quarta-feira, 28 de maio de 2014

Copa do Mundo 2014: Guia Para Turista.




O índice de homicídios no Brasil vem crescendo assustadoramente, a ponto de ultrapassar o de países em permanente conflito, como o Iraque, Sudão e Afeganistão. Segundo dados do Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos somente em 2010 foram assassinadas 36.702 pessoas. Uma média de cem assassinatos por dia, ou seja, um a cada quinze minutos. 

Como em nosso meio se tornou comum a confecção de cartilhas de advertências, principalmente quando estão envolvidas questões graves de saúde, como epidemias de dengue, de viroses, resolveu-se, neste momento pré-Copa, fazer o mesmo: disseminar pelo país afora manuais de segurança para estrangeiros que nos visitarão e não estão tão acostumados a viver como o brasileiro ― em eterna vigilância quando sai de casa.

Em que pese a repercussão negativa entre alguns patriotas brasileiros, a idéia de Mário Leite, presidente do Comitê de Gestão da Copa do Mundo da Polícia civil de São Paulo de fazer um manual de alerta aos turistas durante a Copa foi bem sensata. “O alerta principal é para o latrocínio ― roubo seguido de morte ― para quem não tem idéia de como se comportar em uma cidade tão violenta quanto São Paulo. As orientações são claras: não reaja, não grite nem discuta (Vide Link).

Sabendo como são as coisas aqui nas terras de Dom João VI, a FIFA resolveu dar uma mãozinha: aproveitou o ensejo para editar o seu manual para turistas estrangeiros na Copa, acrescentando outros ingredientes que provocaram muita celeuma nos brasileiros de alma socialmente correta. Dizem que a reação foi tão forte, que fez com que o todo poderoso Blatter sustasse a divulgação de sua cartilha.

Para quem ainda não tomou conhecimento, seguem aí os Dez Mandamentos da Cartilha da FIFA:


1.   SIM NEM SEMPRE SIGNIFICA “SIM”
Os brasileiros são otimistas e nunca começam uma frase com a palavra “não”. Para eles “sim” talvez significa na realidade, “talvez”. Quando disserem “sim eu te ligo” é melhor que não espere que o telefone toque em cinco minutos.

2.   HORÁRIO FLEXÍVEL
A pontualidade é um conceito muito flexível no Brasil. Quando marcar com alguém ninguém espere que estará no lugar combinado na hora exata. O normal é contar com uns quinze minutos de atraso.

3.   CONTATO FÍSICO
Os brasileiros e as brasileiras não estão familiarizados com os costumes da Europa de manter distância como norma de cortesia e conduta. Eles falam com as mãos e não evitam de tocar o interlocutor. Isso pode facilmente se transformar em um beijo se a conversa estiver ocorrendo em uma discoteca, por exemplo.

4.   FAZER FILA
A paciência de esperar não é uma virtude dos brasileiros. Por exemplo: não existe uma “fila mecânica” como na Inglaterra. Os brasileiros preferem ser inteligentes, sempre se arranjando para chegar na frente.

5.   MODERAÇÃO
Quem se animar a ir a uma churrascaria, deverá praticar jejum de 12 horas e maneirar na hora de comer, já que as melhores carnes chegam na hora final.

6.   A LEI DO MAIS FORTE
A regra que dá à preferência dos carros no trânsito é simples: o veículo maior passa na frente.

7.   PROIBIDO FAZER TOPLESS
A imagem das mulheres com pouca roupa, tão típica no carnaval, pode ser enganosa e é diferente da realidade. É certo que os biquínis têm menos panos que os europeus, mas as brasileiras nunca os tiram na praia, onde fazer topless é proibido e pode resultar em prisão.

8.   A LÍNGUA ESPANHOLA NÃO VALE
Os turistas que tentarem se comunicar em espanhol terão a sensação de que estarão falando para as paredes. A língua nacional é o “brasileiro”, uma variável do português. Quem falar que Buenos Aires é a Capital do Brasil, pode estar seguro que será deportado imediatamente.

9.   EXPERIMENTAR O “AÇAÍ”
As bacias da Amazônia fazem maravilhas: previnem as rugas e tem o mesmo efeito de uma bebida energética. Algumas mordidas podem recuperar o jogador de futebol mais cansado.

