quinta-feira, 31 de março de 2016

Sistema desacreditado




"Um espaço de corrupção generalizada." Essas foram as palavras ditas hoje (31/03) pelo ministro do STF Luís Roberto Barroso durante um encontro com estudantes bolsistas da Fundação Lemann ao se referir ao sistema político brasileiro, o qual, segundo ele, é centralizado no dinheiro e dependente de financiamento.

Segundo uma matéria publicada no portal do G1 (clique AQUI para ler na íntegra), Barroso teria criticado o PMDB como uma "alternativa de poder" e chegou a exclamar nestes termos: "Meu Deus do céu!"

A princípio, o ministro não sabia que a sua fala estivesse sendo gravada e procurou emendar-se sobre o que havia comentado a respeito da nossa política. É o que mostra este trecho da matéria:

"A audiência foi filmada e transmitida no sistema interno do STF. Antes dos comentários, o ministro frisou que estava falando em um 'ambiente acadêmico' e depois perguntou se sua fala estava sendo gravada. Ao saber que sim, se queixou com auxiliares e pediu para 'desgravar'. Barroso iniciou o comentário afirmando que a política 'morreu', mas se corrigiu noutro momento, antes, porém, de pedir para desgravar. 'Talvez eu tenha exagerado. Mas ela está gravemente enferma', disse."

Sinceramente, se ele exagerou pode ter sido apenas quanto à política em seu sentido amplo pois o nosso atual sistema, além de morto, virou um cadáver fétido, cheio de vermes e capaz de contaminar quem nele tocar. Pois, da maneira como os candidatos ascendem ao poder, qualquer um que vence uma eleição já se encontram comprometido pelo uso de dinheiro sujo em seu caixa dois de campanha. E da onde vem os recursos senão dos esquemas praticados nos órgãos públicos?!

Verdade é que não dá mais para taparmos o sol com a peneira. Mesmo que caiam Dilma, Temer, Cunha e Renan, vamos ter que pensar numa reforma política lá na frente. E o pior é que fica difícil contarmos com os atuais legisladores porque foram eleitos dentro dessa dependência do dinheiro, comprando e vendendo apoio.

Apesar de todo sentimento pessimista que essas constatações me trazem, tenho ainda uma dose de esperança quanto às alternativas que podemos buscar. E aí considero fundamental que a sociedade mantenha o seu apoio ao projeto de lei de iniciativa popular entregue esta semana ao Congresso pelo Ministério Público Federal com mais de dois milhões de assinaturas recolhidas em todo o país. Trata-se de um pacote de dez medidas contra a corrupção propostas pelo órgão, o qual, obviamente, dependerá da aprovação dos nossos parlamentares (leia AQUI a matéria correspondente no G1).

Tal como foi na aprovação de leis da "ficha limpa" e da "delação premiada", em que os políticos precisaram cortar na própria carne para não ficarem mal na fita com o eleitor, entendo que as mudanças desejadas dependerão de um longo processo visto que nenhuma inovação acontecerá de uma hora para outra. Havendo pressão popular, melhor. Porém, toda essa marcha vai requerer de todos paciência, acompanhamento e mais ainda consciência na hora do voto.


OBS: A foto acima do ministro Luís Roberto Barroso foi extraída de umas das páginas da EBC sendo os créditos autorais atribuídos a Antonio Cruz da Agência Brasil, conforme consta em http://www.ebc.com.br/noticias/brasil/2013/06/luis-roberto-barroso-e-nomeado-relator-de-76-mil-processos-no-stf

segunda-feira, 28 de março de 2016

Ressuscitemos a memória dos justos!




Na noite deste último sábado (26/03), estava acompanhando num grupo sobre Direitos Humanos do Facebook a postagem de Rita Colaço sobre o esquecimento histórico de umas das vítimas da regime militar - o operário Manoel Fiel Filho, morto sob tortura pelos agentes da ditadura em 17/01/1976. Em sua mensagem, a autora reclamou da falta de solidariedade das esquerdas, lembrando que, 40 anos depois de seu covarde assassinato, a família ainda não foi indenizada pela União pois o processo somente fora ajuizado em 2006. E, numa de suas respostas aos meus comentários, ela assim esclareceu:

"Rodrigo Ancora da Luz não apenas a parcela (pequena) das esquerdas no poder. Mas a quase TOTALIDADE das esquerdas tem responsabilidade na invisibilidade desse assassinato. Não se vê atos em sua memória, como se vê reiteradamente em relação ao do Wladmir Herzog, acontecido nas mesmas circunstâncias, três meses antes, no mesmo local. Do operário não há quase jornalistas que lhe recordem o martírio (exceção a TV Brasil). Do jornalista e judeu (portador, pelas duas filiações, a volumes de capital simbólico incomparavelmente superiores ao do operário e sua família), sempre se vê rememoracoes, livros etc. Do Operário, quase não se sabe. - Experimente perguntar a conhecidos seus sobre um e outro" (clique AQUI para acompanhar o debate)

Esse breve debate, embora tivesse vindo à tona dois meses depois da morte de Manoel ter completado quatro décadas, foi suscitado num momento que considero bem oportuno. Ou seja, justo na noite do Sábado de Aleluia que é considerado véspera para o Domingo de Páscoa, data esta considerada sagrada pelo cristianismo por causa do episódio da ressurreição de Cristo. Segundo relatado no Novo Testamento da Bíblia, após o martírio na cruz, Jesus de Nazaré teria aparecido às mulheres que o seguiam e também aos seus discípulos no primeiro dia da semana, deixando vazio o túmulo no qual fora colocado seu corpo.

Lembro que, quando Brizola faleceu em 21/06/2004, aos 82 anos, lideranças pedetistas passaram a dizer que o fundador do partido "vivia", muito embora os seus restos mortais permaneçam até hoje na sepultura em São Borja (RS). Mais de uma década se passou e o PDT continua preservando-lhe a memória, tendo o seu nome recebido diversas homenagens em vias públicas, monumentos, enredo de samba da escola Inocentes de Belford Roxo (2009) até se tornar recentemente um novo herói nacional. Foi quando a presidente Dilma Rousseff, sancionou a Lei nº 13.229/15, a qual inscreveu o nome de Leonel de Moura Brizola no Livro dos Heróis da Pátria, gravado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília.

Ora, não é preciso ter mais que meio século nas costas para saber que Brizola foi também governador de dois estados, tendo ele administrado o Rio de Janeiro em dois mandatos. Mas o que dizer daqueles homens e mulheres que jamais saíram das bases da política, tendo enfrentado os canhões da repressão sem poderem preservar suas vidas através de um auto-exílio no exterior? Pois essa foi a luta de Manoel Fiel Filho suicidado na carceragem do DOI-Codi do 2º Exército, em São Paulo.

Por indicação da postagem no Facebook, ao ler a matéria Manoel Fiel Filho: brasileiro, metalúrgico, assassinado, editada por Aécio Amado dia 15/01, numa das páginas da Agência Brasil, pude conhecer um pouco mais da história desse verdadeiro mártir do regime militar, compreendendo a importância que o seu assassinato teve para o processo de redemocratização do país durante o governo de Geisel:

"Assim como Vladimir, Fiel foi morto sob tortura dos agentes da ditadura. A imprensa só soube do acontecido três dias depois, após a divulgação de uma nota lacônica pelo 2º Exército informando que o metalúrgico havia cometido suicídio.

