quinta-feira, 29 de março de 2012

Ademilde Fonseca - Tico-tico no fubá (1942)































Esse mês de março está de lascar!! 

De lascar com a cultura popular brasileira. Primeiro o Chico, depois Ademilde e agora, Millôr!! Céus, onde vamos parar? 
Como é triste perder três grandes talentos assim, um atrás do outro.


De Ademilde minha mãe falava com orgulho: "Ela é do Rio Grande do Norte" (ela mesma, uma natalense orgulhosa). Ela costumava cantar para eu ouvir "Tico-tico no fubá", música de Carmem Miranda e grande sucesso de Ademilde. E eu, garoto, reclamava: "Canta mais devagar, mãe, não estou entendendo nada..." 


Saudades  de Ademilde. Não foi da minha "época" como gostamos de dizer, mas eu tenho o péssimo hábito de admirar cantores que não foram da minha época. Saudades também da minha mãe, que apesar de viva e com boa saúde, mora hoje quase que completamente num mundo só seu.








O Diário do Nordeste publicou uma síntese da sua carreira:


Em 1941, foi para o Rio. Na cidade, receberia de Benedito Lacerda o título de rainha. Em 1942, gravou o primeiro dos mais de 50 discos (a maior parte, 78 rotações; nos anos 40, 50 e 60, por vezes lançou mais de um por ano). Os maiores sucessos seriam "Tico-Tico no Fubá" - o primeiro de todos -, "Brasileirinho", "O Que Vier Eu Traço" e "Apanhei-te Cavaquinho". Apresentou-se com Canhoto, Jacob do Bandolim e Pixinguinha e com a orquestra de Radamés Gnattali. Também gravou maxixes, marchas e sambas. Excursionou pelo País e pela Europa.


Tico-tico No Fubá
Carmen Miranda


Tico-tico
Tico-tico
O tico-tico tá
Tá outra vez aqui
O tico-tico tá comendo meu fubá
O tico-tico tem, tem que se alimentar
Que vá comer umas minhocas no pomar

Tico-tico
O tico-tico tá
Tá outra vez aqui
O tico-tico tá comendo meu fubá
O tico-tico tem, tem que se alimentar
Que vá comer umas minhocas no pomar

Ó por favor, tire esse bicho do celeiro
Porque ele acaba comendo o fubá inteiro
Tira esse tico de cá, de cima do meu fubá
Tem tanta coisa que ele pode pinicar
Eu já fiz tudo para ver se conseguia
Botei alpiste para ver se ele comia
Botei um galo, um espantalho e alçapão
Mas ele acha que fubá é que é boa alimentação

O tico-tico tá
Tá outra vez aqui
O tico-tico tá comendo meu fubá
O tico-tico tem, tem que se alimentar
Que vá comer é mais minhoca e não fubá

Tico-tico
O tico-tico tá
Tá outra vez aqui
O tico-tico tá comendo meu fubá
O tico-tico tem, tem que se alimentar
 Que vá comer é mais minhoca e não fubá

sábado, 17 de março de 2012

Compra premiada, ou conto do paco?




