domingo, 27 de abril de 2014

A terrível quebra de diálogo entre as gerações




"E como é importante o encontro e o diálogo entre as gerações, principalmente dentro da família" 
(palavras do papa Francisco nos dias de sua visita ao Brasil em 2013)


Neste último sábado (26/4), estava a ler o Salmo 78, quando os seus primeiros oito versículos me fizeram refletir acerca da nossa atual condição crítica no Brasil e no Ocidente em geral. Em seu poema, Asafe assim teria declarado ao seu povo:

"Em parábolas abrirei a minha boca, proferirei enigmas do passado; o que ouvimos e aprendemos, o que nossos pais nos contaram não os esconderemos dos nossos filhos; contaremos à próxima geração os louváveis feitos do Senhor, o seu poder e as maravilhas que fez. Ele decretou estatutos para Jacó, e em Israel estabeleceu a lei, e ordenou aos nossos antepassados que a ensinassem aos seus filhos, de modo que a geração seguinte a conhecesse, e também os filhos que ainda nasceriam, e eles, por sua vez, contassem aos seus próprios filhos. Então eles porão a confiança em Deus; não esquecerão os seus feitos e obedecerão aos seus mandamentos." (Salmos 78:2-7; NVI)

Provavelmente o autor bíblico deveria estar se recordando das palavras de Deuteronômio 6, onde está a importante confissão monoteísta do Shemá Yisrael ("Escuta, Israel"), recitada todas as manhãs e finais de tarde pelos judeus afim de relembrarem a aliança estabelecida entre Deus e o povo no monte Sinai. Ali pode-se afirmar que Moisés teria aconselhado a geração que entraria na Terra Santa a gastar tempo conversando com os filhos, estimulando o interesse da criança pelo passado glorioso de sua nação afim de infundir-lhe a fé e a esperança de seus antepassados.

É interessante observar que, também entre os indígenas, transmite-se o saber às novas gerações, emergindo de cada etnia as relações de poder, coletivo, baseando-se no diálogo para a solução dos problemas por eles enfrentados. Pois, mesmo desconhecendo a escrita, os povos que julgamos "primitivos" guardam um rico conhecimento sobre a vida e de respeito pela natureza. São guardiões de uma ética que a nossa sociedade acabou perdendo com o seu progresso civilizatório multiplicador de necessidades.

Contudo, entre nós, a ausência desse indispensável diálogo tornou-se patente nos últimos tempos. Há quem considere ter isso ocorrido entre o final da década de 1960 e os anos 70, colocando a geração nascida no pós-guerra como a grande vilã da rebeldia. Só que a responsabilidade pela educação e transmissão do conhecimento sempre foi dos pais. Daí, se os filhos não quiseram mais ouvi-los, não seria por causa de um excesso de autoritarismo e da falta de conexão dialogal?

Como resultado de todo esse processo trágico, temos hoje pais vazios em conteúdo e que nada têm a passar para os filhos. As pessoas tornaram-se vítimas do comodismo e das próprias distrações do cotidiano. E, desta maneira, sem dúvida que o secularismo contribui decisivamente para essa perda de princípios porque os bons hábitos de uma tradição são esquecidos e passam a ser substituídos por atividades nem um pouco construtivas. Ou seja, a criança acaba sendo "educada" pela TV, pela internet, pelos joguinhos eletrônicos e pelas más companhias da rua.

Mas não vamos ficar culpando os pais "por tudo", como diz aquela música cantada pelo grupo Legião Urbana! Cada ser humano pode exercer o seu direito de escolha e procurar as coisas boas por mais que o ambiente externo seja desfavorável. Logo, cabe a nós invertermos todo esse processo negativo dentro da cultura brasileira, a qual tem o cristianismo em suas origens e deve se fortalecer novamente com base nos saudáveis valores bíblicos. E, nesta redescoberta, precisamos estar disposto a dialogar sempre com as crianças, ouvindo suas dúvidas, perguntas e inquietações. Como pais, avós, professores ou pastores espirituais precisamos dar a elas essa liberdade durante as nossas conversas, presentificando-nos a respondê-las e indo sempre além daquilo que os pequeninos esperam ouvir.