10.              PACIÊNCIA
No Brasil é muito comum fazer as coisas no último minuto. A recomendação aos turistas é que tenham muita paciência. No final, tudo estará pronto a tempo. Isso pode ser aplicado aos estádios. A filosofia dos brasileiros na vida pode ser resumida com a seguinte frase: “relaxa e aproveita”.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Uma explicação não cartesiana para consciência


Como este é um assunto que tenho por muito interessante (a conexão entre ciência e espiritualidade), posto aqui essa interessante matéria que eu li no blog Expansão da Consciência para os confrades e amigos que visitam esta Confraria matutem sobre a questão.




O texto a seguir é do site Spirit Science and Metaphysics. Considero oportuno postá-lo aqui porque se trata da validação de um cientista renomado de assuntos que expomos neste blog. Negritos por minha conta.


“Um livro intitulado "O biocentrismo: Como a vida e a consciência são as chaves para entender a natureza do Universo" agitou a Internet, porque contém uma noção de que a vida não acaba quando o corpo morre, e ela pode durar para sempre. O autor desta publicação, o cientista Dr. Robert Lanza, que foi eleito o terceiro mais importante cientista vivo pelo NY Times, não tem dúvidas de que isso é possível.

Além do tempo e do espaço

Lanza é um especialista em medicina regenerativa e diretor científico da Advanced Cell Technology Company. Antes ele ficou conhecido por sua extensa pesquisa que tratava com células-tronco, também era famoso por várias experiências bem sucedidas sobre clonagem de espécies animais ameaçadas de extinção.

Mas não há muito tempo, o cientista se envolveu com física, mecânica quântica e astrofísica. Esta mistura explosiva, deu à luz a nova teoria do biocentrismo, que o professor vem pregando desde então. O biocentrismo ensina que a vida e a consciência são fundamentais para o universo. É a consciência que cria o universo material, e não o contrário.

Lanza aponta para a estrutura do próprio universo e que as leis, forças, e as constantes do universo parecem ser afinadas para a vida, o que implica inteligência existindo antes da matéria. Ele também afirma que o espaço e o tempo não são objetos ou coisas, mas sim ferramentas de nosso entendimento animal. Lanza diz que carregamos espaço e tempo em torno de nós “como tartarugas com conchas." O que significa que quando a casca sai (espaço e tempo), nós ainda existimos.

A teoria sugere que a morte da consciência simplesmente não existe, só existe como um pensamento porque as pessoas se identificam com o seu corpo. Eles acreditam que o corpo vai morrer, mais cedo ou mais tarde, pensando que a sua consciência vai desaparecer também. Se o corpo gera a consciência, então a consciência morre quando o corpo morre. Mas se o corpo recebe a consciência da mesma forma que uma caixa de cabos recebe sinais de satélite, então é claro que a consciência não termina com a morte do veículo físico. Na verdade, a consciência existe fora das restrições de tempo e espaço. Ela é capaz de estar em qualquer lugar: no corpo humano e no exterior da mesmo.Em outras palavras, é não-local, no mesmo sentido que os objetos quânticos são não-local.

Lanza também acredita que múltiplos universos podem existir simultaneamente. Em um universo, o corpo pode estar morto. Em outro ele continua a existir, absorvendo consciência que migrou para esse universo. Isto significa que uma pessoa morta, enquanto viaja através do mesmo túnel acaba não no inferno ou no céu, mas em um mundo semelhante em que ele ou ela uma vez habitou. E assim por diante, infinitamente. É quase como um efeito “boneca russa” cósmico de vida após vida.

Alma

Assim, há abundância de lugares ou outros universos, onde a nossa alma poderia migrar após a morte, de acordo com a teoria de neo-biocentrismo. Mas será que a alma existe? Existe alguma teoria científica da consciência que poderia acomodar tal afirmação? Segundo o Dr. Stuart Hameroff, uma experiência de quase-morte acontece quando a informação quântica que habita o sistema nervoso deixa o corpo e se dissipa no universo. Ao contrário de explicações materialistas da consciência, Dr. Hameroff oferece uma explicação alternativa de consciência que pode, talvez, apelar para a mente racional científica e as intuições pessoais.
Consciência reside, de acordo com Stuart e físico britânico Sir Roger Penrose, nos microtúbulos das células cerebrais, que são os sítios primários de processamento quântico. Após a morte, essa informação é liberada do corpo, o que significa que a  consciência vai com ela. Eles argumentaram que a nossa experiência da consciência é o resultado de efeitos da gravidade quântica nesses microtúbulos, uma teoria que eles batizaram redução objetiva orquestrada (Orch-OR).

