quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Como se posicionar neste segundo turno?



Para quem é um social-democrata como eu me identifico, confesso estar sendo muito difícil escolher em qual o abismo menos fundo iremos nos enfiar depois dos resultados do primeiro turno das eleições presidenciais, ocorrido no dia 07/10. Após 100% das urnas apuradas, foram contados 49.276.990 votos para o candidato Jair Bolsonaro (PSL) contra 31.342.005 de Fernando Haddad (PT), representando uma diferença de quase 18 milhões de sufrágios entre os dois concorrentes que irão para uma nova disputa apenas entre si no último domingo do mês (28/10). 

Se bem refletirmos acerca disso, eis que temos hoje um pleito presidencial polarizado entre esquerda e direita, cujos vices poderiam ser considerados ainda mais radicais: o general Hamilton Mourão (PRTB) e Manuela d'Ávila (PCdoB). Esta por integrar o partido comunista e aquele por haver já cogitado a hipótese de uma intervenção militar durante um pronunciamento público feito na Loja Maçônica Grande Oriente, em setembro de 2017, no Distrito Federal. Na ocasião, o colega de chapa de Bolsonaro afirmou que, se o Judiciário não fosse capaz de sanar a política existente no país, isso seria imposto pelo Exército.

Posso dizer que ambas as candidaturas não me representam e temo que qualquer um possa agravar ainda mais a nossa situação. Pois, infelizmente, creio que não saberão dialogar com toda sociedade, buscando soluções para os problemas enfrentados, os quais envolvem uma grave crise de representação, corrupção, recessão econômica, violência, bem como a má prestação dos serviços públicos. E também me parece que, dificilmente, conseguirão fazer uma reforma política. Pois, devido ao fato de estarem bem distantes do centro e quase nos extremos ideológicos, como formularão propostas capazes de agradar a sociedade de maneira ampla?

Outra coisa é que, ao mesmo tempo em que caminhamos para o segundo turno, surgem casos de violência por todo o país gerados pela intolerância política, a exemplo do assassinato do capoeirista Moa do Katendê por um seguidor do Bolsonaro em Salvador. Tivemos também a ocorrência da jovem marcada com canivete por usar adesivo com "Ele Não" na sua mochila com a bandeira LGBT em Porto Alegre, além de um professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) preso após tentar atropelar um homem que vendia camisas do candidato do PSL, e da médica que rasgou a receita da paciente idosa após ela ter dito que votou em Haddad. 

Ora, tudo isso mostra o quanto a sociedade brasileira encontra-se hoje dividida, embrutecendo-se cada vez mais e decaindo dos seus valores éticos básicos. E como se já não bastassem as fakenews rolando direto pelo esgoto da internet que é o aplicativo WhatsApp, ainda houve alguns eleitores do candidato Bolsonaro que alegram supostas irregularidades envolvendo a confiança na votação eletrônica do dia 07/10.

Na minha postagem do dia 29/09 (clique AQUI para ler), eu havia levantado a hipótese sobre a possibilidade de sofrermos um golpe de Estado, caso Bolsonaro venha a perder as eleições para o PT. E, embora alguns amigos meus achem que eu esteja "viajando na maionese", não descarto essa hipótese, ainda que outros desfechos menos infelizes venham a ocorrer.

Penso que para tomarmos uma decisão racionalmente refletida diante de uma situação onde o voto responsável não pode ser omisso, o caminho seria imaginarmos como seriam os possível acontecimentos após a votação do dia 28/10 com Haddad ou Bolsonaro ganhando as eleições.

I - CENÁRIO COM HADDAD PRESIDENTE


No caso do PT vencer,  o que seria muito difícil diante da diferença de quase 18 milhões de votos, o primeiro problema seria acalmar a militância truculenta e organizada de Bolsonaro, a qual dificilmente aceitaria o resultado por achar que teria ocorrido uma fraude. O país poderia passar por protestos, greves como a dos caminhoneiros e até confrontos armados. Os militares poderiam não querer impedir uma eventual deposição do presidente Michel Temer e aí haveria um golpe civil-militar como em 1930.

Porém, pode ser que as matérias divulgadas na mídia, juntamente com a atuação influente de várias lideranças políticas, consigam conformar essa militância de direita em que o próprio candidato derrotado aceitaria o resultado das urnas. Porém, em tal hipótese, Haddad cederia ainda mais quanto às suas propostas desagradando a esquerda que o tem apoiado. Inclusive a grupos do próprio partido. Então, caso a economia cresça, a grande maioria da população ficaria satisfeita e o seu governo se consolidaria.

Já um desfecho que ninguém deseja seria Haddad chegar ao governo e depois começar a praticar uma política anti-liberal e de sustentação da ditadura venezuelana, convocando uma constituinte. Com isso, ele criaria um problema ainda maior, não conseguiria governabilidade através do Legislativo e, no mínimo, perderíamos mais quatro anos sem crescimento da economia. Isto sem descartarmos a possibilidade de que, neste caso, poderia ocorrer uma cassação da chapa por motivo de uma eventual investigação eleitoral, ele e a vice serem denunciados perante o STF (pois não seria estratégico o caminho do impeachment,) ou aquela intervenção militar prometida pelo general Mourão.

II - CENÁRIO COM BOLSONARO PRESIDENTE


Mas vejamos como pode ser o Brasil com o Bolsonaro eleito presidente dia 28/10...

A melhor das hipóteses aí seria o presidente abandonar o seu jeito truculento, fazer um governo que seja o mais próximo possível do técnico, não inventar mudanças polêmicas na Constituição (e menos ainda substituir a atual carta de 1988), nem cometer a insanidade de facilitar o acesso do cidadão às armas de fogo. Teríamos uma política econômica conservadora, com um liberalismo moderado, sem tantos escândalos de corrupção, mais investimentos na segurança pública, sem grandes retrocessos na área social e tendo uma oportunidade conjuntural de crescimento como foi na década passada com Lula.

Claro que, quando se tem dinheiro e distribuição da riquezas, temos satisfação dentro de uma sociedade. Porém, se o futuro governo não for capaz de resolver o problema do desemprego e da falta de oportunidades (ou se tivermos um crescimento sem distribuição de renda), Bolsonaro precisará arrumar meios de anestesiar os efeitos da crise. Então, neste caso, poderemos assistir o mais triste quadro no Brasil com perseguições políticas, um patrulhamento ideológico dentro das escolas, na mídia e no serviço público, mais divisões na sociedade, supressão de direitos do trabalhador, repressão estatal através da Polícia, espetaculização das ações de segurança e de investigação, incitação velada à homofobia, intolerância religiosa, criminalização do comunismo, aumento das desigualdades raciais, etc.

