
Pela quarta vez ele sentia-se dominado por um desejo premente de rever o seu herói. Nas três vezes anteriores que o visitara, conseguira retirar alguns fragmentos que estavam escondidos no porão de sua infância.
Assim que chegava à velha Roma, ele se dirigia apressadamente a Vincoli, onde fica situada a igreja da San Pietro. Lá passava horas e horas contemplando e analisando a monumental estátua de Michelangelo ─ Moisés com as tábuas da Lei.
Após subir os degraus íngremes da solitária Piazza, se dirigia logo a um canto reservado e silencioso da igreja, e ali ficava a mercê dos seus sentimentos inescrutáveis e maravilhosos; sentia como que sair da obscuridade interior, algo que fazia dele próprio mais um, no meio da turba estática diante do seu grande líder, ao pé do Monte Sinai.
Dessa vez, já aos setenta e três anos de idade, provou de um êxtase mais intenso, ao olhar minuciosamente a estátua do seu carismático líder hebreu, Moisés. Tão perfeita era a escultura, que ele parecia estar sentindo a explosão de cólera irradiada de sua face. Em meio ao deslumbramento sentia passar por sua cabeça, toda a epopéia do fundador da nação hebraica de que tanto ouvira falar quando criança na sinagoga, por ocasião das preleções emotivas dos Rabinos, seus mestres.
Absorto na contemplação demorada da estátua de Moisés, como nunca tinha acontecido nas outras vezes, parecia ouvir o clamor do povo Hebreu. Ali, junto a imagem de seu grande líder, sentia o tumulto e o alarido do povo que transgredira o seu Deus e a sua lei, ao erigir um “Bezerro de Ouro” para adoração. Nesse clima, o velhinho cientista em sua imaginação, via o seu comandante se preparando para jogar fora as tábuas da lei, as quais estavam apoiadas em sua mão direita e pressionadas contra o tronco. De repente, com o olhar fixo na estátua, tem a impressão de que o líder hebreu petrificado domina a sua ira e pára sua ação violenta, que se iniciara segundos antes.
Terminado o seu solene culto interior, desceu as escadarias da Igreja de San Pietro pela última vez, pois, sofrendo as dores de um câncer na mandíbula, sucumbiria seis anos depois.
P. S.:
Aos setenta e três anos de idade, Freud em uma de suas inúmeras correspondências endereçadas ao amigo e confidente, Pastor protestante Pfister, assim escreveu:
“[...] por mais bondosamente que o analista se comporte, ele obviamente não pode encarregar-se de substituir a Deus e à Providência diante do seu cliente.”
É também dele essa frase:
“Aqueles que brigam com Deus podem estar reencenando na esfera religiosa a luta 'edipiana' que não conseguiram vencer em casa”.
Por Levi B. Santos
Guarabira, 13 de fevereiro de 2010
FONTES:
1. Moisés e o Monoteísmo – Obras de Freud - volume XXIII (Editora Imago)
2. Moisés de Michelangelo – Obras de Freud – Volume XXIII (Editora Imago)
3. Cartas ente Freud e Pfister – Editora Ultimato
Comentários
Nunca li sobre um "ateu" tão apaixonado pelos personagens bíblicos (especialmente Moisés), como foi Freud.
Sem sombra de dúvida, a educação que ele recebeu do Judaísmo e também do protestantismo o marcou por toda sua vida.
Freud sempre encarou sua missão a serviço da humanidade, como uma religião.
A luta básica básica de Freud nunca foi contra a religião em si, mas contra o dogma religioso.
Abçs a todos
Freud era um pensador da cultura judaico-cristã. Para ele, ser judeu significava estar disposto para aceitar e vencer a hostilidade da maioria reacionária.
Certa vez, Franz, pai do pequeno Hans (criança que Freud analisou indiretamente) perguntou em 1903, se deveria batizar seu filho. O barbudo então respondeu: “Se não permitir que seu filho cresça como judeu, o senhor irá impedi-lo de desfrutar dessas fontes de energia que nada pode substituir. Não o prive dessa vantagem”
Diante de tal resposta, só podemos concluir que no peito do pai da psicanálise, nunca deixou de arder o sentimento religa-re.
