domingo, 2 de janeiro de 2011

Somos todos cristãos

Em 27 de dezembro de 2006, o jornalista Reinaldo Azevedo escreveu um texto para a revista Veja com esse título. Quero destacar algum pontos deste texto por achar que pode nos servir de reflexões para todos nós.


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"Cristo é e seguirá sendo a principal referência do que reconhecemos no Ocidente como a 'nossa cultura'. Católicos, protestantes, judeus, islâmicos, budistas, espíritas, agnósticos, ateus - não importa. Comungamos de um patrimônio que entendemos como ideal de civilização e de justiça".


[ sobre o cristianismo] "combatido, submetido ao obscurantismo politicamente correto e tornado como inimigo das minorias multiculturalistas - tão mais barulhentas quanto mais minoritárias -, o cristianismo, não obstante, guarda as chaves do humanismo moderno e da democracia e constitui o que o homem tem produzido de melhor em pluralismo, tolerância e, creiam!, avanços científicos."


"O sociólogo americano Rodney Stark sustenta que uma das raízes da expansão cristã é a caridade - elevada por Paulo à condição de primeira virtude. E a outra são as mulheres. Por volta do ano 200, havia em Roma 131 homens para cada 100 mulheres e 140 para cada 100 na Itália, Ásia Menor e África. O infanticídio de menias - porque meninas - e de meninos com deficiências era "moralmente aceitável e praticado em todas as classes". Cristo e o cristianismo santificaram o corpo, fizeram-no bendito, porque morada da alma, cuja mortalidade já havia sido declarada pelos gregos. Cristo inventou o ser humano intransitivo, que não depende de nenhuma condição ou qualidade para integrar a irmandade universal. As mulheres, por razões até muito práticas, gostaram."


"No casamento cristão valorizava-se a unidade  da família pela proibição do divórcio, do incesto, da infidelidade conjugal, da poligamia e do aborto, a principal causa, então, da morte de mulheres em idade fértil. A pauta do feminismo radical se volta hoje contra as interdições cristãs que ajudaram a formar a família, a propagar a fé e a proteger as mulheres da morte e da sujeição."


"Embora a cultura helênica, grega, matriz espiritual do Império Romano, tenha sido fundamental na extensão do cristianismo, o mundo estava diante de uma nova moral. Quando Constantino assina o Édito de Milão, a religião dos doze apóstolos já somava 6 milhões de pessoas."


"Stark demonstra ser equivocada a tese de que aquela era uma religião apenas de humildes. O 'Cristianismo proletário' serve ao proselitismo, mas não à verdade. A nova doutrina logo ganhou adeptos entre as classes educadas. Provam-no os primeiros textos escritos por cristãos, com claro domínio da especulação filosófica. Mas não só. Se o cristianismo era uma religião era uma religião talhada para os escravos, Stark prova que o novo credo trazia uma resposta à grande questão filosófica posta até então: a vitória sobre a morte.


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A partir daí ele destaca o grande acontecimento da nova religião: a conversão de Paulo. Foi em Antioquia, na Síria, que uma comunidade, pela primeira vez, designou-se "cristã", justamente os convertidos de origem pagã. E é dali que o cristianismo se espalhou pelo mundo helênico, então romanizado. O cristianismo deixava de ser uma religião de um povo só (judeus), para se tornar universal.


O resultado da teologia paulina se manifestava na realidade da vida prática. Paulo pregava a ressurreição dos mortos e a parusia(segunda vinda de Cristo). Mas o que fazer até lá?


Em 2 Tessalonicenses ele aconselha: "não comemos de graça o pão, mas com nosso trabalho e fadiga(...)se alguém não quer trabalhar, não coma". E num outro conhecido texto ele diz: "Se eu falar a língua dos homens e dos anjos e não tiver caridade, sou como o metal que soa(...).


Mas o cristianismo não é só espera. Atualmente, os protestantes históricos e os católicos tendem a considerar que o acontecimento escatológico, finalista, de certo modo, já aconteceu. A luta final do Bem contra o Mal perdeu seu acento místico e seu caráter temporal para ser uma espera simbólica. Esse Cristo laicizado está prenunciado no próprio Paulo. Como demonstra Stark, o cristianismo se consolida nas cidades grego-romanas como religião da solidariedade.
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