Apesar da pouca repercussão, o assassinato do metalúrgico irritou o presidente Ernesto Geisel, que mandou demitir o comandante do 2º Exército, general Ednardo D’Ávila Mello, praticamente desmontando a máquina de tortura e morte que funcionava no DOI-Codi de São Paulo. A saída de Ednardo não acabou com as violações aos direitos humanos nos porões da ditadura, mas os torturadores passaram a ser mais "cuidadosos" e a linha dura militar perdeu força política dentro das Forças Armadas, o que levou, em 1977, à derrota do general Sylvio Frota, em suas pretensões de suceder Geisel na Presidência da República. O presidente escolhido por Geisel foi o general  João Baptista Figueiredo.

No próximo domingo, 17 de janeiro de 2016, o assassinato do metalúrgico Manoel Fiel completa 40 anos. E a Agência Brasil apresenta hoje (15) uma reportagem especial sobre esse triste episódio da história do Brasil.

A repórter Camila Maciel e a fotógrafa Rovena Rosa foram até a cidade de Bragança Paulista, a 90 quilômetros de São Paulo, onde conversaram com a mulher e as filhas de Manoel Fiel Filho. “Meu marido morreu e salvou a turma que estava presa lá [no DOI-Codi]”, disse Thereza Fiel à Agência Brasil, ressaltando que o assassinato do marido provocou mudanças no tratamento dado aos presos políticos da época.

A reportagem entrevistou também Clarice Herzog, mulher de Vladimir, e o jurista Hélio Bicudo, que atuou no processo aberto contra o Estado brasileiro, responsabilizando-o pela morte do metalúrgico."

Embora as páginas sangrentas da ditadura estejam sendo definitivamente viradas nesta década, em que nem os militares de agora pretendem voltar ao poder daquela maneira, descartando qualquer ideia de intervenção na política do país, sempre é bom relembrar o passado e honrarmos os que lutaram bravamente para reconquistarmos a democracia. E, sendo assim, quero compartilhar aqui o vídeo de documentário Perdão Mister Fiel no YouTube para que possamos nos informar melhor;


Tenham todos uma feliz Páscoa!


OBS: A ilustração acima refere-se à sepultura de Manoel Fiel Filho no Cemitério da Quarta Parada, em Água Rasa, em São Paulo. Os créditos autorais da imagem são atribuídos à fotógrafa Rovena Rosa da Agência Brasil.

quinta-feira, 24 de março de 2016

E se o Dia da Bíblia virasse um novo feriado nacional?




Embora eu defenda o Estado laico, não me oporia à criação de um novo feriado no calendário nacional destinado a homenagear a Bíblia ou quem sabe até a totalidade dos livros sagrados de todas as religiões.

Entendo que o fato do Brasil ter feriados religiosos, por força da tradição do catolicismo romano, a exemplo da  Paixão de Cristo, Páscoa, Cospus Christi, Nossa Senhora Aparecida e Natal não tornam a República confessional. Isto porque, como é de comezinha sabença, o reconhecimento do feriado religioso não estabelece nenhuma relação jurídica entre o Estado e determinada Igreja quanto à sua organização e funcionamento.

Assim, entendo que a adoção do Dia da Bíblia como feriado seria uma maneira do Estado prestigiar a liberdade religiosa e os livros sagrados das religiões dando destaque  à principal literatura do cristianismo e do judaísmo, com uma especial atenção aos evangélicos, hoje o segundo maior segmento cristão do país. É como pude verificar numa página da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB ):

"Celebrado no segundo domingo de dezembro, o Dia da Bíblia foi criado em 1549, na Grã-Bretanha pelo Bispo Cranmer, que incluiu a data no livro de orações do Rei Eduardo VI. O Dia da Bíblia é um dia especial, e foi criado para que a população intercedesse em favor da leitura da Bíblia. No Brasil a data começou a ser celebrada em 1850, quando chegaram da Europa e EUA os primeiros missionários cristãos evangélicos. Porém, a primeira manifestação pública aconteceu quando foi fundada a Sociedade Bíblica do Brasil, em 1948, no Monumento do Ipiranga, em São Paulo (SP)." - extraído de http://www.sbb.org.br/eventos/dia-da-biblia/historia-do-dia-da-biblia/

Sabemos que, desde o início do século, essa comemoração passou a integrar o calendário oficial do país, graças à Lei Federal 10.335, de 19 de dezembro de 2001, a qual instituiu a celebração do Dia da Bíblia em todo o território nacional. Porém, considero relevante que a data também passe a ser considerada como um novo feriado, o que, obviamente, vai afetar muito pouco a economia nacional. Exceto os estabelecimentos comerciais que, por ganância, resolvem abrir aos domingos no mês natalício.

Portanto, fica aí a minha sugestão para que os nossos parlamentares em Brasília (cristãos ou não) possam discuti-la e, se for o caso, apresentarem um projeto de lei nesse sentido.

terça-feira, 22 de março de 2016

Politicando no boteco




Após um dos protestos espontâneos a favor do impeachment, um manifestante radical entrou num bar para esfriar a cabeça. Sentou-se junto ao balcão e foi logo atendido pelo garçom que iniciara há alguns dias o seu contrato de experiência:

Garçom: Boa noite, senhor. O que deseja?

Manifestante: Por favor, uma cerveja bem gelada.

Garçom: Temos SkolBrahmaAntarctica e Itaipava. Qual a sua preferência?

Manifestante: Vai Skol para descer redondinha igual a Dilma quando sair da Presidência rolando pela rampa do Planalto. Quero vê-la algemada pelo japa da Federal junto com o Lula. 

Escutando tais palavras, outro homem vestido de vermelho, filiado ao PT e amigo de copo do manifestante, aproximou-se dando uns tapinhas nas costas do velho conhecido cuja espuma da cerveja já se derramava pelo balcão:

Petista: Não vai ter golpe, coxinha! Viva a Constituição!

Ao reconhecer quem falara com ele, o manifestante replicou:

Manifestante: O golpe já foi tentado pela sua presidanta quando resolveu nomear o Lula pra ministro. Felizmente, o Gilmar Mendes não permitiu.

Petista: Mas é claro que ele não iria permitir, seu fascista. O Gilmar é, na verdade, um tucano que foi indicado pelo FHC pra entrar no Supremo.

Manifestante: Nesse momento, pouco importa, seu comuna. Precisamos tirar o PT do governo e espero que o juiz Moro mande logo a Polícia Federal prender o Lula. Se fosse ele, eu já teria me mandado pra Venezuela e pedido asilo político ao Maduro.

Petista: Quem tinha que ser conduzido à prisão é o Moro porque grampeou sem autorização a Presidência da República. Ele está investigando de forma seletiva e, além do mais, sua família é suspeita de ligações com o PSDB.

Manifestante: Conversa fiada! Pela primeira vez estamos vendo um magistrado de coragem mandando prender gente graúda nesse país como políticos, empreiteiros, pecuaristas, doleiros, executivos, outros empresários importantes do esquema do PT.

Petista: E você acha correto ele atropelar o devido processo legal e deixar vazar conversas telefônicas sobre alguém que nem réu ainda é? Até que se prove o contrário, Lula continua inocente. Como o Brasil todo sabe, nem o sítio ou o triplex no Guarujá estão no nome dele.

