segunda-feira, 30 de abril de 2012

O ateísmo nunca irá conseguir acabar com a religião!





Por Marcio Alves

Meus caros amigos “ateus-atoa”, “ateus-militantes”, “ateus-perdidos “, “ateus-agnósticos” e até “ateus-enrustidos” – o que tem de gente que no fundo é ateu, mas não sai do armário, não é brincadeira não! Sem contar os que são, mas não sabe ainda que são, ou não querem reconhecer isto –  vocês devem encarar a dura e “triste” (para os ateus) realidade de que a religião nunca irá acabar. (Porque será que a grande maioria dos ateus deseja ardentemente que os religiosos se tornem também ateus? Será que Freud explica? Risos)

Levanto, a partir de agora, nove (9) razões porque a religião nunca vai acabar:

1-Ela é a maior utopia das utopias
Promove uma visão futurista de esperança, gloria e otimismo, atribuindo ao “todo-poderoso” – aquele que nunca pode ser frustrado em seus planos – o poder de concretizar aquilo que seria impossível aos homens.
(Deus na visão do religioso é como o diretor que espera o momento certo, para intervir no filme que esta desenrolando, para por um ponto final, independente da atuação dos atores)

2-O religioso não corre o risco de um dia descobrir que sua crença não é real
Quando se aposta, geralmente se espera e se tem o resultado, seja o desejado ou não, mas no caso da religião é uma aposta que o religioso nunca descobrirá que era de fato um engano, pois se quando a pessoa morre se segue logo o nada da existência, o crente não terá do que se arrepender depois da morte. (famosa aposta do filosofo Pascal)

3-Ela torna a pessoa especial
Na visão religiosa o homem é a imagem de Deus, possui uma alma, e é alvo do cuidado de Deus, seja para ser abençoado por ele ou muitas vezes castigado como forma de repreensão.
Tire a concepção espiritual do homem, e ele se torna um mero animal sem alma que apenas racionaliza, mas que compartilha da mesma origem e o mesmo fim do animal.

4-Ela oferece respostas para a existência humana
Ela diz da onde você veio, porque você esta aqui e para onde você irá. Ou seja, ela enche o ser humano de propósito e significado. Pode até se argumenta que é falsa, que é inventada, que é ilusória, que é enganosa, mas no fundo, o que importa para o ser humano, que em geral prefere uma verdade inventada e cômoda, do que a angustiante duvida da não resposta, é a resposta em si.

5-Ela alivia a dor humana
Pois promete um paraíso eterno sem dor e sofrimento, ou seja, neste mundo você pode não ter nada, sofrer, ser injustiçado, mas lá no outro mundo, Deus irá reparar os seus danos sofridos.
Imagina uma pessoa que perdeu pessoas as quais ama, ela, se for religiosa, irá se consolar com a promessa da eternidade, onde poderá encontrar os seus parentes e amigos – mas desde que seja também da mesma religião, porque se não, se for um crente, por exemplo, irá ficar profundamente triste por crer que a pessoa a qual mais amou, mas que não era de sua religião foi parar no inferno por toda eternidade.

6-Porque os religiosos acreditam porque querem acreditar
Hoje, (sempre?) mais do que nunca, a grande busca do ser humano é pela tão sonhada e ilusória felicidade, tanto é que criamos varias ilusões, conscientes ou não, para tornar nosso mundo frio e cinzento, um pouco colorido e quente.
Portanto, a grande pergunta que a maior parte dos seres humanos fazem a si mesmo é: “isto vai trazer alegria, felicidade e/ou prazer para minha vida?” e não se é verdade ou real na existência, até porque, se ela verdadeiramente experimenta, para ela isto já se constitui uma verdade em si.
Sendo assim, os religiosos acreditam porque querem e desejam ardentemente acreditarem que é real sua experiência religiosa, e, contra isto, não há argumentos racionais que venham dissuadi-las desta vontade.