Concordo com a inteligência e o legado de Freud para a psicanálise, mas minha admiração tem um limite quando esbarra no hipnotismo usado por ele em suas primeiras sessões. Por muito tempo Freud foi como uma barata tonta para a psicanálise. Basta ver o filme "Além da Alma".
essa frase “Aqueles que brigam com Deus podem estar reencenando na esfera religiosa a luta 'edipiana' que não conseguiram vencer em casa” é esplendida, claro, os conflitos do édipo remetem-se ao deus-pai, aquele que interdita, pune, castra (?). Mas nesta relação, estaria o sujeito remetendo a figura desse deus ao pai freudiano, por não entender seu papel amoroso, por ignorá-lo?
Admiro o barbudo, pelo sua obstinação, sua tenacidade não temerosa em desconstruir os fundamentos hipócritas de uma sociedade tão repressora, no que concerne ao sexo, como foi a Vienense do seu tempo.
O Filme, como uma obra de ficção, nunca chega a equivaler a realidade, e mais sabendo que no caso da película “Freud – Além da Alma”, segundo consta, foi elaborado pelo filósofo existencialista Sartre, que se opôs contra o determinismo do inconsciente, teorizado e experienciado por Freud.
Na verdade, este filme retrata apenas as primeiras incursões de Freud impulsionadas pelo desejo intenso de compreender as instâncias do psiquismo humano, e seus afetos paradoxais cujas origens remontam a nossa tenra infância.
É claro, que ele deu derrapadas durante o percurso de sua vida totalmente dedicada as pessoas e seus conflitos. Usando a descoberta do material reprimido desde a infância é que ele pode destrinchar por que nos tornamos a pessoa que somos hoje.
De lá para cá, tem ocorrido muitas releituras de suas obras, mas sem nunca desbancar as suas grandes descobertas, como por exemplo, os mecanismos de defesas psíquicas que, no dia a dia, todos nós usamos em nossos relacionamentos interpessoais.
Através da Psicanálise, ele confirmou a máxima de Pascal: "O coração(a psique e seus insights)tem razões que a própria razão desconhece"
Não sejas mais burro do que és (rsrsrs), Freud, como qualquer outro teorico falivel, por ser humano, tatiava em busca de construir uma teoria solida, mas que para acertar o alvo, precisou "errar" em algumas coisas...isto dá para perceber claramente em alguns textos que mais tarde, Freud irá reconhecer para "melhorar" ainda mais os seus pressupostos.
Freud, penso eu, reconhecia que o ritual judaico carecia de uma re-intepretação,principalmente pelo vazio da repetição obrigatória de seus ritos, sem nenhum ganho com relação a um entendimento interno.
Diversos autores psicanalistas não se referem a ele como ATEU, e sim como um Judeu infiel ou herege.(rsrs)
Freud, mesmo, reconhece que a sua leitura precoce da Bíblia marcou profundamente o seu pensamento e a sua maneira de abordar o analisando, através do muito auscultar e pouco falar. (vide “Freud e a Judeidade – de Betty B. Fuks – página 18
Lacan, que fez a mais recente releitura das obras de Freud, em um de seus seminários disse:
“A presença de traços da tradição e da Escritura hebraica na psicanálise, foram alguns dos atalhos que percorri para escutar os ecos da modalidade particular de interpretação dos textos sagrados pelos judeus que ressoam na lógica da interpretação psicanalítica.
Veja se você pode adquirir o livro “Cartas Entre Freud e Pfister” da Editora Ultimato. Essas cartas entre o Barbudo e o pastor Protestante Pfister (que fez parte do seleto grupo de Freud, inclusive prestando assistência em seus últimos momentos de vida) ocorreram entre 1909 e 1939. Creio que você não irá se decepcionar.
