sexta-feira, 27 de junho de 2014

Por Que a Religião Tanto Seduz?




“Uma senhora e sua filha haviam combinado, quando a última era bem pequena, que a vida desta seria sempre orientada pela vontade de Deus. E a ‘vontade de Deus’, na opinião das duas seria revelada à filha através das preces da mãe. A gente estremece ao pensar até que ponto isso exporia a jovem ao domínio materno, em cada gesto ou pensamento! Sua capacidade de decisão não poderia deixar de ficar abafada, foi o que ela penosamente descobriu quando perto dos trinta anos, se viu diante de um insolúvel dilema: não conseguia autonomia para casar-se. Este exemplo parecerá exagerado, uma vez que mãe e filha pertenciam a uma seita evangélica conservadora, e a história não é recoberta de sofisticadas racionalizações. Mas demonstra que, quando uma pessoa se considera porta-voz ou associado de Deus, como fazia a mãe, não há limites para os direitos que se arroga sobre os outros.[...]. [...] O problema da sujeição ao poder de outrem é reforçado naturalmente por desejos infantis no sentido de que ’alguém cuide dele’. Assim existem tendências para entregar-se a quem o domina”.
[ Rollo May (*)“O Homem à Procura de Si Mesmo” – pág.159 ― Editora Vozes]


O Instituto da Psicanálise Lacaniana presidido por Jorge Forbes, dedica-se “a psicanálise do século XXI, própria aos novos sintomas e impasses do homem pós-moderno...”

Foi explorando os estudos contidos no site desse instituto de cunho psicanalítico que me deparei com um importante artigo ―”A Bússola Em Deus?”.

A conclusão ou epílogo do referido ensaio traz uma constatação muito dura, e eu diria avassaladoramente cortante, para os integrantes de seitas: seus líderes, sob um grau de sutileza, usando e abusando do jargão “vontade de Deus”, mantém os fieis submissos à forma arrogante ou neurótica empreendida em seus domínios.

O artigo da IPLA, em seu final expõe, a partir de Freud e Lacan, a razão da religião seduzir sobremodo o indivíduo, em seu conflito existencial.


Segundo os autores do artigo, a “religião” seduz por que:


● Projeta o mal humano no que está fora, no demônio, no inferno, assim poupando o homem de se haver com sua divisão.

● Oferece os preceitos como proteção ao mal, como se dele pudesse escapar.

● Oferece ao homem a possibilidade de não ter trabalho com seu próprio desejo, basta entregá-lo a Deus. A religião tampona a angústia da decisão na medida em que a única decisão a tomar é conformar a minha vontade a de “Deus”, que já está escrita na Bíblia ou nos preceitos da igreja.
● Disfarça e alimenta o narcisismo, vestindo-o de altruísmo.

● Recobre o real que sempre se impõe, acompanhado de angústia. A religião “cura o homem do que não funciona”, com a oferta de sentido.

● Oferece um sentido a qualquer que seja, inclusive à própria vida, que deve se pautar numa série de renúncias para merecer o prêmio da vida eterna.

● Oferece figuras amalgamáticas e exemplares.

● Oferece a cumplicidade dos pares que seguem a mesma bula.

(*)Para ler mais sobre Rollo May, famoso psicólogo existencialista americano, clique no link abaixo:




segunda-feira, 23 de junho de 2014

Afinal, que "gigantes" eram esses da época de Noé?



"Ora, naquele tempo havia gigantes [hebr. nephilim] na terra; e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos; estes foram valentes, varões de renome, na antiguidade." (Gênesis 6:4; ARA)

Como quase sempre ocorre, todo diretor de cinema que realiza um trabalho cultural com uma certa margem de liberdade em relação ao texto da Bíblia acaba sendo excessiva e duramente criticado pelas mentes religiosas mais fechadas. E dessa Darren Aronofsky, um dos autores do filme Noé, estrelado por Russell Crowe, também não escapou. Vejam abaixo o que comenta uma resenha publicada no jornal New York Times, atribuída a Anthony Oliver Scott:

"o Sr. Aronofsky, que escreveu o roteiro com Ari Handel, tomou algumas liberdades com o texto. Por exemplo, enquanto a Bíblia observa que 'havia gigantes naqueles dias', as Escrituras não especificam que eles eram colossos de pedra de seis braços com as vozes de Nick Nolte e Frank Langella" (traduzido com a ajuda do Google)

Mas atire a primeira pedra quem nunca fantasiou as narrativas bíblicas!