7-Porque ela é um sistema muito bem estruturado e organizado
Alguns ateus no afã de quererem “converter” (ou “desconverter”) os religiosos para sua “corrente de pensamento ateia”, distorcem os argumentos religiosos, por pura esperteza ou ignorância mesmo, limitando as mesmas em reducionismo classificatório e taxativo de somente “pura fé”, dizendo que os religiosos não utilizam à lógica e nem a razão.
Mas estão equivocados, porque toda religião possui em si mesma, isto é, em seus sistemas, lógica e razão interna, sendo coerente dentro da lógica proposta por cada religião.
Ou seja, quando um sujeito vai para alguma religião, ele não vai encontrar uma bagunça generalizada, onde cada adepto pensa ou diz de um jeito, mas sim, uma organização com sistema, doutrina, culto, hierarquia, e até uma concepção de deus própria.

8-Ela trabalha em cima do egoísmo e interesse humano
A religião, mais do que qualquer outra coisa, promove o interesse e egoísmo do ser humano, pois é um sistema de recompensa e punição que estão ligado e determinado pelos atos individuais de cada um – a famosa fala de Paulo “cada um dará conta de si mesma a Deus”.
Céu e bênçãos materiais, no caso do cristianismo, para quem for obediente, e, inferno e castigo para os desobedientes.
Ou seja, ela reforça e mantém ao mesmo tempo, o sujeito dentro do processo religioso, seja por medo da punição, ou interesse de ganhar recompensa.

9- A última e mais obvia das conclusões
Vou terminar esta postagem no nono ponto, sabendo que existem mais razões do porque “O ateísmo nunca irá conseguir acabar com a religião!” com a principal e mais simples conclusão:
Não é possível datar e nem dizer como a religião se iniciou de fato, apenas se especula, mas o que interessa mesmo é que nunca existiu (pelo menos nunca se descobriu) e não existe nenhuma sociedade sem religião, isto em milhares de anos, como os ateus pensam que agora vão conseguir acabar com a religião, e isto no mundo inteiro? (Desse jeito meus caros amigos ateus, vocês vão acabar sendo taxados de pessoas com muita mais fé do que os próprios religiosos, ou de serem pessoas ingênuas. Risos).


Texto originalmente publicado no blog http://omundodaanja.blogspot.com.br/2012/04/o-ateismo-nunca-ira-conseguir-acabar.html onde eu sou um dos colaboradores.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Refletindo sobre o futuro da 7ª geração após a Independência

Segundo Heráclito, o período de uma geração, "o espaço de tempo no qual o pai vê o seu filho tornando-se pessoa capaz de engendrar", seria de 30 (trinta) anos. Já a Bíblia prevê 40 (quarenta) anos como correspondendo à duração de uma geração. E, atualmente, no entender de alguns, a cronologia que separa cada o grau de filiação já teria caído para 25 (vinte e cinco) anos.

Todavia, considero mais adequada a versão do citado filósofo pré-socrático, tido também como o "pai da dialética", já que um século acaba contendo mesmo três gerações, pelo que se consolidou o seu pensamento muito bem lembrado pelo gramático romano Censorinus:


“Um século é a maior duração da vida humana, que é limitada pelo nascimento e pela morte. Aqueles, por consequência, que reduziram o século a um espaço de trinta anos, cometeram manifestamente um grande erro. É Heráclito que chama este lapso de tempo de ‘geração’, já que ele envolve uma revolução da idade do homem; e ele chama de revolução da idade do homem todo o período durante o qual a natureza humana faz o retorno do semeado à semeadura”

Aplicando estes conceitos à idade do jovem país Brasil, nascido não em 1500, mas sim com sua emancipação política (07/09/1822), fico a indagar a respeito da nossa evolução coletiva no decorrer das seis gerações de lá para cá.

Não é fácil abandonarmos de uma vez por todas a mentalidade de um povo colonizado para enxergarmos a nós mesmos como nação livre com grande potencial de se desenvolver. O melhor testemunho disso foi que, segundo a Bíblia, Moisés precisou que praticamente toda aquela geração que saiu do Egito, no êxodo, fosse substituída por uma nova criada ali no deserto do Sinai e sem mais a mentalidade de escravos.

Diferente da história bíblica do povo de Israel, nós brasileiros passamos por um processo tranquilo de independência formal e fomos conduzidos pela família real portuguesa durante quase setenta anos até à proclamação da República, quando ainda estávamos no começo da terceira geração "livre".