Da mesma maneira que o PT pode ambicionar a promulgação de uma nova Constituição, não descarto que Bolsonaro ou o seu vice pretendam isso. Aliás, no mês passado, o próprio general Mourão já andou defendendo por aí a propositura de uma nova Carta, sem haver uma Assembleia Constituinte (clique AQUI para ler a matéria no jornal A Folha de São Paulo). E, sendo assim, não sabemos como seria o novo Estado brasileiro, ainda que restasse ao povo aceitar ou negar a novidade em sede de plebiscito.

CONCLUSÃO


Quero agora dizer que o mais importante pra mim não é quem irá governar o Brasil, mas, sim, se conseguiremos preservar a nossa democracia com o máximo de direitos sociais possíveis, resistindo a essa onda de direita do momento. E aí recordo de uma matéria da Época , intitulada Na cadeia, Lula admite possível derrota e diz que deixou seu legado para o Brasil, a qual li justo no dia das eleições (antes do resultado da votação) mostrando as opiniões de Lula e do José Dirceu:

"Neste sábado (6), a menos de 24 horas das eleições, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva assistia a um filme na televisão de sua cela, localizada no quarto andar da sede da Polícia Federal, em Curitiba. O vídeo foi levado por advogados que tem a permissão judicial para entregar pen drives com músicas, séries e outras atrações ao preso. De calça e blusa de moletom, o petista passou o dia sozinho, já que não pode receber visitas aos finais de semana. A chuva e a temperatura em torno de 10 graus também não permitiram que ele desfrutasse das duas horas diárias de banho de sol. O mau tempo também afugentou os militantes que fazem plantão no acampamento do PT em frente à PF pedindo sua liberdade. Apenas seis militantes resistiam ao frio na véspera do primeiro turno.

A exceção no sábado de Lula foi a breve conversa que teve com os agentes da PF que levam suas refeições e fazem a segurança da porta de sua cela. No bate-papo, Lula não mudou seu comportamento: fez piadas e mostrou otimismo. No entanto, começou a admitir um assunto que até então evitava: uma possível derrota de Fernando Haddad, candidato do PT que o substituiu na disputa pelo Palácio do Planalto, para o Jair Bolsonaro, do PSL.

Segundo pessoas que conversaram com o presidente, nos últimos dias ele tem dito que sabe que deixou seu legado para o Brasil e que entrará para a história do país. Afirma ainda que esse não será o caminho de seus algozes. Lula defende que sua permanência na prisão será um grande problema num eventual governo Bolsonaro. Acredita que a visão de que ele é um preso político está consolidada no exterior e que a pressão de países estrangeiros e da ONU pela sua liberdade será crescente."

E sobre o Dirceu, assim expôs a revista:

"A cúpula do partido também passou a admitir a possibilidade de vitória de Bolsonaro. Se antes as pesquisas internas do PT mostravam que Haddad lideraria a votação ainda no primeiro turno, o mesmo não foi comprovado na véspera da eleição. Os números da própria sigla, geralmente mais otimistas do que pesquisas como Ibope e Datafolha, mostravam que o candidato do PSL chegará a um provável segundo turno na frente do ex-prefeito de São Paulo. Os dados são a pior notícia que o PT poderia receber. Sempre que chegou ao segundo turno, com Lula e depois com Dilma Rousseff, a sigla já estava na liderança.

O ex-ministro José Dirceu, que já foi condenado na Lava Jato, tem comparado o segundo turno entre Haddad e Bolsonaro à sangrenta Batalha de Stalingrado — com três meses de duração, ela foi um marco da Segunda Guerra Mundial, em 1942, quando soviéticos derrotaram as tropas alemãs de Adolf Hitler. No entanto, o petista tem defendido que a derrota pode ser o caminho de sobrevivência.  Em rodas restritas, ele afirma que se for para Haddad ser eleito e não conseguir governar, como aconteceu com Dilma Rousseff, que sofreu o impeachment em 2016, é melhor que o partido perca as eleições. Parte da sigla concorda com Dirceu e defende que o PT deixe o país sangrar com Bolsonaro voltar em um ambiente com menos rejeição e se viabilizar como opção dos eleitores."

Confesso que fiquei bem intrigado com o que li, mas depois refleti que a cúpula petista talvez prefira permanecer por mais quatro anos na oposição do que ganhar dia 28 e não assumir em 01/01. Ou então, preferem deixar de vencer  do que depois não governarem como desejam.

Desse modo, eu que antes havia até ingressado com uma notícia de inelegibilidade contra Bolsonaro em agosto, refleti que não valeria a pena fazer uma campanha pedindo votos para Haddad já que o próprio PT não está interessado numa vitória agora. E então, como sou filiado ao PSDB de Mangaratiba, preferi antes esperar pela decisão da Executiva Nacional do meu partido para me posicionar sobre o segundo turno das eleições. 

Tendo o PSDB decidido pela neutralidade, liberando os diretórios e os filiados para apoiarem quem eles desejarem, resolvi prestar a atenção em duas lideranças que muito estimo: FHC e Marina Silva 

Recentemente, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, respondeu ao blogue de Bernardo Mello Franco, do jornal O GLOBO, que "nenhum dos candidatos agrada, mas Bolsonaro está excluído. Não tem sentido". E ainda acrescentou que o candidato do PSL "não tem jeito", pois é "uma folha seca que vai com o vento", alertando o ex-presidente estar "forte" a ventania. 

Outra liderança que também teve um posicionamento semelhante foi a candidata da Rede Sustentabilidade, Marina Silva. Seu partido recomendou "nenhum voto" em Bolsonaro. E, numa nota divulgada após reunião da Comissão Executiva Nacional, a Rede criticou o "projeto de poder" e a "corrupção sistemática" do PT, dizendo que não apoiará a candidatura Haddad e que será oposição ao futuro governo, seja qual for o vencedor da eleição.

Como livre pensador que sou, estou de acordo com FHC e com Marina Silva. Não porque eu precise das opiniões deles, mas, sim, pelo fato de que me identifiquei com as suas respectivas análises, considerando-as coerentes e sábias. E acrescento que todo o esforço deve ser feito para preservar a democracia brasileira como bem expôs a nota da Executiva Nacional da Rede que incluiu aí a preocupação com o meio ambiente:

"Nestas eleições, a Rede Sustentabilidade apresentou à sociedade brasileira um projeto alternativo à polarização. Frente ao ódio e à mentira, oferecemos a face da verdade e da união em prol de um Brasil mais próspero, justo e sustentável. Infelizmente, os dois postulantes no segundo turno representam projetos de poder prejudiciais ao país, atrasados do ponto de vista da concepção de desenvolvimento, autoritários em relação ao papel das instituições de Estado, retrógrados quanto à visão do sistema político e questionáveis do ponto de vista ético.

