permiti que tudo isso acontecesse...

Ela... dizia que entregou-se por completo. E nisto eu realmente acreditava. Quando estávamos juntos, me tornava seu príncipe, eram raras as ocasiões que eu pensava de maneira diferente, ela fazia questão de lembrar-me da “entrega” ela se entregou por inteira e de como eu era um cara de “sorte”. Ela era divertida, bonita, carinhosa. Sua família foi maravilhosa.

Eu apoiava, admirava, eu fazia tudo certo. Ria quando proseávamos, sussurrava no seu ouvido quando ficávamos em silêncio, a minha vida era dominado por ela. E apesar do fato de desesperadamente tentar agradá-la, o que acontecia de fato era de eu mesmo quebrar a minha cara.

Era inútil ter esperança numa pessoa ligada ao bullying.
Era inútil ser maltratado daquele jeito e permanecer com o “erro” ao meu lado.
Era inútil ficar com uma pessoa que pela sua possessão, as suas atitudes levaram suas amigas a me agredir. No fim de tudo eu nunca poderia dizer que todo este tempo com ela valeu a pena.

Foi tarde, mas descobri que meus pés estavam dentro de uma areia movediça e ilusória, quanto mais me movimentava para sair, mais me sentia atraído para o fundo desta areia, preso numa completa ilusão...

Alguns meses atrás eu escutei: “Ela está abusando de você, Mefibosete”. Fiquei paralisado na cama, quando Maquir, meu amigo me disse isso.
Meu amigo é muito educado, bem chegado da família, ele e uma das pessoas mais inteligentes que eu conheço. Senti-me enojado. Esse foi o primeiro sentimento que eu senti naquele dia...
Minha vontade era por fim no relacionamento com Maquir. Na verdade, ele tinha terminado a nossa amizade bem antes, logo no inicio do meu envolvimento com ela, mas eu pensei que a nossa amizade teria terminado durante algum tempo, depois voltaria. Eu estava sofrendo com isso.

Como eu era inocente, entrei na roda dela e fiquei completamente distraído e agora essa revelação?
“Como se atreve amigo, sentar-se ao pé da minha cama e me dizer que a mulher que eu me importo com tão profundamente, só queria abusar de mim?” Eu pensei, “mas ela não me bateu, ela não é abusiva... Ela não é estúpida de fazer tal coisa!?.” Certo!?

Meu amigo me deu um texto. Neste texto explicava as 6 características de um parceiro abusivo. E os sintomas que estavam descritos conrrespondiam com ela escrito dessa maneira:
-   Ela impõe exigências irracionais para você cumprir, e para cumprir você chega ao ponto de abandonar a sua vida para cuidar das necessidades dela.
-   Ela exige sua atenção constantemente, ou exige que você gaste todo o seu tempo livre com ela.
-   E não importa o quanto você dá, nunca é suficiente.
-   Você sempre estará sujeito a críticas, e sempre será repreendido porque não cumpriu com todas as exigências e necessidades dela e das suas amigas. (Quando as necessidades de uma pessoa são negadas, especialmente quando sentem que precisam de um carinho, e feito com a intenção de ferir, humilhar ou punir).
-   Ela pode negar a ocorrência de certos eventos ou que certas coisas foram ditas. (O erro é confrontar o agressor sobre algum tipo de incidente, o agressor pode insistir: “Eu nunca disse isso, Eu não sei o que você está falando etc.”. E você sabe diferente, sabe que ela te xigou).
-   A outra pessoa pode negar a sua percepção, a memória e a sanidade. (Recusar é outra forma de negar. Reter é incluir recusar a ouvir, recusando-se a comunicar, e emocionalmente retirada como punição. “Isso às vezes é chamado o tratamento silencioso”).

Está era a lista que li, mas sem prestar muita atenção nela devolvi para o meu amigo. *Toc-Toc* “Deve ser algum recado dela, ou ela pessoalmente,” eu sorri. “Talvez ela precise de mim”. Pensei...
 Maquir olhou para mim com um desânimo arrebatador. Não tinha o que fazer, aquele era o momento, foi quando eu lhe disse: “Amanhã nós continuaremos a nossa conversa” Ele, de cabeça baixa, se retirou e foi para sua casa.

No dia seguinte, Maquir voltou com a lista novamente. Olhei de novo, e houve um clarão em meu subconsciente, um choque. Despertei do profundo sono, fui curado da cegueira, libertei-me da ilusão. E quando eu li pensei que poderia desmaiar. Senti meu coração bater de novo, e mais forte, o meu estômago estava inquieto...