No entanto, o golpe militar que impôs a forma republicana de governo não foi capaz de formar uma geração com um alma verdadeiramente emancipada. Continuamos submissos aos interesses estrangeiros por décadas, deixando que os "coronéis" mandassem nos rumos da política nacional. E, se conseguimos nos industrializar no século XX, foi pura sorte por causa da primeira guerra mundial e da revolução de 1930 (período da quarta geração). Isto porque as fábricas europeias não puderam mais atender ao nosso mercado e, por necessidade, o Brasil teve que ter sua própria produção. Além disto, a quebra da Bolsa de Nova Iorque foi ótima para diminuir o poder das medíocres oligarquias rurais.

Depois de terem suicidado Getúlio Vargas, a nossa autonomia econômica não durou muito. Tão logo os interesses das multinacionais articularam-se com os das elites brasileiras e, deste modo, tivemos o desenvolvimento do país freado na segunda metade do século passado. Por mais que a quinta geração (1942-1972) tivesse lutado pelas liberdades políticas, predominou o "cale-se" ditado pelos generais da terceira e quarta gerações, conforme bem compôs o Chico Buarque nas suas inteligentíssima letras.

Pode-se afirmar que o pior momento da história recente do nosso país teria sido a época dos militares. Foi nesta época que o nosso povo sofreu um danoso impacto em sua formação cultural por causa do sistema repressivo que foi montado. Se a escola já não poderia mais ensinar o aluno a pensar, criou-se uma geração bem propícia para a manipulação feita pela mídia, com um gosto alienígena de coca-cola.

Apesar da brilhante música cantada pelo grupo Legião Urbana, os "filhos da revolução" e "burgueses sem religião" não derrubaram reis. A grande maioria foi intoxicada pelo lixo enlatado que lhes fora empurrado. E, passada a ditadura, o povo brasileiro elegeu Collor de Mello, sendo que os heróis da resistência também se corromperam e falharam quando chegaram ao poder.


Pois bem. Daqui a uma década, o Brasil estará completando seus 200 anos de independência. Será governado pela sexta geração (a minha) e estará criando uma sétima nascida a partir de 2002. Estas moças e rapazes, filhos século XXI, já não trarão mais as marcas da ditadura militar em suas mentes. Só que há algo bem preocupante nisso tudo. É que está faltando a verdadeira educação.

O que é educar? Seria somente oferecer escolas para adolescentes e crianças afim de lhes transmitir um conteúdo programático desenvolvido pelo MEC?

Tenho pra mim que educar é algo muito maior do que isto, pois requer o investimento dos pais, da sociedade e do governo na formação de uma pessoa. Algo que não está ocorrendo nem nas instituições de ensino e muito menos nas famílias. E aí lamento muito em ver esta garotada solta, alimentando-se das informações expostas na mídia e na internet, sendo aprovada nos períodos letivos sem ao menos terem realmente aprendido. Uma maquiagem só para que o Brasil melhore a sua imagem no exterior.

Creio que o nosso país precisa muito mais do que aumentar os investimentos estatais na educação. Precisamos de um trabalho sério nesta área já que, atualmente, as mulheres trabalham fora e não podem mais colaborar tanto na educação das crianças como foi nos tempos de nossas avós. Devido a isso, o ensino em horário integral (manhã e tarde) faz-se necessário assim como a ministração de aulas sobre Cidadania, Ecologia, Sexualidade, Controle de Emoções, e Ética, as quais não podem continuar dependendo da transversalidade nas disciplinas de História e de Geografia.

Só ensino em horário integral, com professores entusiasmados e bem remunerados, é que poderá contribuir para a educação dessas nossas crianças. Por isso, uma pessoa precisaria também de uma formação mais sólida para então dar aulas, o que envolveria um comprometimento maior com a profissão.

E aí? O que nós, homens e mulheres adultos, faremos?

A pena da História está hoje em nossas mãos!