Concluo este artigo incentivando o meu leitor a elaborar uma educação entusiasmada em seu trato com as gerações de seus filhos e netos. Cuida-se de um trabalho que exigirá de nós paciência e também fé, cientes de que estamos ainda plantando boas sementes as quais a seu tempo germinarão no solo dos corações dos infantes. Talvez não colheremos agora os frutos, mas estaremos criando condições para o surgimento de um novo Brasil diferente do seu quadro atual de corrupção, dependência química, criminalidade e injustiças sociais. Afinal, as mudanças que desejamos para um país requerem tempo para amadurecimento, mas precisam que alguém idealista trabalhe hoje para que elas ocorram. Alguém como Moisés que, mesmo sem entrar na Terra Santa, transmitiu aos israelitas uma inspiradora constituição escrita enquanto esteve buscando a Deus na montanha do Sinai.


OBS: Imagem acima extraída de http://radios.ebc.com.br/radioteatro-contos-no-radio/edicao/2014-04/amigo-do-rei-episodio-de-contos-no-radio

domingo, 20 de abril de 2014

O Poder Acachapante do Imperador


Por Levi B. Santos


Faz parte de nossa tradição considerar que abaixo de Deus está o Imperador no comando do destino de nossa Colônia. Para confirmar o fascínio que os líderes carismáticos exerciam sobre o povo, o escritor Cassiano Nunes, em seu livro - “Cartas do Povo Brasileiro ao Presidente”, mostra com fortes cores o sentimento de inferioridade dos colonos ante os poderes “divinos” dos imperadores.

Quem estudou História do Brasil, sabe muito bem como os missivistas do tempo de nossa colonização se dirigiam ao Rei. Curvando-se até o chão imploravam “A nossa esperança está primeiramente em Deus e depois em Vossa Excelência!". A sentença era certeira: qualquer um que duvidasse ou discordasse dos decretos imperiais o destino seria o calabouço.

Mas lá se vão mais de 120 anos, e o rescaldo dessa cultura, de forma aparentemente sutil, ainda permanece enraizada em nosso inconsciente. Hoje, os calabouços funcionam com outras nuances. Os métodos que os reis da Venezuela e do Brasil usam e abusam contra seus opositores podem até não tirar a vida, mas tiram o pão, e castram a alma da vítima, maculando seu passado e seu presente, além da perseguição que brutalmente atingem até os familiares dos inconformados no meio da sociedade.

O Jornalista Adriano Ceolin, em um recente artigo, veiculado pela Revista VEJA desta semana, intitulado ― “Um Grito de Não à Fraude” ― trata do dilema de um servidor demitido sumariamente por mostrar que sua consciência não estava à venda. Diz o autor do texto: “Há dois tipos de servidor público. Um deles serve aos políticos e, por isso, ascende na hierarquia e acumula prestígio e patrimônio rapidamente. O outro serve ao país, enfrenta interesses poderosos e, por isso, muitas vezes passa dissabores no trabalho". Leonardo Rolim sentiu nos ombros o faro de pertencer ao segundo grupo. Segundo o “status quo”, esse técnico de carreira caiu na "besteira" de corrigir um erro crasso que estimava ser o rombo da previdência em 40 bilhões (fonte do governo), quando na verdade o rombo era de 50 bilhões. Resultado: terminou sendo mandado para a geladeira. O seu superior hierárquico, o ministro da previdência, sob pressão do governo, e para não perder a boquinha, fez essa ignominiosa declaração à imprensa:    
“O Rolim é um ótimo técnico, mas não é hábil politicamente. O Rolim por não aceitar a farsa (maquiagem estatística pré-eleitoral) perdeu o cargo".

