quarta-feira, 25 de março de 2015

O SETE, SEU MISTICISMO E A CULTURA INÚTIL




Por Lacerda

Deus criou o mundo em sete dias. A semana possui sete dias que, em diversos idiomas, estão relacionados com o sol, a lua e alguns planetas: domingo - dia do Sol (sunday); segunda  - dia da Lua (Monday, lunes); terça - dia de Marte (tuesday, martes); quarta - dia de Mercúrio (wednesday, miércoles); quinta - dia de Júpiter (thursday, jueves); sexta - dia de Vênus (friday, viernes); sábado - dia de Saturno (saturday)
Sete são as notas musicais cujas denominações são uma homenagem à letra em latim do hino de São João Batista:
Ut (dó) queant laxis  - Para que possam
Resonare fibris         - ressoar as
Mira gestorum          - maravilhas de teus feitos
Famulli tuorum         - com largos cantos
Solve polluit              - apaga os erros
Labii reatum             - dos lábios manchados
Sancti Ioannis           - Ó São João
O sete é o algarismo que mais aparece em todas as obras místicas, na magia, no ocultismo, na Bíblia e em todos os livros sagrados. São sete os pecados capitais (Gula, Avareza, Soberba, Luxúria, Preguiça, Ira e Inveja) e, também, as virtudes para combater respectivamente os sete pecados (Temperança, Generosidade, Humildade, Castidade, Disciplina, Paciência, Caridade).
São sete os sacramentos: batismo, crisma, eucaristia, penitência (ou confissão), ordenação, matrimônio, extrema-unção.
Na Bíblia, o sete está em toda parte: Deus descansou no sétimo dia; sete foi a quantidade de pães que Jesus multiplicou para alimentar a multidão; sobraram sete cestos de pães.
Cristo expulsou sete demônios do corpo de Maria Madalena e disse que não devemos perdoar apenas sete vezes, mas, sim, setenta vezes sete. Foram sete pessoas que se salvaram na arca de Noé; foram sete as pragas do Apocalipse, o qual está repleto de setes: sete estrelas, sete cornos, sete selos, sete candelabros, sete anjos, sete trombetas, sete coroas, sete trovões e sete taças.
São sete os Arcanjos: Miguel, Jofiel, Samuel, Gabriel, Rafael, Uriel e Ezequiel.



Por que será que existem tantas citações referentes ao sete na Bíblia?
O Menorah, que tem sete letras, é o candelabro judaico de sete braços que representam a luz, a justiça, a paz, a verdade, a bevolência, o amor fraterno e a harmonia. O templo de Jerusalém levou sete anos, sete meses e sete dias para ser construído.
Segundo os ensinamentos judaicos, o universo é composto de sete céus: Vilon, Raki'a, Shehaqim, Zebul, Ma'on, Machon e Araboth que é o sétimo céu.
E pra não ficar por baixo, Maomé criou os sete céus do islamismo que, na verdade, são oito: Firdaus (o mais alto),‘Adn, Na’iim, Na’wa, Darussalaam, Daarul Muaqaamah, Al-Muqqamul Amin, Khuldi (o mais baixo).
A mitologia hindu cita sete mundos superiores (sete céus) e sete mundos inferiores (sete infernos). A terra é considerada o mais baixo dos sete mundos superiores.
A umbanda, que também tem sete letras, está igualmente repleta de setes: em suas falanges, encruzilhadas, flechas, raças, porteiras, na estrela de sete pontas, etc, e em suas sete Linhas (de Oxalá, de Iemanjá, de Xangô, de Ogum, de Oxóssi, de Cosme e Damião e dos Pretos Velhos).
São sete as maravilhas do mundo antigo (a Pirâmide de Quéops, os Jardins Suspensos da Babilônia, a Estátua de Zeus em Olímpia, o Templo de Artemis em Éfeso, o Mausoléu de Halicarmasso, o Colosso de Rodes e o Farol de Alexandria) e são sete as maravilhas do mundo atual. Mas, essas vivem mudando, não adianta relacioná-las. O que não muda são as sete artes: A música, a pintura, a escultura, a arquitetura, a literatura, a dança e o cinema. Esta considerada como a sétima arte.
São sete os elementos que compõem tudo o que existe: neutrino, elétron, quarks, glúons, bósons, fótons, gráviton.
São sete os anões da Branca de Neve (Dunga, Zangado, Atchim, Soneca, Mestre, Dengoso e Feliz); são sete as vidas do gato; é o sete que a gente pintava quando criança; e as menininhas cantavam “sete e sete são quatorze, três vezes sete vinte e um, tenho sete namorados só posso casar com um”.
São sete as listras vermelhas da bandeira americana. São sete as cores do arco-íris (vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil, violeta) e foram sete os sábios da Grécia Antiga (Sólon, Pítaco, Quílon, Tales de Mileto, Cleóbulo, Bias e Periandro).
São sete os mares na ficção árabe da idade média (o Adriático, o Arábico, o Cáspio, o Mediterrâneo, o Negro, o Vermelho e o Golfo Pérsico).
Sete dias é a duração de cada fase da lua. É a sete chaves que devemos guardar um segredo. Com sete letras apenas podemos escrever todos os algarismos romanos. Sete é o número de elementos de qualquer conjunto de pagode. Sete são os cargos políticos eletivos no Brasil. Sete é o primeiro algarismo do código de barras de produtos brasileiros.
Sete é o número da minha casa, e até o meu e-mail do gmail tem sete letras e três setes. Além disso, 77 é a minha idade cronológica.
E dizem que o casamento feliz tem que superar a crise dos sete anos que é o tempo para a renovação interna por que passamos ao longo da vida. E no final, vamos todos para sete palmos abaixo da terra, mesmo tendo pulado sete ondas no réveillon.
Pitágoras afirmou que o sete é um número sagrado, perfeito e poderoso, além de mágico.Tanto misticismo em torno do sete é algo inexplicável e muito complicado.