Consciência, ou pelo menos proto-consciência, é teorizado por eles como sendo uma propriedade fundamental do universo, presente até mesmo no primeiro momento do universo durante o Big Bang. Em um desses esquemas - “experiência proto- consciente” é uma propriedade básica da realidade física, acessível ao processo quântico associado com atividade cerebral.

Nossas almas estão, de fato, construídas a partir da própria estrutura do universo - e podem ter existido desde o início dos tempos. Nossos cérebros são apenas receptores e amplificadores para a proto-consciência que é intrínseca ao tecido do espaço-tempo. Então, há realmente uma parte de sua consciência, que é não-material e vai viver após a morte de seu corpo físico?

(...) Esta explicação de consciência quântica explica coisas como experiências de quase-morte, projeção astral, experiências fora do corpo e até mesmo a reencarnação , sem a necessidade de recorrer a ideologias religiosas. A energia de sua consciência potencialmente é reciclada de volta em um corpo diferente em algum momento, e nesse meio tempo, ela existe fora do corpo físico em algum outro nível de realidade, e, possivelmente, em outro universo.”


Imagem: http://www.spiritscienceandmetaphysics.com

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Imaginem a esposa e a companheira dividindo a pensão?!




A coluna "PONTOCONTRAPONTO" da edição n.º 537 da Tribuna do Advogado, periódico editado pela OAB/RJ, trouxe este mês um debate interessante debate para o mundo jurídico:




Tentando responder à questão, duas respeitáveis advogadas, Dra. Regina Beatriz Tavares da Silva e Dra. Maria Berenice Dias, opinaram sobre o assunto, cada qual adotando um ponto de vista diferente. A primeira com um posicionamento mais conservador enquanto a segunda mais voltada para a realidade social.

Sendo maio um período que costuma ser dedicado à reflexão familiar, achei pertinente suscitar essa discussão aqui para enriquecermos de saudáveis controvérsias o nosso site, não vendo necessidade de que alguém seja bacharel em Direito ou tenha profundos conhecimentos sobre as leis para expressar suas ideias a respeito. Deste modo, reproduzo a seguir ambos os textos introduzindo mais um debate para a nossa confraria:


Não há efeitos jurídicos na união paralela



Por REGINA BEATRIZ TAVARES DA SILVA*


Dois recursos em que se debate o reconhecimento de direitos previdenciários em relação paralela com pessoa que vivia uma união estável e com pessoa que era casada estão sob apreciação do STF. Cabe ao Direito acompanhar a evolução da sociedade. Assim, no Direito de Família e no Direito Previdenciário, estendeu-se a proteção daquelas pessoas ligadas pelo casamento às relacionadas por meio da união de fato ou estável. Esta última, que, em princípio, somente poderia ser constituída por indivíduos de sexos diferentes, passou a ser admitida também quando formada por aqueles do mesmo sexo. Resta saber se relações paralelas podem gerar efeitos de união estável.

A união estável é reconhecida como entidade familiar, desde que preenchidos requisitos, entre os quais a natureza monogâmica da relação. Assim, a Lei Maior limita a duas pessoas essa entidade. E não haveria como ser diferente, os costumes da sociedade brasileira são monogâmicos e somente poderá ser reconhecida como família a relação assim formada.

Entre os deveres dos cônjuges e dos companheiros está o de fidelidade, também chamado de lealdade, de modo a vedar a manutenção de relações que tenham em vista a satisfação do instinto sexual fora do casamento e da união estável. Assim, união estável não se confunde com o concubinato, sendo esta última nomenclatura destinada aos relacionamentos que concorrem com o casamento ou com a união estável.

Note-se, ainda, que a chamada putatividade, que é a atribuição de efeitos à relação paralela quando ocorre o desconhecimento do estado civil ou da união estável do consorte, aplica-se com o máximo rigor, já que, com o avanço da internet e as redes sociais, tornou-se excepcionalíssima a ignorância de um casamento ou de uma união estável pré-constituída.

