segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Voltando ao assunto sobre o impechment em 2016...





O Datafolha divulgou recentemente uma pesquisa sobre qual seria a percepção dos brasileiros a respeito do envolvimento do ex-presidente Lula com empreiteiras investigadas na operação Lava Jato. Na oportunidade, o instituto também perguntou se a Câmara deveria aprovar o impeachment da presidente. Em dezembro de 2015, 60% dos entrevistados haviam dito que sim e essa taxa manteve-se estável na nova pesquisa, 60%. Se em dezembro, 34% disseram que não, agora foram 33%. Antes, 3% eram indiferentes, agora são 4%.

Confesso que sou pela democracia e entendo que para ela continuar existindo, há que se exigir a responsabilidade das nossas autoridades eleitas. Em sua original e pioneira biografia sobre o impeachment, o jurista e ex-ministro do STF, Dr. Paulo Brossard de Souza Pinto, falecido em abril de 2015, assim considerou:

"(...) a só eleição, ainda que isenta, periódica e lisamente apurada, não esgota a realidade democrática, pois, além de mediata ou imediatamente resultante de sufrágio popular, as autoridades designadas para exercitar o governo devem responder pelo uso que dele fizeram (...)" - Em O "impeachment", Pág 09

Verdade é que a admissão da denúncia assinada pelos doutores Hélio Bicudo e Miguel Reale Júnior, solicitando a instalação do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, não se trata de algo infundado. Afinal, as "pedaladas fiscais" podem vir a caracterizar uma conduta prevista na nossa legislação como crime de responsabilidade, consistente em irregulares manobras do governo para pagamentos usando os bancos públicos.

Mas o fato é que o processo de impeachment é algo de cunho político e isto permite dar uma interpretação de tal modo ao caso, sendo certo que a nossa Câmara Federal não goza hoje de um pingo de legitimidade moral para dar andamento a essa denúncia enquanto mantiver na Presidência da Casa o senhor Eduardo Cunha (PMDB).

Tão pouco tem o partido do referido parlamentar fluminense quaisquer condições de assumir o país visto que muitos de seus integrantes se acham envolvidos juntamente com o PT e o PP no maior escândalo de corrupção da história. Aliás, o próprio Cunha encontra-se já denunciado e vem usando dos poderes de seu cargo, bem como da influência que possui, para retardar ao máximo as ações do Conselho de Ética da Câmara.

Vivemos hoje um delicado momento de crise de credibilidade das instituições democráticas. Desde a época das manifestações de 2013, ficou evidenciado o fato do povo brasileiro não mais enxergar a corrupção encarnada numa só pessoa ou num único partido. O cidadão comum compartilha do sentimento de que a safadeza generaliza-se por toda parte, nos três Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) e nas três esferas estatais (União, Estados e Municípios).

Diante desse clamor público que grita por justiça, por seriedade, por coerência e exige respeito pela dignidade humana, não vejo outro caminho senão o Brasil vivenciar uma reforma ética coletiva capaz de impor às nossas autoridades uma nova maneira de agir. Pois, somente com a restauração da decência, é que fará algum sentido punirmos um governante por causa das ditas pedaladas fiscais, cuja gravidade nem se compara com os atos ilícitos imputados ao senhor Eduardo Cunha e a diversos outros deputados acusados de corrupção.

Concluo dizendo que esse não deve ser o momento de silenciarmos. Já passou o Carnaval, devendo a nação retornar às ruas e defender uma nova política no país em que todas as quadrilhas do Poder Público fiquem de fora. Por isso, mais do que nunca, apoio o projeto de lei de iniciativa popular defendido pelo Ministério Público Federal. E, sendo assim, como existe a necessidade de coleta de 1,5 milhão de assinaturas, importa incentivarmos as pessoas para que assinem a proposta comparecendo na unidade da Procuradoria da República mais próxima.

Outra medida que precisa ser discutida, ao invés de se falar em coisas esdrúxulas do tipo "intervenção militar constitucional", seria apostarmos numa democratização radical dos partidos eleitorais e voltarmos a debater sobre o sistema parlamentarista. Neste, poderíamos apurar a responsabilidade dos governantes com maior amplitude através de mecanismos como o voto de desconfiança ou a moção de censura, obrigando a demissão de todo um ministério insatisfatório e mantendo a estabilidade do Estado.

Sem dúvida temos que combater a bandidagem na política com mais democracia e transparência, lutando por um sistema de governo com melhor dinamismo e sensibilidade aos anseios populares. Daí a necessidade desse Congresso primeiramente lavar a sua própria suja para então iniciarmos todos juntos um processo de reforma constitucional capaz de prevenir e de combater melhor a corrupção.

Quanto ao impeachment, ele é admissível, mas será conveniente do ponto de vista ético-político? No mérito, apenas poderá ser procedente caso haja uma coerência nacional capaz de justificá-lo. Logo, se é pra Dilma sair, opto pela via que vai de encontro ao meu ideal parlamentarista e que seria a anulação das eleições de 2014 (por causa do uso do dinheiro subtraído da Petrobrás em campanhas), abrindo-se então uma nova disputa política. E, num momento posterior, talvez lá para 2021, haveria novo plebiscito para o povo escolher se o Brasil deve continuar sendo presidencialista ou aderir ao sistema parlamentar de governo. Pois, se assim fosse, obviamente que a pressão social já teria feito a Dilma cair há um tempão por sua baixíssima popularidade.



sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Comentário de Eça de Queiroz em 1867




Lendo a edição de hoje do Ex-Blog do César Maia (clique aqui para acessar), deparei-me com essa interessante citação do escritor português José Maria de Eça de Queiroz (1845 — 1900), datada de 1867, a qual foi extraída a partir de outro sítio na internet (Comunicar é preciso), sendo originada do jornal Distrito de Évora:

1. “Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois fatos que constituem o movimento político das nações. A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.
     