“Como eu poderia não ter visto isso? Ela faz tudo isso e muito mais!” Eu soluçava com tamanha verdade revelada naquela lista. Durante uma semana eu só sabia levantar da minha cama para ir ao banheiro. Eu cortei o contato com ela e desde aquele dia e eu não tenho falado com ela, então... “Não estou mais doente. Eu posso tomar banhos quentes no chuveiro sem me preocupar, meu estômago está ótimo. Eu posso dormir tranqüilamente e eu já não sinto cansado”. Então conclui o que meu amigo suspeitava, que o estresse que sentia era de tanto me preocupar com ela, e ser descriminado pelas suas amigas. Isso fazia meu sistema imunológico abaixar de vez.

Depois que eu levei o choque inicial, nunca mais fui abusado por ninguém, parei até de passar mal. Eu me recuperei fisicamente, porém, não tive uma recuperação mental completa.

E agora sofro de extrema insegurança. Já não sou uma pessoa confiante e acho que é porque tem dias em que eu sinto a falta dela e às vezes eu ainda me pergunto se ela era realmente abusiva... Mas na maioria dos dias que acordo, eu me sinto livre. - me sinto livre. Ela pegou uma boa parte de mim. Mais do que eu poderia ter imaginado.

Costumava pensar que eu estava acima do abuso. Eu costumava pensar que: “Moro em Lo-Debar, sou descendente da família Real, filho do príncipe Jônatas e neto do Rei Saul, eu tenho amigos que são celebridades. Apesar de ser aleijado de ambos os pés sou inteligente, poderoso e forte”. E por isso que eu estava acima de qualquer abuso.
“Tinha superado os traumas de infância, tinha superado a minha deficiência física, tinha feito um filho com ela chamado Mica, então eu nunca seria fraco o suficiente para aturar esse tipo de comportamento...” Assim pensava eu.

E pensava errado! Cai nesta situação de cabeça e sofri muita humilhação, abalou-me profundamente. Eu perdi amigos, graus, família e quase a minha vida, tudo por causa desta mulher.

Agora estou em face de reconstrução, minha vida começou a se recompor. Eu perdi muito quando envolvi nesta ilusão. Foi tarde a percepção de que pra sofrer um abuso emocional não era necessário apanhar de alguém, basta apenas dizer palavras de ofensas ou ser abusivas com você.

Estou contando minha história a você, porque eu ouço por ai sobre o aumento das manifestações de bullying e abusos emocionais. Eu, por exemplo, poderia ter sido capaz de evitá-lo sozinho. Mas estou determinado a lutar.

*Toc-Toc* Pensei... “Quem será agora? As amigas dela novamente? Já faz algum tempo que não as vejo.”
Fui abrir a porta (Com anseio de não abri-la, pois os nervos estavam à flor da pele). Para minha surpresa, era Ziba o servo do meu avô que a pedida de Davi veio chamar-me para comer na mesa do Rei...

Quem diria um aleijado, sem esperança, sofredor de abuso emocional sentar-se à mesa do Rei e alimentar do seu banquete todos os dias.
Este é apenas o começo...

Mefibosete (Neto do Rei Saul)
(Uma História de Ficção)  

Referência: 2º Sm: 4.4 (Jônatas, filho de Saul, tinha um filho aleijado dos pés. Ele tinha cinco anos de idade quando chegou a notícia de Jezreel de que Saul e Jônatas haviam morrido. Sua ama o apanhou e fugiu, mas, na pressa, ela o deixou cair, e ele ficou manco. Seu nome era Mefibosete.) 2º Sm 9.1-13 (... Assim, Mefibosete passou a comer à mesa de Davi como se fosse um dos seus filhos. 12 Mefibosete tinha um filho ainda jovem chamado Mica...) 2º Sm 21.7a (O rei poupou Mefibosete, filho de Jônatas e neto de Saul, por causa do juramento feito perante o SENHOR.

Videos que servirá de Inspiração para novos textos


sexta-feira, 13 de maio de 2011

Ressonâncias do “Homo Religiosus”




