sexta-feira, 22 de junho de 2012

A Força da "Imago" Paterna


....                                                      ."MOISÉS" - de Michelangelo


Pela quarta vez ele sentia-se dominado por um desejo premente de rever o seu herói. Nas três vezes anteriores que o visitara, conseguira retirar alguns fragmentos que estavam escondidos no porão de sua infância.

Assim que chegava à velha Roma, ele se dirigia apressadamente a Vincoli, onde fica situada a igreja da San Pietro. Lá passava horas e horas contemplando e analisando a monumental estátua de Michelangelo ─ Moisés com as tábuas da Lei.

Após subir os degraus íngremes da solitária Piazza, se dirigia logo a um canto reservado e silencioso da igreja, e ali ficava a mercê dos seus sentimentos inescrutáveis e maravilhosos; sentia como que sair da obscuridade interior, algo que fazia dele próprio mais um, no meio da turba estática diante do seu grande líder, ao pé do Monte Sinai.

Dessa vez, já aos setenta e três anos de idade, provou de um êxtase mais intenso, ao olhar minuciosamente a estátua do seu carismático líder hebreu, Moisés. Tão perfeita era a escultura, que ele parecia estar sentindo a explosão de cólera irradiada de sua face. Em meio ao deslumbramento sentia passar por sua cabeça, toda a epopéia do fundador da nação hebraica de que tanto ouvira falar quando criança na sinagoga, por ocasião das preleções emotivas dos Rabinos, seus mestres.

Absorto na contemplação demorada da estátua de Moisés, como nunca tinha acontecido nas outras vezes, parecia ouvir o clamor do povo Hebreu. Ali, junto a imagem de seu grande  líder, sentia o tumulto e o alarido do povo que transgredira o seu Deus e a sua lei, ao erigir um “Bezerro de Ouro” para adoração. Nesse clima, o velhinho cientista em sua imaginação, via o seu comandante se preparando para jogar fora as tábuas da lei, as quais estavam apoiadas em sua mão direita e pressionadas contra o tronco. De repente, com o olhar fixo na estátua, tem a impressão de que o líder hebreu petrificado domina a sua ira e pára sua ação violenta, que se iniciara segundos antes.

Terminado o seu solene culto interior, desceu as escadarias da Igreja de San Pietro pela última vez, pois, sofrendo as dores de um câncer na mandíbula, sucumbiria seis anos depois.

P. S.:

Aos setenta e três anos de idade, Freud em uma de suas inúmeras correspondências endereçadas ao amigo e confidente, Pastor protestante Pfister, assim escreveu:

[...] por mais bondosamente que o analista se comporte, ele obviamente não pode encarregar-se de substituir a Deus e à Providência diante do seu cliente.”

É também dele essa frase:

“Aqueles que brigam com Deus podem estar reencenando na esfera religiosa a luta 'edipiana' que não conseguiram vencer em casa”.


Por Levi B. Santos

Guarabira, 13 de fevereiro de 2010


FONTES:

                1. Moisés e o Monoteísmo – Obras de Freud - volume XXIII (Editora Imago)

                2. Moisés de Michelangelo – Obras de Freud – Volume XXIII (Editora Imago)

                 3. Cartas ente Freud e Pfister – Editora Ultimato


sábado, 16 de junho de 2012

Gradiva, aquela que resplandesce ao andar



Gostei da provocação anterior do texto do Márcio, e tanto mais nos questionamentos sobre as contribuições freudianas e suas implicações na análise da vida, e em toda ciência dos fenônemenos psíquicos.

Na obra do pai da psicanálise, há um único exemplo de 'tratamento bem-sucedido', comentado  por Fédida,  psicanalista francês. É uma história fictícia, que evolui em Pompéia na Itália. O tratamento conduzido por Zoe Gradiva com o arqueólogo Norberto Hanold. Zoe é sua amiga de infância,  mas Norberto esquece-se completamente dela...
"Norbert Harnold tornou-se um grande e sábio arqueólogo. Faz pesquisas acadêmicas e sua vida se caracteriza por não interessar-se por mulheres.
Uma dia enamora-se de um baixo relevo  que representa 'uma jovem que avança' - Gradiva. Ao enamorar-se dele começa a delirar: tem alucinações e parte em viagem a Pompéia. Empreende a viagem mas não percebe, que no percurso dela, alguém o acompanha em ligeira distância, sem jamais confrontá-lo, sem jamais obrigá-lo a realizar o que se passa em sua cabeça. Leva muito tempo para que Norberto descubra que a pessoa representada pelo baixo relevo é Zoe, sua amiga de infância. É ela que vai libertar-lhe o amor. É ela quem vai lhe tornar possivel o amor, libertando-o do delírio.
Quando Norberto estiver curado poderá de novo re-encontrar o sonho em seu sono. Renunciará a seu delírio e poderá amar diretamente Zoe Bertgang - Gradiva. Ao longo de toda sua viagem ela o acompanhou sem jamais esposar seu delírio, sem nunca fundir-se com ele no imaginário.
(...) Jamais Zoe sacode o herói para que ele acorde, ela sabe muito bem que isso não permitiria a cura de Norberto, pelo contrário, acentuaria suas alucinações e reforçaria o delírio. Ela sabe que é preciso deixar tempo para o encaminhamento do delírio."*
 O texto de Fédida é sobre o amor transferencial, e de como isso implica na 'cura'. Mas essa narrativa simbólica remete a muitas reflexões...
Zoe poderia simplesmente ter dito:
- Oi, eu sou Zoe, porque você nao enxerga isso logo de uma vez e desiste dessa viagem louca, eu sou real, essa gravura á só um sonho!!!