Segundo José Júlio Senna (PhD em Economia pela Universidade de Baltimore, EUA), em seu livro “Os Parceiros do Rei” (Editora Topbooks), mostra que esse vil procedimento vem de muitas eras. Eras em que "os vassalos (futuros funcionários públicos - grifo meu) dependiam da vassalagem para o próprio sustento, ao passo que os vassalos não podiam prescindir da proteção oferecida por seus superiores.

Atualmente, institutos de pesquisas, como o IBGE, com oito décadas de existência, vêm sofrendo pressões e mais pressões do governo para maquiar para baixo a taxa atual de desemprego no país. O IPEA, segundo a Folha de São Paulo, forja dados para afagar o ditador “mui amigo”, Maduro, da Venezuela. 

Aqui no Brasil, o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) tornou-se um grande cabide de empregos para os parceiros do Rei. A Petrobrás virou instrumento de arrecadação para campanhas políticas e enriquecimento pessoal, tendo até entrega de dinheiro em domicílio.

A CGU está aí a apontar o Ministério da Saúde como o campeão de desvio de dinheiro nos últimos dez anos. (VIDE LINK). Às barbas do ministro Padilha (aquele do Mais Médicos) funcionava um esquema criminoso que montou um laboratório de fachada  para lavar dinheiro, envolvendo nada mais e nada menos que o vice-presidente da Câmara, segundo o que foi noticiado no mundo inteiro pela imprensa e Televisão.

Há razão demais para entender porque o poder acachapante do Governo não mais admite alternância no posto maior da colônia. O ensaísta J.R. Guzzo, em seu mais recente artigo, elenca os motivos, pelos quais, “o projeto do PT não pode cair”. Diz ele em seu mais recente artigo ― “A Casa Não Pode Cair”:

“Em vez de trabalhar para construir um Brasil mais justo, confortável e promissor para os brasileiros, todo o esforço do partido se concentra em não largar o osso do governo. O que muda, se saírem, não é nada que tenha a ver com idéias, princípios ou valores; o que muda no duro, é a sua vida material: Vão se embora 20.000 altos empregos que tem no governo federal. Vão-se embora as oportunidades ilimitadas de negócios com o poder público. Vão-se embora as Passadenas, os mensalões. Ficam as fortunas criadas nos porões da Petrobrás. Ficam as rosemarys, os youssefs e milhares de outros com eles. Ficam o caviar de Roseana Sarney, os jatinhos, os planos médicos milionários. Ficam as diárias de hotel a 8.000 euros. Fica um STF obediente.Mas que tudo, fica garantida a impunidade”.

Pasmem! E vejam a que nível chegaram as estripulias do poder imperial:

 Segundo a Folha de São Paulo, O PT, nesta Páscoa, criou um evento para treinar ativistas (um exército digital) a fim de nas redes sociais divulgar ações positivas do governo Dilma-Lula e rechaçar notícias negativas. O PT estadual de São Paulo (com os impostos dos contribuintes) arcará com as despesas de estruturas. LEIAM MAIS AQUI


Guarabira, 20 de abril de 2014

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Uma Páscoa pra lá de inovadora



"Chegou o dia da Festa dos Pães Asmos, em que importava comemorar [sacrificar] a Páscoa. Jesus, pois, enviou Pedro e João, dizendo: Ide preparar-nos a Páscoa para que a comamos. Eles lhes perguntaram: Onde queres que a preparemos? Então, lhes explicou Jesus: Ao entrardes na cidade, encontrareis um homem com um cântaro de água; segui-o até à casa em que ele entrar e dizei ao dono da casa: O Mestre manda perguntar-te: Onde é o aposento no qual hei de comer a Páscoa com os meus discípulos? Ele vos mostrará um espaçoso cenáculo mobilado; ali fazei os preparativos. E, indo, tudo encontraram como Jesus lhes dissera e prepararam a Páscoa. Chegada a hora, pôs-se Jesus à mesa, e com ele os apóstolos. E disse-lhes: Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa, antes do meu sofrimento. Pois vos digo que nunca mais a comerei, até que ela se cumpra no reino de Deus. E, tomando um cálice, havendo dado graças, disse: Recebei e reparti entre vós; pois vos digo que, de agora em diante, não mais beberei do fruto da videira, até que venha o reino de Deus." (Evangelho de Lucas, capítulo 22, versículos de 7 a 18; versão e tradução ARA)

