terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

ATÉ QUANDO MUROS E GRADES?

por Matheus De Cesaro

Para descontrair um pouco vamos curtir uma boa canção e meditar sobre a mensagem que ela nos trás.

“A violência, seja ela qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota”

Jean Paul Sartre

Assim buscamos a paz, por meio de grades e muros, por meio de uma liberdade privada, assim fugimos da violência que nós mesmos produzimos e alimentamos por meio de nossos preconceitos e nossas convicções egoístas. Ou somos mais humanos, ou nos tornamos mais monstros, e assim, nos restara somente muros e grades, muros e grades... Somente muros e grades, e a mais completa escravidão, escuridão e vazio na alma! Nos tornamos tão pobres, mas tão pobres, que a única coisa que nos resta, é dinheiro.


“Nas grandes cidades do pequeno dia-a-dia
O medo nos leva a tudo, sobretudo a fantasia
Então erguemos muros que nos dão a garantia
De que morreremos cheios de uma vida tão vazia
Erguemos Muros

Nas grandes cidades de um país tão violento
Os muros e as grades nos protegem de quase tudo
Mas o quase tudo quase sempre é quase nada
E nada nos protege de uma vida sem sentido
O quase tudo quase sempre é quase nada

Um dia super
Uma noite super
Uma vida superficial
Entre cobras
Entre as sobras
Da nossa escassez

Um dia super
Uma noite super
Uma vida superficial
Entre sombras
Entre escombros
Da nossa solidez

Nas grandes cidades de um país tão surreal
Os muros e as grades
Nos protegem de nosso próprio mal
Levamos uma vida que não nos leva a nada
Levamos muito tempo prá descobrir
Que não é por aí...não é por nada não
Não, não pode ser...é claro que não é
Será?

Meninos de rua, delírios de ruína
Violência nua e crua, verdade clandestina
Delírios de ruína, delitos e delícias
A violência travestida, faz seu trottoir
Em armar de brinquedo, medo de brincar
Em anúncios luminosos, lâminas de barbear!

Um dia super
Uma noite super
Uma vida superficial
Entre cobras
Entre as sobras
Da nossa escassez

Uma voz sublime
Uma palavra sublime
Um discurso subliminar
Entre sombras
Entre escombros
Da nossa solidez

Viver assim é um absurdo
Como outro qualquer
Como tentar um suicídio
Ou amar uma mulher
Viver assim é um absurdo

É um absurdo”
Humberto Gessinger e Augusto Lick’s


Somos reféns de tudo o que produzimos, somos vítimas de nossas próprias fantasias, que alimentadas pelo medo, e que supostamente nos outorgam direitos de cobrança, das autoridades, da sociedade, de tudo e de todos, mas nunca de nós mesmos. Realmente viver assim é um absurdo. Protegidos de quase tudo, e ao mesmo tempo de quase nada, nos protegemos dos outros, mas não nos protegemos da nossa ignorância em pensar que somente nós somos especiais edignos de bem estar. É como dizia o ícone da MPB Beto Guedes, “1 + 1 sempre será mais que dois”. Precisamos de proteção, não do que é material e temporal, mas sim, daquilo que aprisiona e pode ser eterno, precisamos nos proteger de nós mesmos. Precisamos erradicar a violência, que nem sempre esta no vizinho como costumamos pensar, mas sim, muitas vezes esta em nossa casa, confortavelmente debruçado e bem acomodado em nossa enganosa mente.

“Todos os seres vivos tremem diante da violência. Todos temem a morte, todos os seres vivos amam a vida. Projete você mesmo em todas as criaturas. Então, a quem você poderá ferir? Que mal você poderá fazer?”

Buda

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Ainda não desisti da Igreja!




Na postagem anterior, em que somente quatro membros desta confraria virtual participaram com seus comentários, a condução do debate entre eu e o Levi Bronzeado acabou se conduzindo para a construção de um novo modelo de Igreja, quando então o companheiro respondeu propondo que se passasse "a régua" e viesse um novo texto. Eu, no entanto, resolvi que seria mais apropriado dar continuidade à discussão tratando aqui sobre o tema Igreja e deixando de lado a ordem das postagens uma vez que a última reforma do blogue não pegou entre os nossos colaboradores.

Amados, será que a reforma da Igreja é algo que acabou e deva ficar somente na história? E nós que somos hoje os seus exilados nesta era de fundamentalismo religioso e do marketing do televangelismo, por acaso não sentimos falta de um convívio comunitário fraterno, ansiando por caminhar unidos com nossos irmãos/irmãs, ajudando uns aos outros sem dogmas, sem causar o obscurecimento de ideias, sem discriminação de qualquer tipo, sem a exploração da fé alheia, sem demagogias e evitando as armadilhas do nefasto secularismo?!