Embora não se possa confundir o Direito Previdenciário com o Direito de Família, o primeiro segue as linhas mestras do segundo no que se refere à configuração de uma entidade familiar. O companheiro e a companheira são beneficiários do regime geral da previdência social, desde que mantenham união estável de acordo com o disposto na Constituição Federal e no Código Civil, que limitam a duas pessoas a composição de uma entidade familiar em forma de união estável.

Em acatamento à Constituição, assim como em conformidade com o Código Civil, o STF e o STJ posicionam-se sobre a inexistência de efeitos jurídicos na união paralela ao casamento ou à união estável.

Efetivamente, não há como admitir, observados os contornos sociais e jurídicos brasileiros, que o casamento e a união estável deixaram de ser monogâmicos. “Poliamorismo” ou “poliafetividade” ou poligamia são relações estranhas ao Direito de Família, de que não resultam os efeitos do casamento e da união estável.

Em suma, a capacidade de amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo não comporta análise jurídica, sendo assunto a ser tratado nos divãs de psicanálise. Porém, questões como a invalidade jurídica de relações paralelas pertencem à seara do Direito.

*Advogada, presidente da Associação de Direito de Família e das Sucessões e doutora em Direito Civil pela USP



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Por uma Justiça mais rente à realidade da vida



Por MARIA BERENICE DIAS*


A determinação legal que impõe o dever de fidelidade no casamento, e o dever de lealdade na união estável, não consegue sobrepor-se a uma realidade histórica, fruto de sociedade patriarcal e muito machista. Mesmo sendo casados ou tendo uma companheira, homens partem em busca de novas emoções sem abrir mão dos vínculos familiares que já possuem. Dispõem de habilidade para se desdobrar em dois relacionamentos simultâneos, dividem-se entre duas casas, mantêm duas mulheres e têm filhos com ambas. É o que se chama de famílias paralelas. Quer se trate de um casamento e uma união estável, quer duas ou até mais uniões estáveis.

Todos os vínculos atendem aos requisitos legais de ostensividade, publicidade e notoriedade. Inclusive, no mais das vezes, os filhos se conhecem e as mulheres sabem uma da existência da outra. No fim, um arranjo que satisfaz a todos. A esposa tem um marido que ostenta socialmente. A companheira nada exige e se conforma em não compartilhar com o companheiro todos os momentos, mas o acolhe com afeto sempre que ele tem disponibilidade.

Ainda que tal configure adultério – que nem mais crime é –, os homens assim agem.
Fechar os olhos a esta realidade e não responsabilizar esta postura é ser conivente, é incentivar este tipo de comportamento. O homem pode ter quantas mulheres quiser porque a Justiça não lhe impõe qualquer ônus. Livrá-lo de responsabilidades é punir quem, durante anos, acreditou em quem lhes prometeu amor exclusivo. Mulheres que ficaram fora do mercado de trabalho, cuidaram de filhos e, de repente, se veem sem condições de sobrevivência.

Ao baterem às portas do Judiciário não podem ouvir um solene: “Bem feito, quem mandou te meter com homem casado!” É o que ocorre toda vez que se negam efeitos jurídicos a estes relacionamentos. Tanto é assim que, quando a mulher nega que sabia ser “a outra”, é reconhecida união estável putativa de boa-fé e são atribuídos os efeitos de uma sociedade de fato. Um embaralhamento de institutos absolutamente inconcebível.

Não há como deixar de reconhecer a existência de união estável sempre que o relacionamento for público, contínuo, duradouro e com a finalidade de constituir família. O fato de o homem ter uma família não quer dizer que não tem o desejo de constituir outra. Dito elemento de natureza subjetivo resta escancarado quando são comprovados longos anos de convívio. Ao depois, a fidelidade não é pressuposto para a configuração da união estável.

A Justiça não pode ser conivente com esta postura. Não pode ser cega, fazer de conta que não vê.  Não impor quaisquer ônus não vai fazer os homens deixarem de assim se comportar. É preciso reconhecer a existência dos deveres inerentes à entidade familiar a quem assume um relacionamento afetivo, independentemente de manter outra união.

É a única forma de a Justiça fazer uma justiça mais rente à realidade da vida.

*Advogada, vice-presidenta nacional do IBDFam

terça-feira, 13 de maio de 2014

QUAL É A MARCA?