Tradicionalmente a cristandade possui o hábito de fazer uma leitura da última Páscoa de Jesus e da Santa Ceia a partir de um ponto de vista, digamos, mais sacramental. Concebemos esse lindo episódio como uma ordenança do nosso Senhor e que devemos repetir continuamente em sua memória, tendo por objetivo anunciar o Reino de Deus em sua plenitude (verso 18), o que coincide com a ideia sobre a segunda vinda de Cristo (conf. 1ªCo 11:26).

De fato, a celebração da Ceia corresponde a tudo isso. Porém, antes de mais nada, nunca podemos ignorar que ela foi e será sempre uma expressão da comunhão. Algo vivido espontaneamente por Jesus e seus discípulos ao redor de uma mesa, num ambiente de profunda e autêntica intimidade fraterna.

O dia da Festa dos Pães Asmos acontecia quando os judeus, segundo o calendário bíblico-religioso, sacrificavam o cordeiro pascal (Nm 28:16-25). Tratava-se de uma refeição que deveria ser comida por grupos de famílias israelitas exclusivamente no Templo (Dt 16:5-8), tal como teria sido a comemoração ocorrida durante o reinado de Josias (2Cr 35:1-19).

Jesus, no entanto, prefere desafiar os costumes e não ir ao Templo desta vez como havia feito nos dias anteriores para ensinar lá o povo (Lc 21:37-38). Antes, o Mestre enviou Pedro e João para que estes preparassem a Páscoa num local ainda desconhecido pelos demais discípulos em que o Senhor parece ter contratado secretamente com o proprietário do imóvel. Quando entrassem em Jerusalém, os dois apóstolos deveriam procurar por um homem portando um cântaro de água, algo incomum naqueles dias porque tais objetos costumavam ser carregados mais pelas mulheres (os homens transportavam água em odres de pele). Logo, tratava-se de um evidente código de comunicação.

Ao que me parece, Jesus deveria saber que estava sendo traído e resolveu tomar as providências necessárias para que a sua prisão não ocorresse antes daquele importante momento. Se os demais seguidores conhecessem previamente onde seria a Ceia, Judas poderia muito bem aparecer no local acompanhado da guarda do Templo e o Senhor seria prematuramente preso. Só que o Salvador pretendia se entregar voluntariamente em um outro lugar e na hora que ele entendia ser oportuna.

A última Páscoa de Jesus foi de fato uma ocasião pela qual o Senhor aguardou ansiosamente antes de sofrer o martírio na cruz. Os versos 15 e 16 acima citados expressam o seu desejo intenso por estabelecer uma relação de comunhão com os seus discípulos. Algo que o ambiente hipócrita dos templos, muitas vezes impregnados de uma religiosidade fingida, jamais seria capaz de proporcionar. Ficar repetindo uma tradição vazia era uma rotina que não mais interessava ao Mestre. Neste sentido, vale a pena citar os pertinentes comentários do teólogo italiano Sandro Gallazzi feitos em seu livro e estudo sobre o 1º Evangelho:

"No templo, o centro é o altar. Imenso, visível: uma base de 10 metros, uma altura de 6 metros, o fogo dos sacrifícios sempre aceso. Os cordeiros eram distribuídos ao povo depois de ter sido degolados e depois de os sacerdotes ter recolhido o sangue e feito as prescritas aspersões rituais (2Cr 35,11). A páscoa, comida por todos, era precedida pelos holocaustos imolados no altar do templo. O altar que nos subjuga a Deus e a seus sacerdotes, é substituído pela mesa que nos faz iguais e irmãos (...) A imagem de uma multidão de gente de pé, ao redor de um altar fumegante, encharcado do sangue de milhares de cordeiros, é totalmente diferente de um grupo de amigos reclinados ao redor de uma mesa para condividir um prato de comida." (O Evangelho de Mateus - uma leitura a partir dos pequeninosComentário Bíblico Latinoamericano. São Paulo: Fonte Editorial, 2012, pág. 526)