Verdade é que sempre desejamos retornar aos primeiros tempos, o que também ocorre com os entusiastas da Igreja de Cristo como ainda é o meu caso. Mas tenho aprendido ser impossível "tomar banho duas vezes num mesmo rio", segundo bem havia dito o filósofo considerando que todas as coisas estão em permanente evolução. Logo, tanto a C.P.F.G. quanto a amada Igreja, a Noiva do Cordeiro que Cristo buscará "sem ruga e sem mácula", caminham neste sentido. Parece-me uma ilusão alguém achar que vai conseguir recriar o ambiente de comunismo voluntário e de aventuras milagrosas experimentado pela Igreja Primitiva, tal como foi nos tempos apostólicos descritos pelo autor do livro de Atos.

Durante o debate com o Levi, eu havia esboçado algo sobre o novo modelo de Igreja que sonho, algo capaz de promover uma revolução espiritual. Por isso, cito novamente alguns valores e propostas que, a meu ver, devem ser buscados com esse propósito evolucionista para serem colocados em prática pelos reformadores do século XXI:

- Educação espiritual das crianças com leitura bíblica e uma espécie de doutrina religiosa introdutória;

- a discussão permanente das condutas éticas que seriam codificadas em livros para a observância das pessoas;

- a atuação na área social prestando socorros emergenciais, elaborando e executando projetos, acompanhando e participando das decisões políticas relevantes a nível local, regional, nacional e mundial;

- o diálogo e a cooperação com outros grupos religiosos;

- a execução de trabalhos voltados para a assistência psicológica dos membros e não membros.

Meus irmãos e irmãs (espero ler desta vez alguma letra feminina), essas são apenas algumas sugestões e acredito que, com a contribuição de mais internautas, avançaremos ainda mais nos debates. Minha ideia nesta postagem não é a de escrever um enorme tratado pois, em tal caso, eu editaria um livro ou um moderno e-book. E como se trata de algo ainda em construção na minha mente, quero mais é debater e colher opiniões de maneira que me coloco aberto para ouvir o que outros têm a me dizer, quer estejam desiludidos com a Igreja ou não.

A paz do Senhor!


OBS: A ilustração acima refere-se à célebre pintura do artista italiano Pietro Perugino (1448-1523) encontrada na Capela Sistina, Vaticano, onde se retrata Cristo entregando as chaves da Igreja a Pedro. Foi extraída de http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Gesupietrochiave.jpg

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Um “Pega” no Século II Sobre o Filho de José

Por Levi B. Santos


Os judeus (rabinos) do século II viam o proselitismo em torno da figura de Jesus como um fenômeno de natureza fanática. Naquele tempo os judeus em suas Sinagogas eram coagidos pela igreja primitiva a confessar a messianidade de Jesus. Por essa época, a história da concepção de um filho de Deus por uma virgem estava sempre motivando polêmicas ou “pegas” entre pagãos e cristãos. Não é que os judeus detestavam Jesus. Eles o tinham como um “profeta ou um impaciente anunciante do final dos tempos”. Eles achavam que “a igreja tinha dotado Jesus de traços não judeus, para em seguida fazer de seu nome o instrumento de um anti-judaísmo não cristão” [ “Filho de José? – Jesus no Judaísmo”, de Pinchas Lapinde ].

No célebre “Diálogo de Trifão”, Justino, que se convertera ao cristianismo em Éfeso e foi martirizado no tempo de Marco Aurélio, mostra um ácido diálogo imaginário, possivelmente, entre um judeu (ou pagão?) e um cristão.

O livro, História dos Dogmas – volume III”, de Henry Borgeois, cita a insistência dos primeiros cristãos em propagar a concepção virginal de Jesus, e a recusa categórica de muitos judeus e pagãos que consideravam tal história uma aberração ou uma construção de caráter ignominioso. É fato que os opositores dos cristãos viam no relato do evangelho de Mateus algumas nuances em favor de uma concepção adulterina da parte de Maria. Para alguns judeus, o cristianismo tinha se voltado para o paganismo dos mitos.

Momentos quentes do diálogo entre Justino e Trifão [Pagão(?), Judeu(?) ], que aqui reproduzo, mostram como esse imbróglio da virgindade de Maria, que mais tarde se tornaria um forte dogma, causou naquela época  tanta celeuma e gracejos. O que, de certo modo, não deixa de ocorrer ainda hoje.


