segunda-feira, 28 de maio de 2012

Sou um epígono?



Qualquer religioso que quiser saber sobre sua religião, converse com um ateu. O ateu sabe mais de religiões do que muitos pastores, rabinos ou padres.
Bem me lembro do dia em que eu, aluno interno do rigoroso colégio Batista Sul Americano da cidade de Nanuque ao norte do estado de Minas Gerais, ouvi pela primeira vez a despedida comovente de Jesus dos seus discípulos, na qual anunciava que o senhor “porá as ovelhas a sua direita e os cabritos à esquerda”. (Mateus 25,33)
“Então o Rei dirá aos que estiverem a sua direita: Vinde, benditos de meu pai, possuí o reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e me vestistes, enfermo e me visitastes, estava na prisão e fostes visitar-me”. (Mateus 25, 34-36)
O diretor do colégio advertiu-nos para vivermos cada dia de nossa vida de modo que, a todo instante, pudéssemos comparecer perante  Deus de coração puro, desde que jamais duvidássemos, mas sempre acreditássemos piamente na palavra de Deus, sem divergir, em nada das escrituras.
Durante o sermão, tive a certeza que iria ficar do lado esquerdo, pois meu coração estava transbordando de dúvidas. Como será?, matutei. Estaria certo o pastor em dizer que Deus recompensará os fiéis que jamais duvidaram? Ficarão a sua direita os que conseguem crer sem nunca levantar uma dúvida? Só porque sempre acreditaram? O pastor sempre cita a palavra de Deus, mas até agora, jamais assistiu ao ato de uma seleção celeste, ou de alguma recompensa a fiéis. O pastor poderia estar enganado. Os carros com as inscrições “Presente de Deus” são alienados e as curas de resfriado, enxaqueca ou diarreia são efeitos placebo. Houve a legitimação pela invocação do nome de Deus no efeito “tradição” pois os crentes preferem imitar os antepassados do que encontrar maneiras de descobrir novas verdades no presente.  Porém o meu Deus sábio e onipotente (a esta altura eu ainda conservava algo do velho senhor bondoso de compridas barbas brancas) falaria diferente. “Meus filhos, dei a vocês o raciocínio para usá-lo. Fiz vocês parecidos com um macaco, porém  mais inteligentes do que todos os bichos para que pensem, perguntem e evoluem. Fiz os chimpanzés para sua apreciação e não, para serem imitados. Quem entre vocês for covarde demais para pensar, não terá lugar no meu reino, condeno ao fogo eterno  quem não usar seu raciocínio.”
Este episódio se passou há cincoenta anos atrás, mas a quintessência do meu raciocínio infantil permanece inalterada e eu sei que não sou prógono do ateísmo. Até hoje nunca vi um anjo e nenhum dos doze mil santos, logo, continuo a pensar e a perguntar, mesmo que eu nunca encontre a verdade, mas na Bíblia eu já sei que ela não está.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Mino Carta critica a Veja








Editorial da revista Carta Capital de 23 de maio de 2012, por Mino Carta


Roberto Civita tende mesmo a se considerar único, um Moisés chamado a conduzir a Abril à terra prometida. Pronto a pôr em prática, assim como o herói bíblico dividia as águas, as artes da mídia nativa, inventar, omitir, mentir. Tropeço entre atônito e perplexo na última edição da revista Veja, a qual impavidamente afirma, entre outras peremptórias certezas, a autoria da derrubada de Fernando Collor da Presidência da República em 1992. Comete assim, entre a invenção e a mentira, o enésimo lance clássico do jornalismo nativo ao contar um episódio tão significativo da história do País.

Um ex-diretor da Veja, Mario Sergio Conti, escreveu um livro, Notícias do Planalto, para sustentar que Collor foi eleito pelos jornalistas. Não sei se Conti é mais um dos profissionais que no Brasil chamam o patrão de colega. Claro está, de todo modo, que a mídia naquela circunstância executou a vontade dos seus barões, a contarem com a obediência pronta e imediata dos sabujos. E à eleição de Collor Veja ofereceu uma contribuição determinante não menos do que a das Organizações Globo. Agora gabam-se pelo dramático desfecho do governo interrompido e omitem que lhes coube a criação do mostro.

Os leitores recordam certamente a expressão "caçador de marajás". Pois nasceu no berço esplêndido da TV Globo e foi desfraldada à exaustão pela capitânia da esquadra abriliana. Ocorre que o naufrágio collorido não foi obra desta ou daquela, e sim do motorista Eriberto, que prestava serviço entre o gabinete presidencial do Planalto, o escritório de PC Farias e a Casa da Dinda. Localizado pela sucursal de IstoÉ em Brasília ao cabo de uma exaustiva investigação, trouxe as provas que a CPI não havia produzido. É a verdade factual, oposta à versão da última edição de Veja.