Religiosidade, crenças, adoração a deuses ou qualquer outro tipo de fobia inserida na mente de crianças é de uma violência ímpar e o ato me causa ojeriza.
No entanto por ser uma vítima consciente das seqüelas causadas pelo cristianismo em minha família, sempre abordo o assunto com indignação. Causas ancestrais é o motivo desta indignação. As principais: Um Bisavô, uma Avó e um primo distante.
O primeiro; meu bisavô materno que foi um apaixonado pastor e fundador da 1ª Igreja Batista de Vitória da Conquista (BA), onde a família era radicada. Regia sua vida baseada nos preceitos, nos ensinamentos e no amor a seu Deus. Foi um fiel seguidor de seu Deus e a ele dedicou sua vida. Não era um aproveitador.
Sem delongas... Morreu na meia idade, louco, pobre e enjaulado numa suja gaiola que não serviria para seu chiqueiro em tempos áureos. Mas não perdeu a fé mesmo tendo a doença e a pobreza como prêmios. Seguiu o exemplo de Jó. E daí?...
A  segunda foi minha avó. Era proprietária de hotel, tinha fazenda e era matriarca de uma família numerosa com cinco filhos e vinte  netos. Crente fervorosa e sustentáculo da 1ª Igreja Batista de Montanha (ES). Mantinha uma escola de ensino fundamental dentro da congregação com a intenção de ajudar aos membros desfavorecidos. Pastores, palestrantes e conferencistas hospedavam em seu hotel como brinde à igreja.
Nada fazia sem a permissão de Deus através de muita oração e um dízimo de 10% de sua renda.  Com a anuência de seu Deus, casou a filha caçula com um bêbado iniciando sua ruína familiar pelo desgosto. Passou a velhice roendo beira de penico morrendo em extrema pobreza sem acusar seu Deus pelo infortúnio nem se afastar de sua bíblia. Eu não entendi este prêmio.
O terceiro, um primo distante, também fervoroso cristão da seita Batista, era fazendeiro, dono de laticínio, avião e muitos bens. Construiu a 1ª Igreja Batista na Praça da República em Belém do Pará. Amava seu Deus sobre todas as coisas e tinha convicção da sua fé. Também recebeu como prêmio, na velhice, a doença e a pobreza. Não existe castigo pior que a desventura para quem um dia foi feliz.
Será este o prêmio oferecido pelo Deus de Abraão aos que dedicam sua vida para engrandecer e louvar seu nome?
Não, ele não promete nada, ele não premia ninguém, ele não castiga ninguém, ele não adoece e tampouco cura ninguém, ele não traz bonança nem infortúnio a ninguém. Deus é um personagem psíquico alegórico criado pelo nosso inconsciente coletivo para preencher uma lacuna onde necessitava liderança e comando. Nós, por falta de paternidade, o escolhemos e lhe imputamos poderes, bênçãos e castigos. Por isso cada  sociedade tem seu Deus para adorar, reclamar, pedir e imputar infortúnios.
Mas há aqueles que não se enganam e são chamados ateus. Nesta mesma família existiram alguns que não professavam a mesma fé, como meu pai. Nunca foi em igrejas, não dava esmolas, não sabia rezar nem xingava a Deus. Foi bom marido, bom pai, foi respeitado em sua sociedade. Tinha personalidade forte e caráter ilibado transferindo suas virtudes à sua prole da qual se orgulhava. Morreu aos 92 anos sem que a miséria  nem o infortúnio batesse à sua porta. Para o meu avô, a morte não foi um dissabor. Ele se preparou para recebê-la e morreu com a sensação de dever cumprido. Foi amado por familiares e conhecidos e era chamado de vovô por quem teve o prazer de lhe ser apresentado. Ficou conhecido e respeitado pelo “ser”, e não pelo ter. Sabia rezar, dava esmolas, dividia o que tinha mas não freqüentava igreja. Morreu por falência múltipla de órgãos.
Tenho 62 anos de idade sou hiper tenso, tenho cálculo renal e sou propenso a engordar. Não dou esmolas, não rezo, só sigo um mandamento (não fazer aos outros o que não desejo para mim), odeio a pobreza e não sou batizado nem almejo ser cristão. Se eu morrer amanhã, não foi castigo de Deus  fui vítima de minha própria imbecilidade.
Tenho consciência que não posso culpar Deus pelo infortúnio de alguns familiares nem agradecê-lo pela felicidade de outros. Ele não existe para uns, assim como não existe para  outros. Deus não presenteia carro para uns e miséria para outros.
“Quem dá o pão, não dá o castigo”. Quem dá o pão, ensina. E quem não dá o pão nem ensina não tem o direito de castigar.   ”A nossa mente tem poderes  até para criar deuses  para louvar”.

sábado, 3 de março de 2012

A semente de Noé e a semente de Caín








“E há quem procura virtudes na raça humana sendo que seu próprio criador se arrependeu do feito” (Altamirando Macedo)