Mircea Eliade, em seu livro — “O Sagrado e o Profano”, afirma que o “homo sapiens” é antes de tudo “homo religiosus”. Para ele, a religião existe até mesmo para aqueles que dizem não ter religião. Alguns antropólogos torcem o nariz para tal afirmação, uma vez que vêem, em sua concepção, uma sociedade ocidental caminhando para uma total dessacralização.
Segundo Silas Guerreiro, mestre em Antropologia e chefe do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da PUC/SP, Eliade vai mais fundo na sua argumentação: ele diz que, “na modernidade, o sagrado aparece camuflado em movimentos que se dizem laicos ou até anti-religiosos, como algumas organizações ambientalistas”.
Segundo Silas, há autores que vêem na instituição do mercado, um forte componente religioso. O mercado assume o valor de entidade absoluta, invisível, que tudo regula. Os investidores têm fé nessa força, senão ninguém arriscaria seus recursos em algo que o futuro trará benefícios. Os shopping centers — templos do “deus mercado" — vem desempenhando a função outrora atribuída às catedrais. Quase todo mundo a de convir que algumas missas (e cultos) viraram lazer e aeróbica. A propaganda vende não só a mercadoria que anuncia, mas um padrão de vida e, principalmente, um pouco de felicidade. Através do consumo, que assume o feitio de oração, nosso paraíso mítico pode ser alcançado agora, mesmo por instantes. Que o digam os pastores do evangelho da prosperidade
Freud, sempre considerou a religião uma espécie de retrocesso aos tempos da infantilidade humana. Em analogia ao que falou o fundador da psicanálise, eu diria que a religião, antropologicamente falando, é sim, um retorno a vida primitiva do homem, uma vez que a magia foi durante os primórdios a única forma de religião.
Para certos estudiosos do comportamento humano, os líderes das seitas pentecostais, à maneira dos antigos magos e feiticeiros, executam esse tipo de regressão e, designando-se como portadores de poderes sobrenaturais manipulam os doentes como se as suas enfermidades fossem forças espirituais maléficas do ar.
Levi Strauss, em seu livro “O feiticeiro e sua Magia”, afirma que “a base dessas técnicas ritualistas, está na “eficácia simbólica”. Não se trata de debater se os rituais têm realmente algum poder curativo, ou se o mundo dos espíritos de fato existe. Ocorre que os rituais são mesmos poderosos, pois os sujeitos trazem para sua experiência com a doença essas referências simbólicas, e elas interferem no tratamento”.
Para nossa mente centrada na ideologia científica fica difícil aceitar um campo de representação simbólica da doença. Mas não podemos negar que o recurso místico traspassa ainda a sociedade atual. É como aquele doente que sofre de depressão, e diz para seu médico: “estou tomando os comprimidos que o senhor recomendou para dormir melhor, mas me sinto mais dinâmico em minha saúde ao aliar a sua terapia aos meus rituais igrejeiros”.
Os antropólogos, em sua grande maioria, concordam em um ponto: O de que a ideologia científica ainda predominante não reconhece essa realidade oculta, insistindo em considerar como ingenuidade pueril, o complexo imaginário reinante no universo psíquico.
P.S.: Fazendo um retrospecto sobre os posts publicados até agora na C.P.F.G, notei que todos, sem exceção, descambam para o lado da religião. A postagem anterior (Alguns Rabiscos Sobre Vontade e Representação) do confrade Márcio, para mim, tinha tudo para sair do trivial, porém...
Dentro do espírito do texto que postei, quero fazer minha, nesse momento, a interpelação do confrade Bill, em seu primeiro comentário ao ensaio do Márcio:
“Mas por que diabos o assunto desandou pro mito cristão? Não era sobre Schopenhauer?”
Passo a bola para vocês... (rsrs)

Imagem: revistaaquiles.blogspot.com

domingo, 1 de maio de 2011

Alguns rabiscos sobre “vontade e representação”

Por Marcio Alves

A principal teoria “Schopenhaueriana” é de que a essência do mundo, como dos seres em geral, até das coisas inanimadas é irracional, e este irracional ele denomina de vontade.

Tanto é assim que se observarmos o papel do intelecto na natureza e nos animais, chegaremos a conclusão de que é quase nulo, mas isto não ocorre com a vontade, pelo contrário, o que realmente impera na natureza como um todo é justamente a vontade.

O que seria então esta vontade? Em Schopenhauer a vontade é a vontade de querer viver bem, e não somente viver, mas viver ao máximo, com toda intensidade, prazer e qualidade possível.

Se a vontade é a vontade de viver, logo seu maior inimigo é a morte. Sendo assim, uma das maneiras de vencer a morte, segundo Schopenhauer, é através da reprodução da espécie, ou seja, morre sempre o individuo, mas nunca a sua espécie.

É por isso que para Schopenhauer o que existe mesmo na realidade é a espécie que é a “coisa-em-si”, sendo que cada individuo seria apenas o fenômeno.
Na verdade a coisa em si é a forma, e a matéria é o fenômeno. O que esta em constante mudança é o fenômeno, mas já a forma é imutável.
Exemplificando: Mudam-se os seres humanos, que estão em constante transitoriedade da vida, sempre nascem, se desenvolvem e morrem, permanecendo a espécie humana que é a forma.

Por isso que a grande obra e principal tese “Schopenhaueriana” é “O mundo como vontade e representação”, pois para ele, o mundo é vontade e representação e nada mais. A vontade sendo o que ele chama de a “coisa-em-si”, já a representação é construída pelo intelecto, sendo uma interpretação dos fenômenos da coisa-em-si.