Lembro aquele sábado de 1992 em que IstoÉ foi às bancas com as revelações decisivas, de sorte a obrigar os jornalões, a começar pelo O Globo, a reproduzir as informações veiculadas pela semanal que então eu dirigia. A entrevista de Pedro Collor a Veja, do abril anterior, não bastaria para condenar o irmão presidente, tanto que a CPI se encaminhava para o fracasso. Pedro, de resto, nada de novo dissera na entrevista, a não ser a referência a certos, surpreendentes supositórios de cocaína. No mais, repetira, um ano e meio depois, uma reportagem de capa da IstoÉ. (...)


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Na continuação do editorial, Mino Carta também revela que no dia do fechamento de IstoÉ com a matéria do motorista Eriberto  um ex-colega lhe visitou tentando impedir a publicação. Era um pedido do alto escalão que ele identificou como sendo da Ministra Zélia, que ele ironiza dizendo ser "mais talhada para dançar bolero do que carregar a pasta da economia". Mino Carta também diz que ao pedir demissão da Veja onde trabalhara na década de 70, disse a Victor Civita: "Por nada deste mundo hoje trabalharia na Abril, entre outros motivos porque seu filho Roberto é um cretino". O patriarca da editora Abril teria dito "Não diga isso, diga ingênuo

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"meu desalento é plenamente justificado: nossa mídia é a pior do mundo. É ruim porque parte de uma série de preconceitos, de posições previamente acertadas, sempre em defesa do privilégio, sempre em defesa da minoria. Mas a parte disso ela é muito ruim tecnicamente. Temos uma mídia que não sabe escrever, não sabe titular, enfim péssima. Nossos jornais, comparados com os grandes jornais do mundo, chegam a ser ridículos, parecem jornais humorísticos."

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O italiano de 75 anos, famoso pelo sangue quente que transparece através da contundência de seus textos, é um homem de olhos verdes, cabelos brancos e sorriso doce. Em seu currículo, estão a fundação das revistas Isto é, Veja e Quatro Rodas. Mino também esteve à frente do Jornal da República e A Tarde. (Entrevista com Mino Carta Leia aqui)

sábado, 19 de maio de 2012

Não Pise Nos Meus “Calos”!!!




Por  Levi B. Santos


Já virou um dito popular a emblemática reação que esboçamos quando nos sentimos contrariados: “Reagi porque você pisou nos meus calos!”

Ora, quem é que tem um calo no pé e não reage, quando alguém, mesmo sem saber, e sendo pessoa amiga, o pisa? 

Há uma letra de Noel Rosa que evidencia toda sua decepção ante uma pessoa querida que pisou nos seus calos, entendendo por “calo” algo que se tem doloridamente escondido. A modinha de Noel é composta de nove estrofes e tem por título “Você é um Colosso”, da qual reproduzo os três primeiros versos:

Você é um colosso
Andou no meu carro
Filou meu cigarro
Fumou meu cigarro.

Vestiu meu pijama
Sentiu um abalo
Fuçou minha cama
Pisou no meu CALO.

E não adianta
Você me pedir perdão
Depois de você pisar
Meu CALO de estimação.

Mas esse algo escondido ― metáfora de “CALO” ―, em psicanálise, denomina-se “recalque”, que no dicionário Aulete, assim é definido: RECALQUE (psic) “Mecanismo psicológico de defesa pelo qual desejos, sentimentos, lembranças que repugnam à mentalidade ou à formação do indivíduo são excluídos do domínio da consciência e, conservadas no inconsciente, continuando, assim, a fazer parte da atividade psíquica do indivíduo e a produzir nela certos distúrbios de maior ou menor gravidade”.

Foi no passado longínquo de minha infância que pela primeira vez entrei em contato com a palavra CALO, que no sentido figurado, segundo o Aulete, quer dizer ― “uma falta de sensibilidade causada especialmente por sofrimento prolongado”, vindo seguido de uma frase de sentido metafórico: “indivíduo frio, que tem calo na alma.”

Lembro-me bem como foi a minha primeira experiência consciente com calos de verdade. Em um dos desfiles obrigatórios no dia da pátria, eu culpei os sapatos apertados da marca Vulcabrás pelo aparecimento das bolhas em meus pés, que com o tempo viraram calos. Noutro desfile, foram os sapatos folgados que, pelo contínuo atrito sobre os calcanhares, causaram as bolhas. Como era difícil encontrar um sapato na medida exata, da largura e do comprimento dos pés, eu comecei a culpar os meus próprios pés.