Quem garante que os exegetas e intérpretes também não deram asas à imaginação e foram transmitindo um valioso ensino de geração em geração? Pois, se bem refletirmos, os nephilim (prefiro usar o original transliterado da Palavra) não teriam sido chamados assim necessariamente por causa de uma suposta estatura física muito grande? Isto porque outros possíveis significados para o vocábulo hebraico em nosso idioma seriam os termos "poderosos", "caídos" ou ainda "aqueles que causam a queda de outros", de maneira que uma interpretação contextualizada faz-se necessária para melhor entendermos o assunto.

Ora, nos capítulos 4 e 5, Gênesis fala sobre os perversos descendentes de Caim e a boa linhagem de Sete, o qual foi o terceiro filho de Adão e Eva, nascido após a morte de Abel. Enquanto os filhos de Caim tornaram-se violentos homicidas e maridos polígamos, os de Sete invocavam o nome do Senhor (Gn 4:26), dando a entender o texto que eles desenvolveram um relacionamento de oração com Deus. Provavelmente repetiram a oferta dada por Abel reconhecendo a si mesmos como dependentes da bondosa graça do Criador e do perdão do Altíssimo.

Todavia, se meditarmos nos quatro primeiros versos de Gênesis 6, poderemos admitir a seguinte interpretação em que os "filhos de Deus", isto é, os da semente de Sete, passaram a tomar para si como esposas aquelas que "entre todas, mais lhes agradavam" (versículo 2). Daí admitir-se a suposição de que a descendência de Sete também teria se corrompido num momento posterior, seja pela quebra da ordem monogâmica estabelecida no Jardim do Éden e/ou originada pelos desvirtuosos casamentos com as mulheres da linhagem de Caim. E assim surgiram os terríveis "gigantes" pré-diluvianos, os quais podem muito bem ter sido os antigos governantes de reinos formados pela mistura das duas sementes.

Segundo o mestre judeu medieval Rashi (1040-1105), a expressão "todas", embora aparentemente supérflua, significa ainda perversão sexual, o que incluiria uniões com mulheres casadas e o matrimônio/cópula realizado contra a vontade da mulher. Porém, numa visão mais aprofundada, podemos entender que a tragédia humana narrada na Bíblia consistiria na sedução pelo comportamento depravado em todos os sentidos (não apenas no aspecto sexual) juntamente com o abandono da fé em Deus, algo que trouxe a destruição da espécie humana a ponto de somente uma família de oito pessoas conseguir se salvar do dilúvio. É o que podemos conferir no livro apócrifo Sabedoria de Salomão, onde o autor associa os gigantes ao orgulho (suponho que caracterizado pelo sentimento de autossuficiência de direcionamento em relação ao Criador):

"Pois quando, nas origens, pereciam os gigantes orgulhosos,
a esperança do mundo se refugiou numa jangada
que, pilotada por Tua mão,
aos séculos futuros deixou o germe de uma geração nova." (Sb 14:6; BJ)

Uma outra obra judaica antiga, também encontrada na versão da Bíblia de Jerusalém, o escritor assim comenta acerca dos nephilim, sendo meus os destaques em negrito:

"É lá que nasceram os gigantes, famosos desde as origens,
descomunais na estatura e adestrados na guerra.
Mas não foi a eles que Deus escolheu,
nem a eles indicou o caminho do conhecimento.
Por isso pereceram, por não terem a prudência;
pereceram por sua irreflexão
" (Baruque 3:26-28)

O que podemos aprender dessa lição bíblica é que todo ser humano seria capaz de tropeçar nos seus princípios éticos e decair a ponto de cometer as piores monstruosidades por mais que se agigante em poderio político-militar, quer tenha ele uma boa origem religiosa ou não. Para os israelitas antigos, Moisés estava de algum modo lhes advertindo que, embora fossem filhos legítimos do patriarca Abraão, poderiam sofrer um juízo de condenação caso andassem nas obras erradas dos cananeus quando viessem a tomar posse da Terra Prometida. E, neste sentido, a mensagem das Escrituras Sagradas permanece atual para a nossa geração e todas as demais que vierem a nos suceder futuramente.