É um bicho-de-sete-cabeças.


OBS: O texto acima foi recebido para publicação aqui na C.P.F.G. via email enviado a mim pelo seu autor (foto), o qual também atua na blogosfera administrando a página Mangaratiba. Quanto às ilustrações acima, ambas foram extraídas respectivamente extraída da internet em http://www.aquarela.poetica.nom.br/sete/sete_imagem.jpg e http://pt.wikipedia.org/wiki/Arcanjo#/media/File:Archangels.JPG (Wikipédia)

sábado, 21 de março de 2015

O problema das coincidências




Certa vez uma pastora evangélica do meio pentecostal disse-me não haver coincidências. O que existe, segundo ela, seria a "jesuscidência", dando a entender que os acontecimentos da vida seriam determinados pelo Cristo de Nazaré.

No entanto, não sei o que essa líder religiosa iria falar diante da repetição de fatos negativos, os quais também ocorrem com muita gente debaixo do céu, inclusive com os justos. Será que, neste caso, ela caracterizaria a situação como uma diabocidência ou imputaria a causa do evento ruim diretamente a Deus?!

Considero muito complicadas as interpretações do ser humano (e principalmente das mentes mais fechadas) diante das coincidências. Pois é uma tentação para qualquer um, ao invés de buscar respostas racionais, achar que é uma questão de sorte, destino, bênção, castigo de Deus, um ataque demoníaco, macumba de um vizinho invejoso, efeito de uma simpatia, intercessão de um santo, etc. Se, por exemplo, um sujeito desesperado reza para a Virgem Maria sobre algo que necessita e vem a receber uma boa notícia tempos depois acerca daquilo que havia pedido, tal homem pode convencer-se facilmente ter sido ajudado por Nossa Senhora. E não duvido que ainda vou ler comentários na internet de devotos da santa afirmando serem beneficiários de um milagre. Ou quem sabe terei mensagens de evangélicos radicais alegando ser "coisa de Satanás" tal atribuição à mãe de Jesus...

Até quando iremos perder tempo tentando identificar padrões onde eles não existem?! Chega de querermos conectar dados aleatórios a ponto de criarmos estúpidas crenças religiosas, as quais muitas das vezes tornam-se frutos de uma psicose não tratada.