Precisamos forçar a 'porta das verdades' dos sujeitos e mostrar o que só é dado na caminhada pessoal de cada um?
Ha tantas e ricas questões nesse texto, por isso trouxe para  compartilhar com vocês.

* Transcrição do texto Amor e Morte na Transfêrencia, Pierre Fedida, gravado em 1981.

sábado, 2 de junho de 2012

Porque Sartre é tão “foda”

Por: Marcio Alves

É inegável o peso que Sartre tem para todo o pensamento psicológico, e, diante  disto é que trago, apenas dando ênfase na área da psicologia, o porque que Sartre é tão foda.

Segundo o estudioso Schneider, as contribuições sartrianas foram, sem duvida, de suma e real relevância, pois até aquele dado momento, a psicologia estava muito presa ao mecanicismo e cientificismo, e o filosofo Frances Jean-Paul Sartre (1905-1980) surge com sua feroz e contundente critica e proposta de novos fundamentos aos modelos psicológicos já existentes daquela época, e, isto, através da fundamentação na fenomenologia de Jaspers, Husserl e Heidegger, mais a construção interdisciplinar entre marxismo, psicanálise e o próprio existencialismo sartriano, o que será uma constante em toda sua obra, apoiada em dois métodos principais para uma “psicologia existencial”; o biográfico e o método progressivo-regressivo. (2008 p.289-291)

Sartre entendia e até defendia a psicanálise como um método essencial que contribuía e possibilitava com seu estudo sobre o desenvolvimento infantil, numa compreensão mais abrangente dos fatores de “influenciação” do sujeito, que não era limitado como o marxismo propunha em ser apenas histórico e cultural rejeitando e negligenciando assim a historia individual, mas também através dos micro-grupos, como a família, no qual o sujeito estava inserido.

O método biográfico que Sartre propusera de investigação do sujeito é uma forma de compreensão totalizante e globalizante do individuo, visto como ser-no-mundo, partindo sempre do singular para o universal, e do universal para o singular, procurando sempre fazer uma ligação dos fatos concretos da vida individual deste sujeito, com o momento histórico e circunstancial vivido pelo mesmo.

Sartre critica a maneira mecanicista pela qual as biográficas são elaboradas, em considerar apenas o lado externo do sujeito, como historicidade, culturas, época, meio educacional, hereditariedade, fatos vividos, circunstancia inserida e tudo o mais que esta relacionada com o mundo externo que o sujeito vive e se desenvolve.

Mas Sartre não apenas critica este modelo cientificista, como propõem uma nova abordagem biográfica, com a qual a psicologia será grandemente afetada e enriquecida, pois sua proposta é que o sujeito da historia, e não apenas a historia do sujeito, seja levado em conta, pois não se deve analisar apenas o contexto externo do individuo, mas antes, e, principalmente, seu mundo interno, particular e concreto, em outras palavras, o sujeito em “carne e osso”. (2008 p. 297)

 Ou seja, não é somente a biografia em quanto histórica, social e biológica que faz o individuo “ser quem ele é”, mas também, do individuo, como ser ativo, e não somente passivo, que apropria do que “fizeram ele ser quem ele é”, para “se tornar quem ele fez com o que fizeram dele ser”, atingindo sua dimensão psicológica e singular de sujeito em construção.

Portanto, o homem é construído na medida em que vai construindo, e, constrói, na medida em que vai sendo construído também, numa relação dialética com seu meio, num “eterno” vai e vem, e, por isso, Sartre estabelece o método progressivo-regressivo, que consiste compreender a realidade humana como um movimento dialético entre objetivo (historia, época, cultura, educação, trabalho e etc) e o subjetivo (assimilação do sujeito que ativo apreende internamente o que esta fora dele)
.
Concluo então, que as principais contribuições de Sartre para a psicologia foram:
                 (1) Sua critica construtiva e demolidora contra o subjetivismo, mecanicismo e mentalismo reinante na psicologia, principalmente behaviorismo e psicanálise clássica, onde o subjetivismo dava ênfase apenas ao mundo interno do sujeito, ficando assim por demais reducionista, não considerando o mundo externo e a relação deste com o sujeito, e do sujeito com este, pois o sujeito não é apenas produto do meio, mas produtor também. Já a ênfase mentalista considerava este mundo interno como uma estrutura já pronta, pré-dada e pré-determinada, negando as possibilidades abertas frente ao sujeito, e, por ultimo, a visão mecanicista do meio como único determinante do ser, que segundo Sartre, “se faz na medida em que é feito”.
                     (2) E, finalmente sua proposta de uma nova psicologia e psicanálise existencial onde considera como método principal de investigação do individuo, a dialética do contexto amplo, como sua vida privada (singular/universal), não descartando o mundo fora como de dentro, onde o sujeito no final é o responsável absoluto por fazer a síntese entre objetivo e subjetivo, entre a passividade de “ser o que o seu meio totalizante fez dele ser”, e o que ele “fez com o que fizeram dele ser”.    


Esta postagem é um pequeno resumo do trabalho acadêmico que fiz para a disciplina  teorias humanistas
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