"Qual a mosca morta faz o unguento do perfumador exalar mau cheiro, assim é para a sabedoria e a honra um pouco de estultícia" (Eclesiastes 10:1; ARA)

Para finalizar ressalto que o mal não está necessariamente no outro, mas se trata de uma realidade existente dentro de nós. Pois se os descendentes de Sete teriam mesmo se unido às mulheres perversas da linhagem de Caim, em tal caso não foi porque os chamados "filhos de Deus" teriam estabelecido um elo de identificação com a vida errante delas? Assim sendo, há em nosso interior tanto a boa quanto a má semente, mas cabe ao homem procurar escolher com prudência o caminho correto, jamais se curvando em seus valores éticos superiores visto que o agigantamento de poder não raramente se faz acompanhar pela baixeza de caráter.


OBS: A ilustração acima trata-se de um poster utilizado para a divulgação do filme Noah (Noé).

domingo, 15 de junho de 2014

Por Que o Brasil Continuará Sendo um País Corrupto



●Porque já as eleições dos “nossos” representantes são realizadas de modo a institucionalizar o crime, pois os grupos econômicos, ao patrocinarem a eleição de Presidente, Governadores, Prefeitos etc., assim o fazem, como é natural, sob a condição de obterem financiamentos graciosos, participarem de licitações premiadas, privatizarem o espaço público, multiplicando lucros;

●Porque num tal contexto, a política passa a constituir extraordinário atrativo para criminosos profissionais, em geral burocratas medíocres, desqualificados moral e tecnicamente, sem perspectiva fora da política;

●Porque certos partidos políticos passam a funcionar, assim, como autênticas quadrilhas, cujos membros seguem a lógica do quem dá mais, por isso que trocam de legenda constantemente, impunemente;

●Porque o sistema representativo é um engodo que conta com a participação do próprio eleitor, que não raro exige, em troca do voto, algum proveito, de modo que o voto constitui, por isso, apenas um expediente para legitimar e perpetuar o crime, afinal os eleitos não representam o eleitorado, mas os seus próprios interesses e os interesses dos grupos econômicos que os patrocinam;

●Porque, apesar das fraudes, insistimos em perpetuar determinados criminosos no poder, e a tudo assistimos passivamente;

●Porque a Polícia, que deveria, junto ao Ministério Público, formar instituição única, está subordinada ao Poder Executivo, de sorte que são prováveis investigados (Governadores, Prefeitos etc.) que em última análise comandam as investigações;

●Porque criminosos políticos estão protegidos por um sem número de privilégios (foro privilegiado, imunidades parlamentares etc.) que os tornam grandemente imunes às investigações;

●Porque a corrupção política traduz a nossa própria hipocrisia, a nossa indiferença, a nossa tendência ao jeitinho; afinal, corrupção é de algum modo interação/acordo entre corruptor e corrompido, entre eleitor e eleito;

●Porque somos obrigados a votar, quando votar é um direito e não um dever, pois o eleitor tem, há de ter, a liberdade de votar em quem quiser, quando e se quiser, consciente e livremente;

●Porque a democracia, essa desgastada metáfora, é uma palavra que remete a múltiplas relações de poder que nada têm de democráticas, relações freqüentemente de violência e tirania e permanentemente em mutação (Michel Foucault);

●Porque punir criminosos, embora necessário, não é o mais importante; o mais importante consiste em identificar as estruturas de poder que possibilitam o crime e mudá-las radicalmente, pois problemas estruturais demandam intervenções também estruturais e não apenas intervenções sobre indivíduos;

●Porque insistimos em preservar instituições absolutamente desnecessárias: Senado Federal, Câmara Distrital etc;

●Porque, em vez de enfrentar os problemas em suas causas, em suas raízes, tentamos combatê-las em suas conseqüências, tardia, burocrática e simbolicamente; e isso equivale a não combatê-las;