Nos anos 80, o kichute ainda era moda!



Quando eu era garoto(não, não era em Barbacena),  ficava revoltado quando meu pai comprava para mim ao invés do imbatível tênis Kichute, o seu primo pobre, o tênis Conga. Sabem do que estou falando, né? Todo mundo na escola queria desfilar seu kichute; ele dava status e fazia você pertencer ao grupo dos “mais”, dos “superiores”; tênis conga era para os pobres, os fracos(pelo menos na minha escola, era). A propaganda do Kituche demonstrava como o desempenho nas corridas e no esporte seriam melhores com ele. Era uma MARCA de sucesso.

A valorização extremada de  marcas  é típico da nossa sociedade capitalista consumista atual. Talvez o termo “capitalista consumista” seja um paradoxo, pois afinal de contas, capitalismo nenhum resiste sem o consumo. Mas talvez possamos diferenciar entre consumo e consumismo. Fato é que consumir é preciso. Vivemos tempos em que a valorização do indivíduo, da pessoa,  vai dando lugar à valorização das coisas, dos produtos. Pior ainda, a pessoa como coisa. Como produto. Fico sempre espantado quando leio a manchete de capas de revistas como a Você S.A do tipo:  “Você é o seu melhor produto, saiba como se vender de forma eficiente”.

Até o funk, movimento nascido nas vielas das nossas favelas cariocas,  rendeu-se à “ostentação". Agora temos “Funk ostentação”. Garotos cantores exibindo seus cordões de ouro, seus carros do ano,  seu harém sem nenhuma vergonha. Ostentar faz bem. Ostentar é sinal de que ele “venceu”; ascendeu ao paraíso do consumismo.

Segundo Marcia Tiburi, colunista da revista Cult, a publicidade destitui o indivíduo do seu próprio desejo e a fascinação por ter roupas, carros e até geladeiras de marca seria a morte do sujeito, da subjetividade. Os consumidores agora só têm o direito de escolher entre uma marca ou outra. Diz a citada colunista: “Não tendo mais o que expressar, alguém simplesmente “ostenta” um relógio caro, um computador moderninho, um carrão oneroso. Tudo e cada coisa é reduzida à marca, emblema do capital e seu poder na era do Espetáculo”.

Particularmente falando, eu gosto de marca boa,  pois marca boa geralmente é sinal de produto de melhor qualidade, e procuro, dentro das minhas possibilidades financeiras, comprar a melhor marca. Lá pelos anos 90, quando fui comprar meu primeiro computador, eu queria um “de marca”, mesmo que um computador “sem marca”, montado com peças diversas, fosse uns 50% mais barato à época. Mas não, para mim, só um Compac, me daria qualidade.  Ou será que na verdade, nos porões do meu inconsciente, eu queria mesmo era ostentar a marca...?

A citada colunista, é enfática. Para ela, a solução seria a arte, a poesia, a “negação ativa contra o uso e o consumo de marcas. A prática anti-capitalista é um ateísmo e começa com a recusa aos seus deuses como simples profanações cotidiana”.  Talvez essa proposta, por ser “esquerdista” demais, seja muito radical. Talvez aja espaço aí para se pensar melhor sobre essa questão.


quinta-feira, 8 de maio de 2014

Sobre o Abandono dos Blogs





"Sim, Abandonei Meu Blog!"
[Artigo  de Cora Rónai  (*) colunista do Jornal “O Globo”.  Escrito em 18 de abril de 2014]