Justino, defendendo a concepção virginal:

“Para que não venham, por falta de penetração do sentido dessa profecia, nos dirigir a acusação que justamente dirigimos aos poetas que contam as relações amorosas de Zeus com suas mulheres, vamos tentar explicar essas palavras. As palavras “Eis que a virgem conceberá”, significam que a virgem concebeu sem relação carnal, pois, nesse caso não seria mais virgem; mas o poder de Deus desceu sobre a virgem, tomou-a sobre sua sombra e a fez mãe sem atentar contra a sua virgindade. Esse é o ensino daqueles que escreveram a narrativa e tudo o que concerne a Jesus Cristo, nosso Salvador. E nós cremos neles, porque pela boca de Isaías, que citamos, o Espírito Profético anunciou que ele devia nascer, assim como indicamos mais acima.[...] Esse Espírito que desceu sobre a virgem e a tomou, a fez mãe, não por união carnal, mas milagrosamente”.


A Réplica do pagão, Trifão:

Nas fábulas dos que chamamos de ‘gregos’, diz-se que Perseu nasceu de Danai, que era virgem, depois que aquele que, entre eles se chama Zeus tinha se derramado sobre ela em forma de ouro. Vós deveríeis corar ao contar as mesmas coisas que eles, e seria melhor dizer que esse Jesus seria um homem entre os homens, e demonstrar pelas Escrituras, que ele é o Cristo, que foi julgado digno, por causa de sua vida perfeita e conforme a Lei, de ser escolhido como Cristo. Mas não faleis de prodígios, se não quiserdes ser acusados de tolos como os gregos”.


Justino, respondendo a Trifão, de forma veemente:

Trifon, quero que te convenças inteiramente, tu e todos os homens, de que, mesmo que me dirigirdes as piores caçoadas e zombarias, não me fareis abandonar meu propósito: ao contrário, das palavras e das coisas que pensais me opor para me convencer, sempre tirarei as provas de minhas declarações com o testemunho das Escrituras”.


Sobre um pequeno romance de Jesus, veiculado na época, Orígenes toma as dores de Justino:

[Celso] apresenta um judeu em diálogo com o próprio Jesus, pretendo convencê-lo de várias coisas, a primeira sendo a de ter inventado o seu nascimento de uma virgem. Depois, acusa-o de ter saído de uma povoação da Judéia e nascido de uma região, pobre e fiandeira. Diz em seguida, que rejeitada por seu marido, vergonhosamente vagabunda, ela dá à luz a Jesus, em segredo; que este foi obrigado, por pobreza, a ir alugar os seus serviços no Egito; lá ele adquiriu a experiência de certos poderes mágicos de que se gabam os egípcios; volta, todo envaidecido desses poderes e, graças a eles, proclama-se Deus. [...]
“Voltemos às palavras atribuídas ao judeu, onde está escrito que a mãe de Jesus foi expulsa pelo carpinteiro que a tinha pedido em casamento, por ter sido acusada de adultério e ter engravidado por obra de um soldado chamado Pantera, e vejamos se os autores dessa fábula de adultério da virgem com Pantera e de seu repúdio pelo carpinteiro não a forjaram cegamente para negar a concepção milagrosa do Espírito Santo. Teriam podido, com efeito, por causa de seu caráter absolutamente milagroso, falsificar a história de outra maneira, mesmo sem admitir, involuntariamente, por assim dizer, que Jesus nascera de um matrimônio ordinário”. [ORÍGENES, contra Celso]

P.S.:

Entre os primeiros cristãos, o homem Jesus foi relegado a um segundo plano. Sua imagem foi encoberta pela imagem de um Cristo glorificado. Com isso, os cristãos reprimiram a dolorosa realidade, de que Jesus, na cruz, se viu abandonado por Deus”. [ “Conflito e Paz”Bert Hellinger ]

Rabinos e mentores da Igreja primitiva, que se zangavam facilmente na idade média, hoje, até que mantêm o jogo do convencimento e da conversão ― fonte de todo litígio ―, em fogo brando. Modernamente estão mais ou menos apaziguados: Quando os cristãos dizem que Jesus é Deus feito homem, os rabinos ficam felizes porque esses mesmos cristãos adoram um Judeu.

Schalom Bem Chorim, um dos ilustres pensadores judaicos, chegou a dar estocadas provocativas nos cristãos, como esta: “...a fé de Jesus une judeus e cristãos, enquanto a fé em Jesus os separa”.


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