Pegando ainda esse fiapo das discussões do texto anterior, quero destacar essa frase do Altamirando. Nas narrativas do Gênesis, de fato, Javé arrepende-se de ter feito o homem. Assim traduz o texto a Torá da Editora Sêfer:


“E o Eterno viu que era grande a maldade do homem na terra, e que todo impulso dos pensamentos do seu coração era exclusivamente mau todo dia. E arrependeu-se o Eterno de ter feito o homem na terra, e pesou-lhe em seu coração. E disse o Eterno: ‘ Farei desaparecer o homem que criei de sobre a face da terra(...)


Esse texto da Torá nos mostra uma reflexão bem pessimista do autor em relação ao gênero humano. O mau e não o bem é o que  impulsiona o homem; o vício e não a virtude é o que lhe faz companhia;  O ódio e não o amor é o que ele expressa em suas relações com o outro. Chega a ser comovente  a construção poética do autor ao dizer que o Eterno ficou com um “peso no coração” ao ver sua obra-prima corrompida.  Não valeria mais a pena continuar com seu projeto. A criação de um ser livre que não fosse condicionado a fazer sempre a sua boa e perfeita vontade só poderia mesmo descambar para a ruína moral. 

O Eterno, nessa ocasião, concordaria plenamente com a observação do nosso confrade Márcio Alves que disse 


“(...)Dose alta de pessimismo meu? Com certeza...sou totalmente pessimista em relação ao ser humano(...)


Tanto o Eterno concordaria com essa afirmativa que ele resolve se desfazer de sua criação: Iria matar a espécie humana, já que melhor seria não haver humanos para contaminar ainda mais a terra com suas inclinações pervertidas.  Sem dúvida, o autor do texto da Torá, concordaria com Márcio e com Altamirando.


Mas aí, num último anelo de esperança, numa última possibilidade de preservação de sua obra, o Eterno acha graça em Noé...Em meio ao mar de maldade,  o Eterno achou um homem “Justo, perfeito nas suas gerações” . Por um justo, o gênero humano não seria apagado da existência.  Vejo nesse personagem, incluído  habilmente  na trama pelo autor da narrativa, um  sinal de que a humanidade, apesar de sua corrupção geral, tem em si mesma a potencialidade de fazer o bem e o que é justo. Noé ficou como um espelho, um paradigma de que a humanidade não  é uma “paixão inútil” mas que tem em si, o potencial de ir além de si e guiar-se por um sentido elevado de vida.


Sem dúvida, agora,  o autor bíblico concordaria com nosso confrade Levi que escreveu que


“acho que o sonho, a utopia, não podem ser expulsos  do ser humano, assim, sem mais nem menos. Apesar de todo mal estar da civilização, ainda penso que podemos ser capazes de obter uma vida mais digna e mais justa, entendendo que a tendência autodestrutiva dos apocalipses nossos de cada dia pode ser arrefecida. Quanto mais conscientes de nossa condição de seres paradoxais, formos, mais aptos seremos para suportar uns aos outros. Poetizando: somos adestrados para o convívio real ou virtual, visando o estabelecimento de ligações afetivas mais estáveis e equilibradas, sem o maniqueísmo do proselitismo que faz do outro um objeto.”


Sabemos porém  que na narrativa bíblica o nobre e justo Noé não foi capaz de gerar filhos à sua imagem e semelhança, já que os homens  outra vez voltaram à mesma corrupção de antes. Parafraseando o poeta,


“E agora Javé”?


A única saída para o Criador, que prometera não mais destruir a humanidade, foi aceitar seus filhos como eles eram: caídos, maus, corruptos, mas com a semente do justo Noé adormecida em seu ser, que com certeza, poderia ser despertada  ao longo da sua evolução; Javé espera, pacientemente, que seus filhos de fato, cheguem a ser  imagem e semelhança dele; conhecedores do bem e do mal mas que escolhem por livre iniciativa, o bem.



Eduardo Medeiros, 3 de março de 2012.
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