2. A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se.
   
3. Todos os desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva. À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (...) todos querem penetrar na arena, ambiciosos dos espetáculos cortesãos, ávidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos da vaidade.”

Ao refletir sobre esse escrito de quase 150 anos atrás, relativo à pátria irmã que nos gerou, encontro muitas semelhanças entre lá e cá . E, se Portugal avançou um pouco, menos pode ser dito a nosso respeito.

Para quem não sabe, Distrito de Évora foi um jornal de Portugal com publicação bissemanária, fundado pelo próprio Eça em dezembro de 1866 do qual era também o seu principal redator. Ali foram publicados vários textos críticos da orientação e atuação política da época, tendo sido a última edição de 1º de setembro de 1867.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

O lado simpático de um psicopata




Em seu recente livro Holocausto nunca mais, um romance histórico-psiquiátrico sobre os bastidores da Segunda Guerra Mundial, publicado em 2015 pela editora Planeta, o psiquiatra Augusto Cury nos trás dados impressionantes sobre o maior psicopata do século XX - Adolf Hitler (1889 - 1945).

Tendo estudado por anos a personalidade desse demônio em forma de gente, Cury expõe o gosto do Führer pelas artes, por música clássica, ópera e também pelos animais. Se com uma mão ele acariciava sua cadela de estimação Blondie, com a outra ele telefonava para seus subordinados assassinarem de uma só vez milhares de seres humanos num campo de concentração nazista. Na página 484 do livro, o autor mostra uma citação de Hitler sobre o seu cachorro Foxl que tivera na época da Primeira Guerra Mundial:

"Como eu gostava daquele bicho. Sempre que alguém encostava em mim, Foxl ficava furioso. Nas trincheiras, todos o amavam. Durante as marchas corria ao nosso redor; tudo observava, nada o distraía. Compartilhávamos tudo. À noite dormia ao meu lado" (DELAFORCE, Patrick. O Arquivo de Hitler, p. 32. São Paulo: Panda Books, 2010)

No entanto, o que mais chamou a minha atenção sobre Hitler foi o poema que escreveu em 1915, durante a guerra das trincheiras, quando estava apenas com 26 anos e servia ao exército alemão levando recados do comando ao front de batalha. É como consta na página 496 da obra de Cury que se utilizou da mesma fonte bibliográfica acima:

"Frequentemente sigo em noites frias 
Ao Carvalho de Odin no calmo bosque 
Tecendo com negra magia uma união 
A lua traça runas com seu feitiço 
E sua mágica fórmula humilha 
Os que se enchem de orgulho à luz do dia! 
Forjam suas espadas em fulgurante aço 
- mas, em vez de lutar, 
Congelam como estalagmites. 
Assim se distinguem as almas - as falsas das verdadeiras 
Penetro um ninho de palavras 
E distribuo dádivas aos bons e aos justos 
E minhas mágicas palavras lhes trazem bênçãos e riquezas." 

Ora, quem fizer um estudo atento desse inegável salmo satânico observará traços de uma personalidade doentia. Por trás das palavras aparentemente belas, esconde-se não só a sua inclinação para um perigoso messianismo, a ponto de Hitler pensar que era um abençoador dos homens, como também podemos perceber a maneira como ele já criava a sua perversa distinção entre pessoas. Algo que, em pouco mais de duas décadas, vai se evidenciar nas suas perseguições a judeus, ciganos, eslavos, marxistas, doentes mentais e homossexuais.




Entretanto, o romance de Cury nos faz refletir sobre a possibilidade de novos hitleres chegarem ao poder em tempos de crise, quando a má formação educacional dos cidadãos permite a condução de psicopatas ao poder dando ouvidos às "mágicas palavras". Pois como explicar a simpatia de muitos eleitores norte-americanos pelas loucuras do bilionário Donald Trump, pré-candidato republicano à Casa Branca, o qual propõe expulsar muçulmanos do seu país e construir um muro na fronteira com o México?




Nessas horas, pergunto se estamos de fato prevenidos ou se nos deixaremos manipular por esses radicais. Questiono como alguém semelhante a Hitler não chegaria facilmente ao poder num Brasil cheio de ignorância considerando que o ditador alemão ascendeu numa das nações mais cultas do planeta, e berço de inúmeros filósofos da humanidade? Por isso, mantenho minhas preocupações quanto aos políticos da chamada "bancada da bala", os quais propõem coisas absurdas tipo a pena de morte. E, quanto à tão defendida pré-candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência, como vejo em postagens nas redes sociais do Facebook, confesso que eu seria até capaz de votar no Lula (em alguém apoiado pelo governo), caso ele dispute as eleições de 2018 e consiga ir para o segundo turno.




Portanto, que ninguém se engane! Como já havia dito Jesus de Nazaré há quase dois mil anos em seu Sermão Profético no Monte das Oliveiras, muitos viriam em seu nome se dizendo o Cristo (Mt 24:5). Ou seja, o Mestre dos mestres, na sua profunda análise da História, expôs os terríveis riscos do messianismo, prevendo a sua possível repetição no futuro. E aí espero que o Brasil, sendo um país majoritariamente cristão, não se deixe iludir.