Esta é a grande diferença filosófica de Schopenhauer para todos os outros filósofos (com exceção de alguns poucos como Spinoza que já antes de Schopenhauer dizia que “o desejo é a própria essência do homem” (SPINOZA, Ética parte 4) ) que enfatizava o racional como a essência do homem.

Schopenhauer inverte a lógica idealista alemã de que a razão precede o querer, para ele é o querer que precede a razão.
Ele afirma categoricamente que “nós não queremos uma coisa porque encontramos motivos para ela, encontramos motivos para ela porque a queremos, chegamos até a elaborar filosofias e teologias para disfarçar os nossos desejos” (uma fonte de Freud)

Schopenhauer chega a fazer uma ilustração, onde ele diz que “a vontade é o forte homem cego que carrega nos ombros o homem manco que enxerga”, ou seja, o que predomina é a vontade, sendo que a razão seria a parte secundaria que dá nomes, significados e até justificativas para as ações que são totalmente dirigidas e dominadas pela vontade.

Entendo que mesmo quando temos um forte desejo e não o fazemos é por causa de um desejo maior ainda.
Exemplificando: É como um homem que adúltera, onde diz, para justificar os seus atos, que não consegue refrear a sua vontade, mas, se este mesmo homem tivesse uma forca o esperando no final do ato de adultério, com certeza ele conseguiria refrear sua vontade, por causa de uma vontade maior; a de viver e não morrer.

Sendo assim, somos totalmente guiados por nossa vontade, quando não à vontade em si por causa das conseqüências boas, se é pela vontade de não ser prejudicado. Neste sentido a moral, por exemplo, é respeitada pela maioria por causa de seus benefícios como status, respeito e etc, como também pela suas punições.

Ainda neste sentido, eu ariscaria dizer que não existe virtude na virtude própria, ou, melhor dizendo, não existe virtude pura, pois todas as virtudes seriam praticadas apenas e tão-somente pelo interesse de nossa vontade e não contra nossa vontade, ou seja, sempre visando algum ganho ou prevenção de algum castigo, para beneficio próprio.

Entrando (mas já saindo) na questão da religião, todas elas prometem recompensas e punições, manipulando e controlando assim os seus seguidores, pois o ser humano é interesseiro, sempre se perguntando o que vai ganhar e o que vai perder em todas as situações.

É por isso que Schopenhauer já dizia que para convencer um homem não é possível usar apenas lógica, razões e argumentos, e preciso antes apelar para sua vontade, desejo e interesses próprios. (SCHOPENHAUER, pg 126, “Conselhos e Máximas”)

Uma das características fundamentais desta vontade, tanto no homem, como no mundo em sua totalidade é o sofrimento, a dor, pois vontade já pressupõe necessidade, pois como afirma a teoria “Schopenhaueriana” que o desejo é infinito, mas sua realização é muito limitada.

A saída para todo este sofrimento proposta por Schopenhauer é a negação da vontade pela própria vontade, ou seja, nega-se o desejo pelo próprio desejo em si de não mais desejar.

A conclusão que se chega é de que a vida é uma vontade cega de sempre querer viver!

Exemplo: Uma pessoa bem idosa, mesmo em fase de uma doença terminal, luta com toda sua vida, com todas suas forças em busca de viver e não morrer, mesmo quando não existem razões suficientes para isto, aliás, ela pode até achar algumas razões, mas como vimos em Schopenhauer, essas razões ou justificativas são secundarias e subseqüentes ao motor maior que nos impulsiona e guia: VONTADE!

Mesmo quando a pessoa se suicida, ela se suicida porque quer acabar não exatamente com sua vida, mas no fundo, o que ela quer e deseja mesmo é acabar e por fim ao seu sofrimento.

Por isso é que todo suicídio não é contrario a vida em si, mas contra alguma espécie de sofrimento e dor que a pessoa não suporta mais.

O ponto principal que discordo é a cura para o sofrimento proposta por Schopenhauer de anulação da vontade.
Neste ponto, penso como Nietzsche, que a proposta “Schopenhaueriana” é uma proposta ou atitude covarde diante da vida.

A saída não é a negação da vontade, mas justamente o contrário, a aceitação da vida como ela é, com toda sua dor e prazer, sofrimento e realização, pois é disto que ela é feita.

Se a vida é constituída pela vontade, logo ao negarmos a vontade estamos conseqüentemente negando o que temos de mais precioso: a vida!



Por: Marcio Alves

Observação: Este texto é apenas uma síntese da síntese feita por mim sobre um trabalho da faculdade onde eu abordei as principais teorias “Schopenhaueriana”.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...