Com o tempo, já adulto, noto as manchas e vestígios um tanto anestesiados dos calos. Tenho adotado medidas de proteção para não serem vistos e pisados. Mas não tem jeito: de vez em quando eles ressurgem, doloridamente, ferindo a minha paz artificialmente perfeita. Agora, na ausência dos sapatos de couro duros, é o mundo lá fora, as pessoas, as escolas, as instituições, as organizações, o governo, os parentes, que eu  culpo por apertarem os calos adquiridos na infância.

Atualmente tenho lido muito, chegando às vezes a sentir-me triunfante com as racionalizações mirabolantes que faço. Distraio-me fabricando o meu pensar, num vaivém de idéias captadas de outros mestres. Não sei, mas algo me diz que tudo que faço é para esquecer os calos. Algo me diz que o temor que sinto de alguém me pisar, expressa uma tentativa do meu EU em confrontar-se com os prejuízos que os sapatos me causaram no passado. De nada adianta minha resistência, pois quanto mais silencio, me amuo, ou me rebelo, fico pesado como um homem de chumbo. E quanto mais pesado fico, pior para os calos.

Resoluto, digo para mim mesmo: “um dia hei de encontrar meios de garantir total segurança para proteger a fragilidade angustiante dos meus doloridos e calosos pés. A Ciência descobrirá, não tenho dúvidas (?), materiais mais opacos ou densos aos olhos alheios, mais macios e mais resistentes às pisadas dos outros”.

Por outro lado, penso que ao invadirem o porão obscuro do inconsciente ou dos afetos adormecidos, e de lá extirparem com precisão os calos (recalques), deixaremos de ser humanos para nos tornar seres previsíveis, autômatos e não reativos.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 19 de maio de 2012

Site da Imagem: katamigos.blogspot.com 

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Neurônios-espelho. Uma grande descoberta cientifica



Por Noreda Somu Tossan

Por que sorrimos quando vemos alguém sorrir? Ou por que ficamos com olhos marejados quando a protagonista de um filme chora? Já reparou que nos retesamos quando vemos alguém com dor ou sentimos uma vontade incontrolável de bocejar quando alguém boceja? Afinal, o que nos leva a agir de acordo com o que as outras pessoas fazem? 

Isso acontece porque, quando vemos alguém fazendo algo, automaticamente simulamos a ação no cérebro, é como se nós mesmos estivéssemos realizando aquele gesto. Isso quer dizer que o cérebro funciona como um “simulador de ação”: ensaiamos ou imitamos mentalmente toda ação que observamos. Essa capacidade se deve aos “neurônios-espelho”, distribuídos por partes essenciais do cérebro  (o córtex pré-motor e os centros para linguagem, empatia e dor). Quando observamos alguém realizar essa ação, esses neurônios disparam (daí o nome “espelho”). Por isso, essas células cerebrais são essenciais no aprendizado de atitudes e ações, como conversar, caminhar ou dançar. Eles permitem que as pessoas executem atividades sem necessariamente pensar nelas, apenas acessando o seu banco de memória.

O cérebro funciona como um “simulador de ação”: ensaiamos ou imitamos mentalmente toda ação que observamos.

Os neurônios-espelho foram descobertos por acaso pela equipe do neurocientista Giacomo Rizzolatti, da Universidade de Parma, na Itália. O grupo colocou eletrodos na cabeça de um macaco, um aparato que permitia acompanhar a atividade dos neurônios na região do cérebro responsável pelos movimentos através de um monitor. Cada vez que o macaco cumpria uma tarefa, como apanhar uvas-passa com os dedos, neurônios no córtex pré-motor, nos lobos frontais, disparavam. Quando um aluno entrou no laboratório e levou um sorvete à boca, o monitor apitou (foi uma surpresa para os cientistas, porque o macaco estava imóvel). O mais intrigante é que sempre que o macaco assistia o experimentador ou outro macaco repetir essa cena com outros alimentos os neurônios disparavam.

Mais tarde, exames de neuroimagem mostraram que nós temos neurônios-espelho muito mais sofisticados e flexíveis que os dos macacos. “Nosso conhecimento do motor e a nossa capacidade de ‘espelhamento’ nos permitem compartilhar uma esfera comum de ação com os outros, dentro do qual cada ato motor ou cadeia de atos motores, sejam eles nossos ou dos demais, são imediatamente detectados e intencionalmente compreendidos antes e independentemente de qualquer mentalização”, observa Rizzolati.

A equipe do neurocientista Giovanni Buccino, da Universidade de Parma, usou Ressonância Magnética Funcional (RMF) para medir a atividade cerebral de voluntários enquanto eles assistiam a um vídeo que mostrava sequências de movimentos de boca, mãos e pés. Dependendo da parte do corpo que aparecia na tela, o córtex motor dos observadores se ativava com maior intensidade na região que correspondia à parte do corpo em questão, ainda que eles se mantivessem absolutamente imóveis. Ou seja, o cérebro associa a visão de movimentos alheios ao planejamento de seus próprios movimentos.