Refletindo acerca do versículo 17 da passagem bíblica que citei, encontro no Evangelho uma mensagem que vai bem além do simples ritual. A ordenança de receber e de repartir precisa tornar-se extensiva quanto à vida comunitária dentro da Igreja. Os discípulos deveriam partilhar tudo o quanto tinham afim de satisfazerem as necessidades dos seus irmãos. Quer fossem bens materiais, ensinamentos ou dons espirituais. O cálice do vinho tinto, um momento de alegria festiva dos judeus, deve nos levar a uma ação inclusiva de modo que a Igreja não pode deixar de dividir com quem tem fome e sede. Aprendemos que jamais deve-se recusar o "cálice" e nem tomá-lo egoisticamente, de modo que encontro aí uma razão semelhante pela qual teria Paulo repreendido severamente os coríntios:

"Quando, pois, vos reunis no mesmo lugar, não é a ceia do Senhor que comeis. Porque, ao comerdes, cada um toma, antecipadamente, a sua própria ceia; e há quem tenha fome, ao passo que há também quem se embriague. Não tendes, porventura, casas onde comer e beber? Ou menosprezais a igreja de Deus e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto, certamente, não vos louvo." (1ªCo 11:20-22)

A Igreja é lugar de comunhão verdadeira e daí entendo que, quando Paulo disse "se alguém tem fome, coma em casa" (1ªCo 11:34), o apóstolo também leva os seus leitores a refletir sobre o nível de compreensão que deve acompanhar a vida comunitária eclesiástica. Pois, em Cristo, somos chamados para formar uma nova família de modo que deixamos de ser uma reunião de "grupos de casas paternas", conforme pode ser traduzido 2Cr 35:12. Então, quem ainda não alcançou essa consciência e não está disposto a dividir, que faça seus banquetes particulares na própria residência, mas não deve trazer para o convívio da congregação os costumes desiguais de uma sociedade secular injusta.

Assim, pode-se concluir que foi dentro desse ambiente alternativo que o nosso Senhor estabeleceu um novo pacto/aliança (ou a atualização da memória do ocorrido no Sinai entre os israelitas da época de Moisés). Foi quando o Mestre ofereceu algo eterno e inquebrável que não mais depende da repetição dos antigos sacrifícios de animais, conforme o sistema penitencial ainda adotado em seu tempo. Antes nos colocou diante de um pacto de elevado nível consciencial em que Deus considera cancelados todos os nossos pecados. E, estando nós agraciados incondicionalmente, independente das obras feitas, passamos a viver dentro de um outro padrão ético, perdoando/amando o irmão da mesma maneira como fomos perdoados/amados pelo Pai Celestial. Se falhamos, não mais temos que cultivar dentro de nós a culpa que é coisa cancerosa e improdutiva. A atitude correta torna-se a reparação voluntária do mal dentro da prática contínua do bem, visto que o amor compõe a essência do Cristo.

Desejo a todos uma feliz Páscoa!


OBS: A ilustração acima refere-se a um fresco do Mosteiro Kremikovtsi, Bulgária, do século XVI. A autoria da foto, de 06/05/2011, é atribuída a Edal Anton Lefterov que a dedicou ao domínio público. Extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia conforme consta em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Last-supper-from-Kremikovtsi.jpg

quinta-feira, 10 de abril de 2014

A Ciência da Sobrevivência Judaica - Pêssach




Por Dov Greenberg


Há mais de três mil anos, um grupo de escravos judeus foram libertados do Egito. Desde então, nessa época do ano, revivemos sua história em Pêssach, a Festa da Liberdade.