E os blogs pessoais, hein?
Você abandonou o blog!”, cobrou um leitor das antigas. “Não é bem isso”, desconversei. “Só mudei de ritmo, deixei de fazer atualizações diárias, ponho menos fotos...” “Justamente: você abandonou o blog.”
Não se pode discutir contra evidências: eu abandonei o blog, embora me custe reconhecê-lo e, ainda mais, confessá-lo. O internetc., que nasceu em 2001 e que eu não conseguia explicar para ninguém, é hoje apenas um repositório das colunas do jornal, uma forma simples de manter à mão textos dos quais posso precisar. Os mesmos textos existem no OneDrive e no Dropbox, mas, bem ou mal, ainda há resquícios de caixas de diálogos no blog, onde um que outro leitor deixa o seu recado.
Fazer um blog em 2001 exigia certa determinação. Eu escrevia para 11 pessoas; em dias de muita repercussão, 19. Nenhum dos meus amigos entendia o que eu queria com aquilo, já que eu assinava coluna no Globo e editava um caderno de tecnologia. Para que alguém com tantos leitores se dava ao trabalho de escrever para meia dúzia?
Nem eu sabia muito bem.
O que me entusiasmava era a ideia da comunicação instantânea. Mas, como às vezes ninguém aparecia no blog, ficava no ar uma pergunta bastante pertinente: comunicação com quem, cara pálida?
Na melhor das hipóteses, com outros autores de blogs. A comunidade era pequena, todos nos conhecíamos, e era de bom tom visitarmos uns aos outros. Até hoje tenho ótimos amigos desses tempos pioneiros.
Depois do 11 de setembro, que revelou ao mundo a existência dos blogs, veio uma época de ouro, em que muitas pessoas – mesmo algumas que nem tinham blog! – apareciam regularmente, liam, davam palpite, trocavam ideias entre si nas caixas de comentários.
Blogs  pessoais  migraram  para  o  Facebook

Essas caixas eram um outro capítulo, porque não faziam parte dos aplicativos. Eram bacalhaus escritos e mantidos por voluntários, que contribuíam para a “causa” pela mesma razão pela qual nós, blogueiros, escrevíamos: o prazer da experiência. Às vezes caíam, às vezes nem entravam no ar, às vezes davam defeitos. Ninguém reclamava; fazia parte. Mas era graças a elas que a comunidade vicejava.
O internetc. tinha leitores tão simpáticos que passou a ser chamado de “blogtequim”. Era um ponto de encontro e boa conversa, onde valia tudo, menos gente agressiva e mal educada. Uma das regras básicas era que as discussões tinham de ser pertinentes ao assunto. A exceção eram as fotos de gato, em cujos comentários o tema era livre. Nessas áreas é que, por vezes, rolavam os melhores papos, de discussões filosóficas a reclamações sobre calçadas esburacadas, passando por indicações de profissionais especializados e receitas de bolo.
Nessa época, o cérebro dos blogueiros da ativa funcionava de modo curioso: em primeiro plano, realizava as funções habituais de qualquer ser humano; mas, por trás, só pensava no que daria ou não daria um bom post. Uma flor amarela! Um guarda multando um carro! Um assalto! Uma briga na esquina! Uma viagem! Um livro! Um filme! Uma topada! Um sorvete de caramelo! Tudo era virado, revirado e eventualmente aproveitado. Ou não.
Com o tempo, os blogs pessoais migraram para o Facebook. Um dia um post que, normalmente, iria para o blog acabava no FB; no outro dia, mais um ou dois. Assim, antes que nos déssemos conta, o que antes chamávamos de blogosfera passou a ser rede social. O Facebook tem a vantagem de reunir todos os blogueiros que, nos velhos tempos, estavam espalhados. Ninguém precisa mais sair à cata de blogs; basta ir para a página principal.

Valeu a troca?

(*)  A jornalista Cora Rónai editou a primeira coluna sobre computação na imprensa brasileira (Jornal do Brasil).  Recebeu o prêmio  -  “COMUNIQUE-SE” - de melhor jornalista de informática em 2004, 2006 e 2008.  (Fonte: Google)

Imagem: http://ma-schamba.com/1630013.html

domingo, 4 de maio de 2014

Dialogando com a diversidade familiar do século XXI




O mês de maio costuma ser uma época dedicada a pregações sobre a família nas igrejas cristãs. Durante os cultos dominicais, os pastores ministram mensagens sobre casamento e a relação entre pais e filhos, quase sempre encorajando o dever de submissão aos genitores bem como da esposa ao marido. Repete-se, assim, conhecidas passagens bíblicas entre as quais versículos das epístolas paulinas. Porém, observo que poucas vezes esse discurso é atualizado e, não raramente, os púlpitos de determinadas congregações são mal utilizados para incitar repressão e ataques homofóbicos aos gays por estes buscarem hoje em dia a conjugalidade bem como adotarem crianças.

Verdade seja dita que a família deste século XXI já não é mais a mesma de cinco décadas atrás. Se, nos anos 60, ela foi se tornando mais nuclear do que estendida, devido às migrações e ao êxodo rural, vive-se na atualidade uma situação bem diversificada em que até esse núcleo está se modificando. Mudanças que acabam sendo irreversíveis dependendo do caso.