●Porque temos um Estado excessivamente burocrático, que tudo pretende resolver por meio de leis, demagogicamente;

●Porque multiplicar leis não significa evitar novos crimes, mas multiplicar novas violações à lei (Beccaria); e as leis desnecessárias enfraquecem as leis necessárias (Montesquieu);

●Porque mais leis, mais juizes/tribunais, mais conselhos, mais prisões etc, pode significar mais presos, mas não necessariamente menos delitos (Jeffery);

●Porque o povo brasileiro acredita ser livre, mas está enganado: é livre apenas durante as eleições dos membros do Executivo e do Parlamento, pois, eleitos os seus membros, ele volta à escravidão, é um nada (Rousseau); é que a participação popular se limita ao sufrágio a cada quatro anos; mas eleitos “seus” representantes, não se tem qualquer controle sobre seus atos, e o cidadão, convertido em objeto e não sujeito da política, só poderá expressar sua indignação nas eleições seguintes;

●O Brasil é e continuará sendo um país corrupto simplesmente porque está estruturado para sê-lo!



Texto de Paulo Queiroz ― Professor Universitário (UniCEUB) e Procurador Regional da República em Brasília



Impresso de Paulo Queiroz: http://pauloqueiroz.net

URL: http://pauloqueiroz.net/por-que-o-brasil-continuara-sendo-um-pais-corrupto/

pauloqueiroz.net
Paulo de Souza Queiroz: doutor em Direito (PUC/SP), é Procurador Regional da República, Professor do Centro Universitário de Brasília (UniCEUB) e autor do livro Direito Penal, parte geral, S. Paulo, Saraiva, 3ª edição, 2006.



Site da Imagem: guepardteam.blogspot.com

sexta-feira, 13 de junho de 2014

A camisa da seleção manchada de sangue





Por Hermes C. Fernandes

Contagem regressiva para a Copa. Imagino como deve estar o coração dos dirigentes desta nação. Como o povo reagirá nas ruas? Aliás, a julgar pelas últimas copas, nossas ruas já deveriam estar enfeitadas. Mas parece que nem o tatu bola, escolhido para ser o mascote desta copa, conseguiu entusiasmar a população. A propósito, não poderiam ter escolhido um mascote melhor. Nosso mascote encarna o desejo que temos de abrir um buraco no chão e nos esconder até que se passe a vergonha a que estamos sendo submetidos. Não tanto pelo nosso medíocre futebol que já foi considerado o melhor do mundo, mas, sobretudo, pelo show de incompetência de nossos governantes que usaram o dinheiro público para bancar um campeonato privado, construindo estádios superfaturados e adotando uma postura subserviente diante das exigências da FIFA.

E o tal legado que a Copa deixaria para o povo brasileiro? Só pode ser piada. Quem mora no Rio de Janeiro, por exemplo, sabe o caos em que a cidade foi mergulhada. As obras do BRT que visam beneficiar as empresas de ônibus que há muito controlam nossa cidade, deixaram-nos reféns do trânsito caótico. E não pensem que após sua 'conclusão' as coisas melhoraram. Algumas das principais vias dos bairros cortados pela transcarioca tiveram sua largura reduzida. Se já era difícil transitar ali, agora tornou-se quase impossível. Sem contar o péssimo acabamento das obras, as ruas que mal foram recapeadas e já estão esburacadas novamente. Às vezes desconfio que a prefeitura e o governo do estado tenham algum tipo de vínculo com as empresas de suspensão. Haja amortecedores para aguentar tantos buracos e quebra-molas (lombadas).

Porém, o que mais causa revolta na população são as condições precárias em que se encontram nossos hospitais e escolas.

Acabei de assistir a um vídeo postado no youtube onde uma jovem dá a luz em pleno corredor do hospital sem qualquer ajuda médica. A criança simplesmente despencou do seu ventre e por pouco não morreu na queda. Como líder de uma comunidade cristã, tenho presenciado o descaso dos nossos governantes cada vez que visito um hospital da rede pública. Mas senti na pele este descaso com a falecimento de minha sogra quando uma UPA se negou a disponibilizar uma ambulância para levá-la a um hospital. Casos como este são cada vez mais frequentes.