Holocausto nunca mais!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

O reencontro dos bebuns




Numa universidade do interior de Minas Gerais, havia uma turma de amigos aparentemente muito unida e que se reunia quase sempre num boteco da cidade chamado Recanto dos Bebuns. Eram cinco rapazes de seus vinte e poucos anos, todos do último período de faculdade. Chamavam-se Michel, Alexandre, Pablo, Rogério e Felipe. 

No último dia do curso, a galera resolveu se encontrar mais uma vez no referido bar para uma despedida visto que, na manhã seguinte, cada qual retornaria para a sua respectiva cidade. Rogério, filho de um rico pecuarista de Goiás, era quem costumava custear as extravagâncias do grupo com a gorda mesada de quase dez contos recebida em sua conta no Banco do Brasil.

Rogério: Vamos bebemorar, pessoal? Hoje vai ter champanhe pra todo mundo!

Felipe: Pra começar, vai um espumante. E terminaremos todos na pinga. Ou melhor, com umas doses extras de whisky 18 anos, ou, quem sabe, um delicioso Blue Label. Claro! Se o nosso amigo pagar a conta...

Pablo: Pode ser aquela vodka mesmo. Não dá é pra ficar sem o destilado. Cerveja pra nós é água!

Michel: Que nada! Eu não posso é ficar sem aquela morena ali.

Alexandre: Vai lá, cara. É uma tremenda gatinha. Eu já fiquei com a irmã dela. O nome da garota é Sheila.

Michel: Agora não. Deixa em beber primeiro que depois chego na mina. Ela faz o quê?

Alexandre: Estuda Letras. A mãe dá aulas no departamento de História e a família toda é daqui. Se quiser, eu apresento a garota. Tenho a irmã dela no WhatsApp e posso pedir o número dela.

Michel: Já disse depois.

Alexandre: Como é?! Tá com medo? Ei, garçom, trás logo uma dose daquela pinga da casa aqui pro meu amigo.

Houve uma apresentação artística no bar e a banda começou a tocar aquelas músicas sertanejas da moda que fazem uma explícita apologia ao álcool. Após tomar uns três goles da cachaça, Michel tentou se aproximar de Sheila, mas levou logo um fora da menina. Pablo também não conseguiu arrumar nenhuma companhia feminina sendo que apenas Rogério e Felipe deram sorte no final. Antes disso, porém, quando já passava da meia noite, Alexandre propôs aos colegas:

Alexandre: Galera, vamos prometer que, mesmo depois da faculdade, iremos nos reencontrar?

Rogério: Lógico, amigão! Continuaremos sempre unidos e beberemos capeta no Paraíso como fizemos daquela vez quando viajamos para Porto Seguro.

Michel: No inferno, você quer dizer, né?!

Rogério: Que inferno nada?! Se tiver bastante cachaça, qualquer lugar vai ser como o céu para mim. Tomarei uma para cada santo que encontrar por lá?

Todos caíram na gargalhada e o papo continuou.

Michel: Menos pro São Paulo. Não foi ele quem escreveu numa das cartas da Bíblia que é melhor não comer carne e nem beber vinho.

Rogério: E disse também para os gregos que não era bom pro homem tocar numa mulher. Acho que o santo não era chegado na fruta...

Alexandre: Não é bem assim! Fui criado em igreja crente e lembro perfeitamente que, na escolinha dominical, certa vez o pastor leu sobre uma recomendação do Paulo a Timóteo para que este ingerisse um copo de vinho porque o discípulo sofria de problemas no estômago. Acho que eram úlceras, salvo engano, pois há anos não leio a Bíblia.

Rogério: Ei, Pablo. Você que fez Medicina pode explicar para nós se isso realmente procede? Vinho cura dor no estômago mesmo?

Pablo: Não sei. Pelo menos ajuda a curar a nossa ressaca no dia anterior.

Todos riram novamente e, antes que tombassem de bêbados, Rogério reuniu a turma para jurarem que voltariam a se reencontrar a fim de tomarem outra.

Rogério: Vocês prometem por tudo o que é mais sagrado que vamos nos encontrar outra vez para tomarmos uma dose da marvada com limão? Pode ser caipirinha ou capeta! Do contrário, ninguém entrará no céu!

Todos juraram exceto o Alexandre que, após ter vomitado, acabou desmaiando de tanto beber. Percebendo que o amigo dormia, colocaram-no no carrão importado de Rogério e o levaram até à república estudantil onde os alunos menos abastados moravam. No dia seguinte, todos voltaram para as suas próprias cidades. Michel era paulistano, Alexandre carioca, Pablo argentino de Buenos Aires, Rogério do interior goiano e Felipe mineiro de Belo Horizonte. 

Cada qual tentou trabalhar na profissão em que se formara e acabou que se esqueceram uns dos outros deixando de manter contato. Mas antes de partir, Alexandre procurou Sheila e disse que o seu amigo Michel havia se interessado por ela. Sugeriu à moça que reconsiderasse o fora da noite anterior e desse mais uma chance para os dois se conhecerem melhor. Renata, irmã de Sheila, pediu ao seu ex-ficante que não se esquecesse do último encontro que tiveram e trocaram telefones. Daquele dia em diante, passariam a se falar quase sempre.

Ambos os amigos vieram a se casar com as irmãs. Porém, tiveram relacionamentos trágicos. Principalmente Michel. Pois, devido ao vício da embriaguez, o casal brigava constantemente e Sheila resolveu deixar o marido apos registrar uma ocorrência na Delegacia por motivo de violência doméstica. Pegou a filha de quatro anos e voltou a viver na residência dos pais em Minas Gerais.