Imagine que pudéssemos viajar de volta no tempo e dizer ao Faraó: "Temos boas e más notícias. A boa é que um dos povos que estão vivos hoje sobreviverá e mudará a paisagem moral do mundo. A má notícia é: não será o seu povo. Será aquele grupo ali de escravos hebreus, que estão construindo seus gloriosos templos, os Filhos de Israel."

Nada poderia ser mais ultrajante. O Egito do tempo dos faraós era o maior império do mundo antigo, brilhante em artes e ciências, formidável na guerra. Os israelitas eram um povo sem terra, escravos indefesos. De fato, já na antiguidade, aqueles no poder acreditavam que os israelitas estavam em vias de extinção. A primeira referência a Israel fora da Bíblia é um obituário do povo judeu. Está inscrito numa pedra grande de granito, que hoje se encontra no Museu do Cairo: Ali diz: "Israel acabou. Sua semente não existe mais."

A história da sobrevivência judaica é tão excepcional, vasta e sem paralelos que desafia a imaginação. Em nosso próprio século, as duas grandes potências que anunciaram: "Israel acabou" – o Terceiro Reich de Hitler e a União Soviética – foram esmagados e desmantelados. Porém o povo de Israel vive.

Muitos pensadores e cientistas sociais tentaram, e ainda estão tentando, entender a sobrevivência de um povo, uma fé e um legado durante três milênios de condições históricas praticamente impossíveis. Blaise Pascal, o notável pensador, matemático, teólogo, físico francês do Século Dezessete, escreveu:

"Em algumas partes do mundo podemos ver um povo peculiar, separado dos outros povos do mundo, chamado de povo judeu… Este povo não apenas é de impressionante antiguidade como também tem perdurado por um tempo singularmente longo… Pois enquanto os povos da Grécia e Itália, de Esparta, Atenas, Roma e outros que surgiram muito depois pereceram há tanto tempo, este ainda existe, apesar dos esforços de tantos reis poderosos que tentaram uma centena de vezes acabar com ele, como seus historiadores atestam, e como pode ser facilmente julgado pela ordem natural das coisas no decorrer de tantos anos. Eles sempre foram preservados, no entanto, e sua preservação foi prevista… Meu encontro com esse povo me surpreende…"¹

Este é um tributo comovente, mas exige explicações.


A Ciência da Sobrevivência

Talvez possamos encontrar nossa resposta nos grandes pensadores empíricos de nosso tempo, os cientistas. Eles nos dizem que quando um cientista procura determinar as leis que governam um determinado fenômeno, ou descobrir as propriedades essenciais de um elemento da natureza, deve fazer uma série de experimentos sob as mais variadas condições para descobrir aquelas propriedades ou leis sob as quais todas as condições são as mesmas.

O mesmo princípio poderia ser aplicado à sobrevivência judaica. É um dos povos mais antigos do mundo, começando sua história nacional com a revelação no Sinai há mais de três mil anos. No decorrer desses séculos, os judeus viveram sob condições extremamente variadas. Foram dispersos pelo mundo. Tiveram múltiplos idiomas, possuíram uma diversidade de culturas. Por exemplo, Rashi viveu na França cristã. Maimônides nasceu na Espanha islâmica. Rabi Akiva viveu sob o governo romano; os sábios talmúdicos sob a hegemonia babilônica. Suas sociedades foram totalmente diferentes. Tudo que os ligava no espaço e tempo eram uma fé, o estilo de vida de Torá.

Nenhum outro povo sobreviveu durante tanto tempo sob tais circunstâncias. Se quisermos descobrir os elementos essenciais que formam a causa e a própria base da existência de nosso povo e sua força singular, devemos concluir que não foi sua terra, idioma, cultura, predisposição racial ou herança genética. O único fator constante que preservou nosso povo durante todas as vicissitudes é o tenaz apego ao nosso legado espiritual.