Outras experiências mostram que os neurônios-espelho dos macacos ainda são ativados diante de um estímulo indireto, que é associado a uma tarefa. Por exemplo, o som de uma casca de amendoim se quebrando. Isso se deve a neurônios-espelho, audiovisuais que seriam importantes na comunicação gestual desses animais. Nos seres humanos isso também é possível: os neurônios são ativados quando a pessoa imita, complementa uma ação ou quando apenas imagina ela própria realizando essas mesmas ações.

“Os neurônios-espelho mudaram o modo como vemos o cérebro e a nós mesmos, e têm sido considerado um dos achados mais importantes sobre a evolução do cérebro humano”, diz o neurocientista Sérgio de Machado, pesquisador e pós-doutorando do Laboratório de Pânico da UFRJ. “Se a tarefa exige compreensão da ação observada, então as áreas motoras que codificam a ação são ativadas. Isso indica que há uma conexão no sistema nervoso entre percepção e ação, e que a percepção seria uma simulação interna da ação”, completa.

Questão de empatia

Alguns pesquisadores especulam quanto à verdadeira função desses neurônios. Podemos dizer que o observador estaria simulando mentalmente a ação ou estaria se preparando para agir? O pesquisador húngaro Gergely Csibra, do Departamento de Psicologia do Birkbeck College, no Reino Unido, sugere que o papel dos neurônios-espelho talvez não seja exatamente o de espelhar ou simular a ação, mas de antecipar as possíveis respostas a essa ação. O que nos leva a acreditar que o cérebro é um grande gerador de hipóteses que antecipa as consequências da ação e que permite a tomada de decisão.

Devido a essa capacidade, podemos imaginar aquilo que se passa na mente do outro, colocando-nos no lugar da outra pessoa, compreendendo suas ações. Por exemplo: se vemos uma pessoa chorar por algum motivo, os neurônios-espelho nos permitem lembrar das situações em que choramos e simular a aflição dela. Sentimos empatia por ela, sentimos o que a pessoa está sentindo. “A capacidade de simular a perspectiva do outro estaria na base de nossa compreensão das emoções do outro, de nossos sentimentos empáticos”, diz Machado.

Isso faz toda a diferença, porque é graças a essa capacidade que podemos estabelecer relações sociais. “A predição das emoções do outro é fundamental para o comportamento social. A pessoa não cometerá um ato que é doloroso ou prejudicial ao demais. Isso se deve à empatia, que é a capacidade de interpretar as emoções alheias. O ser humano é dotado da teoria da mente, isto é, a capacidade de se colocar mentalmente no lugar de outra pessoa. Ela é a base do julgamento de intenções”, explica o neurocientista Renato Sabbatini, professor da Faculdade de Medicina da Unicamp.

A empatia seria determinada biologicamente desde o nascimento. “É preciso existir uma maquinaria inata, que nos permite certas capacidades, porque nem tudo em nosso comportamento é aprendido”, observa Sabattini. Ele lembra que os neurônios-espelho ainda são um mecanismo-chave para a aprendizagem. Um exemplo disso é que, desde bebês, somos capazes de imitar expressões faciais dos adultos, instintivamente reproduzimos caras e bocas. Isso acontece porque os neurônios-espelho começam a funcionar logo na primeira infância. Podemos, por exemplo, ampliar as nossas chances de sucesso em alguma tarefa, apreendendo com os “experts”.

A empatia envolve regiões do cérebro que existem há mais de 100 milhões de anos e funciona como a “cola” que mantém as sociedades unidas, segundo o primatólogo holandês Frans de Wall, em seu livro “A Era da Empatia”. Como Wall, os cientistas partem do princípio de que os nossos cérebros são produto da seleção natural e que as pressões do ambiente social determinaram quais características deveriam ser mantidas para as gerações futuras (e uma dessas marcas seriam os neurônios-espelho). “A maior parte dos gestos motores, como amarrar os sapatos, é aprendido por imitação, ou seja, tentativa e erro. Isso prevalece no reino animal, principalmente nos vertebrados”, diz Sabbatini.

“Os estudos desses neurônios nos oferecem uma grande contribuição na compreensão da emoção: hoje sabemos que temos um sistema que partilha percepção e ação. O espelhamento permite o compartilhamento de emoções, presente no estado de empatia. Isso nos possibilita formular teorias mais compatíveis com os achados biológicos”, diz a psicóloga Cláudia Passos, que se dedica ao estudo de Ética e Biotecnologias em seu pós-doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia pela UFRJ.