Manifestante: Conta isso pra outro, meu caro. O povo todo está indo às ruas pra acabar com essa sujeirada na política. As palavras que aquele bandido falou ao telefone mexeu com o coração da população que havia protestado no dia treze pelo impeachment. O próximo grande protesto certamente reunirá muito mais gente.

Petista: Quem disse que tinha pobre na rua dia treze de março? Se houve, era um ou outro pois a maioria dos que estavam na Avenida Atlântica era formada por pequenos burgueses. Essa classe média ignorante que se acha elite só porque ganha mais de cinco mil por mês e pode comprar carro novo...

Manifestante: Mentira! Não recebo nem quatro contos e tenho saído de casa diariamente pra protestar. Ei, garçom, chega aqui.

Embora observasse de longe a conversa, procurando desviar os olhares para não aparentar que estivesse escutando o papo, o garçom percebeu que seria envolvido forçadamente no debate pelos mais polêmicos clientes da casa com os quais ele estava lidando pela primeira vez aquele dia.

Garçom: Pois não. O que os senhores querem?

Manifestante: Você participou do protesto do dia treze, rapaz?

Garçom: Não, senhor.

Petista: Viu, Nélio. Ele não apoia o golpe. E acredito que até votou na Dilma.

Manifestante: Você votou em quem nas eleições passadas?

Garçom:  Senhores, o voto é secreto, mas, já que perguntaram, respondo que apenas fui às urnas porque sou obrigado. Se pudesse, permaneceria em casa curtindo meus breves momentos de folga com a família.

Manifestante: Tinha que ter ido no protesto! Eu estava lá lutando por cidadãos humildes como você. Por causa do PT é que a saúde e a educação estão desse jeito. O partido que o Carlos defende está acabando com o Brasil!

Petista: Não é verdade! Nunca se fez tantas obras sociais nesse país como nos governos Lula e Dilma. A vida do pobre melhorou consideravelmente na década passada. Não concorda, garçom?

Querendo se evadir da conversa, o jovem atendente do boteco pediu licença para se afastar:

Garçom: Senhores, se me permitirem, preciso ver se as pessoas daquela mesa no canto desejam alguma coisa. Querem mais uma cerveja ou comerem um petisco?

Petista: Trás um cowboy de doze anos pra mim.

Manifestante: Essa é a esquerda comedora de caviar...

Petista: Não amola! Vai bajular o seu Boçalnaro, vai.

Manifestante: Quem inventou que sou partidário do deputado?

Petista: Perdão, esqueci que fez campanha pro Aécio.

Manifestante: Não tenho partido nenhum e acho que os políticos deveriam ser todos eles presos pela Federal.

Petista: Desculpe novamente, pois me esqueci que sempre foi um alienado, um tosco... E, além do mais, torce pelo Fluminense.

Manifestante: Alienado é você que age como um corno apaixonado recusando-se a reconhecer o mega roubo do seu partido. Enquanto defende o PT, o Lula vive no maior luxo frequentando aquele sítio em Atibaia e passando férias num triplex em frente à praia. Acorda, botafoguense!

Percebendo que os ânimos estavam esquentando, o garçom interveio:

Garçom: Senhores, infelizmente não temos mais whisky de doze anos e nem de oito. Se quiserem mais alguma coisa, peçam logo pois a banda já parou de tocar e precisaremos fechar daqui alguns minutos.

Petista: Então pode trazer uma cerveja para eu tomar a saideira com esse meu amigo.

Garçom: Também não temos mais Skol pronta na geladeira.

Petista: Pode ser qualquer uma. Até Itaipava desce.

Garçom: Vou ver.

Temendo uma briga entre os dois clientes no estabelecimento logo em sua primeira semana de emprego, o garçom fez com que esperassem por dez minutos na expectativa de que pagassem a consumação e se retirassem. Como isto não aconteceu, levou até eles um latão de Brahma com dois copos descartáveis trazendo também a conta.

Garçom: Senhores, vai ser em dinheiro ou cartão? Infelizmente, precisamos fechar. São ordens do dono... Posso incluir os dez por cento?

Manifestante: Quanto deu?

Garçom: Setenta e oito reais sem a gorjeta 

Petista: Tudo isso?! Nós só tomamos cerveja.

Garçom: Foi por causa da apresentação artística que vocês assistiram já no finalzinho assim que entraram.

Manifestante: Nunca me cobraram pelo couvert aqui! Além de não ter sido informado quando entrei, sou um frequentador antigo do bar e exijo um tratamento mais respeitoso.

Garçom: Se desejar, eu falo com o patrão. Aguardem um instante que vou telefonar pra ele pois o chefe está na outra casa que temos na Barra.

Não querendo causar constrangimentos, o petista abriu logo a carteira e deu uma nota de cem reais.

Petista: Tá aqui o dinheiro, meu jovem, e pode ficar com o troco. Somos clientes há seis anos e conhecemos o dono. Sei que deve estar um pouco assustado com o nosso jeito, mas somos de paz. Vamos, Nélio.

A fim de não parecer antipático e evitar reclamações sobre o seu trabalho, o garçom decidiu educadamente acompanhá-los até à saída.

Garçom: Obrigado, senhores. Por favor, levem esses pacotinhos de amendoim como cortesia da casa.

Petista: Eu que agradeço, mas, como sou hipertenso, peço que dê tudo para o Nélio. Agora diga a verdade para nós. O Lula foi ou não um bom presidente?

Garçom: Minha vida melhorou por uns tempos na década passada. Ultimamente, porém, as coisas têm andado difíceis.

Manifestante: Você recebe dinheiro do Bolsa Família?

Garçom: Não, senhor.

Manifestante: Adquiriu imóvel pelo programa Minha casa, minha vida?

Garçom: Continuo sendo inquilino em Coelho Neto.

Manifestante: Então por que não foi no protesto do dia treze? Bastava pegar o Metrô!

Garçom: Senhor, reconheço os motivos da causa de sua luta contra a corrupção e respeito o que pensa sobre o impeachment da presidente assim como considero o direito de seu amigo em apoiá-la. Porém, as bandeiras que defendem ainda estão distantes da minha realidade. Por isso, apenas assisto tudo de longe sem expressar a minha adesão. Gostaria de ver mudanças acontecendo, só que não acredito que elas virão com a saída do Dilma ou depois da prisão do Lula.

Manifestante: Mas se a Dilma cair, você não acha que a economia melhora?

Garçom: E vai melhorar pra quem?

Manifestante: Então você é a favor dessa anta na Presidência?

Garçom: A favor de nenhum político e, por mais que o governo esteja mal, prefiro não sair de casa para protestar num domingo, a ponto de deixar a minha mulher sozinha com as crianças e ainda tirar da comida para comprar a passagem no Metrô. O que mais desejo é pagar as minhas contas em dia, fazer um churrasco com os amigos, adiantar a obrinha que estou terminando no terreno da sogra, ver o Flamengo ganhar e viver em paz. Tenham um bom descanso!


OBS: Ilustração acima extraída de uma pagina da EBC, sendo os créditos autorais da foto atribuídos a Marcelo Camargo da Agência Brasil, conforme consta em http://www.ebc.com.br/noticias/brasil/2013/08/associacao-brasileira-de-bebidas-avalia-positiva-discussao-sobre-nova 

quinta-feira, 17 de março de 2016

O ÚLTIMO PASSAGEIRO DO TITANIC!






