segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A legitimação da cultura da violência pela pregação de Bolsonaro



Por Leonardo Boff*

A campanha eleitoral de Jair Bolsonaro para a presidência de República se caracterizou pela pregação de muito ódio, exaltação da violência a ponto de ter como herói um dos mais perversos torturadores, Brilhante Ustra e admirar a figura de Hitler. Fez ameaças aos opositores que não teriam outra alternativa senão a prisão ou o exílio. Pregou ódio a homoafetivos, aos negros e negras e aos indígenas. O Movimento dos Sem Terra e dos Sem Teto seriam considerados terroristas e como tal tratados. Os quilombolas nem serviriam para reprodução. Foram ofensas sobre ofensas a vários grupos de pessoas e minorias políticas. Talvez a maior desumanidade mostrou quando disse às mães chorosas que procuravam corpos e ossos de seus entes queridos desaparecidos pela repressão por parte dos órgãos de controle e repressão da ditadura militar: “quem procura ossos são os cães”, Bolsonaro disse.

Este foi o discurso da campanha. Outro está sendo o discurso como presidente eleito, dentro de um certo rito oficial. Mesmo assim continua com as distorções e com uma linguagem tosca fora da civilidade democrática. Tudo culminou com a saída de 8.500 médicos cubanos que atendiam as populações mais afastadas de nosso país. Era um protesto do governo cubano face às acusações de Bolsonaro à Cuba, pois é um obsessivo anti-comunista.
A atmosfera tóxica criada pela campanha eleitoral acabou por gestar uma cultura da violência nos seus seguidores, exaltando-o como “mito”. Vários do LGBT especialmente os homoafetivos, negros e indígenas sofreram já violência. Houve até mortes gratuitas aos gritos de “Viva Bolsonaro”.

Que quer sinalisar este fenômeno de violência? Bolsonaro mediante metáforas ponderosas como contra a corrução, o anti-Petismo, o comunismo, o tema da segurança pública e o da família e o lema fundamental “Brasil acima de tudo”(tomado do nazismo “Deutschland über alles”) e Deus acima de todos”, conseguiu desentranhar a dimensão perversa presente na “cordialidade do brasileiro”

Esta expressão “cordialidade do brasileiro”criada pelo escritor Ribeiro Couto e consagrada por Sérgio Buarque de Holanda (cf.V.capítulo de Raizes do Brasil de 1936) é bem explicada por ele e pode significar, por um lado, bondade e polidez e, por outro, também rancor e ódio. Ambas as dimensões provém do mesmo coração donde se deviva “cordialidade”. Sérgio Buarque exemplifica: “a inimizade bem pode ser cordial como a amizade, visto que uma e outra nascem do coração”(p.107). Bolsonaro e seus mais próximos seguidores habilmente souberam tirar à tona este outro lado sombrio de nossa cordialidade. Recalcou o lado luminoso e deixou que o lado maligno inundasse a consciência de milhares de pessoas.

Esse lado nefasto estava escondido e reprimido na alma do brasileiro. Sempre houve ódio e maldade face aos antigos escravos negros cujos descententes são 55,4% de nossa população atual. Isso o mostrou brilhantemente Jessé Souza no seu livro já famoso “A elite do atraso: da escravidão ao Lava-Jato”(2018). Mas era de parte dos representantes antigos e atuais da Casa Grande. A maioria da imprensa empresarial e conservadora e particularmente as mídias sociais da internet universalizaram essa compreensão negativa.

Aconselho ao leitor/a que volte a reler meu artigo de 5/11/18:”A dimensão perversa da ‘cordialidade’ brasileira”. Ai, com mais recursos teóricos, procuro fazer entender esse lado sombrio de nossa tradição cultural.

Qual é o dado específico da atual hostilidade, o lado negativo de nossa cordialidade? É o fato de que ele, que sempre existia, agora se sente legitimado pela mais alta instância política do país, por Jair Bolsonaro. Ele despertou esse lado dia-bólico e reprimiu o lado sim-bólico em muitos de nosso povo que lhe deram a vitória eleitoral.