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Escravos da Pós-Modernidade




 Por  Levi B. Santos


Desde que o mundo é mundo se apregoa que a justiça, a educação e a Ciência um dia triunfarão e o homem deixará de ser escravo do próprio homem. O que mais se fala hoje é: “estamos cada vez mais progredindo, o avanço da Tecnologia está aí para não nos libertar do atraso. Acreditamos que aos poucos estamos conseguindo a tão sonhada liberdade que nossos pais não tiveram”.

Mas será que não estamos hoje tanto ou mais escravizados quanto foram os nossos ancestrais?

Até que ponto nos libertamos dessa herança?

O lema idealista do nosso mártir, Tiradentes“Liberdade ainda que tardia” ― ainda ressoa em nossos ouvidos, fazendo vibrar as cordas enferrujadas dos nossos corações. O vazio existencial impulsiona-nos ainda a sonhar com um utópico paraíso de paz.

Era o medo de morrer que fazia com que os escravos fossem submissos aos seus Senhores. O espectro do medo com sua sombra forte e lúgubre, como nos primórdios, sufoca o nosso desejo de liberdade.

Hegel, em sua Fenomenologia do Espírito, fez um pequeno e emblemático intróito sobre a dialética ― “O Senhor e o Escravo”:

“Dois homens lutam entre si. Um deles é pleno de coragem. Aceita arriscar a sua vida no combate, mostrando assim que é um homem livre, superior à sua vida. O outro que não ousa arriscar a sua vida, é vencido. O vencedor não mata o vencido, ao contrário, conserva-o cuidadosamente como testemunha e espelho de sua vitória. Tal é o escravo “servus”, aquele que ao pé da letra foi conservado.”

Como toda moeda tem o seu lado avesso ou oposto, passemos a exibir a outra face da teoria de Hegel: “O Senhor só é senhor em função da existência do escravo. O Senhor depende da consciência do escravo para ser reconhecido como tal”.

O Historiador Inglês, Theodore Zeldin, em “Uma História Íntima da Humanidade”, tece algumas considerações sobre o paradoxo “liberdade-escravidão”, mostrando que as pessoas crescem “fatigadas de obediência”, da mesma forma que evoluem “cansadas de liberdade”.

Alguns escravos lograram assegurar sua autonomia mesmo sendo forçados a um trabalho desprezível, fingindo aceitar as humilhações, representando um papel de forma que o Senhor vivesse na ilusão de que detinha o comando, em consonância com o provérbio favorito do escravo jamaicano, que diz: “Passe por tolo para obter vantagem”.

O proprietário Romano de escravos, PlínioO Velho (77 d.C.), no intuito de demonstrar que ele era também um escravo, assim escreveu: “Usamos os pés de outra pessoa quando saímos, usamos os olhos de outra pessoa para reconhecer as coisas, usamos a memória de outra pessoa para saudar as pessoas, usamos a ajuda de alguém para permanecer vivos. As únicas coisas que guardamos para nós mesmos são os prazeres.”

Mas o sonho da sociedade utilitária pós-moderna ainda continua sendo, como nos primórdios, o de viver como um Senhor. Não sabem esses candidatos a senhores que ao tentarem abandonar as vestimentas de escravos, estarão se tornando dependentes de outros tipos de Senhores: os robôs da tecnologia niilista, a ciência agressiva, poderosa e insensibilizadora de nossos afetos.

Zigmunt Bauman, sobre a “pós modernidade líquida”, disse: “o homem pós-moderno faz tudo em nome da segurança. Ele quer ser livre e junto com este desejo vem a insegurança que o leva ao pânico”.

Concluindo: a escravidão nunca será abolida do mundo. No máximo ela será trocada por novas formas de escravização. Lutar para ser livre já se tornou cansativo e doloroso demais.

Tinha razão Theodore Zeldin, quando assim escreveu: “Cada geração procura somente o que pensa lhe faltar e reconhece apenas o que já conhece. No entanto, a despeito dos novos anseios de liberdade, muito do que as pessoas fazem ainda é governado pelos velhos modos de pensar”.