A Rede não se alinha e não apoia nenhum deles. A corrupção sistemática revelada pela Operação Lava Jato foi uma marca dos governos petistas, assim como de boa parcela dos parlamentares que agora estão com o Bolsonaro. Os dirigentes petistas construíram um projeto de poder pelo poder pouco afeito à alternância democrática.

Por outro lado, é impossível ignorar que o projeto de Bolsonaro, conforme tem sido reiteradamente afirmado, representa um retrocesso brutal e inadmissível em três pontos muito caros aos princípios e propósitos da Rede. Primeiro, promete desmontar inteiramente a estrutura de proteção ambiental existente no país, conquistada ao longo de décadas, por gerações de ambientalistas. Chega ao absurdo de anunciar a incorporação do Ministério do Meio Ambiente ao Ministério da Agricultura. Com isso, atenta contra o interesse da sociedade brasileira e destrói pilares fundamentais para o futuro do país. Além disso, ataca os direitos das comunidades indígenas e quilombolas, anunciando que não será demarcado mais um centímetro de suas terras. Segundo, é um projeto que despreza direitos humanos e a diversidade existente na sociedade, promovendo a incitação sistemática ao ódio, à violência e à discriminação. Por fim, é um projeto que ameaça a democracia e põe em cheque as conquistas históricas desde a Constituinte de 1988.

Dessa forma, a Rede Sustentabilidade declara publicamente que:

1. Será oposição democrática ao governo de qualquer dos candidatos que saia vencedor do embate a que se reduziu essa eleição.

2. Não tem ilusões quanto às práticas condenáveis do PT, dentro e fora do governo. No entanto, frente às ameaças imediatas e urgentes à democracia, aos grupos vulneráveis, aos direitos humanos e ao meio ambiente, a Rede Sustentabilidade recomenda que seus filiados e simpatizantes não destinem nenhum voto ao candidato Jair Bolsonaro e, isso posto, escolham de acordo com sua consciência votar da forma que considerem melhor para o país."

Finalmente, faço apenas o comentário de que a oposição a qualquer dos novos presidentes precisará ser sempre inteligente e construtiva, sem jamais lesarmos os interesses do país. Menos ainda ser uma conduta interesseira para amanhã um partido obter um ministério ou cargos para seus afiliados. Logo, essa é a linha que pretendo seguir, sem fazer campanha a nenhum dos candidatos, mas atuando como observador das eleições, sempre denunciando as coisas erradas, a intolerância e as ideias contrárias aos interesses coletivos.

Ótima noite de quinta-feira a todos e tenham um excelente feriadão!

terça-feira, 9 de outubro de 2018

OUTUBRO ― Mês da Consciência do Erro


OUTUBRO Mês da Consciência do Erro



Consciência do Erro Arrependimento e Perdão têm tudo a ver com o mês de Outubro.

O Yom Kippur, dia do perdão (uma das maiores festas dos judeus), é comemorada no décimo dia do sétimo mês (tishrei) que no calendário gregoriano (o nosso) corresponde exatamente ao mês de outubro. Era por ocasião do Yom kipur, que os judeus se arrependiam de seus erros e pediam perdão pelos males causados aos seus irmãos.


Se a “consciência do erro” era a condição sine qua non para o perdão, aqui por nossas plagas, ao que parece, ela deu o ar de sua graça: os dois candidatos à presidência da nossa república, um dia após o encerramento do primeiro turno, admitiram que seus programas de governo continham erros crassos. Ambos, pela TV, prometeram fazer a correção, em tempo.


Versículos da Bíblia, com Deus no meio, por ora, estão sendo imiscuídos em muitos discursos.

E aqui fica uma pergunta que não quer calar:

Será que até o dia 28 desse mês, os “cristãos”, de ambos os lados, recitarão em uníssono a ordenança divina largamente usada em suas pregações: “Sem arrependimento não há remissão de erros ou pecados”?


sexta-feira, 5 de outubro de 2018

A urgência do Paz e Bem de São Francisco de Assis



Por Leonardo Boff *

No nosso país, dentro de um ambiente de muito ódio, destruição de biografias e mentiras de todo tipo, vale recorrer ao espírito de São Francisco de Assis, à sua famosa oração pela paz e à sua saudação de Paz e Bem. Era um ser que havia purificado seu coração de toda a dimensão de sombra , tornando-se “o coração universal…porque para ele qualquer criatura era uma irmã, unida a ela por laços de carinho” como escreveu o Papa Francisco em sua encíclica ecológica (n.10 e 11). Por onde quer que passasse, saudava as pessoas com o seu "Paz e Bem", saudação que ficou na história especialmente dos frades que começam suas cartas desejando Paz e Bem.

Construiu laços de paz e de fraternidade com o Senhor irmão Sol, e com a senhora Mãe Terra. Essa figura singular, seja talvez uma das mais luminosas que o Cristianismo e o próprio Ocidente já produziram. Há quem o chame de o “ultimo cristão” ou o “primeiro depois do Único” quer dizer, de Jesus Cristo.

Seguramente podemos dizer: quando o Cardeal Bergoglio escolheu nome de Francisco quis sinalizar um projeto de sociedade pacifica, de irmãos e irmãs, reconciliados com todos os irmãos e irmas da natureza e de todos os povos. A mesmo tempo, pensou numa Igreja na linha do espírito de São Francisco. Este era o oposto do projeto de Igreja de seu tempo que se expressava pelo poder temporal sobre quase toda a Europa até a Rússia, por imensas catedrais, suntuosos palácios e grandes abadias.

São Francisco optou por viver o evangelho puro, ao pé da letra, na mais radical pobreza, numa simplicidade quase ingênua, numa humildade que o colocava junto à Terra, no nível dos mais desprezados da sociedade vivendo entre os hansenianos e comendo com eles da mesma escudela.

Para aquele tipo de Igreja e de sociedade, confessa explicitamente: “quero ser um ‘novellus pazzus’, um novo louco”: louco pelo Cristo pobre e pela “senhora dama” pobreza, como expressão de total liberdade: nada ser, nada ter, nada poder, nada pretender. Atribui-se a ele a frase: “desejo pouco e o pouco que desejo é pouco”. Na verdade era nada. Considerava-se “idiota, mesquinho, miserável e vil”.

A despeito de todas as pressões de Roma e as internas dos próprios confrades que queriam conventos e regras nunca renunciou ao eu sonho de seguir radicalmente o Jesus, pobre junto com os mais pobres.