Por César Maia


1. Em 2010, o TITANIC estava partindo da Praça dos 3 Poderes. As passagens foram sendo entregues no STF e os passageiros conduzidos às cabines especiais do corredor de primeira classe da Papuda.
             
2. Entraram primeiro dois presidentes do PT, José Dirceu e José Genoíno. Entrou o presidente da Câmara de Deputados, João Paulo Cunha. Entrou o Diretor Financeiro do PT, Delubio Soares.
              
3. Quando o TITANIC já estava chegando a alto mar, em 2015, recebeu uma ordem que retornasse à Praça dos 3 Poderes, pois existiam outros passageiros que ainda não haviam embarcado e tinham comprado passagens especiais para o corredor Papuda de primeira classe.
              
4. Ao atracar na Praça dos 3 Poderes, em 2015, entraram mais dois passageiros ilustres. Primeiro entrou o novo Diretor Financeiro do PT, João Vacari Neto. E um pouco depois subia a rampa de acesso ao convés o Líder do PT no Congresso, que acumulava à presidência da Comissão de Finanças do Senado, o senador Delcidio Amaral.
              
5. Quando estava tudo pronto para zarpar mais uma vez, foi dada nova ordem que esperasse, pois havia mais dois passageiros. Apareceu no cais o Ministro da Educação do PT, Aloizio Mercadante, homem de confiança da Comandante do TITANIC, Dilma Rousseff.
              
6. Quando o TITANIC parecia pronto para zarpar, chegou uma nova ordem: Aguardem, que está vindo aí o presidente de honra do PT e ex-Presidente da República, Lula da Silva. Garboso, subiu a rampa do TITANIC acenando para o cais vazio do Palácio do Planalto.
               
7. Quando já estava no convés, ouviu um alerta: Lula, você deixou aqui sua esposa e seus filhos. O STF já decidiu que a mulher e a filha do presidente da Câmara de Deputados terão que tomar um trem para Curitiba. E os seus? Vão de trem?
               
8. Lula fingiu que não ouviu. Entrou rápido e informou que embarcava na condição de Subcomandante. Foi quando os passageiros de segunda, terceira, quarta e quinta classes souberam que além da comandante Dilma Rousseff, estava no TITANIC Lula da Silva.
               
9. O alvoroço foi geral. Todos querendo desembarcar. O desastre era certo. O TITANIC ia a pique, levando os passageiros dentro. Quando ia partir, chegou um mensageiro do Congresso Nacional dizendo que a viagem estava cancelada. A Comandante estava impedida e o Subcomandante e os passageiros do Corredor especial da Papuda deveriam retornar a seus lugares de antes.


(*) César Maia é cientista político e ex-prefeito da cidade do Rio de Janeiro. O texto acima foi extraído da edição de hoje (17/03/2016) do seu informativo diário chamado Ex-Blog do César Maia.


OBS: Ilustração acima extraída de http://coturnonoturno.blogspot.com.br/2014/01/um-rombo-nas-contas-externas-do-brasil.html

terça-feira, 15 de março de 2016

Compreendendo o suicida



"Quando uma pessoa pensa em suicídio, ela quer matar a dor, mas nunca a vida" (Augusto Cury)

Compreender não significa concordar, mas é o primeiro passo para que possamos ajudar e até mesmo perdoar uma pessoa.

Em sua conhecida frase acima citada, o psiquiatra e escritor Augusto Jorge Cury foi bem certeiro em reconhecer que o suicida, ao fugir da dor imediata, procura de alguma maneira a vida. Tal pessoa faz isso de um modo errado, mas, no fundo, o seu desejo é se sentir bem.

Não nego que o suicídio seja uma fraqueza do ser humano diante dos desafios e que tal indivíduo perde a oportunidade de superar os obstáculos e de ter novos aprendizados em sua existência terrestre. Porém, como havia respondido certa vez a um amigo, durante um debate em grupos do Facebook, "boa parte de todas as religiões apregoam o suicídio como sofrimento" e que, de acordo com a sua interpretação da Bíblia, citando ele o catastrófico Apocalipse, "ficarão de fora os cães e os feiticeiros, e os que se prostituem, e os homicidas, e os idólatras, e qualquer que ama e comete a mentira". 

No entanto, como cristão, preferi optar pela superioridade da graça divina contra qualquer ato humano falho supondo que Deus nos veria de maneira diferente com uma compreensão sem igual. Há tempos que descartei as concepções teológicas segregadoras, segundo as quais uns seriam eternamente punidos enquanto outros se salvariam (ou se elevariam), quer seja por razões de boa conduta ou de proselitismo religioso. Por isso, tanto o "inferno" ainda considerado pela ortodoxia cristã quanto os "castigos" previstos para o suicida no kardecismo seriam para mim descartados pelos traços de ignorância humana que trazem consigo.

Assim, reitero o pensamento de que a melhor atitude a ser feita é buscarmos compreender um suicida. Não cabe a mim (ou a nenhum ser humano) julgar o seu próximo porque se matou. Mesmo quem nunca tentou suicídio certamente já procurou se evadir de diversas situações conflitantes da vida que precisava resolver, quer seja evitando-as ou simplesmente adiando de maneira até inconsciente.

Além do mais, quem é que jamais não fez mal a si próprio?! Quando alguém fuma, bebe até cair ou come coisas proibidas por seu médica, tal pessoa não estaria cometendo um ato comparável ao suicídio ainda que lenta e controladamente?

Ao homem, como aprendiz peregrino nesta Terra, só resta amar e acolher incondicionalmente (como teria ensinado Jesus em seus dias de ministério quando comeu com os pecadores). De acordo com os evangelhos, o Mestre a ninguém condenou. Antes estendeu a mão, reconciliou, orientou e ensinou. Logo, com inspiração em seu digníssimo exemplo arquetípico, cabe a nós fazermos o mesmo.


OBS: Ilustração acima (Jesus ajudando um suicida) extraída do Blog do QUEMEL.

sexta-feira, 11 de março de 2016

A terapia de grupo dos homofóbicos delinquentes




Em certa comarca do Brasil, uma juíza e uma psicóloga lançaram a ideia inédita de criar um grupo específico de apoio para auxiliar no tratamento de pacientes homofóbicos na cidade. Homens que cometeram crimes de menor potencial ofensivo, relacionados ao preconceito contra os homossexuais, passaram a ser encaminhados pela Justiça para a ONG da doutora Kátia e, ali, recebiam uma nova chance para não serem condenados à prisão. O parecer da terapeuta tornava-se quase sempre o fundamento da sentença proferida pela magistrada titular do Juizado Especial Criminal (JECRIM).

Numa manhã de sexta-feira, iniciando a última sessão do seu complicado grupo de machões provocadores, a doutora Kátia saudou a todos:  

Dra. Kátia: “Bom dia, meninos! Este é o nosso décimo segundo encontro e hoje gostaria que cada um contasse sobre aquilo que mais lhe causa aversão num homossexual, conforme pedi que refletissem na semana passada. Vocês estão lembrados?”