Foi isso que tornou nosso povo indestrutível apesar de milênios de investidas contra o corpo e alma judaicos por bandidos e monstros de todas as espécies.

O que a História Judaica nos diz é que a força do nosso povo como um todo, e de cada indivíduo, está num compromisso fiel à nossa herança espiritual, a base e essência de nossa existência.


O peixe e a raposa

Ninguém expressou isso melhor que Rabi Akiva, o grande sábio do Segundo Século. O Talmud relata como Rabi Akiva ensinava Torá em público na época em que o governo romano, sob o Imperador Adriano, proibiu essa atividade. Outro sábio, Pappus ben Judah, advertiu-o de que estava arriscando a própria vida. Rabi Akiva respondeu com a seguinte parábola:

Uma raposa certa vez caminhava pela margem de um rio, quando viu peixes pulando de um local para outro. "Por que estão fugindo?" perguntou ela aos peixes. "Para escapar das redes do pescador." “Neste caso", disse a raposa, "venham viver na terra seca junto comigo."
"Você é aquele que descrevem como o mais esperto dos animais?" disse o peixe. "Você não é esperta, mas tola. Se estamos em perigo dentro da água, que é onde vivemos, imagine em terra seca, onde certamente morreremos."²

A Torá é para a sobrevivência judaica, disse Rabi Akiva, como a água para o peixe. Sim, estamos em perigo, mas se deixarmos a Torá, que sustenta nossa identidade, para entrarmos na terra seca dos Romanos, certamente morreremos.

Esta não era meramente a convicção pessoal de um certo Rabi Akiva. É a própria história de Pêssach. Deixar o Egito foi apenas o início da liberdade, não o fim.

Mas o que seria Pêssach sem sua conexão íntima com Shavuot? O que seria a liberdade israelita sem a Revelação no Sinai?³ Imagine a Bíblia como a narrativa de um mero grupo cultural ou étnico. Leríamos sobre a escravidão dos israelitas no Egito. Continuaríamos a ler com entusiasmo sobre como eles conquistaram sua liberdade e foram levados a uma terra própria. Depois leríamos sobre como eles se mesclaram à paisagem ao redor, casaram-se com canaanitas, jebusitas e os outros povos do antigo Oriente Próximo, e se evaporaram com o tempo, irrevogavelmente.

Sobrevivemos porque levamos a Torá conosco até Israel. Somos quem somos por causa de uma fé importante, fé que se provou mais forte que os maiores impérios da história.

O Antigo Egito e Roma construíram grandes monumentos para sobreviverem aos ventos e às areias do tempo. Aquilo que eles construíram está de pé e em alguns aspectos jamais foi superado. Porém somente a arquitetura permanece, não a civilização que uma vez lhes deu vida.

O Antigo Israel se tornou construtor, também, mas não de monumentos em pedra. Em vez disso eles foram chamados ao Sinai para construírem um mundo de justiça, digno de ser a morada da Divina Presença. Suas pedras seriam suas ações sagradas, e sua argamassa o estudo de Torá e compaixão. Ao ensinar os israelitas que o Arquiteto desse mundo é D'us, os construtores são todos que desejam se tornar Seus "parceiros na obra da criação". Moshê transformou um grupo de escravos num povo eterno.


Notas:

1
- Pascal, "Pensees".
2 - Talmud, Berachot 61b.
3 - Perante o Faraó, Moshê não exigiu simplesmente em nome de D'us: "Deixa Meu povo ir", mas "Deixa Meu povo ir; para que eles Me sirvam. (Shemot 7:16). veja também Sefer HaChinuch (Mitsvá 306), que a razão de ser do Êxodo foi entrar num pacto com D'us que é nossa força de apoio. Então, Shavuot é a única festa que não tem data marcada no calendário. A Torá o designa como o 50º dia após Pêssach. Como Shavuot é o complemento de Pêssach, o propósito do Êxodo foi concretizado somente no dia em que ficamos no Sinai.