Há que se ter sempre cautela, meus amigos! Se nos faltar o devido discernimento, corremos o sério risco de cair num terrível auto-engano deixando de usar a lógica nas nossas análises e decisões. Dai ser indispensável aprendermos a levar em conta as probabilidades comuns a todos os eventos. Pois obviamente é muito mais fácil você sair à rua e se apaixonar por uma pessoa adequada ao seu perfil do que acertar sozinho na loteria vindo a ganhar 100 milhões de reais com apenas uma jogada. E para chegar a uma conclusão assim não depende de sorte ou azar, mas sim de cálculos matemáticos e estatísticos.

Já na década de 1950, Julian B. Rotter (1916 - 2014) introduziu em Psicologia o conceito de locus of control (o lugar do controle) afim de designar a percepção do indivíduo a respeito das causas subjacentes aos eventos existenciais. Para Rotter, o nosso comportamento muitas das vezes seria reforçado pelas ideias de recompensa e punição, a partir das quais são geradas crenças em torno das ações que devem ser tomadas. Logo, o locus of control seria a plataforma de onde a pessoa atribui significação de responsabilidade aos fatos ocorridos na vida.

Ao deslocar o locus of control para o lado externo (culpando a outros) o indivíduo pode muito bem estar fugindo de suas responsabilidades caracterizando uma atitude imatura como se ele estivesse sempre certo e o mundo inteiro errado. E, infelizmente, é o que muita gente costuma fazer devendo cada um de nós agirmos com cuidado acerca dessa análise afim de constatarmos corretamente qual a nossa exata parcela de contribuição.

Caros leitores, o que a vida cada vez mais me ensina é que devo saber creditar aos acontecimentos do mundo físico os resultados que obtenho. Principalmente as minhas ações e omissões! Assumir que sou a causa torna-se então uma revelação libertadora que muito pode ajudar a ter o controle da própria história, mesmo sabendo que não alcançarei tudo o quanto desejo. E aí já não preciso mais ficar tirando falsas conclusões acerca da coincidência dos fatos que se repetem sabendo que Deus como a Causa Primeira do Universo não retira da humanidade o poder de decidir muitos aspectos de seu destino pelas escolhas que fazemos no uso do livre arbítrio.

Um ótimo descanso semanal para todos!


OBS: A ilustração acima refere-se à uma foto da NASA tirada em 1976 quanto à superfície do planeta Marte aparentando ilusoriamente uma face humana conforme o ângulo de visão do observador.

sexta-feira, 6 de março de 2015

O desenvolvimento da política e da democracia nos municípios brasileiros




Curioso como que, após um quarto de século da Constituição de 1988, os municípios brasileiros em sua grande maioria continuam gozando de uma menor democracia do que no âmbito da União Federal e de seus respectivos estados. Falo das oportunidades de participação cidadã dentro da política local, do processo de disputa eleitoral e da impossibilidade de formação de partidos municipais, além dos direitos do estrangeiro em votar e ser votado para os cargos de prefeito e de vereador.

Uma de minhas críticas à deficiente democracia nos municípios refere-se à propositura de projetos de lei de iniciativa popular. Nossa Carta Magna proclama que "Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente" (art. 1º, parágrafo único). Porém, para que ocorra a participação da sociedade na elaboração das leis de sua cidade exige-se que a proposta de projeto seja subscrita por no mínimo 5% (cinco por cento) do eleitorado do Município. Isto é, para que os vereadores ao menos apreciem a proposta legislativa vinda de um cidadão comum, podendo a Câmara aprová-la ou rejeitá-la, é preciso recolher um percentual de assinaturas de munícipes com direito a voto que, a meu ver, mostra-se flagrantemente excessivo.

É certo que, em alguns lugares, criou-se um atalho para que a sociedade civil organizada (ONGs, associações de moradores e sindicatos) pudessem dialogar melhor com os vereadores através das respectivas comissões de legislação participativa, as quais são geralmente conhecidas pela sigla CLP. Por meio desse organismo, as ideias dos grupos atuantes numa cidade podem virar normas jurídicas mesmo que apresentadas informalmente cabendo ao edis (ou à assessoria dos integrantes da comissão) adaptar a proposta aos termos técnicos afim de que a mesma vire um projeto de lei de autoria do referido órgão colegiado da Câmara. Só que são poucas as cidades brasileiras que até hoje abriram esse simples canal de contato... Por que será???!!!