Sérgio, um dos participantes mais alterados do grupo, interrompeu a psicóloga:

Sérgio: “Doutora Kátia! A senhora não está querendo que eu saia hoje daqui assumindo que sou frutinha. Já cansei de ouvir aquele velho papo de que todo machão no fundo é um gay enrustido. Chega! Prefiro, neste caso, renunciar ao benefício da Justiça e ser condenado de cabeça erguida pelo insulto que proferi contra aquelas duas bichas lá na praia. Jamais ofenderei a minha própria honra e me comprometo em nunca mais andar pela orla marítima.”

Dra. Kátia: “Sérgio, sei que você não estava no encontro anterior quando falei que a homofobia das pessoas seria resultado da projeção que cada um faz no outro quanto aos seus próprios sentimentos. Isto não significa que todo homofóbico seja necessariamente um homossexual que recusa a assumir sua condição. Ele pode, por exemplo, ter escolhido um grupo social em desvantagem para descarregar suas frustrações mal resolvidas em tais pessoas. Espero que hoje ainda descubra qual é o seu caso, pois de nada adianta enganar a si próprio. Você admitiria que é um homofóbico ou não se vê desta maneira?”

Sérgio: “Doutora, não tenho nenhuma fobia dos gays. Se for pra sair no braço com eles, podem vir dois pra cima de mim que eu arrebento eles de porrada. O meu caso é que sou um dos poucos homens de bem que sobraram nesta sociedade decadente. Tenho orgulho de ser macho, trabalhador, não dever a ninguém, criar filhos e viver com decência. Por isto, sempre votei no Jair Bolsonaro. Ele é o único que presta no meio daqueles deputados cretinos e conseguiu impedir que a vaca da nossa presidenta aprovasse aqueles vídeos de educação homossexual no ano de 2011. Tá lembrada?! Infelizmente, as ONGs GLS ou GLBT, com o apoio dos banqueiros sionistas, aprovaram leis vergonhosas que tentam criminalizar o natural sentimento de repulsa contra a anormalidade. Mas o que podemos esperar de uma mulher que sempre se disse favorável ao aborto e fingiu ser santa nas eleições de 2010 para ter o apoio dos religiosos quando ganhou pela primeira vez? Agora sabemos muito bem quem ela é pois não vai demorar muito a presidanta será presa com o Lula”

Dra. Kátia: “Sérgio, por favor, fale só de você. Nosso tempo é curto e as regras do grupo foram explicadas claramente desde o primeiro encontro há uns três meses atrás. Aqui eu só permito que o meu paciente fale de si. Ronaldo, agora é a sua vez.”

Ronaldo: “Bom dia, doutora. Ontem fiquei pensando nas coisas sobre as quais tínhamos debatido e descobri por que eu me tornei um homofóbico. Eu tinha era inveja da liberdade dos gays porque muitos deles são pessoas abertas e espontâneas ao passo que me tornei um cara reprimido. Papai queria controlar todas as minhas manifestações espontâneas exigindo que eu me calasse ou jamais fizesse brincadeiras em sua presença. Ele podou minha maneira de rir, o jeito de me vestir e proibiu até que meu irmão e eu fizéssemos teatro na escola. Depois de adulto, preservei aquele enquadramento e então todo homossexual masculino que tinha um comportamento extravagante despertava a minha raiva”

Dra. Kátia: “E hoje você ainda culpa seu pai, Ronaldo?”

Ronaldo: “Hoje eu o compreendo, doutora. A escolha de ter me tornado um sujeito reprimido foi toda minha. Quando meu irmão fez seus dezoito anos, ele saiu de casa e resolveu matricular-se num curso de preparação para artistas. Hoje ele é um humorista da televisão e faz bastante sucesso se fingindo até de gay.”

Dra. Kátia: “Sente inveja do seu irmão?”

Ronaldo: “Ainda sinto, mas luto contra isso a cada dia”

Dra. Kátia: “Tá certo. E aí, Antônio? Conseguiu chegar a uma conclusão sobre o seu problema?”

Antonio: “Sim, doutora. Descobri que a minha homofobia está associada com a adolescência conflituosa que tive. Nunca senti atração por outro homem. Meu problema era por causa da masturbação.”

Nesta hora, alguns membros do grupo não aguentaram e deram gargalhadas. A doutora Kátia, porém, procurou evitar que houvesse uma dispersão.

Dra. Kátia: “Silêncio, gente! Vamos ouvir o que o colega de vocês tem a dizer. Antônio, por que você está ligando a sua aversão à homossexualidade com masturbação se esta é justamente uma maneira como os rapazes costumam se afirmar como heterossexuais dentro da nossa cultura? Por favor, explique-se melhor.”

Desrespeitosamente, Sérgio mais uma vez interrompeu:

Sérgio: “Na certa foi porque, quando o Toninho estava na escola, ensinaram-lhe a maneira errada de se masturbar. Trocaram com o manual de siririca das meninas e colocaram nas mãos dele.”

Embora quase todos os membros do grupo tivessem dado um sorriso discreto, a doutora Kátia ignorou o comentário do Sérgio e pediu a Antônio que continuasse:

Antônio: “Doutora, quando eu era adolescente, fiz parte de uma igreja evangélica em que o pastor dizia ser pecado contra a natureza o jovem se masturbar. Ele comparava a masturbação com o homossexualismo e a considerava pior do que o sexo antes do casamento. Então, resolvi parar com aquele vício maldito mas jamais consegui até hoje. Toda vez que terminava de ejacular, sentia-me tão vazio e impuro quanto um gay. Aí minha aversão ao homossexualismo foi aumentando a cada dia mais.”

Dra. Kátia: “E como você consegue lidar com isto hoje, Antônio?”

Antônio: “Depois dessas excelentes sessões de terapia, consegui melhorar bastante e descobri que o problema está em mim pois preciso aceitar-me como sou. Nem culpo a igreja pelas loucuras que fui desenvolvendo na minha cabeça. Até porque só me tornei um homofóbico radical depois que me desviei dos caminhos do Senhor. Foi quando decidi erroneamente que a melhor maneira de tirar a masturbação da minha vida seria arrumando uma mina pra transar.”

Dra. Kátia: “E você não arrumou nenhuma namorada na adolescência?”

Antônio: “Até hoje não, doutora. Minha primeira transa foi pagando e eu me senti tão bloqueado que nem consegui ter ereção quando entrei no quarto com a mulher. Ficava toda hora lembrando daquela parte da Bíblia em que o apóstolo Paulo diz  lá pros coríntios que, quando o homem se une com uma prostituta, ele se torna uma só carne com ela. Aí qualquer reação da mulher parecia que ela estava com alguma pombajira no corpo e fiquei com medo que o demônio depois pegasse em mim. Saí dali e fui pro culto da igreja no dia seguinte aceitar Jesus novamente.”

Dra. Kátia: “E hoje saberia explicar por que agrediu aquele travesti que representou contra você na polícia?”

Antônio: “Sei sim, doutora. É porque, na minha cabeça, cheguei a criar a ideia de que a dificuldade que tenho com as mulheres seria porque os gays estariam controlando o mundo através de uma conspiração diabólica para que os heterossexuais ficassem sem opção de sexo e passassem a procurá-los a fim de satisfazerem suas necessidades. Então, no dia em que fui na boate e paguei a saída do travesti achando que fosse mulher, resolvi dar na cara dele quando chegamos ao motel.”

Dra. Kátia: “Tá. Mas o travesti não o avisou antes que era homossexual?”