Deprimido, Michel afundou-se cada vez mais na bebida e experimentou outras drogas também. Acabou demitido do emprego que arranjara numa indústria paulista e não demorou para ser despejado do apartamento onde morava, passando a viver nas ruas como indigente. Quando começou a consumir crack, até a própria família afastou-se dele.

Renata também viveu momentos difíceis por causa da embriaguez diária do marido. O casal teve três filhos e quase se separou no início. Contudo, Alexandre não ficava agressivo quando bebia embora pagasse cada vexame horrível na frente das pessoas, bem como deixava vencer as contas da casa de modo que a esposa nunca parava de reclamar do seu comportamento. 

Quando soube que Sheila havia deixado Michel, Alexandre viajou até São Paulo a procura do amigo e o encontrou dormindo debaixo de um viaduto. Não soube como ajudá-lo mas ficou perplexo ao ver o seu estado de degradação temendo que o mesmo pudesse ocorrer consigo, caso não procurasse ajuda.

Alexandre: Michel, sou eu Alexandre. Levanta daí, cara. Vim ajudá-lo.

Ainda sem reconhecer de imediato quem era que lhe falava, respondeu:

Michel: Me deixa! Vai embora.

Alexandre: Não sei como ajudar você. Diga o que posso fazer. Quer um almoço? Um banho?

Michel: Não quero comida! Paga uma cerveja que eu me levanto. Se for de fato o amigo que tive na faculdade e marido de minha ex-cunhada, certamente você não vai negar esse pedido.

Mesmo sentindo saudades dos velhos tempos, Alexandre preferiu não comprar bebida para o amigo. Olhou para o braço todo picado de Michel (por causa das aplicações de cocaína) e resolveu afastar-se.

Michel: Volta aqui, Alexandre. Deixa pelo menos uns dez reais.

Alexandre: Não posso. Tenho que ir.

Michel: Pode ser cinco ou três reais.

Alexandre: Cara, não rola.

Michel: Um real então? Volta aqui!

Naquele dia, Michel assaltou uma idosa que havia terminado de sacar o dinheiro da aposentadoria no banco. Apesar de levar uma guarda-chuvada na cara, carregou a bolsa da velinha. Após pegar a grana e os pertences de valor, deixou para trás os documentos pessoais dela indo logo comprar pó na favela. Procurou um lugar onde não fosse visto e cheirou até sofrer uma parada cardíaca.

Ao morrer, Michel encontrou São Pedro guardando o Portal do Paraíso, mas este não deixou que ele entrasse no Céu:

São Pedro: Mano, você tem que ficar aí do lado de fora esperando os seus outros amiguinhos da faculdade para tomarem aquela dose caipirinha ou de capeta. Tá lembrado?!

Michel: Que legal, Pedrão! Ótimo saber que vai ter cana e limão no Paraíso. E como faço para arrumar o gelo?

São Pedro: Cana e limão você achará no antigo lar de Adão e Eva que é o Jardim do Éden pois lá existe todo tipo de fruta. Quanto ao gelo, como estamos acima da atmosfera terrestre, aguarde passar uma nuvem de granizo e você colhe a quantidade que precisar. Mas, por enquanto, não deixarei atravessar esse portal até os seus amigos chegarem aqui também.

Não demorou muito e Rogério morreu num acidente de carro quando estava dirigindo bêbado numa estrada a bela Ferrari do seu pai. Ao forçar uma ultrapassagem perigosa, o carro colidiu frontalmente com um ônibus de excursão que vinha no sentido oposto. Ao todo, doze pessoas morreram e vinte e oito ficaram gravemente feridas. Junto com ele, estavam a namorada grávida de seis meses e mais dois amigos no banco de trás, sendo que nenhum dos caronas sobreviveu. Sua alma juntou-se com a de Michel.

Rogério: Fala, cara. Você por aqui?

Michel: Pois é, meu. Fiquei à sua espera. O Pedrão não está querendo me deixar entrar no céu. Diz ele que só quando a nossa turma da faculdade estiver aqui reunida.

Rogério: Que chato! Se ao menos houvesse cachaça no céu... Ei, São Pedro, não tem como eu reencarnar ou dar um rolé no inferno?

São Pedro: Não tenho como decidir nada, filho. Apenas cumpro as ordens do Altíssimo.

Rogério: Que tédio! Isso é maldade e você vai acabar perdendo essa sua aureola. Se ao menos eu pudesse doar metade da minha herança aos pobres e ressuscitar?

São Pedro: Não tem como. Primeiro você não era dono de nada. Continuou vivendo de mesada mesmo depois de formado. Segundo que seus pais ainda vão durar uns trinta anos e chorarão a sua morte até descerem à sepultura. Além do mais, é vontade do Todo Poderoso que vocês cumpram aquele juramento do último dia de aula.

Um ano se passou e foi a vez de Pablo morrer. Embora fosse médico e desse plantões num hospital de Porto Alegre, cidade onde passou a clinicar, teve cirrose hepática. Não conseguiu um fígado para doação que fosse compatível com o seu organismo. Continuava bebendo diariamente mesmo sabendo do diagnóstico e prometia a si próprio começar a cuidar da saúde a partir do dia seguinte. Só que nunca conseguia cumprir e p seu fim foi uma morte solitária no CTI do lugar onde trabalhava. São Pedro recebeu sua alma:

São Pedro: Seja bem vindo ao portal do Céu, doutor! Infelizmente, o Brasil conta hoje com menos um médico.