No entanto, mesmo que dessem a um grupo menor de cidadãos eleitores o direito de iniciativa direta quanto aos projetos de lei, o certo é que tal mudança pouco modificaria as relações de poder num município se o acesso aos cargos de vereador e de prefeito continuar condicionado à filiação prévia nos partidos de representação nacional. Pois penso que, numa eleição municipal, a qual ocorre em época distinta das eleições nacionais e estaduais, caberia a formação de agremiações locais de eleitores. Ou seja, um grupo de pessoas interessadas na gestão do lugar onde vivem criaria uma instituição com um número mínimo de membros afiliados, com CNPJ, estatuto e realizaria sua própria comissão afim de apresentar candidatos à Justiça Eleitoral. O juiz, uma verificando o cumprimento dos requisitos exigidos pela legislação, autorizaria que tais homens e mulheres pudessem concorrer de igual para igual com os partidos políticos já existentes.

Oras, numa cidade isso seria quase que uma revolução cívica porque muitos municípios deixariam de ser feudos daquelas poucas famílias que há décadas se revezam no poder e controlam os partidos. Por outro lado, haveria uma inversão quanto à hierarquia anti-democrática da maioria dos nossos partidos em que as executivas estaduais chegam a intervir nas escolhas dos diretórios municipais conforme os interesses de determinados caciques da política. E, consequentemente, a agremiação local de eleitores não ficaria sujeita a nenhum controle discricionário vindo de cima devendo apenas prestar conta quanto à legalidade de seus atos.

Embora numa democracia seja aconselhável que tenhamos partidos fortes, sindicatos fortes, associações de moradores fortes e ONGs fortes, há que se dar uma maior flexibilidade de organização partidária no âmbito dos municípios afim de que os moradores de uma cidade participem mais ativamente da política. Pois, sem dúvidas, isso traria enormes benefícios para a consciência e identidade local, aumentaria o controle social sobre as decisões e proporcionaria um amadurecimento das pessoas as quais passariam a compreender melhor o espaço urbano como sendo delas e de todos..

Finalmente há que se conceder mais direitos políticos ao estrangeiro. Pois considero justo que os imigrantes com residência permanente no Brasil há mais de três anos possam exercer o direito de voto e de se candidatar ao cargo de vereador, desde que saibam falar e escrever fluentemente o nosso idioma. A esse respeito existem três propostas de emenda à Constituição com temas correlatos: as PECs 14/2007, 88/2007 e 25/2012. A primeira proposta, do senador Alvaro Dias (PSDB-PR), visa a garantir o direito de manifestação dos estrangeiros, já que o Brasil foi formado com a participação de imigrantes dos diversos continentes. Já a PEC 88, do ex-senador Sérgio Zambiasi, sugere reciprocidade na garantia de direitos políticos a estrangeiros com nações que asseguram o voto a brasileiros natos, como Nova Zelândia, Dinamarca, Holanda, Suécia, Finlândia, Bélgica, Chile, Venezuela, Colômbia, Paraguai e Uruguai. E a PEC 25, do senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), garante uma série de direitos aos estrangeiros, entre os quais o direito ao voto àqueles com residência permanente no país.

Por uma questão mesmo de justiça, o Estado brasileiro não pode permanecer indiferente à necessidade de dar voz e voto às grandes correntes migratórias que vêm viver sob sua jurisdição! E, quando falamos da política de uma cidade, não cabe alguém invocar aquele antigo temor de "atentado à soberania nacional" que muitos herdaram dos tempos da ditadura militar. Afinal, as alterações propostas pelos senadores não modificarão a disciplina constitucional relacionada ao preenchimento dos cargos públicos de relevo que a Constituição reserva, em defesa do interesse nacional, a brasileiros natos. Com isso, seguirão privativos de brasileiros natos os cargos de presidente da República e vice, dos ocupantes da ordem sucessória do Presidente – presidentes da Câmara dos Deputados, do Senado Federal e do Supremo Tribunal Federal -, assim como os de diplomata, oficial das Forças Armadas e de ministro da Defesa.


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