Fonte: Chabad.org

Extraído do grupo de debates judaico Sinedrion San'hedrin no Facebook cuja postagem é atribuída a

© 2014 - Reprodução permitida, desde que citada a fonte.

domingo, 6 de abril de 2014

A Igreja Segundo Espinosa




No seu mais consagrado livro ― “TratadoTeológico-Político ―, Baruch de Espinosa, diz que as Escrituras Sagradas são fruto da imaginação dos profetas, que entendiam a intenção humana como efeito de um Espírito Divino. Antecipando-se a Freud, diz ele: “os direitos subjetivos de Deus nada mais são que a soma dos direitos subjetivos do todos os indivíduos (T.Teológico-Político – pág CVII – Editora Martins Fontes).

O prefácio ou introdução dessa magistral obra, realizada por Diogo Pires Aurélio, consomem 137 das 560 páginas que compõem o livro, do qual trago um trecho bastante emblemático em que o filósofo judeu de Amsterdam, por volta de 1674, discorreu sobre a “Igreja Cristã” do seu tempo:

“Inúmeras vezes fiquei espantado por ver homens que se orgulham de professar a religião cristã, ou seja o amor, a alegria, a paz, a continência e a lealdade para com todos, combaterem-se com tal ferocidade e manifestarem cotidianamente uns para com os outros um ódio tão exarcebado que se tornou mais fácil reconhecer a sua fé por estes do que por aqueles sentimentos. De fato, há muito as coisas chegaram a um ponto tal que é quase impossível saber se alguém é cristão, turco, judeu ou pagão, a não ser pelo vestuário, pelo culto que pratica, por freqüentar esta ou aquela igreja, ou finalmente, porque perfilha esta ou aquela opinião e costuma jurar pelas palavras deste ou daquele mestre. Quanto ao resto, todos levam a mesma vida. Procurando então a causa desse mal, concluí que se deve, sem sombra de dúvida a se considerarem os cargos da Igreja como títulos de nobreza, os seus ofícios como benefícios, e consistir a religião, para os vulgos, em cumular de honras os pastores. Com efeito, assim que começou na Igreja esse abuso, logo se apoderou dos piores homens um enorme desejo de exercerem os sagrados ofícios, logo o amor de propagar a divina religião se transformou em sórdida avareza e ambição; de tal maneira que o próprio templo degenerou em teatro em que não mais se veneravam doutores da Igreja mas oradores, não ensinando senão coisas novas e insólitas para deixarem o vulgo maravilhado. Daí surgirem grandes contendas, invejas e ódio que nem o correr do tempo foi capaz de apagar. Não admira, pois, que da antiga religião não ficasse nada a não ser o culto externo(com que o vulgo mais parece adular a Deus que adorá-lo) e a fé esteja reduzida a crendice e preconceitos. E que preconceitos, que de racionais transformam os homens em irracionais, que lhes tolhem por completo o livre exercício da razão e a capacidade de distinguir o verdadeiro do falso, parecendo expressamente inventados para apagar a luz do entendimento. [...]Certamente que, se eles tivessem uma centelha que fosse de luz divina não andariam tão cheios de soberba idiota, nem perseguiriam com tanta animosidade os que não partilham das suas opiniões; pelo contrário, sentiriam piedade deles, se é de fato, a salvação alheia e não a própria fortuna que os preocupa. [...]Não há, com efeito, nada com que o vulgo pareça estar menos preocupado do que viver segundo os ensinamentos da Sagrada Escritura. É ver como andam quase todos fazendo passar por palavra de Deus as suas próprias invenções e não procuram outra coisa que não seja a pretexto da religião". [Baruch de Espinosa −Tratado Teológico-Político ― pág 9, 10 e 114]


P.S.:

Plagiando o Rei bíblico, Salomão, pergunta-se:

“Passado esse tempo todo, há alguma coisa nova debaixo do sol?”

Site da Imagem: wikipédia.org
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