Pablo: Posso entrar?

São Pedro: Por enquanto, não. São ordens do nosso Paizão Celestial. Aguarde ali do lado dos seus amigos Rogério e Michel até que Felipe e Alexandre também desencarnem e os cinco cumpram o juramento do último dia de faculdade.

Rogério: Oi, Pablo. Chega aqui! Estávamos todos ansiosos pela sua chegada para bebermos aquela deliciosa Caninha da Roça com limão e açúcar. Digo, a caninha dos céus.

Pablo: Se ao menos tivesse uma loura gelada no Paraíso eu já ficaria satisfeito. Nem me importo que seja Itaipava.

São Pedro: Loiras aqui têm muitas, gente. Só que são mulheres e não cerveja. E como esse é um céu cristão, vocês e elas serão todos anjinhos quando entrarem por essa porta. Só no céu muçulmano é que tem aquelas virgens de peito durinho como diz no Alcorão. Mas pra entrar lá é preciso ser seguidor do Maomé, ter visitado Meca e falar árabe.

Rogério: E tem cachaça no paraíso islâmico?

São Pedro: Claro que não. No céu muçulmano, os caras tomam chá de hortelã o tempo todo. Nada de álcool!

Rogério: Então deixa eu passear no inferno, Pedrão!

São Pedro: Fique quieto! Já expliquei que essas decisões não dependem de mim. Agora esperem pelos seus outros dois amigos chegarem aqui. Tenham paciência! Como dizia o sábio rei Salomão, há tempo para casa propósito debaixo do sol...

No dia de seu aniversário de trinta anos, foi a vez de Felipe morrer. A família estava reunida em casa aguardando-o para uma festinha surpresa. Porém, ao sair do trabalho, ele resolveu entrar num bar da periferia de BH, pediu uma cerveja escura e não saiu mais de lá. O celular tocou várias vezes seguidas, mas Felipe não atendeu às chamadas e ainda desligou o aparelho.

Quando foi lá pelas dez da noite, dois caras da mesa ao lado iniciaram uma discussão por motivo fútil. Um deles sacou uma arma e disparou duas vezes no companheiro. Um tiro acertou também Felipe, pegou na cabeça e ele morreu na hora. O assassino evadiu-se imediatamente do local e, quando chegou a Polícia, a família foi avisada sobre o fato.

Para todos os parentes e amigos de Felipe a notícia foi um choque. Naquele ano, ele havia acabado de passar num concurso público e fora nomeado para exercer sua nova função fazia um mês. Também dizia para os seus familiares que tinha parado de beber mas, não raras vezes, sofria uma recaída indo parar na UPA. Só que, na noite do seu níver, levaram seu corpo para o Instituto Médico Legal. Já a sua alma foi conduzida pelos anjos para junto dos amigos Michel, Rogério e Pablo, os quais partiram antes dele.

São Pedro: Acordem, seus ex-pinguços! Olhem quem chegou!

Rogério: É você, Felipão?

Felipe: Uai! Nem estou acreditando que morri, Rogério. Repentinamente apaguei e, no caminho pra cá, os anjos contaram que eu havia sido baleado por um bandido no boteco.

Michel: Estou vendo a lesão na sua testa. Quando estava vivo, tomei tiro três vezes da Polícia, mas sobrevivi.

Felipe: E aí, galera? Quando entraremos no céu? Seremos julgados antes? Como vai ser essa parada?

Rogério: Agora temos que esperar o Alexandre chegar por causa daquele nosso juramento infeliz feito no último dia da faculdade. Consegue lembrar?

Felipe: Eta, sô! Para ser sincero, não...

Pablo: Estávamos bebemorando a formatura no Recanto quando então concordamos em nos reencontrar parar tomarmos capeta no Paraíso.

Felipe: Que diabo! Mas não duvido que eu tivesse concordado com um absurdo desses naquela época. Pois, sempre que enchia a cara, tomava decisões impensadas. Lembro que, antes de passar no concurso para a Prefeitura de Belzonte, abri um escritório e fui fechar negócio com um fornecedor. Ofereceram-me uma bebidinha e não me dei conta quando assinei o pior contrato de minha vida. Precisei fechar as portas da empresa e ainda pagar uma advogada parar defender-me nas ações.

Rogério: Que rabuda, amigo! Mas agora que estamos aqui só nos resta esperar pelo Alexandre para a gente bebemorar a nossa entrada no Céu.

Pablo: Olha, depois desses anos de de espera, já nem sei se quero mais beber outra caninha. Se pudesse voltar atrás, nunca teria concordado com aquela asneira. Aliás, procuraria apoio médico.

Michel: A culpa é toda sua, Rogério! Quem é que teve essa ideia de jerico?

Rogério: Vocês todos eram maiores e vacinados! Além disso, eu não estava falando sério.

São Pedro: Calma, senhores. Jesus acabou de me enviar uma mensagem SMS dizendo que é pra vocês se controlarem e terem paciência. Não se esqueçam de que o Mestre tem nas mãos as chaves da morte e do inferno, podendo fazer o Alexandre durar mais do que o Matusalém, avô de Noé. Por favor, não atrapalhem as orações dos santos no lado de dentro!

Rogério: Epa! É melhor ficarmos quietos. Mas será que Jesus não poderia adiantar o resultado do nosso julgamento?