Essa obra foi publicada na Alemanha na década de sessenta. Aqui na nossa terra tupiniquim, o que é importante em matéria de livros só chega atrasado (rsrs), mas ainda pude adquirir, direto da Editora, um volume da primeira edição de 2001.
Posso até ser mais burro do que aparento, mas não tenho desvio mental.
Levi, tá difícil dar conta de elaborar tantos comentários aqui e lá na Logos e Mythos, seria muito bom se as duas confrarias pudessem se tornar uma só...rsss
tudo bem que fui eu quem fiz a separação, mas o momento pedia. Mas como dos ateus burros e intolerantes daqui só restou o Mirandinha(que apesar de tudo, não arreda o pé do nosso convívio e isto é muito bom), a união poderia de novo, ser feita.
Só não sei se é factível, já que depois da ruptura, difícil é de novo, voltar a unidade...rsss
p.s. eu chamo o Wolkrs e o Bill de ateus burros e intolerantes para ver se eles leem e voltam pelo menos para dizer que eu estou sendo injusto com eles, mas nem isso...rssssssss
Não sou favorável a junção das duas confrarias, Se era para juntar, porque dividiu?
Sou a favor de retirar os nomes fantasmas da C.P.F.G. J.Lima, Isaías, Esdras, Jair e Carlos.
Que convide outros para vitalizar esta confraria assim como foi feito com a Logos e Mythos.
O MIRANDA tem razão...o grande problema foi a sua ideia "genial" de criar uma nova "CPFG"...se você queria debater os assuntos que são debatidos lá, porque não trouxe para cá, ao invés de criar um novo blog, e, ainda levar as pessoas daqui para lá também???
Você fez isto por causa dos ateus "intolerantes" que nunca mais apareceram por aqui???
Não sei que é mais intolerante se são eles ou você com a intolerancia deles...do jeito que anda as coisas por aqui, esta confraria esta fadada a fechar mais uma vez.
Esta nossa Confraria aqui nasceu sob a batuta de "teólogos" não presos a dogmas mas que tinham uma tradição evangélica forte, mas estavam em processo de libertação do dogmatismo e o início foi muito bom, é só conferir os primeiros textos. Acontece que alguns se tornaram ateus. o Wolkers só vinha aqui fazer comentários debochados que nada contribuia para a construção de um pensamento; o Bill tinha bons comentários, era bem articulado e debatia de fato os assuntos, mas tinha uma tendência a ser sarcástico demais, o que deixava os "evangélicos" daqui chateados. Aí alguns foram saindo para se dedicarem a outras coisas como o Gresder, o Isa, o Lima, o Jair...
E como eu não me sentia mais confortável em abordar temas religiosos aqui por causa do Evaldo e do Bill, abri a Logos e Myhtos e quem foi para lá daqui é por que se identificou com a proposta.
Esta Confraria apesar de não ter mais o número elevado de comentários debatendo os textos, ainda tem um nível bem elevado de visualizações de páginas e de visitas de quem não comenta nada.
Por isso, Marcinho, eu quero ver você lá na Logos e Mythos falando de religião a partir de Jung principalmente, e sob o ponto de vista da psicologia geral. você será o pupilo do Levi, como um dia já foi meu. (pena que eu errei na dose e fiz de você um ateu...kkkkkkaka), mas parece-me que agora você está voltando ao equilíbrio.
O levi acabou de nos provar que Freud de ateu, só tinha a fama.
Eu não posso reclamar da C.P.F.G. pois nela eu abri boas discussões. além do mais tem algumas pessoas que detém um ótimo nívem intelectual outras se destacam pela inteligência e eu aceito os que entram para comentar abobrinhas sem publicar nada. Nesta confraria tem de tudo.
Olhe, o Freud era ateu mas tinha medo de Deus, seria um bom confrade aqui. He, he. he;;;
Precisamos resolver este problema com o máximo de urgência.
Que palhaçada foi aquela do Marcio com o coitado do Kleberson?