Antônio: “Não sei dizer porque eu tava mamadão de cerveja e só consegui prestar a atenção no preço do programa que muito mal negociei. Então, na hora em que a bicha perguntou se eu já tinha feito sexo com travesti, aproveitei o momento para extravasar tudo o que sinto contra os gays. Aquela coisa seria por um instante o bode expiatório de todas as minhas frustrações sexuais.”

Cortando o papo, interveio um outro participante do grupo chamado José:

José: “Pelo visto quem levou a pior na briga foi você, né Toninho?!” 

Ao invés de chamar a atenção do paciente, a psicóloga resolveu passar-lhe a palavra já satisfeita com o relato de Antônio:

Dra. Kátia: “Agora conte um pouco sobre você, José”.

José: “Bem, doutora, o meu problema começou no recreio do colégio. Sempre fui um aluno meio mongo para certas brincadeiras e quase não conhecia os palavrões. Principalmente os mais cabeludos. Nem mesmo fazia ideia do que significava a palavra gay ou o que era um homossexual. Sabia apenas que alguns homens gostavam de se vestir de mulher e não entendia por que os machões adotavam este tipo de fantasia na época do Carnaval. Quando fiz meus sete anos, mamãe colocou-me pela primeira vez na escola para cursar o ensino fundamental, mas tive sérios problemas de adaptação com as crianças das turmas adiantadas. Um garoto mais velho, repetente e ainda com 13 anos na quarta série, tentou abusar de mim no banheiro.”

Todos os pacientes olharam entre si nesta hora dando uma discreta risadinha. A doutora Kátia, porém, advertiu o grupo:

Dra. Kátia: “Rapazes, vamos respeitar o colega. Uma das regras do nosso grupo de apoio é aprender a ouvir com consideração a experiência do outro. Pode prosseguir, José.”

José: “Obrigado, doutora. Confesso que me sinto até hoje culpado pelo que aconteceu como se tivesse provocado o instinto do rapaz.”

Dra. Kátia: “Como assim, José? Explique melhor isto.”

José: “É que certo dia, quando eu e os colegas da turma estávamos brincando de super herói, cada qual escolheu para si um personagem dos desenhos animados. O representante da classe foi o Super Homem, o Rogerinho optou por ser o Batman, um outro amigo dele virou o Robin e, antes que expressasse a minha escolha, outro menino passava na minha frente e definia qual seria o seu personagem. Não consegui ser o Incrível Hulk, nem o He-Man, o Homem Aranha, e tão pouco o Capitão América. Até a vaga do Popeye já estava ocupada por num garoto da segunda série que se meteu no nosso meio. Foi aí, sem conseguir recordar de nenhuma outra opção viável, que me lembrei do cômico Capitão Gay, o qual passava num antigo programa do Jô Soares chamado Viva o Gordo”.

Sérgio não se aguentava mais de tanto rir e perguntou com ares de sarcasmo machista, pondo-se depois a cantar uma conhecida marchinha de Carnaval:

Sérgio: “Você jura mesmo, Zé, que que não sabia que o tal do Capitão Gay era um boiolão? Acho que todos nesta sala já descobrimos o seu problema, boneca. Olha a cabeleira do Zezé! Será que ele é?! Será que ele é?!”

A doutora Kátia desta vez advertiu seriamente Sérgio:

Dra. Kátia: “Esta é a última vez que chamo a sua atenção, Sérgio! Se continuar com este comportamento, vou ter que tirá-lo do grupo e comunicar a minha decisão à juíza do JECRIM. Aqui não estou tratando de crianças! Só posso admitir pacientes realmente dispostos a se curar. Se você não está afim de encarar a terapia, não posso deixar que a sua atitude covarde atrapalhe os outros que compareceram e estão tentando compreender melhor a si mesmos”

Sérgio: “Tudo bem, doutora. Se é assim, vou falar de mim. A senhora quer saber por que eu não suporto os gays? Pois contarei agora mesmo todos os meus motivos e, se me escutar com atenção até o final, com sensatez e sensibilidade, sei que vai me dar razão.”

Dra. Kátia: “Então continue, Sérgio. Quero ouvi-lo.”

Sérgio: “Sabe, doutora, eu concordo em parte com o Toninho quando ele acreditava numa conspiração gay. Mas não se trata bem de uma coisa articulada pelos homossexuais e, sim, pelos banqueiros judeus que pretendem dominar o mundo destruindo as famílias dos povos. Por causa disto, temos visto tantos homossexuais, inclusive lésbicas, ocupando cargos elevados na política e nas empresas. Nossa presidenta, por exemplo, é uma sapata a serviço dos sionistas. E esse deputado do PSOL, o Jean Wyllys, seria o chefe oculto da máfia cor-de-rosa”

Dra. Kátia: “E você se sente incomodado porque vê uma mulher independente, com um salário melhor do que o seu, e se recusando a transar contigo? Quer que todas elas sejam submissas a você? Isto ameaça o seu desejo de controle?”

Sérgio emudeceu, pensou um pouco e depois respondeu:

Sérgio: “Doutora Kátia, estou achando a sua sexualidade bem duvidosa. Suponho que deva ter um caso com a juíza. No dia em que você for comigo pra cama e experimentar um macho de verdade, vai aprender a gostar de homem.”

Indignada com a atitude de Sérgio, doutora Kátia resolveu encerrar a sessão.

Dra. Kátia: “Paciente Sérgio, queira se retirar. Não sou mais a sua terapeuta e me julgo por impedida para dar um parecer sobre o seu caso. Ficará a critério da juíza designar outro psicólogo para avaliá-lo ou sentenciar condenando-o como ela bem entender. Quanto aos demais, estão dispensados. Posso dizer que todos vocês estão em condições de continuar a conviver em sociedade. Apenas recomendo que prossigam com o tratamento no SUS ou num consultório particular. Aqui na minha ONG, temos preços promocionais de vinte reais por consulta para pessoas de condição humilde e os grupos de apoio são todos gratuitos. Anotem o horário que está no mural lá do corredor, caso se interessem.”

Sérgio deixou a sala de terapia na frente dos demais e os outros pacientes saíram todos juntos, alcançando-o minutos após no boteco onde costumavam reunir-se ao término de cada sessão. Ali todos eles davam boas gargalhadas contando piadas sobre homossexuais e zombando da doutora Kátia.

José: “Quá! Quá! Quá! O Toninho enganou a mulher direitinho e acho que a doutora não vai descobrir que eu nem estava na primeira série quando a Globo exibia o Viva o Gordo”.

Antônio: “É impossível ela descobrir que jamais fui crente. Decorei na íntegra as confissões de um blogueiro ex-evangélico na internet, as quais pareceram-me bem coerentes. No fundo, prefiro mais é uma boa curimba do que entrar numa dessas igrejas”.

Ronaldo: “E você, Sérgio? Por que não falou pra mulher que, por exemplo, sente inveja do orgasmo das lésbicas? A doutora Kátia iria ver que você soube compreender o seu problema e iria encaminhar uma resposta favorável pra juíza de modo que ficaria livre de puxar uma cadeia. Seu tormento terminaria dentro de poucas semanas e ela o dispensaria de continuar vindo toda semana aqui. Agora, depois deste incidente, existe até o risco de uma condenação. Sua batata vai assar, camarada”

Antônio: “Pelo menos ele poderia ter falado que a sua homofobia explicava-se por causa das mulheres que recebem salários mais altos do que o seu. Seria uma resposta convincente para a queixa oferecida por uma lésbica contra as ofensas que escrevia nas redes sociais contra a comunidade GLBT”.