A humildade ilimitada e a pobreza radical lhe permitiram uma experiência que vem ao encontro de nossas indagações: é possível resgatar o cuidado e o respeito para com a natureza? É possível uma sociedade sem ódios que inclua a todos, como ele o fez: com o sultão do Egito que encontrou na cruzada, com o bando de salteadores, como lobo feroz de Gúbbio e até com a irmã morte?

Francisco mostrou esta possibilidade e sua realização. ao fazer-se radicalmente humilde. Colocou-se no mesmo chão (húmus=humildade) e ao pé de cada criatura, considerando-a sua irmã. Inaugurou uma fraternidade sem fronteiras: para baixo com os últimos, para os lados com os demais semelhantes, independente se eram Papas ou servos da gleba, para cima com o sol, a lua e as estrelas, filhos e filhas do mesmo Pai bom.

A pobreza e a humildade assim praticadas não têm nada de beatice. Supõem algo prévio: o respeito ilimitado diante de cada ser. Cheio de devoção, tirava a minhoca do caminho para não ser pisada, enfaixava um galhinho quebrado para que se recuperasse, alimentava no inverno as abelhas que esvoaçam por aí, famintas.

Não negou o húmus original e as raízes obscuras de onde todos viemos. Ao renunciar a qualquer posse de bens ou de interesses ia ao encontro dos outros com as mãos vazias e o coracão puro, oferecendo-lhes apenas o Paz e Bem, a cortesia, e o amor cheio de e ternura.

A comunidade de paz universal surge quando nos colocamos com grande humildade no seio da criação, respeitando todas as formas de vida e cada um dos seres pois todos possuem um valor em si mesmo, antes de qualquer uso humano. Essa comunidade cósmica, fundada no respeito ilimitado, constitui o pressuposto necessário para fraternidade humana, hoje abalada pelo ódio e pela discriminação dos mais vulneráveis de nosso país. Sem esse respeito e essa fraternidade dificilmente a Constituição a Declaração dos Direitos Humanos terão eficácia. Haverá sempre violações, por razões étnicas, de gênero, de religião e outras.

Este espírito de paz e fraternidade, poderá animar nossa preocupação ecológica de salvaguarda de cada espécie, de cada animal ou planta, pois são nossos irmãos e irmãs. Sem a fraternidade real nunca chegaremos a formar a família humana que habita a “irmã e Mãe Terra”, nossa Casa Comum, com cuidado.

Essa fraternidade de paz é realizável. Todos somos sapiens e demens mas podemos fazer com que o sapiens em nós humanize nossa sociedade dividida que deverá repetir:”onde há ódio que eu leve o amor”.

(*) Leonardo Boff é teólogo, ex-frade e sempre franciscano e comentou “A oração de São Francisco pela paz”,Vozes 1999.

OBS: Artigo postado originalmente no blogue do autor.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

O Que Mais Se Deseja em Época Pré-eleitoral

                                                                                                                               Dois jovens pugilistas de Santorini (1550 a.C)



Em tempos pré-eleitorais o que mais se deseja (consciente ou inconscientemente) não é unir, não é buscar no outro, seu próprio sintoma esquecido ou guardado a sete chaves. O que mais se deseja, entre os grupos, é rotular o outro de direita ou de esquerda, como se a identidade negativa e burra estivesse sempre presente no outro e não no seu próprio Eu. O que talvez não compreendam é que os afetos que identificam tanto o “republicano” quanto o “democrata” fazem parte de nossa alma dúbia. Alma que ora pende para um lado, ora para outro, tal qual um equilibrista a caminhar perigosamente em uma corda bamba. Essa realidade psíquica desqualifica qualquer um a ser árbitro para julgar os afetos de natureza subjetiva do outro.

Parece que em tempos de acirramento político há uma regressão ou involução humana, uma espécie de retorno ao tempo em que éramos bárbaros ou selvagens, retorno ao tempo dos clãs. Tempo em que éramos cegos para o mal que existia em nós mesmos: só tínhamos a capacidade de percebê-lo na tribo que considerávamos inferior à nossa.

De certa forma, o embate ideológico dos tempos atuais, nada mais faz que trazer à tona os monstros que estavam adormecidos na psique humana, desde tempos imemoriais. Como fez ver o psicanalista Christian Dunker, quando no jornal NEXO, em janeiro de 2018, discorreu sobre “os efeitos da crise política para os brasileiros”:

“A massa tem esse funcionamento polar, de precisar sempre segregar os inimigos para reforçar os laços de identificação [entre iguais]. É como se o funcionamento de massa exigisse a produção de grandes ídolos, que são sucedâneos do Pai, um Pai muito autoritário”.

A História sempre mostrou que é em época de descontrole e vazio de poder, que a figura paterna (arquétipo patriarcal) ressurge das profundezas da psique humana com força total. O veneno dessa força instintiva descomunal ao aflorar nas almas humilhadas, desamparadas e desesperadas, insinuam, em suas mentes infantilizadas, o desejo ou anseio de proteção. Proteção, que em ambos polos ideológicos extremistas (direita e esquerda), se remontam a figura paterna onipotente (super-ego). Nietzsche, naquilo que ficou cunhado de "eterno retorno", já fazia menção a uma tendência inata de se repetir fatos indigestos no desenrolar da história humana, desde as mais remotas eras.

O que Freud, com a descoberta da área sombria de nossa psique a que denominou de “Inconsciente” conseguiu deixar tão claro, senão a de que, em tempos de paz, instintos altamente agressivos representados por paixões ideológicas antagônicas dormem de forma latente em cada ser humano? 

Procurando entender o que levava os homens a essa forma cruel e extravagante de conflito, Albert Einstein, em uma de suas muitas cartas enviadas a Freud, fez a fatídica pergunta: “Por Que a Guerra?”. O fundador da psicanálise, sendo judeu, ainda mais numa época conturbada de violento antissemitismo, não quis se estender no tema, revelando, apenas, que os dois polos representativos da ambivalência humana, quando em atrito, davam lugar a “pulsões destrutivas” (Tanathos).

Só não vê quem não quer, a “indomável psicose coletiva” que grassa em nossas glebas.

Por Levi B. Santos
Guarabira, 16 de setembro de 2018

OBS: O Trecho acima foi retirado do ensaio publicado originariamente no Blog "Ensaios & Prosas" - em 16 de setembro de 2018 - sob o título: "Abordagem Psicanalítica de Nossa Postura Político-Ideológica"

POESIA DO DIA: #ELENÃO!#ELENUNCA!



por Cláudio Mello

Um dia lindo
Muitos Abraços apertados
Arrepios por todo lado
Lágrimas nos olhos

Gente linda em profusão
Muito Amor e Compaixão
Todos gritando: EleNão!
E naquela multidão...nenhuma confusão

Mães, filhos....avós
Amigos, conhecidos...novas amizades
Bate-papo feliz por toda parte
A bondade, o afeto....Vencerão
E vai se comprovando...o EleNão!