Se tivermos como foco as crianças, veremos que grande parte delas já não mora com a mamãe e com o papai. Devido às instabilidades dos relacionamentos, muitos pequeninos vivem apenas com suas mães, ou com a mãe e a avó, ou somente com os avós, ou ainda com qualquer outro parente. Ganhar um neto quase sempre significa que a mulher corre o risco de ter uma segunda maternidade.

Por outro lado, quantas dessas crianças não têm outros irmãos e irmãs mas que não são filhos do mesmo pai ou da mesma mãe? E, na prática, elas acabam convivendo com os filhos que são só do companheiro da mãe ou da nova mulher do pai, frutos de relacionamentos anteriores que não deram certo. Coisas que foram motivo de terríveis preconceitos e recalques dentro da nossa sociedade, permanecendo agora de maneira mais velada.

É fato que os pastores precisam estar prontos para ministrar a todos os tipos de famílias de uma maneira inclusiva sem considerarem a diversidade nas relações como uma aberração. Deve-se ter em mente que existem variadas formas de se proporcionar cuidado e proteção às pessoas, o que pode ocorrer muitas das vezes sem existir qualquer vínculo biológico como acontece na adoção. Algo que para a cabeça da maioria dos cristãos torna-se inadmissível quando os pais adotivos são dois homens ou duas mulheres vivendo uma relação homoafetiva.

Assim, penso que a Igreja precisa rever o seu discurso quando tratar da família cuja ideia não pode ficar restrita a um casamento formal, monogâmico e reprodutivo. Pois mesmo que tenhamos o desejo de valorizar o padrão bíblico, segundo o qual "deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne" (Gn 2:24), não podemos fechar os olhos para a realidade transformada em nossa volta. Do contrário, o discurso pode acabar virando uma coisa estéril e até excludente quando alcançar os ouvidos de quem não se encaixa no modelo religioso.

Creio que Jesus veio justamente propor uma nova concepção de família que é bem mais ampla e diferente do tradicionalmente conhecido. Seu desejo sempre foi que, através da Igreja, fizéssemos uma multidão de irmãos, irmãs, pais, mães e filhos. Por isso o Mestre recebeu a todos (em especial os marginalizados da sociedade) e chegou a enfrentar difíceis conflitos com a sua família biológica de Nazaré, sendo incompreendido pelos fariseus porque aceitava incondicionalmente o pecador. E, no processo de construção do Reino, ele previu que os novos valores iriam causar divisões nas casas.

Ora, será que, se levássemos o ensino de Jesus a sério, novos hipócritas religiosos não mostrariam suas caras em nosso meio? Estamos mesmo prontos para convidar uma prostituta afim de que ela venha a conviver com nossas famílias sem levantarmos qualquer barreira preconceituosa? O mesmo posso dizer a respeito do travesti, do usuário de drogas, do morador de rua e da pessoa com transtorno psíquico, os quais, numa congregação cheia de famílias tradicionais, ainda são tratados como portadores de uma terrível lepra moral. Inegavelmente encontramo-nos ainda bem distantes de ser a grande mãe acolhedora dos excluídos por faltar mais amor e visão entre o povo de Deus.

Penso que, nesse tempo caótico que hoje vivemos, a efetiva proteção do ser humano talvez só poderá ser encontrada no desenvolvimento pleno da fraternidade em que as congregações seriam os pontos de encontro de uma família super-estendida. Por isso defendo que o maior foco das nossas pregações no mês de maio deve estar no fortalecimento da comunidade afim de que criemos uma rede amorosa tanto no nosso bairro quanto ao redor do mundo, independente de denominações institucionais ou de doutrinas. E, quanto a isso, a Igreja do século XXI precisa de uma urgente reconciliação.

Viva a grandiosa família de Deus! E que a Igreja, em sua bela diversidade, seja tão rica em formas como as estrelas do céu e a areia do mar!

Uma excelente semana a todos com Jesus!


OBS: A ilustração acima trata-se da célebre obra A Família da pintora e desenhista brasileira Tarsila do Amaral (1886-1973). Extraí a imagem de http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/tarsila-do-amaral/a-familia.php
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