Sérgio: “Olha, amigos. Quando a doutora Kátia perguntou se eu me sentia incomodado pelo fato de uma mulher ganhar mais do que eu, saquei logo qual deveria ser a resposta. Mas a verdade, Toninho, é que, se a Justiça me liberar, perderei a chance de ser mandado para uma cadeia fétida lotada de homens suados, bem musculosos e cheios de tesão. Ui!”

Antônio: “Que é isto, companheiro!? Você só pode estar zoando com a nossa cara!”

Sérgio: “Estou falando sério, gente! No momento em que a doutora Kátia fez aquela pergunta, refleti profundamente e descobri que gosto é de homem, Toninho.”

Antônio: “Por favor, não me chame mais de Toninho. A partir de agora já não te dou estas intimidades, seu viado! Saia daqui, bichona nazista, antes que a gente te cubra de porrada.”

Sérgio: “Fiquem tranquilos que eu vou sair, bambinos. Mas saibam que tenho esta conversa gravadinha neste celular. Todos os papos anteriores aqui do bar já estão salvos no meu computador porque eu tinha resolvido me prevenir de vocês em caso de uma delação premiada. E, certamente que, se me espancarem, nós nos veremos todas no presídio de Bangu, além de que vou espalhar as gravações pra todo mundo no Facebook. Ai, como eu tô bandida!”

segunda-feira, 7 de março de 2016

E se o LULA for preso?




Na semana passada, correspondi-me por email com o cientista político e ex-prefeito do Rio Dr. Cesar Maia, o qual mantém um informativo na internet chamado Ex-Blog do César Maia. Oportunamente, eu havia questionado-o quanto à sua tese sobre um possível licenciamento da presidente Dilma constante na edição de 29/02 e recebi a seguinte resposta:

"Numa conjuntura de crise como essa, é dificil ter precisão.
A minha é uma hipótese.
A sua outra hipótese distinta.
Ambas possíveis.
Agradeço seus comentários.
Apenas lembro: Lula é a peça chave. Não há PT sem Lula.
É o interesse de Lula que vai prevalecer." (destaquei)

Meditando em suas conclusões, fiquei pensando sobre como a praga do lulismo poderia ser exorcizada da política brasileira e se, de fato, uma triunfal prisão do elemento poderá produzir resultados positivos para o desenvolvimento da nossa democracia.

Há momentos em que nós advogados e operadores do Direito precisamos fazer uma análise não jurídica da situação. Principalmente quando estamos lidando com delicadas questões políticas capazes de dividir uma sociedade e que podem levar anos ou décadas para cicatrizarem.

Certamente que um homem não se destrói prendendo-o e nem matando-o. Pois mesmo depois do sepultamento físico, a imagem do falecido ainda sobrevive por uns tempos no meio social por meio de suas obras e pensamentos. Seria o caso do pai dos CIEPs (Brizola), do construtor de Brasília (Juscelino) e do presidente que estabeleceu direitos para os trabalhadores urbanos (Vargas). Também no meio internacional poderíamos citar alguns nomes que marcaram o século XX como Nelson Mandela, Martin Luther King e Gandhi, além daqueles que se fazem presentes há milênios: Jesus, Confúcio. Sócrates, Platão, Aristóteles, Buda, Moisés, etc.

Ora, os maus espíritos também assombram ainda que a "ressurreição" deles dure um breve período como ainda podemos falar de Hitler e de muitos ditadores até hoje cultuados em seus países. Aí devemos ter em mente que a memória humana é capaz de guardar tanto as coisas boas quanto as más, assim como vilões podem se passar por heróis.

No atual momento crítico atravessado pelo País, duas coisas me causam preocupação sobre o que pode ocorrer depois do triunfo da oposição. Uma delas seriam as más interpretações do cada vez mais próximo impeachment da Dilma e a outra diz respeito a uma iminente prisão do Lula.

Quanto ao afastamento da presidenta, compartilhei recentemente no artigo Anular as eleições é preferível do que impeachment, publicado ontem no meu blogue, sobre a necessidade de deixar o próprio povo escolher se quer manter o PT no poder ou optar pelo caminho da mudança. Termos novas eleições presidenciais em 2016 seria o melhor remédio para não haver o sentimento de que houve mais um "golpe" no Brasil. Logo, sou pela procedência da ação movida pelo PSDB perante o TSE, o que machucaria menos do que haver um outro processo de impeachment na nossa história republicana.

Acontece que essa pretendida disputa precisaria muito da presença do senhor Lula. Pois não terá a mínima graça ver a oposição ganhando com o ex-presidente preso ou impedido de concorrer ao pleito na condição de "ficha suja". Isto porque é necessário que o eleitor rejeite o PT nas urnas e tenha a oportunidade de manifestar-se para que todo esse processo de faxina ética se revista de legitimidade democrática.

Contudo, se houver impeachment e Lula for preso, o Brasil pode explodir em revoltas. Nas cidades, teríamos mobilizações da CUT enquanto, no campo, invasões do MST. No começo, poderia ser só uma meia dúzia de partidários mas, depois, o povo começaria lentamente a aderir. E o pior resultado seria o descrédito das instituições estatais já desgastadas bem como uma sobrevida ao lulismo cuja duração pode ir além da sua morte física alimentando um nefasto populismo de esquerda.

Suponho que a estratégia do PT seja segurar o poder o máximo de tempo. Dificilmente Dilma renunciaria a fim de deixar o cargo livre para Temer a ponto de entregar a máquina estatal faltando poucos meses para as eleições municipais. Porém, caso os petistas precisem concorrer com os tucanos tendo lá poucas chances de êxito, substituir Dilma por Temer bem que se tornaria uma alternativa para que sejam colocados panos quentes. Aliás, o PMDB está tão envolvido quanto o partido da presidenta e conseguiria acalmar a oposição e as investigações.

Tomara que tenhamos logo novas eleições!


OBS: Ilustração acima sobre o Pixuleco (o boneco do Lula) extraída de uma página do portal Política com K, conforme consta em http://www.politicacomk.com.br/pixuleco-boneco-de-lula-deve-voltar-as-ruas-em-brasilia-no-dia-7-de-setembro/ 

quinta-feira, 3 de março de 2016

Conversas de casal




João e Maria formavam um casal quase maduro. Ainda não tinham completado a emblemática bodas de prata (faltariam ainda pouco mais de cinco ano para a comemoração), porém tinham já duas filhas que, por razões de estudo na faculdade, foram naquele ano morar em outra cidade da região. Mesmo assim, não padeciam da Síndrome do ninho vazio uma vez que eram pessoas muito ativas nas coisas que realizavam, jamais deixavam de elaborar planos para o futuro, viajavam, participavam de reuniões comunitárias e nunca paravam de namorar. 

Só que o casal tinha um problema que era o constante assédio do marido sobre a esposa. A todo momento, João pressionava Maria para que tivessem relações sexuais. Assim fazia desde as primeiras horas da manhã até à noite. Quando despertava de madrugada, dependendo da necessidade, era capaz de interromper seu sono, levando logo uma patada da mulher. Quer fosse um sábado, um domingo ou um dia comum da semana, ele insistia.