Encontros de EleNão e Heleninhas
E quanto mais se olhava...mais amigos vinha!

Nunca mais se esquecerá
Aqui, no Brasil....em todo lugar
A capacidade de mobilização
Mulherada da Porra! EleNão!

Meu coração exultante
Grita e se exalta
O facismo não passa....não passarão
E gritamos de novo: EleNunca!EleNão!

sábado, 29 de setembro de 2018

As eleições presidenciais de outubro e o risco de uma nova ruptura no país



Há quase 89 anos atrás, em 01/03/1930, ocorria a décima-primeira eleição presidencial direta da ainda jovem República brasileira, quando os cidadãos dos vinte estados da época e do Distrito Federal (com sede no Rio de Janeiro) tiveram que escolher entre o candidato do governo, o paulista Julio Prestes (PRP), e o maior nome da oposição, Getúlio Vargas (AL).

Para quem não sabe, a chamada "República Velha" vigorou entre os anos de 1889 a 1930 sendo que, conforme a Constituição de 1891, o pleito presidencial ocorria em data distinta do que vem sendo atualmente. E, por um longo período, o Partido Republicano Paulista (PRP) e o Partido Republicano Mineiro (PRM) acordavam entre si para se revezarem na Presidência da República, de modo que os seus interesses se preservassem. Tais entendimentos fizeram com que o regime fosse apelidado do "república do café com leite", numa referência aos principais produtos da economia de cada um dos dois estados brasileiros, tratando-se de algo que vinha funcionando harmonicamente até que houve uma quebra de alianças em 1930.

Assim, com a decisão do então presidente paulista Washington Luís em apoiar um sucessor do PRP, ao invés de um mineiro, eis que o governador de Minas Gerais, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, resolveu ceder a sua candidatura a presidente em favor do gaúcho Getúlio Vargas. Formou-se então com os estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba a Aliança Liberal (AL), em que Vargas e o paraibano João Pessoa foram, respectivamente, indicados como candidatos a presidente e vice-presidente.

Importante esclarecer que, na época, o voto não era secreto e existia uma grande influência dos "coronéis" (pessoas influentes das oligarquias que detinham o Poder Executivo municipal, e principalmente, o poder militar da região). Com isso, costumava ser muito comum a fraude eleitoral e, não raramente, os eleitores eram obrigados a votar num determinado candidato apoiado pelo coronel local, de modo que os resultados corretos da disputa tornavam-se, com frequência, indeterminados.

Não custa lembrar que o Brasil de 1930 era uma nação de ainda 37.400.000 habitantes dos quais apenas 2.525.000 eram eleitores, tendo comparecido às urnas 1.900.256 cidadãos (1.838.335 votos nominais), o que representou 5% da população. Julio Prestes obteve 1.091.709 (59,39%) dos sufrágios enquanto Vargas alcançou 742.794 (40,41%), tendo os restantes se distribuído entre nulos, brancos e o terceiro colocado, que foi o comunista Minervino de Oliveira pela legenda do Bloco Operário e Camponês (BOC).

Entretanto, não houve uma aceitação do resultado! Pois surgiu um movimento armado, liderado pelos estados de Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul, culminando com o golpe de Estado que depôs o presidente da república Washington Luís, em 24 de outubro de 1930, e impediu a posse do presidente eleito Júlio Prestes. Foi o fim da República Velha.

Pois bem. Feito esse breve resumo da História brasileira, assunto que muitos depois poderão se aprofundar pesquisando em livros e na internet, passo então a refletir sobre o problema atual das eleições presidenciais de 2018, as quais muito me preocupam.

De acordo com os números da pesquisa Datafolha de 29/09 sobre as intensões de votos para presidente, com base em levantamentos feitos entre os dias 26 a 28/09 pelo instituto, Jair Bolsonaro (PSL) ainda se manteve na liderança com os mesmos 28% do resultado anterior, sendo seguido por Fernando Haddad (PT) que já alcançou surpreendentes 22%, isolando-se na segunda colocação. E, em terceiro, temos Ciro Gomes (PDT) com 11% que está empatado tecnicamente com o candidato Geraldo Alckmin (PSDB), o qual tem 10%. Já os demais números seriam estes: Marina Silva (Rede) 5%; João Amoêdo (Novo) 3%; Henrique Meirelles (MDB) 2%; Alvaro Dias (Podemos) 2%; Cabo Daciolo (Patriota) 1%; Vera Lúcia (PSTU) 1%; Guilherme Boulos (PSOL) 1%; João Goulart Filho (PPL) 0%; Eymael (DC) 0%; Branco/nulos 10%; não sabe/não respondeu 5%.


Entretanto, embora figurando em primeiro lugar nas pesquisas, as simulações sobre o segundo turno mostram que Bolsonaro perde de qualquer um dos principais concorrentes, quer seja Haddad, Ciro Gomes ou Alckmin. O motivo da derrota seria a alta rejeição angariada pelo presidenciável em suas repudiáveis falas contra mulheres, negros, indígenas, homossexuais e minorias em geral. Tanto é que já surgiu um forte movimento entre o eleitorado feminino chamado "#ELENÃO" e que tem crescido surpreendentemente. Aliás, hoje mesmo estão acontecendo diversas manifestações pelo país contra o político, sendo uma delas na Cinelândia, Centro do Rio de Janeiro.

Ocorre que, em entrevista concedida a José Luiz Datena, da Band, o candidato do PSL afirmou que não vai aceitar o resultado da eleição se ele não for o vencedor, dizendo que: "Pelo que eu vejo nas ruas, não aceito resultado das eleições diferente da minha eleição". Em réplica, o jornalista ainda indagou se esse posicionamento não seria antidemocrático, pelo que recebeu a seguinte resposta:

"Não. É um sistema eleitoral que não existe em nenhum lugar do mundo. Eu apresentei um antídoto para isso. A senhora Raquel Dodge [procuradora-geral da República] questionou. O argumento dela, Datena, é que a impressão dos votos comprometeria a segurança das eleições. Pelo amor de Deus. Inclusive estava acertado que em 5% das seções teríamos impressão do voto"

Em outras palavras, Bolsonaro já está criando um clima de desconfiança quanto ao processo eleitoral estando já ciente de que não sairá vencedor, havendo antecipado o seu discurso a respeito de uma eventual "fraude", caso o PT ganhe mais uma vez as eleições presidenciais:

"Só na fraude. Lamentavelmente não temos como auditar as eleições. Não existe outra maneira que não seja na fraude. Quando Lula ia para a rua era hostilizado. Não existe essa história. Será que o Lula preso vai transferir a mesma quantidade de votos para Haddad que transferiu para Dilma?"