Já que estamos a falar sobre “Senhores e Escravos”, não poderia deixar de abordar um tipo de escravismo que campeia na pós-modernidade, e vem tomando conta de nós, de uma forma sutil e poderosa. Na maior parte do nosso tempo, navegamos muito mais pelo oceano da internet ou em redes virtuais, do que em conversa com os familiares que estão, em corpos, mais próximos, nos nossos lares. Dependentes do “Senhor” ― “Mundo Cibernético” ― progredimos e ao mesmo tempo retornamos a viver como os escravos de antigamente que não tinham família e não deviam lealdade a ninguém, salvo ao seu Senhor.

A evolução tecnológica que nos tirou das matas, é a mesma que nos aprisiona nas selvas de pedras e de silício. Boa parte das doenças que assolaram a humanidade de outrora, hoje, são facilmente debeladas; em contrapartida não conseguimos fugir do trabalho desvairado, do esgotamento nervoso, da depressão e do estresse. Levados por uma correnteza implacável continuamos escravos de nós mesmos.


Site da Imagem: capacitorfantastico.blogspot.com

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Tomado pela Razão

Por Edson Moura


Quando cheguei em casa, sentei-me numa cadeira ao lado da cama. Sentia-me superior a todos os outros mortais, como se de repente, tivesse alcançado de mim mesmo a indulgência por já não ter dezoito anos de idade. Como se a juventude, de supetão, já não tivesse valor. “Meus filhos dependem de mim, dependem de minha existência!”, pensei com uma vaidade que amargava em minha boca. 

Num momento de introspecção, vi e revi passagens de minha longa vida. Repeti para mim mesmo: “Dependem de mim!”. Senti-me sólido, como uma rocha de milhões de anos que sobrevivera até a ação dos mais impetuosos ventos. Achei-me até mesmo um pouco pesado. Depois, por instantes que pareceram uma eternidade, contemplei as paisagens que emergiam de meu subconsciente.

Era como se flutuasse, cheio de gritos mudos e de esperanças sem perspectivas, de brilhos sombrios, de figuras e de perfumes mortos, flutuava à margem do mundo, entre parênteses, inesquecível e definitivo, mais indestrutível do que um mineral, e nada, nada mesmo me podia impedir de ter sido algo ou alguém. Estava sofrendo uma metamorfose, talvez a última. Meu futuro coagulava como o sangue de um animal morto na estrada. Uma vida (pensei) é feita de um futuro projetado, como os corpos são feitos de os átomos e como a alma é cheia de um vácuo. Baixei um pouco a cabeça. Pensava na própria vida.

O futuro penetrara-me até à medula. Tudo em mim estava em suspenso. Os dias mais recuados da minha infância, o dia em que disse ser ateu, o dia em que disse: “Serei importante”, apareciam-me agora, como um futuro particular, como um minúsculo céu pessoal e bem desenhado em cima de mim, e esse futuro era eu, eu tal qual sou agora, cansado e amadurecido, talvez até um pouco apodrecido. 

Esses pensamentos tinham poder sobre mim agora, sem poder escolher em que pensar ou do que lembrar, minha mente castigava-me com remorsos esmagadores porque o meu presente, cético e negligente era agora o meu velho e aniquilado futuro dos tempos de meu passado. Era por esse futuro que eu tinha esperado mais de vinte anos? Era desse homem cansado, que uma criança dura exigira a realização de suas esperanças? Dependia desse coitado atual que os juramentos infantis permanecessem infantis para sempre? Ou seria este o sinal de que um destino de fato existe e não há nada que possamos fazer para fugir das engrenagens do tempo?

Meu passado sofria açoites sem trégua. Constantes retoques do presente. Cada dia vivido destruía um pouco mais os velhos sonhos de grandeza, e cada novo dia tinha novo futuro. As coisas não paravam de mudar, numa constante tão severa que dava calafrios olhar muito adiante, e ânsia ao tentar olhar para tudo. Com esse frenesi em minha mente, via tudo ao tempo em que não enxergava nada. De cena em cena, de imagem em imagem, de futuro em futuro minha vida deslizava rapidamente diante de meus olhos entreabertos, em direção a lugar nenhum. Olhando em direção ao nada. Pensei em Eunice. Estava jovem ainda, e a vida dela, como a minha, não fora senão uma espera. Existiu com certeza, num outono do passado, uma menina de cabelos ruivos, que jurara amar-me.