Se quisermos medir a seriedade de um governo, basta ver o tratamento que dispensa aos seus próprios filhos. Os parques de Orlando, por exemplo, oferecem aos moradores da Flórida um preço diferenciado daquele oferecido aos turistas. Enquanto morávamos lá, podíamos pagar bem menos que um turista para visitar a Disney ou qualquer outro parque. Aqui, nosso povo terá que assitir à Copa pela TV ou pagar uma considerável soma em dinheiro. Definitivamente, esta Copa não é nossa. É para os turistas. Como diz o adágio, é para inglês ver.

Enquanto eles se divertem, nossos velhos morrem nas filas dos hospitais. Nossas meninas se prostituem nas avenidas das grandes cidades. Nossos meninos são recrutados pelo tráfico. Nossos policiais são mortos por traficantes fortemente armados. E aqueles que assaltam os cofres públicos permanecem ilesos.

Sinceramente, nossos atletas deveriam se envergonhar de vestir a camisa canarinho. Ela está manchada com o sangue do povo brasileiro. Nossa pátria já não é a mãe gentil antes cantada com orgulho nos quartéis e pátios de escolas. Nosso patriotismo se esgota ante a sujeira que agora varrem para debaixo do tapete verde dos estádios.

Se vou torcer pelo Brasil? Estou tentando me animar, mas está difícil. Me patriotismo está sendo posto à prova. Não se trata de abraçar a uma campanha de boicote da Copa, mas de ceder ao apelo da minha consciência. Afinal de contas, não tenho sangue de barata.

O que, todavia, me dá esperança é saber que cada vítima deste sistema cruel é um mártir, uma testemunha chamada por Deus a depôr diante do tribunal de contas celestial. Assim como descrito no livro de Apocalipse, em breve, este sistema ruirá ante o peso do Cetro de Cristo e o amor e a justiça prevalecerão.

A última Copa que tivemos aqui foi em 1950. O Brasil se calou envergonhado diante do placar. Sessenta e quatro anos se passaram e espero que desta vez o Brasil não se cale, independente do placar, seja favorável ou não à seleção. Que tanto os jogadores quanto os torcedores demonstrem nos estádios e nas ruas que esta hemorragia ética precisa ser estancada antes que já não nos restem forças para torcer.

Quem sabe daqui a cinquenta ou sessenta anos sejamos novamente a sede da Copa do Mundo, e que tenhamos todas as razões para celebrar e não mais para nos corar de vergonha. E quando isso acontecer, que nosso mascote já não seja um tatu à procura de um buraco para se enfiar, mas algum outro animal exuberante de nossa tão rica fauna.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Arrogância metafísica

Eu sou o centro do meu mundo pois sou o único autêntico eu metafísico. Ainda que eu esteja no centro do meu mundo subjetivo, acredito que existe um mundo objetivo totalmente indiferente e independente de mim. Uma vasta extensão de espaço e tempo daqual eu conheço apenas uma ínfima parcela. Este mundo objetivo estava aí antes do meu nascimento e continuará aí após minha morte. Acredito também, que este mundo objetivo não tem um centro, uma perspectiva intrínseca, como teria, por exemplo, se existisse um Deus. E é como um mundo sem centro que eu tento entendê-lo.
Todos nós somos sujeitos de um universo sem centro e a mera identidade humana, deística ou marciana deveria parecer-lhes arbitrária. Não estou dizendo que, individualmente, eu seja o sujeito do universo sem centro, apenas que sou um sujeito que pode ter uma concepção do universo sem centro no qual Deus é uma entidade insignificante para mim, que poderia nem mesmo ter existido. Descentralizando o universo cultivamos o medo da morte. Até mesmo o solipsista que acha que o mundo depende dele para existir, teme a morte. O medo da morte vai além da ideia de que o fluxo da vida continuará sem nós. Meu medo da morte tampouco diminuiria se eu achasse que após o ato eu iria para o céu. Tanto a minha morte quanto o meu nascimento é um acontecimento biológico e banal que já ocorreu bilhões de vezes com membros da minha espécie. No entanto, visto de dentro, a morte é um acontecimento insondável, o desaparecimento do meu mundo consciente e de tudo que ele contém. O fim do meu mundo subjetivo.