Além do mais, Bolsonaro também argumentou que não aceita as pesquisas eleitorais: 

"Não acredito em pesquisas. O que vejo nas ruas e como me tratam em aeroporto e como me tratam os outros não pode estar acontecendo. Não vejo eleitor de Marina, de outros candidatos. Lançaram uma campanha #ELENAO. Vocês vão votar em quem?"

Analisando os fatos, vejo um enorme risco para a democracia brasileira esse inconformismo de Bolsonaro e de seus apoiadores os quais, como sabemos, são muitos, mesmo não representando a maioria da possa população e nem os mais pobres. Pois, verdade seja dita, ele tem a seu favor um apoio que é de fato consolidado, tratando-se de uma massa formada por pessoas que acreditam piamente numa vitória já em primeiro turno, ignorando as pesquisas de opinião e as matérias divulgadas pelos jornais sérios desse país.

Ora, esse sentimento enganoso de que Bolsonaro irá vencer no primeiro turno decorre das percepções equivocadas que as redes sociais causam. Isto, aliás, virou hoje um grande mal para a democracia no mundo todo depois que muitos trocaram a TV e os jornais pela internet, tornando-se pessoas desinformadas, totalmente vulneráveis aos boatos espalhados pelos aplicativos de aparelhos celulares e ainda adeptas de teorias conspiratórias.

É fato que a rede social mais acessada do mundo, o Facebook, significou uma mudança drástica no modo de viver da segunda década do século XXI. E aí um dos efeitos que se tem na atualidade seria a intensificação do pensamento coletivo devido à facilidade de encontrarmos pessoas nos sites de relacionamento que pensam iguais a nós em determinados assuntos divulgados nos meios virtuais, o que acaba encorajando certas atitudes e intensificando a manifestação de opiniões.

Ora, a maneira como o referido site filtra o conteúdo que chega até os usuários faz com que estes acabem vivendo dentro de uma espécie de "bolha". Senão vejamos o que explica Lincoln Mirabelli Gomes em seu excelente artigo que versa sobre o assunto:

"Assim como o Google, Youtube e quase todas as outras redes sociais da atualidade, no Facebook o conteúdo que chega até o usuário passa por um algoritmo, que filtra o conteúdo bruto de acordo com certas preferências do usuário.
O algoritmo é extremamente complexo, contando com mais de 100.000 variáveis e fatores, entre eles proximidade do usuário com a fonte da publicação, número de curtidas, tipo de conteúdo e até horário de postagem.
Com isso, das cerca de 1500 publicações que um usuário teria acesso normalmente, apenas 20% desse montante chega ao destino. Apesar do motivo ser o de evitar uma enxurrada de conteúdo chegando ao usuário, esse “filtro” acaba gerando algumas consequências muito ruins, pois muitos usuários não sabem ou não percebem que essa “filtragem” acontece.
Como temos a tendência de se engajar mais em publicações que concordam com o que pensamos, o Facebook vai passar a mostrar mais daquilo que você gosta e menos daquilo que você não gosta — e não concorda também, passando uma sensação equivocada da realidade.
Um dos problemas observados desse efeito, que interfere diretamente no trabalho de um jornalista, é que dentro dessas bolhas sociais é muito mais fácil se espalhar as chamadas “Fake News”. Num ambiente em que predomina aqueles conteúdos e posições em que você acredita, a “guarda” fica mais baixa e acabamos acreditando mais facilmente nas coisas. Mesmo as vezes sendo uma notícia claramente falsa." - Extraído de https://medium.com/observat%C3%B3rio-de-m%C3%ADdia/uma-nova-fronteira-o-facebook-e-a-bolha-social-5986ff5bd89e

Será que, após a inevitável derrota do candidato do PSL, não será fácil para os seus seguidores espalharem boatos acerca de uma suposta fraude na votação eletrônica e as pessoas tomarem isso como sendo verdade absoluta?

Assim sendo, no caso do PT ganhar as eleições, não descarto a hipótese de que Bolsonaro poderá prosseguir com o seu intencional inconformismo, contribuindo para desencadear um movimento revolucionário no país que, semelhantemente com o que houve em 1930, causou a queda da primeira República. Ou seja, seria o prato cheio para termos um verdadeiro golpe de Estado, assassinando a Constituição Federal de 1988, cujas consequências seriam imprevisíveis para as conquistas alcançadas na área social e para as liberdades individuais.

Certamente que o ambiente de polarização na política brasileira é o que muito contribui para o aumento na divisão da nossa sociedade com sérios riscos para o regime democrático atual. Pois o fato do PT estar em segundo lugar nas pesquisas e com chances reais de ganhar as eleições instiga ainda mais os grupos de direita popular que surgiram nos últimos anos em apoio a Bolsonaro, acreditando tais militantes que o candidato irá por fim à corrupção e mudar o Brasil.

Todavia, se tivermos um presidenciável moderado disputando o segundo turno da eleição contra Bolsonaro, a exemplo de Geraldo Alckmin, poderemos evitar o aumento das tensões políticas no país. Isto porque um presidente de centro teria as chances de conciliar melhor os interesses do que um radical de direita ou um líder de esquerda cuja vice, Manuela d'Ávila, foi indicada pelo PCdoB para compor a chapa com o PT.

Felizmente, ainda nos restam oito dias pela frente e parte das horas de um final de semana como este, o qual considero decisivo para, quem sabe, ocorrer uma virada heroica até 07/10. Pois, segundo a otimista explicação do sociólogo Antonio Lavareda, presidente do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), "se Alckmin crescer 3% ou 4% até segunda-feira, ele pega impulso e consegue chegar ao segundo turno. O final de semana é fundamental. É quando há troca de informação nos grupos sociais".

Nunca é demais lembrar que, na reta final de outras eleições, houve movimentos importantes nesta etapa. Em 2014, Aécio Neves (PSDB) teve variação positiva de 10 pontos. Já em 2010, Marina Silva (então no PV) cresceu 6 pontos. E, em 2006, o próprio Alckmin disputando contra Lula, cresceu 8%. Logo, ainda tenho minhas esperanças de que o PSDB consiga chegar lá para evitarmos uma tragédia histórica na política brasileira, sendo que considero o candidato tucano uma opção muito melhor para estabilizar o Brasil do que Ciro Gomes.