Em “O Cérebro Empático” – Como, Quando e Por que?, a neurocientista alemã Tânia Singer e a filosofa francesa Frederique de Vignemont propõem quatro condições para que a empatia aconteça: 

1-) Alguém está num estado afetivo, como medo, raiva ou tristeza, por exemplo.
2-) Esse estado é isomórfico ao estado afetivo da outra pessoa
3-) Esse estado é produzido pela observação ou imaginação do estado afetivo de outra pessoa
4-) A pessoa sabe que a outra pessoa é fonte do seu próprio estado afetivo.

“Os achados de imagem cerebral permitem que sejam identificadas áreas de ‘espelhamento’ do cérebro que são ativadas no estado de empatia, mas não se sabe exatamente como essas áreas cerebrais atuam nos estados da empatia descritos por essas pesquisadoras. Pode ser que um dia possamos ter uma precisão maior do que acontece no cérebro empático”, prevê Cláudia.

Moralidade

Estudos sugerem que as pessoas ajudam mais as outras quando têm empatia por elas, o que explica porque a empatia geralmente é associada ao senso moral, justiça, altruísmo e cooperação. As pesquisas com neurônios-espelho despontam como aliado no debate quanto à natureza de decisões morais. Elas reforçam a tese de que os comportamentos morais têm um traço afetivo porque envolvem a capacidade do indivíduo de sentir as emoções do outro, e dependem do sistema de recompensa (circuitos do cérebro ligados à sensação do prazer).
“Alguns teóricos defendem que as decisões morais são de natureza cognitiva e envolvem um pensamento moral. Mas os experimentos com neurônios-espelho fortalecem a ideia de que as emoções estão na base do sentimento moral. Isso significa dizer que não aprendemos apenas racionalmente, mas também somos educados sentimentalmente”, diz a pesquisadora.

Apesar do entusiasmo da comunidade científica, a filosofia ainda despreza as descobertas das ciências cognitivas e a psicologia moral. “A filosofia sempre operou com distinção entre fato e valor. Esses achados empíricos sobre neurônios-espelho são vistos com desconfiança, embora haja alguns naturalistas que tenham contribuído no diálogo com as ciências”, completa.

A “corrida” em busca desses neurônios em diferentes áreas do cérebro ajudou a lançar luz sobre uma questão que há muito intriga os cientistas: o autismo. Um estudo com ressonância magnética funcional mostra uma falha do mecanismo de espelho nessas crianças. Ao contrário do que ocorre em crianças normais, as crianças autistas não imitam gestos no espelho quando se veem face a face. “Crianças com autismo têm grande dificuldade para, se expressar, compreender sentimentos como medo, alegria ou tristeza, não percebem o significado emocional das ações alheias. O autista tem dificuldade de interagir e se assusta com expressões faciais e ruídos. Tudo indica que há uma falha no sistema de neurônios-espelho”, diz Machado.

Pesquisadores observaram crianças autistas e crianças normais enquanto elas assistiam ao experimentador agarrar um pedaço de comida para comer ou agarrar um pedaço de papel para colocar em um recipiente. A atividade elétrica do músculo envolvido na abertura da boca foi gravada. Os resultados mostraram a ativação dos neurônios correspondentes ao músculo da boca ao ver a comida em crianças normais, mas isso não aconteceu com as crianças autistas. Em outras palavras, enquanto a observação de uma ação feita por outra pessoa interferiu no sistema motor de uma criança normal que observava o movimento, o mesmo não aconteceu não no caso de uma criança autista.

“O autismo está associado a uma deficiência na habilidade de leitura da mente, na capacidade de interpretar as emoções do outro. É verdade que algumas crianças se mostram extremamente eficientes em outras habilidades cognitivas não sociais, como é o caso dos portadores de Síndrome de Asperger. Ainda assim, relatos de pessoas com esta síndrome atestam pouca ou nenhuma capacidade de introspecção”, diz Sabbatini. Pessoas com síndrome de Asperger têm os mesmos traços dos autistas, mas com uma diferença: elas possuem grande capacidade cognitiva, o QI pode variar de normal até níveis muito mais altos.

Distúrbios neurológicos

Além de compreender melhor nosso comportamento, os estudos sobre neurônios-espelho podem ajudar na solução de questões de ordem prática, como a recuperação de pacientes com perda da função motora. Em 1992, o neurocientista indiano Vilayanur Ramachandran, diretor do Centro do Cérebro e da Cognição da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, criou uma técnica que usa um espelho para tratamento de dor fantasma (pessoas que perderam um braço, por exemplo, sentem dores nesse membro como se ele ainda estivesse lá). A técnica permite que uma rede de neurônios responsáveis pelo controle de uma mão possa ser usada nos movimentos de outra mão numa determinada tarefa. A ideia é reeducar o cérebro com uma simples tarefa, em que a pessoa realiza movimentos com o braço saudável, vendo no espelho como se fosse o braço lesionado. (muito bem ilustrado num episódio de Dr. House).