Marido: Bom dia, amor.

Esposa: Bom dia, meu marido. Dormiu bem?

Marido: Vamos transar?!

Esposa: Agora? Mal acordei...

Marido: Eu quero! Estou com  tesão.

Esposa: Mas nós já fizemos amor ontem de noite. Não está satisfeito?

Marido:Você sabe o quanto gosto da coisa, Maria. Se pudesse, ficaria o dia inteiro aí dentro.

Esposa: E me assar toda? Acho que estou com dor de cabeça...

Num tom de brincadeira, embora ao mesmo tempo ameaçador, João prosseguiu fazendo uso de uma metonímia sempre aplicada por ele no seu íntimo convívio conjugal para referir-se às mulheres, tomando a parte pelo todo:

Marido: Gosto tanto de perereca que, se pudesse, teria uma coleção. Mudaria hoje mesmo pro Marrocos, converteria-me ao Islã e lá teria loiras, morenas, ruivas, índias, japonesas, francesas, americanas, árabes, israelenses e até marcianas.

Esposa: Bem que minha irmã falou que você só se casou comigo por causa de sexo.

Marido: Claro que não, minha princesa. É que estou com vontade.

Esposa: De noite nós faremos, meu amor. Agora não.

Marido: Mas eu tô excitado! Olha só pra ele! Você sabe como que eu acordo...

EsposaEle vai ter que esperar.

Marido: Quero gozar! Tira a roupa!

Esposa: Ora, se masturbe!

Marido: Eu quero é perereca! Se não me der, vou ligar pra amante. O Face está cheio de mulher e você sabe disso.

Esposa: Vou é telefonar para as nossas filhas e saber como elas estão. Por favor, coloca a água do café no fogo? E me passa o seu aparelho primeiro porque o meu está sem crédito.

Pegando o celular, João mostrou uma imagem bem ousada para a esposa.

Marido: Olha só a foto pelada que tirei de você ontem no banho.

Esposa: Apaga isso, João. Alguém pode ver.

Marido: Tira a roupa! Vamos logo fazer sexo!

Esposa: Já disse que não! Respeita a minha vontade.

Sabendo que umas das fantasias eróticas da mulher era se fingir de prostituta, João tenta instigar o interesse dela:

Marido: Quanto você quer? Tenho aqui quatro notas de cinquenta. Duzentinhos, vai?

Esposa: Não quero nada. Me deixe em paz.

Marido: Olha que posto essa foto de você nua na internet!

Esposa: Você não vai fazer isso!

Marido: Claro que não. Afinal, você é minha propriedade particular, exclusiva, e que outro homem não pode pegar. Nem mesmo olhar!

Mudando um pouco o humor, Maria começa a entrar na brincadeira.

Esposa: Nem o meu ginecologista?

Marido: Daqui para frente, não. Terá que procurar uma médica.

Esposa: Meu bem, o único ginecologista mulher que atende pelo nosso plano é a doutora Luciana e você sabe que ela é sapatão. Não vai ficar com ciúmes dela também, né?

Marido: Aí não tem problema. Se ela quiser participar da nossa festinha será bem vinda.

Esposa: Safado! Mas não vou nessa mulher de jeito nenhum. Além de ser feia, a nossa vizinha Fernanda disse que ela é muito grossa. E também não vou deixar de ir no doutor Ricardo que sempre me atendeu bem.

Marido: Só que ele demora um tempão para chamar as pacientes por causa dos encaixes. Você marca para às três da tarde e só sai de lá às oito chegando em casa às nove. Parece até que é no SUS...

Esposa: Então você vai começar a pagar consultas particulares pra mim? Custa trezentos e oitenta reais na doutora Carla! E como fica a mesada das nossas filhas?

Marido: Amor, estou só brincando com você. Pode continuar indo no doutor Ricardo.

Esposa: Epa! Lembrei de avisá-lo de que sexta será aquela minha colposcopia com biópsia. Teremos que suspender as nossas relações sexuais por um período a partir de amanhã.

Marido: Remarca!

Esposa: De jeito nenhum! Era para eu ter feito esse exame desde o ano passado. Preciso cuidar da minha saúde.

Marido: Claro! Eu estava apenas brincando... E então? Vamos trepar agora?

Esposa: Só de noite como prometi porque logo mais vai querer novamente e hoje não vai ter segundo tempo.

Marido: Enquanto estiver fazendo o preparo do exame, deixa eu transar com outra? Posso?

Esposa: Pode, mas vai levar chifre cruzado depois.

Marido: Você me trocaria por outro cara?!

Esposa: Não disse que iria te deixar. Porém, se for me trair, por que eu também não poderia pular a cerca?

Marido: E você me chifraria com quem? Com o doutor Ricardo?

Esposa: Nunca! Ele é muito baixinho, feio e barrigudo.

Marido: Com o Leonardo DiCaprio que ganhou o Oscar esses dias?

Esposa: Não faz o meu tipo.

Marido: Com o rapaz que cuida do nosso jardim?

Esposa: Muito novinho e quase namorou a nossa filha Bianca.

Marido: O quê?! Não sabia disso? Chegaram a fazer alguma coisa? Ele abusou dela?

Esposa: Que eu saiba, não, embora ela bem quisesse e reclamasse da sua falta de iniciativa. Talvez nem tenham se beijado.

Marido: Acho que eu mesmo vou começar a cortar a grama dessa casa e dispensar o rapaz.

Esposa: Não faz isso. Mas agora me diz com quem você me trairia? Com a Alinne Moraes ou prefere a Paola Oliveira?

Marido: Com nenhuma delas! Você é a mulher da minha vida, minha deusa! Eu te amo! Sem sua companhia, nada mais faria sentido...

A essa altura, o humor de Maria já estava bem elevado. Ambos sentaram-se à mesa, João ligou a TV para assistir o Bom Dia Brasil e o casal foi tomar café. Assim que terminou de comer os dois pães de sal torrados com manteiga no forno, o marido conectou o seu notebook à internet passando a responder suas mensagens no e-mail com a cabeça totalmente focada no trabalho enquanto o telejornal transmitia as novas prisões da operação Lava Jato da Polícia Federal. Tão logo o assunto mudou para o futebol, o diálogo entre o casal foi retomado pela mulher que, surpreendentemente, encontrava-se mais animada:

Esposa: Amor...

Marido: O que é, Maria? Preciso terminar isso aqui e quero saber como ficou o placar da partida de ontem do campeonato que não assisti.

Esposa: Quero que venha até aqui!

Marido: Espera um pouquinho, querida. Estou mandando um orçamento pro cliente. É importante?

Esposa: Não. Eu iria pedir pra você ajudar a soltar meu soutien, mas a gente pode ver isso de noite, se assim preferir e eu estiver disposta. Só não sei se hoje vou ter hora extra na empresa.

Marido: Depois nós resolvemos, amor. Agora fica difícil sair daqui pra fazer outra coisa.

Concentrado, João nem percebeu qual era a intenção da esposa. Permaneceu em frente ao computador e à TV, enquanto Maria foi tomar um longo banho antes de sair para trabalhar. Ela gostava do marido, mesmo sendo ele um sujeito compulsivo, machista e com vários distúrbios de personalidade que careciam ser tratados por um psicólogo. Ainda assim, continuavam juntos e poucos entendiam como era o amor deles. 




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