Coragem, meus amigos, e vamos todos vestir a camisa do 45 no dia 07 de outubro. E para quem está indeciso ainda há tempo para se definir, sendo que os eleitores de Fernando Haddad podem muito bem refletir sobre a importância de mudarem para uma opção mais light, trocando o PT pelo PSDB. O Brasil é Geraldo!

OBS: A primeira foto ilustrativa do artigo retrata Getúlio Vargas, com outros líderes da Revolução de 1930, no município paulista de Itararé, logo após a derrubada de Washington Luís.

domingo, 23 de setembro de 2018

"Pela democracia, pelo Brasil"




Um grupo de brasileiros esclarecidos, que inclui artistas, advogados, ativistas e empresários, está promovendo um manifesto contra a candidatura de Jair Bolsonaro. Trata-se do documento intitulado "Pela democracia, pelo Brasil", sem vinculação a qualquer um dos adversários do deputado, mas tão somente propondo um movimento contra o projeto antidemocrático do presidenciável. 

Conforme apurado pela Exame, cerca de 150 nomes já teriam assinado o manifesto, dentre eles os de Maria Alice Setúbal, educadora e acionista do Itaú Unibanco; do economista Bernard Appy; do empresário Guilherme Leal, sócio da Natura; de Caetano Veloso e Paula Lavigne; do advogado e professor da FGV Carlos Vilhena; e do médico Drauzio Varella.

Aplaudindo de pé a iniciativa, eis que compartilho a seguir o texto para que todos possam conhecer, comentar e divulgar:


Pela democracia, pelo Brasil


"Somos diferentes. Temos trajetórias pessoais e públicas variadas. Votamos em pessoas e partidos diversos. Defendemos causas, ideias e projetos distintos para nosso país, muitas vezes antagônicos.

Mas temos em comum o compromisso com a democracia. Com a liberdade, a convivência plural e o respeito mútuo. E acreditamos no Brasil. Um Brasil formado por todos os seus cidadãos, ético, pacífico, dinâmico, livre de intolerância, preconceito e discriminação.

Como todos os brasileiros, sabemos da profundidade dos desafios que nos convocam nesse momento. Mais além deles, do imperativo de superar o colapso do nosso sistema político, que está na raiz das crises múltiplas que vivemos nos últimos anos e que nos trazem ao presente de frustração e descrença.

Mas sabemos também dos perigos de pretender responder a isso com concessões ao autoritarismo, à erosão das instituições democráticas ou à desconstrução da nossa herança humanista primordial.

Podemos divergir intensamente sobre os rumos das políticas econômicas, sociais ou ambientais, a qualidade deste ou daquele ator político, o acerto do nosso sistema legal nos mais variados temas e dos processos e decisões judiciais para sua aplicação. Nisso, estamos no terreno da democracia, da disputa legítima de ideias e projetos no debate público.

Quando, no entanto, nos deparamos com projetos que negam a existência de um passado autoritário no Brasil, flertam explicitamente com conceitos como a produção de nova Constituição sem delegação popular, a manipulação do número de juízes nas cortes superiores ou recurso a autogolpes presidenciais, acumulam declarações francamente xenofóbicas e discriminatórias contra setores diversos da sociedade, refutam textualmente o princípio da proteção de minorias contra o arbítrio e lamentam o fato das forças do Estado terem historicamente matado menos dissidentes do que deveriam, temos a consciência inequívoca de estarmos lidando com algo maior, e anterior a todo dissenso democrático.

Conhecemos amplamente os resultados de processos históricos assim. Tivemos em Jânio e Collor outros pretensos heróis da pátria, aventureiros eleitos como supostos redentores da ética e da limpeza política, para nos levar ao desastre. Conhecemos 20 anos de sombras sob a ditadura, iniciados com o respaldo de não poucos atores na sociedade. Testemunhamos os ecos de experiências autoritárias pelo mundo, deflagradas pela expectativa de responder a crises ou superar impasses políticos, afundando seus países no isolamento, na violência e na ruína econômica. Nunca é demais lembrar, líderes fascistas, nazistas e diversos outros regimes autocráticos na história e no presente foram originalmente eleitos, com a promessa de resgatar a autoestima e a credibilidade de suas nações, antes de subordiná-las aos mais variados desmandos autoritários.

Em momento de crise, é preciso ter a clareza máxima da responsabilidade histórica das escolhas que fazemos.

Esta clareza nos move a esta manifestação conjunta, nesse momento do país. Para além de todas as diferenças, estivemos juntos na construção democrática no Brasil. E é preciso saber defendê-la assim agora.

É preciso dizer, mais que uma escolha política, a candidatura de Jair Bolsonaro representa uma ameaça franca ao nosso patrimônio civilizatório primordial. É preciso recusar sua normalização, e somar forças na defesa da liberdade, da tolerância e do destino coletivo entre nós.

Prezamos a democracia. A democracia que provê abertura, inclusão e prosperidade aos povos que a cultivam com solidez no mundo. Que nos trouxe nos últimos 30 anos a estabilidade econômica, o início da superação de desigualdades históricas e a expansão sem precedentes da cidadania entre nós. Não são, certamente, poucos os desafios para avançar por dentro dela, mas sabemos ser sempre o único e mais promissor caminho, sem ovos de serpente ou ilusões armadas.

Por isso, estamos preparados para estar juntos na sua defesa em qualquer situação, e nos reunimos aqui no chamado para que novas vozes possam convergir nisso. E para que possamos, na soma da nossa pluralidade e diversidade, refazer as bases da política e cidadania compartilhadas e retomar o curso da sociedade vibrante, plena e exitosa que precisamos e podemos ser."

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Carta aos eleitores e eleitoras



Na noite desta quinta-feira (20/09), o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) divulgou uma carta direcionada aos eleitores, na qual ele pede serenidade e união entre partidos contra candidatos radicais a fim de que o futuro presidente promova os ajustes necessários, evitando uma "crise econômica ainda mais profunda". Vale a pena refletirmos sobre o que nos diz esse experiente estadista em sua lúcida missiva:

Carta aos eleitores e eleitoras


Por Fernando Henrique Cardoso*

Em poucas semanas escolheremos os candidatos que passarão ao segundo turno. Em minha já longa vida recordo-me de poucos momentos tão decisivos para o futuro do Brasil em que as soluções dos grandes desafios dependeram do povo. Que hoje dependam, é mérito do próprio povo e de dirigentes políticos que lutaram contra o autoritarismo nas ruas e no Congresso e criaram as condições para a promulgação, há trinta anos, da Constituição que nos rege.

Em plena vigência do estado de direito nosso primeiro compromisso há de ser com a continuidade da democracia. Ganhe quem ganhar, o povo terá decidido soberanamente o vencedor e ponto final.