“Assim é possível enganar o cérebro, fazendo com que ele imite os movimentos do braço lesionado através do reflexo do braço não lesionado no espelho”, diz Machado. A técnica também tem sido empregada para recuperação do movimento em pessoas que sofreram AVC (derrame). Alguns pacientes são mais beneficiados que outros, dependendo do local da lesão e da duração do déficit após o AVC. Estimativas atestam que cerca de um décimo da população mundial será vítima de déficit motor por causa do AVC.

Às vezes, a perda do movimento está ligada também à alteração de visão. Isso acontece porque, nas fases iniciais do derrame, o cérebro apresenta um edema, deixando também temporariamente alguns nervos atordoados e “desligados” que os especialistas chamam de “paralisia aprendida”. “Caso exista ainda neurônios-espelho sobreviventes, a terapia espelho poderia revivê-los”, diz Machado.

Durante a terapia, essas células tanto podem responder a gestos já praticados quanto a não aprendidos. O que significa que a capacidade desses neurônios de reagir à observação de uma tarefa não depende obrigatoriamente da nossa memória. A tendência é imitar, inconscientemente, aquilo que observamos, ouvimos ou percebemos. “Tanto existe reação como aprendizagem durante o processo de reabilitação, há uma dupla função”, diz Machado. Mas ele ressalva: “Se há uma lesão nesse circuito, isso vai levar a um tipo de interferência, talvez não haja integração das informações”.

A antiga visão de que o cérebro é dividido em módulos autônomos com funções específicas e que interagem pouco uns com os outros vem do século passado e a neurologia ainda tem se baseado nela. Uma lesão em um dos módulos traria um problema neurológico irreversível. “Os achados, no entanto, sugerem que é necessário repensar a visão de que o cérebro trabalha de forma seriada e hierárquica com seus módulos e substituí-la por uma nova visão mais dinâmica. O cérebro trabalha de forma integrada em paralelo e não de forma seriada. Existe atividade de várias áreas do cérebro ao mesmo tempo”, diz Machado. Segundo ele, ao invés de pensar os módulos cerebrais como inflexíveis, devemos pensar em um equilíbrio dinâmico como conexões sendo constantemente formadas e reformadas em respostas a mudanças ambientais.

Fonte: (Revista Psique Ciência e Vida edição 76, págs. 24 à 31, pela jornalista Roberta de Medeiros). Sou assinante da Revista e recomendo à todos)

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Mil palavras...podem explicar


“De fácil leitura, para um fácil entendimento”
Por Edson Moura

Uma das coisas que mais me atraem nesta Confraria, além de estar na companhia de alguns intelectuais, é o fato de, por vezes, me ver lendo um artigo que me era totalmente estranho, de forma tranquila e sem complicações causadas pela escrita rebuscada. Foi assim que acabei me apaixonando pela Filosofia (lendo os textos do Gresder), foi assim também que a Psicanálise se tornou alvo de meus estudos (lendo e relendo os textos do mestre Levi), também entendi muito do mundo transcendental proposto pelas religiões, debatendo com Eduardo Medeiros e refutando seus comentários irrefutáveis à medida que ele refutava os meus irrefutáveis comentários. Aprendi e me apaixonei pela tecnologia do “LHC” (acelerador de partículas) apresentada a mim pelo Altamirando Macedo, resumindo, foi a fácil leitura e os salutares debates que me fizeram compreender, mesmo que de forma superficial, sobre os mais variados temas. Mas nem todos os textos são assim.

É frequente professores universitários ou pesquisadores escreverem textos difíceis, fechados, herméticos. Aliás, é curioso esse último adjetivo, que poderia remeter a Hermes ou Mercúrio, (Deus greco-romano da comunicação), mas acaba se referindo ao misterioso, ao oculto, ao fechado (Deus egípcio Thot), chamado em grego de Hermes Trismegisto, uma variação do mesmo Hermes. Na verdade, essa estratégia nasce do medo. Muitos receiam se expor ou revelar suas ideias (bem diferente dos Confraternos que não se preocupam em errar tentando acertar). Na academia, o prestígio conta bastante, mais que o dinheiro ou o poder. E é tão grande o medo de que os outros os desprezem (de que percam valor aos olhos dos mestres) que vários pesquisadores, inclusive bons, mas, sobretudo os principiantes, acabam preferindo não serem entendidos. Têm medo de que suas ideias pareçam simplistas, simplificadas, banais, ou seja, de fácil entendimento.