Não adianta o futuro presidente condenar os eventuais atos de violência, pois se desmoralizaria totalmente caso os tolerasse. Mas convenhamos: foi ele que criou as condições psico-sociais para que ela irrompesse. Ele está na origem e, historicamente, deve ser responsabilizado, por ter despertado esse ódio e violência. Ela prossegue nas midias sociais, nos twitters, blogs e facebooks.

Nenhuma sociedade se sustenta sobre essa dimensão desumana de nossa humanidade. Para conter esse impulso negativo que está em todos nós, existem a civilização, as religiões, os preceitos éticos, os contratos sociais, a constituição, as leis e o auto-controle. Existem também os órgãos que zelam pela ordem e pela contenção de formas criminosas de cordialidade.

Urgentemente precisamos de pessoas-sínteses, capazes de apaziguar os demônios e fazer prevalecer os anjos bons que nos protejam e nos apontem os caminhos da convivência pacífica. Não será Bolsonaro, a pessoa indicada. Mas as sombras existem porque há luz. E é esta que deve triunfar e fazer ditosa a nossa convivência nesse belo e imenso país.

(*) Leonardo Boff escreveu: O despertar da águia: o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade,26.ed. Vozes,2015.

OBS: Artigo extraído do blogue do autor em https://leonardoboff.wordpress.com/2018/11/18/a-legitimacao-da-cultura-da-violencia-pela-pregacao-de-bolsonaro/

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Que a nossa República possa reencontrar-se



Hoje, dia 15/11/2018, feriado nacional em homenagem à Proclamação da República, é mais uma data que serve para a nossa reflexão.

O Brasil acabou de passar por uma eleição e esse evento não completou nem um mês, sendo que muita gente ainda está no embalo da escolha do capitão da reserva Jair Messias Bolsonaro para presidir essa República relativamente jovem de seus 129 anos. E, apesar de estar chegando o Natal, pode-se dizer que a grande maioria dos brasileiros continua ligada na política sem aderir ao clima de festa.

Bolsonaro não foi o meu candidato, porém agora é o presidente eleito de todos nós. Sua vitória nas urnas foi incontestável e reflete o anseio do brasileiro por uma mudança radical na política. Tanto é que vários deputados, senadores e governadores foram eleitos por influência dessa decisão coletiva.

Assim, vive-se no momento, um aguardo das escolhas do novo presidente quanto aos futuros nomes de seu governo dando sinais do rumo ideológico traçado, sem que venhamos a ter grandes mudanças quanto à política econômica. Aliás, o nosso próximo chanceler, o embaixador Ernesto Araújo, possivelmente fará com que o Brasil venha a ter um alinhamento maior com os Estados Unidos.

Entretanto, antes mesmo do presidente eleito assumir, vários fatos estão ocorrendo em função dos futuros acontecimentos. Um deles foi a recente saída de Cuba do programa "Mais Médicos" iniciado na era PT para ampliar o atendimento dos profissionais de Medicina no Brasil importando mão-de-obra. Ontem, o governo do país caribenho disse que tomou tal decisão devido às "declarações ameaçadoras e depreciativas" de Jair Bolsonaro, o que veio a ser rebatido por ele no Twitter e numa entrevista concedida em Brasília:

"Condicionamos a continuidade do programa Mais Médicos à aplicação de teste de capacidade, salário integral aos profissionais cubanos, hoje maior parte destinados à ditadura, e a liberdade para trazerem suas famílias. Infelizmente, Cuba não aceitou"

Além disso, há uma preocupação sobre como Bolsonaro pretende lidar com as universidades, com a defesa do meio ambiente e a proteção das relações trabalhistas. E, nestes dois casos, felizmente ele resolveu não extinguir as duas respectivas pastas que seriam o MMA e o MTE. Só que de qualquer modo, a política deverá mudar muito assim quando a nova gestão se iniciar.

Seja como for, trata-se de um governo de direita legitimado pela participação popular que se expressou tanto pelo voto quanto pelas manifestações de apoio nas ruas/redes sociais. Posso não concordar com as ideias de Bolsonaro, mas reconheço que estamos vivendo agora a expectativa de uma mudança na vida republicana do país com possíveis reformas conservadoras que jamais poderão sair do campo democrático graças à Constituição de 1988, além da composição dos Poderes Legislativo e Judiciário.