Ainda ontem, obscuro e vacilante, eu esperava encontrar o sentido do futuro, ainda ontem ela esperava viver comigo e ser amada um dia após o outro. Os momentos mais cheios, mais pesados, as noites de amor que lhe tinham parecido mais eternas, não passavam de esperas. Não havia tido que esperar. A morte desabaria sobre todas essas esperas algum dia, parando-as, aniquilando-as totalmente, se é que se pode aniquilar pela metade. Elas continuavam imóveis, mudas, sem objetivo, absurdas. Não tinha havido nada que esperar. Nunca ninguém saberia se eu teria afinal sido amada por Eunice. A pergunta não fazia sentido para mim agora. 

Eu estou morrendo, não há mais um gesto a fazer, nem uma carícia, nem uma prece, e prece não farei mesmo! Já nada há senão esperas de esperas, nada mais senão uma vida vazia, de cores confusas, e que se abatia sobre mim. “Se eu morresse hoje (pensei) ninguém saberia se estava realmente confuso ou se tinha ainda possibilidade de me salvar de mim mesmo”. Não saberiam se eu me sentia grande ou amado. Não saberiam absolutamente nada de mim, não deste Edson que sou agora. Não neste momento. Eles falariam de outro Edson, o Edson que muitos acreditam que conhecem.

De volta ao meu quarto, regressando de uma viagem estática, olhei novamente para a arma em minha mão. Que covarde que sou (pensei). Mesmo aniquilado pelo tempo, velho, pobre, fracassado e cansado, mesmo assim eu não ouso levar a cabo minha vontade. Pela centésima vez em cem dias eu desisto de morrer. Mas deve ser assim mesmo. Sou racional, sou um animal consciente, e é isso que a consciência faz do homem... Um covarde. Um covarde de 70 anos.

Edson Moura

domingo, 8 de abril de 2012

Essa minha intolerância




O 'não-crer-em-nada' a cada dia se torna uma religião tão ou mais chata que as religiões todas juntas.

A explosão do cosmos em micropartículas geradoras de amebas que por sua vez gerarão seres bípedes me causa o mesmo momento de reflexão sobre os rumos da alegoria da criação em 7 dias.

O que está errado? Ou melhor, há alguma coisa certa, nesse amontoado de ideias que cada um, a seu jeito 'inventa', baseado ou nao em subjetividades, e que possui uma lógica; mas o que é mesmo a lógica?

Eu penso na fé... Que pode ser numa pedra, no cosmos vazio ou mesmo num deus que criou todas a coisas...Sem fé não se acorda, não passa o dia, nem mesmo pisca os olhos diante de sua incredulidade...

E o que é a fé?

É crer no invisível, no seu taco ou em coisa nenhuma?


Um homem caminha só, com sua solidão, e em milhões de anos ele questiona pra que serve todo dias acordar e caminhar assim ao lado dela, que mesmo tendo outros iguais aos redor, não a diminui, só atenua...Em direção ao nada caminha...mas pra que mesmo nasceu?


Vejo tudo como  um grande ressentimento; essa coisa de forçar-se a acreditar, mesmo no nada. Ver tantos tentando convencer qual sua verdade, qual o caminho menos tortuoso, qual sua pergunta que ainda não tem resposta.

Se 'nada' existe, pra que se pensar no nada?


Um homem sem perguntas é um homem morto.

domingo, 1 de abril de 2012

Afinal, porque somos todos assim?


Por: Marcio Alves

Será mesmo que agimos só pela vontade e/ou razão? (“fiz porque gosto ou porque quero”) Quando uma pessoa diz que gosta mais de um tipo de comida do que de outra, de um lugar do que de outro, ou de uma pessoa mais, ou menos, que de outra, ou qualquer outra coisa é “porque gosta” e ponto final? E no caso de ter aversão, de não fazer ou ter determinado comportamento, é porque simplesmente decidiu?

O que esta realmente por trás de todo comportamento humano? Será que somos livres para fazer/ter o comportamento que desejarmos?