O primeiro sinal disso é escrever trabalhos mais longos que o necessário, é como escrever um texto que poderia ser facilmente explicado com mil palavras, mas acaba sendo enchido ao ponto de se tornar enfadonho, cansativo e complicado. Temem esquecer-se de algo, onde dissertações, provas e teses acabam maiores do que deveriam ser. E isso debilita a qualidade. Um bom texto deve ser completo, desprovido de redundâncias e repetições. Como escritor leigo, tanto eu quanto o Marcio, desde o começo do “Outro evangelho” lutamos contra isso, por exemplo, fixando um limite máximo de mil palavras por artigo, para levar os leitores a enfatizar o principal, aprendendo a distingui-lo do secundário, permitindo que os espaços que porventura fiquem vazios, sejam preenchidos pela capacidade de raciocínio de cada um. Também incentivamos um ao outro para que não fiquemos presos apenas a um autor, a um filósofo, a uma só religião. Quando se compara, precisa-se dizer algo sobre a diferença, e a diferença é uma oportunidade para desabrochar a originalidade de cada escritor ou leitor.

Além do comprimento, há palavras difíceis e construções sintáticas complicadas. Alguns, podendo escolher entre uma expressão de uso corrente e outra rara, preferem a segunda, pois fica mais bonito. Mas de que adianta ser bonito se ninguém vai entender? Isto é preciosismo inútil, porque sabemos que muitas pessoas que estão começando a se interessar por leitura ainda não dominam plenamente o vernáculo, nem a gramática. Uma sintaxe arrevesada leva, às vezes, à dificuldade de entender o que foi escrito, não porque seja complexo, mas porque é mal escrito. Isso ajuda o autor inseguro, porque ninguém sabe o que ele quis dizer. No fundo, a raiz do texto hermético é o medo de afirmar algo, claro e em bom som.

Também faz parte do medo ao superego acadêmico chamar algo de "interessante". Se me contestarem que não é bom, responderei que não elogiei - isto é, não me comprometi, apenas disse que era... Interessante. Portanto amigos da Confraria, se um dia vocês escreverem algo, e um comentarista disser que achou interessante, desconfie, pois ele apenas está se precavendo para na hora que o Eduardo chegar refutando tudo, ele possa tirar a “bunda da seringa”.
Uma ilustração para a questão acima: 

“O Técnico de futebol infantil, Senhor Noreda, percebeu que um dos alunos da 5ª série nunca ficava na frente quando era o momento de fazer a escolha dos times para o jogo, e se espantou ao ver isso se repetir o ano inteiro. Logo entendeu: Se ficasse ali na frente e ninguém o escolhesse, a vergonha seria enorme, pois uma criança (e até mesmo alguns adultos) ainda não sabe lidar o sentimento de rejeição. Ficando longe, diminuíam muito a chance de jogar, mas melhoravam brutalmente as desculpas, "não me escolheram porque não me viram".

Uma manobra imbecil, mas que surte efeito. Para quem não se arrisca, é ótimo, pois poupa a autoimagem. O problema, voltando à opção pelo texto indecifrável, é que este aumenta fortemente a chance de não ser lido. E quem aqui quer escrever um texto que, logo no primeiro parágrafo, o leitor desista de continuar?

Por experiência, sei que um livro que não me envolve nas primeiras páginas ou um filme, nos primeiros minutos, dificilmente melhora depois. Pode ser que eu assim perca alguma obra de mediana qualidade, mas certamente ganho tempo (como na ilustração, posso estar cometendo um ato imbecil) para ler coisas excelentes. Por isso, não admiro quem, por medo, escolhe escrever difícil, na amarga ilusão de que o complicado é complexo, quando é, apenas e artificiosamente, complicado.

Então amigos, continuem assim, trazendo para esta Confraria de Pensadores Fora da Gaiola, sempre textos de fácil entendimento, para que possamos dividir nosso conhecimento para então multiplicar nossos leitores, subtraindo a preguiça causada pelo primeiro parágrafo chato e somando a tudo isso a vontade de ler mais um.

Por exemplo, as findas linhas deste opúsculo, de nada mais servem senão para “des-lacunar” as fissuras deixadas por um escritor pernóstico em seu subliminar compêndio. Pra não contradizer-me em minhas próprias palavras deixo a vós um artigo severamente calculado para que em seu interior houvesse apenas, somente, nada mais, que as mil palavras de que falei acima.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Singularidade Humana


Singularidade Tecnológica é um evento histórico previsto para o futuro no qual a humanidade atravessará um estágio de colossal avanço tecnológico em um curtíssimo espaço de tempo.
Numa linha de raciocínio alternativa, o matemático, escritor e ativista político Theodore Kaczinski, conhecido como o terrorista Unabomber, publicou um manifesto sobre a possibilidade das classes superiores da sociedade usarem-se da tecnologia para simplesmente eliminar as massas inferiores, Kaczynski é também adepto do ludismo e é radicalmente contra o avanço tecnológico da forma como ele está acontecendo. Os artigos de Kaczynski foram incluídos em um livro recente de Raymond Kurzweil.
Outros perigos mais amenos dizem respeito a  exclusão digital e social e ao impacto da singularidade tecnológica sobre a economia internacional, especialmente sobre os países pobres e emergentes. Há ainda questões éticas, que não representam perigos potenciais, mas que também não podem ser ignoradas.