A perspectiva da morte é causa de perplexidade e temor, revela que não somos a origem da realidade que habitamos nem o centro do universo. Ela é apenas o último ato já que a vida nos diminui a cada dia de tal forma que quando a morte finalmente chega, leva apenas  um quarto ou metade do que, na juventude, fora um belo exemplar da espécie. A vida é uma viagem que transcende o nosso pensamento clássico, a destruição entre passado, presente e futuro. È apenas uma teimosa e persistente ilusão.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

COMUNICAÇÃO POLÍTICA: CONFIANÇA OU IMPREVISIBILIDADE? ALICE E O GATO!




Por César Maia


1. Pesquisas de todos os tipos, e de vários institutos, mostram sempre que a curva de Confiança é declinante em geral ou setorialmente. Isso afeta a presidente Dilma, como as pesquisas mostram. Mas afeta também a generalidade dos governadores, dos prefeitos e dos políticos; e até das instituições.
         
2. Em comunicação política, usar a palavra certa, do ponto de vista do conteúdo e da compreensão das pessoas, é fundamental, e decisivo. Numa pesquisa, as pessoas consultadas respondem em função do que entenderam. O entrevistador deve ser impessoal, sem comentários, sem caras e bocas. Uma pergunta que permite mais de uma interpretação, no mínimo, exigiria outra para se acertar o foco.
         
3. Por exemplo: Você Confia na Presidente Dilma? Até aqui não há nenhuma razão para que as pessoas não tenham confiança na pessoa física de Dilma. Pode-se entender que não confiam no governo dela. Uma campanha eleitoral presidencial ou de governadores, quando esquenta, afunila para a pessoa, para a imagem dos candidatos. A clássica frase: Você compraria um carro usado dessa pessoa?
         
4. Toda a cobertura de imagem de Dilma a mostra como durona, como correta, como honesta. A conclusão é que as pessoas confiam na Dona Dilma. Comprariam um carro usado dela. Se num debate ou na imprensa ou nos programas eleitorais, um candidato perguntar ao eleitor de forma provocativa –se ele confia na Dilma- é possível que o (a) eleitor (a) responda para si mesmo (a) que confia e diga para sua/seu esposa (a) ao lado: É difícil ela trabalhar no meio dessa corja.
         
5. A qualificação na comunicação deve ser a correta. Por isso, preliminares de pesquisa –qualitativa- buscando situar adequadamente os termos, devem ser feitas sempre que existam dúvidas. Testes em reuniões informais, sem alertar as pessoas, têm sido feitos de forma a ajustar o foco do sentimento das pessoas. A mesma pergunta se Confia ou Não Confia tem respostas semelhantes para os três candidatos. As pesquisas dizem que os eleitores querem mudança, querem mudar. Mudar em si não qualifica ninguém. Para onde?
         
6. (Lewis Carroll: Alice no País das Maravilhas). Alice pergunta ao Gato: Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui? Isso depende muito de para onde queres ir - respondeu o gato. Preocupa-me pouco aonde ir - disse Alice. Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas - replicou o gato.
         
7. A palavra-chave, neste momento, é IMPREVISIBILIDADE. Não há previsibilidade com Dilma. Também não há –ainda-  previsibilidade com Aécio e Eduardo Campos. Atacar o governo de Dilma aumenta a imprevisibilidade para todos, além dela. Ela faz a mesma coisa: a volta ao passado... Para todos é necessário que se aponte para o horizonte, simultaneamente.
         
8. Sendo assim, as pessoas vão entender, vão ter previsibilidade sobre o futuro e a confiança virá na pessoa física e na pessoa jurídica, simultaneamente. E a comunicação fica clara, no conteúdo além da forma.


OBS: Artigo extraído da edição de hoje do Ex-blog do César Maia, um informativo do advogado, cientista político e ex-prefeito da cidade do Rio de Janeiro Dr. César Epitácio Maia, conforme consta em http://emkt.frontcrm.com.br/display.php?M=4458259&C=f55055c006c82ea2f27dbd46f2190801&S=8924&L=514&N=3422
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...