São Pedro: O Rabi não falou nada a respeito comigo. Mas peguem este meu celular e acompanhem a vida do Alexandre no Rio de Janeiro. Aqui vocês assistirão tudo o que acontece sobre a face da Terra, exceto as mulheres tomando banho, trocando de roupa ou os casais fazendo sexo. Vou tirar uma soneca e. se chegarem mais almas, peço que me acordem. Saboreiem esse peixinho lá do Mar da Galileia que acabei de preparar.

Todos agradeceram ao santo pelo prato menos Rogério porque para ele "sem cerveja não tem graça". Mesmo assim, como não tinham nada para fazer, começaram a acompanhar a vida do Alexandre na Cidade Maravilhosa torcendo para que o amigo se juntasse logo a eles. E todas as vezes em que o amigo se aproximava de um copo de bebida oravam para os anjos afastá-lo do vício.

Numa última briga com Renata, ela deu seu ultimato a Alexandre quando este recuperou-se de seu porre por causa de mais um rebaixamento do Vasco no Brasileirão:

Renata: Na próxima não vou mais tolerar, caso não tome uma atitude e procure tratamento contra essa doença que é o alcoolismo. Venho sendo mais tolerante com você do que minha irmã em relação ao seu amigo falecido Michel. Só que a paciência tem limites! Não é essa a vida que eu quero...

Alexandre: Amor, jamais encostei as mãos em você...

Renata: Mas você me violenta de outras maneiras. E não quero que nossos filhos recebam maus exemplos do pai. Por duas vezes marquei consulta na clínica com o terapeuta e você não foi.

Alexandre: Desculpa, amor. Prometo que vou mudar.

Renata: Não prometa, Alexandre. Tome a atitude certa dessa vez pois já sabe o que deve fazer.

No mesmo dia, Alexandre procurou um vizinho que fazia parte dos Alcoólicos Anônimos e pediu para acompanhá-lo numa reunião.

José: Boa tarde!

Alexandre: Boa tarde, seu José. Por favor, leve-me a um dos encontros do AA e me ajude.

José: Claro, vizinho. Você será muito bem vindo. Passo amanhã à noite para buscá-lo.

Ambos foram juntos à reunião e Alexandre foi parabenizado pelas primeiras vinte e quatro horas sem álcool tendo sido calorosamente recebido pelo grupo. Seu vizinho passou a lhe prestar apoio e deu umas três literaturas informativas da instituição:

José: Lembre-se, vizinho, de que é um dia de cada vez. O primeiro passo você já deu que foi admitir a sua dependência alcoólica e procurar ajuda. Peça ao nosso Pai Maior que te dê serenidade e jamais desista de sua caminhada. Se precisar de um médico, vá até à clínica. Eu mesmo fui encaminhado pelo psiquiatra do CAPS para uma terapia de grupo quando comecei a parar de beber. Caso precise, não tenha vergonha de conversar com o doutor daquela clínica ali no outro bairro.

Alexandre: Acho que vou lá esta semana. Não quero perder minha mulher e nem decepcionar meus filhos. Pena que precisarei ir de ônibus à consulta porque fui pego no bafômetro uns dias atrás quando voltava de uma festa. E ainda terei que pagar uma multa bem cara.

José: Há males que são para o nosso bem, vizinho. Reconheça que a sua família continua ao seu lado. Você tem alguma religião? Acredita em Deus?

Alexandre: Fui crente quando criança e me desviei na juventude. Não sei se estou preparado para voltar à igreja agora. E, quanto à fé, ando meio ateu ultimamente.

José: Bem, no meu caso, fui católico praticante desde criança, porém acabei me tornando espírita. No AA, não temos nenhuma religião. Somente oramos ao Poder Maior que é Deus. Sinta-se à vontade para frequentar a religião que desejar ou nenhuma delas. Aceite-nos como uma fraternidade para além de qualquer crença ou doutrina. Agora já sabe qual o caminho de nossa sede.

Alexandre: Muito obrigado, seu José. No próximo encontro estaremos juntos.

Os anos passaram e Alexandre nunca mais ingeriu qualquer gota de bebida alcoólica. Virou um assíduo frequentador do AA, tornando-se um excelente pai e marido. Viu os filhos crescerem, casarem-se e lhe darem netos. A esposa nunca mais pensou em deixá-lo e, no trabalho, virou o melhor profissional da empresa onde era empregado de modo que foi promovido a chefe de seu setor. Aos cinquenta e cinco anos, voltou a congregar-se na igreja de seus pais, resolveu cursar Teologia e foi ordenado pastor assim que pediu aposentadoria uns dez anos depois.

Mesmo idoso, Alexandre iniciou um bonito trabalho para ajudar dependentes de álcool e de drogas criando uma ONG que homenageava o falecido amigo Michel, também pai da sobrinha de sua esposa, a qual adotara com o falecimento prematuro de Sheila. Usando as ferramentas das redes sociais, conseguiu fazer contatos com os familiares ainda vivos dos demais colegas de faculdade tragicamente mortos por causa da embriaguez, tendo contribuído bastante para ajudar tais pessoas a superarem os traumas da perda. Principalmente os parentes de Felipe.

Em frente ao portal celeste, os colegas de Alexandre acompanhavam atentamente cada ato dele na Terra de modo que nem sentiram o tempo passar. Inclusive o Rogério.

Quando Alexandre já era bisavô, tendo quase cem anos, chegou a hora de sua alma partir e São Pedro apresentou-o aos seus quatro amigos:

São Pedro: Amado irmão Alexandre, seja bem vindo ao portal do céu. Seus amigos o aguardam!