Primeiramente, antes de respondermos estas perguntas e todas as outras que derivam delas, temos que buscar compreender o que é o comportamento propriamente dito, aqui nesta postagem.

Segundo a visão da analise experimental do comportamento, “a relação entre atividades do organismo com os eventos ambientais, são chamadas de comportamento” (Skinner).

Portanto, todo comportamento é invariavelmente uma determinada resposta a posteriori a um determinado estimulo ambiental a priori, podendo ser reforçado, positiva ou negativamente, pelas conseqüências do decorrer de um comportamento, que possibilitará sua ocorrência (ou não) futura.

Trocando em miúdos, não há ninguém que nasça com a “síndrome de Gabriela” – eu nasci assim, sou assim e vou morrer assim – pois nosso comportamento é mutável, e, está constantemente transformando o mundo a nossa volta, como sendo transformado pela transformação do nosso comportamento, numa interação viva de organismo com o ambiente, a onde o sujeito não é um ser passivo e a parte de sua transformação, mas participante e ativo na construção de sua realidade, ainda que “inconscientemente” ou “desconhecidamente”.

O que significa dizer, que podemos tanto reforçar um comportamento, para que ele em situações semelhantes, vivenciando estímulos semelhantes, tenha respostas generalizadas, como também, extinguir comportamentos, fazendo com que as respostas venham diminuir futuramente.

Por isto é que o comportamento humano é condicionado por n fatores e estímulos sociais, psicológicos e fisiológicos, onde devemos descobrir o que esta reforçando a ocorrência de um determinado comportamento, para que assim possamos trabalhar em nós, a mudança, caso necessário, do comportamento, chegando assim num processo de extinção da resposta, começando com a diminuição até o cessar da resposta.

Agora, respondendo a pergunta que fizemos no começo do texto, não escolhemos ou decidimos ter ou/e fazer um determinado comportamento porque simplesmente escolhemos ou queremos, porque afinal somos “livres”, mas sim, pela “determinação” dos estímulos tanto antecedentes – que antecede a resposta – como, pelos estímulos conseqüentes – que são as conseqüências da resposta.

Exemplificando: “O crente “A” tradicional, porque quer escapar do inferno (estimulo antecedente) vai para a igreja (resposta), e também, porque com isto, ele consegue manter seu lugarzinho reservado no céu (estimulo conseqüente).

Já o crente “B” neo-pentecostal, ao querer ser bem de vida e ter uma ajudinha do “todo poderoso” (estimulo antecedente), não se contenta em ir somente para a igreja, ele tem que sempre dar dízimos e ofertas (resposta) para conseguir comprar o “todo poderoso”, e no menor sinal de uma situação de melhora, considerado “normal” pelo cético, é visto como prova da benção de deus sobre sua vida (estimulo conseqüente)”

Tanto nos dois casos acima, o que ambos crentes tiveram (estimulo) para ir á igreja, ou “ser” (melhor é o termo “estar”) crente (resposta ou comportamento) foi o interesse, mas o grande reforçador foi justamente a conseqüência de “estar” crente naquele momento.

Caso ambos crentes conversassem com um cético, que através de argumentos conseguisse “provar” que o inferno e céu não existem para o crente “A”, e que, conseguir melhoras na vida são para todos, inclusive ateus, para o crente “B”, possivelmente ambos os crentes não teriam mais o comportamento de estarem sendo crentes.

“O que aconteceu, para a resposta ser extinta?” Simples. Os estímulos antecedentes e conseqüentes que aliciam e reforçam todo comportamento humano, foi suspenso, e com isto também o comportamento.

O que quer dizer é que por mais subjetividade singular (ontogenetica) tenha cada ser humano, nós todos somos muito mais parecidos (filogenética e sócio-cultural) do que diferentes, e, por isto mesmo, somos tão previsíveis.

Por isto que para se conhecer e/ou controlar um determinado comportamento, o primeiro grande passo é conhecer os estímulos que estão aliciando aquele comportamento.

Diante disto tudo então, a grande pergunta não é “Qual é ou tem sido o seu comportamento?”, mas, antes “Quais são os estímulos antecedentes e conseqüentes do seu comportamento?”.

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