A democracia para mim é um valor pétreo. Mas ela não opera no vazio. Em poucas ocasiões vi condições políticas e sociais tão desafiadoras quanto as atuais. Fui ministro de um governo fruto de outro impeachment, processo sempre traumático. Na época, a inflação beirava 1000 por cento ao ano. O presidente Itamar Franco percebeu que a coesão política era essencial para enfrentar os problemas. Formou um ministério com políticos de vários partidos, incluída a oposição ao seu governo, tal era sua angústia com o possível despedaçamento do país. Com meu apoio e de muitas outras pessoas, lançou-se a estabilizar a economia. Criara as bases políticas para tanto.

Agora, a fragmentação social e política é maior ainda. Tanto porque as economias contemporâneas criam novas ocupações, mas destroem muitas outras, gerando angústia e medo do futuro, como porque as conexões entre as pessoas se multiplicaram. Ao lado das mídias tradicionais, as “mídias sociais” permitem a cada pessoa participar diretamente da rede de informações (verdadeiras e falsas) que formam a opinião pública. Sem mídia livre não há democracia.

Mudanças bruscas de escolhas eleitorais são possíveis, para o bem ou para o mal, a depender da ação de cada um de nós.

Nas escolhas que faremos o pano de fundo é sombrio. Desatinos de política econômica, herdados pelo atual governo, levaram a uma situação na qual há cerca de treze milhões de desempregados e um déficit público acumulado, sem contar os juros, de quase R$ 400 bilhões só nos últimos quatro anos, aos quais se somarão mais de R$ 100 bilhões em 2018. Essa sequência de déficits primários levou a dívida pública do governo federal a quase R$ 4 trilhões e a dívida pública total a mais de R$ 5 trilhões, cerca de 80% do PIB este ano, a despeito da redução da taxa de juros básica nos últimos dois anos. A situação fiscal da União é precária e a de vários Estados, dramática.

Como o novo governo terá gastos obrigatórios (principalmente salários do funcionalismo e benefícios da previdência) que já consomem cerca de 80% das receitas da União, além de uma conta de juros estimada em R$ 380 bilhões em 2019, o quadro fiscal da União tende a se agravar. O agravamento colocará em perigo o controle da inflação e forçará a elevação da taxa de juros. Sem a reversão desse círculo vicioso o país, mais cedo que tarde, mergulhará em uma crise econômica ainda mais profunda.

Diante de tão dramática situação, os candidatos à Presidência deveriam se recordar do que prometeu Churchill aos ingleses na guerra: sangue, suor e lágrimas. Poucos têm coragem e condição política para isso. No geral, acenam com promessas que não se realizarão com soluções simplistas, que não resolvem as questões desafiadoras. É necessária uma clara definição de rumo, a começar pelo compromisso com o ajuste inadiável das contas públicas. São medidas que exigem explicação ao povo e tempo para que seus benefícios sejam sentidos. A primeira dessas medidas é uma lei da Previdência que elimine privilégios e assegure o equilíbrio do sistema em face do envelhecimento da população brasileira. A fixação de idades mínimas para a aposentadoria é inadiável. Ou os homens públicos em geral e os candidatos em particular dizem a verdade e mostram a insensatez das promessas enganadoras ou, ganhe quem ganhar, o pião continuará a girar sem sair do lugar, sobre um terreno que está afundando.

Ante a dramaticidade do quadro atual, ou se busca a coesão política, com coragem para falar o que já se sabe e a sensatez para juntar os mais capazes para evitar que o barco naufrague, ou o remendo eleitoral da escolha de um salvador da Pátria ou de um demagogo, mesmo que bem intencionado, nos levará ao aprofundamento da crise econômica, social e política.

Os partidos têm responsabilidade nessa crise. Nos últimos anos, lançaram-se com voracidade crescente ao butim do Estado, enredando-se na corrupção, não apenas individual, mas institucional: nomeando agentes políticos para, em conivência com chefes de empresas, privadas e públicas, desviarem recursos para os cofres partidários e suas campanhas. É um fato a desmoralização do sistema político inteiro, mesmo que nem todos hajam participado da sanha devastadora de recursos públicos. A proliferação dos partidos (mais de 20 na Câmara Federal e muitos outros na fila para serem registrados) acelerou o “dá-cá, toma-lá” e levou de roldão o sistema eleitoral-partidário que montamos na Constituição de 1988. Ou se restabelece a confiança nos partidos e na política ou nada de duradouro será feito.

É neste quadro preocupante que se vê a radicalização dos sentimentos políticos. A gravidade de uma facada com intenções assassinas haver ferido o candidato que está à frente nas pesquisas eleitorais deveria servir como um grito de alerta: basta de pregar o ódio, tantas vezes estimulado pela própria vítima do atentado. O fato de ser este o candidato à frente das pesquisas e ter ele como principal opositor quem representa um líder preso por acusações de corrupção mostra o ponto a que chegamos.

Ainda há tempo para deter a marcha da insensatez. Como nas Diretas-já, não é o partidarismo, nem muito menos o personalismo, que devolverá rumo ao desenvolvimento social e econômico. É preciso revalorizar a virtude da tolerância à política, requisito para que a democracia funcione. Qualquer dos polos da radicalização atual que seja vencedor terá enormes dificuldades para obter a coesão nacional suficiente e necessária para adoção das medidas que levem à superação da crise. As promessas que têm sido feitas são irrealizáveis. As demandas do povo se transformarão em insatisfação ainda maior, num quadro de violência crescente e expansão do crime organizado.

Sem que haja escolha de uma liderança serena que saiba ouvir, que seja honesto, que tenha experiência e capacidade política para pacificar e governar o país; sem que a sociedade civil volte a atuar como tal e não como massa de manobra de partidos; sem que os candidatos que não apostam em soluções extremas se reúnam e decidam apoiar quem melhores condições de êxito eleitoral tiver, a crise tenderá certamente a se agravar. Os maiores interessados nesse encontro e nessa convergência devem ser os próprios candidatos que não se aliam às visões radicais que opõem “eles” contra ”nós”.

Não é de estagnação econômica, regressão política e social que o Brasil precisa. Somos todos responsáveis para evitar esse descaminho. É hora de juntar forças e escolher bem, antes que os acontecimentos nos levem para uma perigosa radicalização. Pensemos no país e não apenas nos partidos, neste ou naquele candidato. Caso contrário, será impossível mudar para melhor a vida do povo. É isto o que está em jogo: o povo e o país. A Nação é o que importa neste momento decisivo.


(*) Fernando Henrique Cardoso é sociólogo e foi presidente da República.
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