Todos lhe acenaram sendo que tanto Felipe como Michel não cessavam de agradecê-lo pelos benefícios feitos aos seus familiares.

Michel: Obrigado por ter cuidado de minha filha, Alex. Onde eu estava com a cabeça quando esqueci que era pai e me afundei nas drogas?!

Alexandre: Amigo, por que você e os demais não entraram ainda no Céu?

Michel: Foi por causa de uma promessa que fizemos sobre nos encontrarmos um dia para ainda bebermos uma caipirinha. Juramos no último dia da faculdade.

Alexandre: Soube disso mas, na hora H, não confirmei nada porque havia apagado. Portanto, acho que estou livre da obrigação.

Rogério: Pior é que você demorou tanto que todos já perdemos a vontade de beber...

Alexandre: Apóstolo Pedro, como fica a minha situação então? Telefona pra Jesus pois ele é o meu advogado aqui perante Deus. Que eu me recorde, não confirmei o juramento e parei de beber há mais de sessenta anos!

São Pedro: Espere pois vou passar um SMS já.

Antes que São Pedro enviasse o torpedo, Jesus materializou-se no meio deles e se dirigiu a Alexandre:

Jesus: Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que foi preparado para vocês desde a criação do mundo. Mas, primeiro, tomarão o drink que prometeram.

Alexandre: Senhor, não quero mais beber e acho que meus amigos também não.

Jesus: Fica tranquilo, meu filho. Você apenas vai preparar a caipirinha pra galera. Entra ali no Éden, colhe as frutas da estação, corte uns pezinhos de cana e depois pegue uns gelos lá naquela nuvem de granizo. Só tome cuidado com o fruto do bem e do mal para que eu não precise ser crucificado novamente a fim de salvá-lo.

Alexandre: Poder deixar, Mestre. Nem tocarei naquela planta.

Seguindo as orientações de Jesus, Alexandre fez os coquetéis para seus amigos tomarem. Sentia-se enojado com o cheiro da cachaça mas, ainda assim, obedeceu e preparou as bebidas voltando para perto de Jesus:

Alexandre: Senhor, eis aqui o que me pediu.

Jesus: Servo bom e fiel, não tema. Apenas creia!

Alexandre: Mestre, vai mesmo embriagar as almas deles?

Jesus: Claro que não! Nunca leu o que fiz certa vez num casamento em Caná da Galileia?!

Alexandre: Sim! Como eu pregava sobre isso nas igrejas quando falava sobre a importância do matrimônio! E foi o que fez no meu relacionamento com Renata tão logo parei de beber.

Jesus: Homem de pequena fé, se transformei água em vinho, por acaso não poderia fazer o contrário em relação à cachaça? Portanto, ordeno que todo álcool nesses copos vire H2O!

Assim, num clima de celebração, todos beberam o delicioso suco de frutas feito por Alexandre. As portas do Paraíso se abriram e os cinco amigos foram recebidos com festa pela comunidade celestial. Fizeram um santo Carnaval que foi a mais pura alegria sem ressaca. 

sábado, 13 de fevereiro de 2016

O papo bobo de dois ex-sambistas invangélicos




Na saída do culto de uma igreja fundamentalista, dois amigos (João e José) encontraram-se.

João: A paz do Sinhô, meu irmão!

José: A paz. E aí? Como foi lá no retiro esses dias?

João: Bênção pura! O fogo desceu pra valer e quase falei em línguas estranhas. Acho que dessa vez a minha vida vai mudar e conseguirei prosperar no negócio que estou abrindo.

José: Aleluia! Glória ao Sinhô!

João: Agora me conta o que fez durante o Carnaval? Evangelizou as almas perdidas junto com os obreiros na noite de terça-feira? Voltou pro mundo não, né?

José: Que isso, meu irmão! Eu já morri para as coisas dessa vida...

João: Vem cá. Fiquei ciente de que a Mangueira ganhou o desfile na Sapucaí.

José: Como você soube disso se estava no retiro?

João: É que dei uma espiadinha pelo celular quando estava voltando de ônibus na tarde desta quarta-feira.

José: Não foi assistir pela internet as mulheres desfilando quase nuas na avenida?

João: Eu quero ir pro céu, brother! Além disso, sou casado, tenho três filhas adolescentes, ajudo o pastor a servir a Santa Ceia no segundo domingo do mês e o sinal do celular não pegava de jeito nenhum naquele sitio que a congregação alugou em Teresópolis. Mas, como o irmão sabe, já fomos mangueirenses. Então, quando estava naquele engarrafamento horroroso da Washington Luiz, voltando pra cá, toda hora consultava as notícias do Google a fim de acompanhar os resultados da apuração.

José: Sei... Conheço você de velhos carnavais...

João: E, no fundo, confesso que fiquei muito feliz porque a escola pela qual trabalhei durante mais de duas décadas finalmente quebrou o seu jejum de treze anos. A campeã voltou!

José: Olha que eu estou suspeitando dessa vitória.

João: Por que, mano?

José: Escutei no programa de rádio de uma outra igreja evangélica que tudo não teria passado de uma conspiração satânica para homenagear os orixás da Maria Bethânia. Não duvido de que o Plim Plim esteja por trás! Ou você ignora as ligações desta emissora com a macumbaria e com os grupos gays?!

João: Tá amarrado!

José: Só não vê quem não quer...

João: Seja como for, continuo contente com o resultado. E acho que lá no céu o velho Jamelão também deve estar muito feliz. 