Singularidade Gravitacional, um conceito da cosmologia envolvendo uma curvatura infinita no contínuo espaço-tempo. Singularidades espaciais, como a que se encontra em um buraco negro de Schwarzschild em que uma partícula deixa de existir por certo instante de tempo; dependendo de sua velocidade, as partículas rápidas tardam mais em alcançar a singularidade ainda que as mais lentas desapareçam antes. Este tipo de singularidade é inevitável,  já que cedo ou tarde todas as partículas devem atravessar a hipersuperfície temporal singular. O termo nomeia um espaço onde um corpo não envelhece ou volta ao passado.

Singularidade Matamática, ponto onde uma função matemática assume valores infinitos ou, de certa maneira, tem um comportamento não definido.
Na medicina os arautos da imortalidade afirmam que a singularidade nada mais é do que uma conseqüência real de uma revolução em curso que já fez disparar, em velocidade sem precedentes, a expectativa de vida humana. Um grupo de cientistas está envolvido na formação da Universidade da Singularidade situada no Vale do Silício  nos EUA.

Tem o objetivo de reunir as melhores mentes do mundo (alunos e professores) para formá-las nas mais diversas áreas (nanotecnologia, genética, etc...) com base no modelo exponencial da evolução tecnológica, preparando-os para serem os futuros líderes mundiais como empreendedores e pensadores. Recursos como prótese para substituir neurônios, máquinas que constroem DNA, coração e até um novo cérebro permitirão que a próxima geração viva pelo menos até os 150 anos e as sucessoras ainda muito mais. Bactérias que viviam há milhões de anos não envelheciam. Nossas células germinativas também não envelhecem. Óvulos e espermatozoides vivem indefinidamente quando congelados. Isto leva os cientistas a acreditarem num prolongamento da vida humana.

A tecnologia da imortalidade já deu os primeiros passos. Nos EUA estuda-se uma célula resistente a todo tipo de vírus. Na Universidade de Harvard há uma máquina capaz de remontar todo o DNA humano de uma só vez. Partes do coração regeneradas com células tronco já deu certo em pacientes com insuficiência cardíaca. Na Universidade da Califórnia, cientistas conseguiram controlar a troca de sinais elétricos do RNA. É o primeiro passo para comandar as reações químicas no interior das células. Na França  o processo de envelhecimento de células de um homem de 74 anos foi revertido. Elas voltaram a ser células tronco embrionárias. O Instituto do Cérebro da Escola Politécnica de Lausanne, na Suíça procura recriar o órgão e prevê resultados concretos para 2014.

“No Rio de Janeiro (Brasil)”, o pesquisador Stephens Rehen da Universidade Federal  fez neurônios a partir de células tronco.
A ciência biológica pode fornecer meios para melhorar o intelecto natural humano. Em que ponto cada qual está na escala ascensional que separa a animalidade da angelitude? Não há duas pessoas que estejam exatamente no mesmo degrau de evolução espiritual. As individualidades que mais se afinam são as que estão mais equiparadas nesse sentido. Mas as variações são infinitas: algumas mal saíram do domínio dos instintos animais, tendo apenas começado seu desenvolvimento intelecto-moral; outras estão adiantadas em inteligência, mas revelam ainda grande indigência em moralidade; muitas possuem bons sentimentos, mas são deficitárias em seu desenvolvimento mental. Donde um terço da população mundial cultua conceitos da idade média ainda resistentes à células tronco, controle de natalidade, transfusão de sangue e transplante de órgãos. Para estes, a singularidade humana será um horizonte de eventos ou ficção científica. Continuarão procriando como coelhos, vivendo como hienas, rezando e morrendo aos 46 anos, como em 1950. Thomas Malthus publicou um influente ensaio em 1798 no qual afirmava que as populações que crescem a uma velocidade maior do que seus estoques de alimentos serão, implacavelmente, reduzidas pela fome , doenças e guerras. O problema é que não se pode deduzir os objetivos da sociedade dos objetivos da natureza. A tentativa de fazer isso é conhecida como falácia naturalista. A falácia naturalista é cometida sempre que se confunde “o que é” com “o que deve ser”.
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