José: Você quer dizer no inferno.

João: Que isso! Por que o nosso Gzuis iria mandar um cantor tão talentoso como o Jamelão para arder no andar de baixo?! 

José: Pera aí! O irmão já não se lembra mais das aulas que recebeu do pastor antes de passar pelas águas no batismo? Se uma pessoa morre sem se arrepender dos pecados e não aceitar Gzuis, sua alma vai torrar no inferno por toda a eternidade. Tá no Evangelho! Basta você estudar mais a Bíblia.

João: Conheço a parte do Evangelho do meu xará da Galileia quando o Mestre diz que "quem não crer já está condenado". Só que você precisa interpretar melhor as Escrituras e considerar as inúmeras possibilidades de conversão e de fé. Também não se esqueça de que, assim como eu, foi mangueirense tendo tirado até fotos com o Jamelão e a Dona Zica. Inclusive chegamos a conhecer o Cartola que foi esposo dela.

José: Sim, mano. Mostro essas fotos para todo mundo nos testemunhos que dou pelas igrejas do Rio juntamente com as imagens que guardo do antigo Maraca quando o Mengão consagrou-se como tricampeão brasileiro no começo da década de 80. Aquilo sim era time...

João: E aí? Vai esconder que, no fundo, não ficou torcendo pela Mangueira?

José: Lógico que não. Agora só falta o irmão falar que vai sábado na Sapucaí celebrar o Enterro dos ossos!

João: Como dizia aquele saudoso samba de 94, o qual nós dois pulamos muito, 'atrás da Verde e Rosa só não vai quem já morreu'.

José: Sabia que você não era convertido! Olha, irmão, não basta você ir a retiros de Carnaval, comer a Ceia ou frequentar cultos para conseguir entrar no céu. O caminho salvação é estreito enquanto as portas do inferno são bem largas. Tem que tirar o mundo de dentro de você!

João: Acho que o amigo caiu na minha pegadinha. Quá! Quá! Quá!

José: Como assim?

João: Só vai atrás da Mangueira quem ainda não morreu. Porém, nós dois já morremos pra esse mundo e estamos crucificados com Gzuis.

José: Se é assim, amém. Até o culto de domingo, irmão. A paz do Sinhô!

João: Vai na paz.

Quando chegou o sábado, os dois ex-sambistas (agora "crentes") compareceram na festa da Mangueira. Para evitarem de ser reconhecidos na Avenida, chegaram lá fantasiados. João vestiu-se de mulher colocando uma peruca rosa com um top verde claro enquanto José arrumou emprestado uma máscara de jacaré ao inventar a desculpa de que iria fazer um teatro para "evangelizar" o público infantil, tomando todo o cuidado para não ser visto por alguém da comunidade. Sem um saber quem era outro, ambos vieram a se esbarrar pelo caminho tendo João derramado um pouco de Proibida no amigo:

José: Ei, moça. Toma mais cuidado pra não deixar cair a sua cerveja na minha fantasia. Essa máscara pertence a um vizinho meu!

João: Irmão José? A paz do Sinhô!

José: Quieto! Não conte pra ninguém que me viu aqui. O pastor, se souber, exclui meu nome do corpo de obreiros e vai me colocar novamente para esquentar banco.

João: Pois é. Atrás da Verde e Rosa só não vai quem já morreu...

José: Para todos os efeitos, acabo de ressuscitar.

João: Só tome cuidado com a ressurreição dos ímpios pois estes sairão dos túmulos para o terrível Lago de Fogo do Apocalipse.

José: Faz de conta que ressuscitei somente hoje pro mundão a fim de comemorar brevemente a vitória da nossa ex-escola. Tal como foi com o Lázaro ou a filha de Jairo, tornarei a morrer outro dia.

João: Esquece o Lázaro de Betânia, mano! Hoje é dia de homenagearmos a nossa querida Maria que não é a irmã da Marta mas, sim, do Caetano. Portanto, festejemos com muita aleluia ou axé, coisa que jamais podemos fazer na igreja.

José: Bem, como dificilmente Gzuis volta nesta noite e considero improvável morrermos subitamente aqui, aproveitemos bem esses passageiros instantes de folia porque daqui a pouco começa o domingo.

João: Amém!


OBS: Ilustração acima extraída do WikiRio em http://www.wikirio.com.br/Esta%C3%A7%C3%A3o_Primeira_de_Mangueira

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Saudades da vida

EM SEU LEITO DE MORTE, 

o grande antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro, ouviu do seu amigo  Leonardo Boff, que a morte não era o fim, que uma nova realidade repleta de possibilidades se abririam para ele assim que fechasse os olhos. Darcy, com lágrimas nos olhos, respondeu ao amigo: "Eu queria muito acreditar nisso, Boff..."
Em seu livro de memórias, já sabendo que sua doença era terminal, escreveu:

"Termino esta minha vida já exausto de viver, mas querendo mais vida, mais amor, mais saber, mais travessuras". 

Na natureza, a morte é tão natural quanto a vida. Bichos não têm crises existenciais quando estão morrendo. Eles morrem naturalmente...o bicho homem é o único que não se conforma com a própria morte; ele sente que o fim da vida é acima de tudo, um desperdício. Chico Anysio antes do fim, disse que não tinha medo de morrer, tinha pena de morrer...
Podemos estar "cansados de viver" depois de uma longa vida, mas  o grito que ressoa lá dentro do nosso ser é desejo por "mais vida", por "mais amor" e por mais "travessuras".
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