Daqui um ano, quando estivermos completando 130 anos de República, espero que as coisas estejam caminhando para melhor nesse país E que sempre possa prevalecer um equilibrado bom senso nas decisões tomadas pelo futuro governo visto ser é algo indispensável para a paz social. 


Ótimo final de feriado a todos!

domingo, 4 de novembro de 2018

Obrigada, Bolsonaro



Por Maria Ribeiro 

Eu não sabia que a gente era tão forte. Você nos juntou, você nos levou pra rua
Eu já tinha tentado o tênis, a natação e a ginastica olímpica. Com 14 anos e praticamente conformada com o pingue-pongue mediano e a pequena moral adquirida nas aulas de redação e teatro, resolvi dar uma última chance ao judô. Era a derradeira oportunidade dada à minha existência em movimento. Naquela estrada de terra entre a infância e a idade adulta, entre aquele ser e não ser absolutamente solitário da cabeça e do corpo, em meio à inadequação ao balé clássico e à incapacidade de me relacionar com qualquer tipo de bola — e com aquele garoto bonito que vinha do São Bento —, me veio a possibilidade do tatame. Saber cair.
Por que não? Me atraíam o uniforme unissex, o convívio com o cromossomo y, a luta no chão de forma assumida (quase todas as lutas são no chão, mas poucos têm coragem de admitir), o contato físico, a selvageria organizada. Foram dois anos sem muita regularidade, e acho que fui até a faixa amarela, se tanto. Mas gostava do fato de a aula ser mista, e de haver um certo feminismo kill bill naquela atitude samurai.
Samurai. Foi assim que me senti nesses últimos dias. Virando voto, chorando, sendo xingada, dando e recebendo abraços de desconhecidos, sofrendo por aqueles que se manifestaram e por quem tinha um amor primitivo — como Regina Duarte — e, quer saber?, mais ainda pelos que não se manifestaram e se mantiveram no muro. Eu não tenho mais nada a perder. Estou no chão com a guarda aberta, e já sei que vou perder, mas como é bonito lutar até o fim.
Meu prefeito é o Crivella, meu governador é o Witzel, meu presidente é o Bolsonaro. Fora isso, eu gostei errado durante anos de um cara com jeito de bilhete premiado, tô com a depilação vencida, atrasei o IPVA e ainda não entreguei aquela sinopse prometida pra Netflix.
Mas sei cair. E caí com muita categoria. Gritei até o fim contra a naturalização de candidatura tão vil, provoquei amigos que temiam se manifestar, chorei com as melhores pessoas de toda a existência, bebi como nunca havia bebido, fiquei perto dos meus. Marcelo Rubens Paiva, Xico Sá, Maria Rita Kehl, Leandra Leal, Andreia Horta, Marcelo Freixo, Caetano Veloso, Flora Gil, Mário Bortolotto, Marcos Nobre, Antonia Pellegrino, Paula Lavigne, Paulo Betti, Fabio Assunção, Enrique Diaz, Mariana Lima, Laura Carvalho, Bruno Torturra, Maria Flor, Sérgio Vaz, Gilberto Gil e mais um monte de gente legal que não vou lembrar aqui.
Bolsonaro, brigada. Eu não sabia que a gente era tão forte. Eu não sabia que a gente se amava tanto. Você nos juntou, você nos levou pra rua, e a rua é o nosso lugar. Estamos há dias nos beijando e segurando a mão um do outro. Às vezes, a gente até dança. Sem Lei Rouanet, acredita? A gente dança de graça. Faz teatro pra cinco. Se ama por hábito. Cai bonito como no judô. Cai junto. E aproveita pra ficar deitado. Daqui, de onde estamos, temos visto cada estrela que você nem imagina. Quer saber? Eu entendo sua raiva da gente. Ver estrela é mesmo uma arte. Todo mundo que vê estrela é artista. Mas ó: se você quiser, deita aqui que a gente te ensina. Sem mágoas. Só dá um tempinho porque agora a gente tá em carne viva. Aliás, mais viva do que nunca.


Com este texto me despeço dessa Confraria, que um dia já foi Fora da Gaiola, e que hoje, é um triste retrato de gente engaiolada pelo fascismo.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Grande frente de valores ético-sociais

Por Leonardo Boff*

Estamos vivendo tempos política e socialmente dramáticos. Nunca se viu em nossa história ódio e raiva tão difundidos, principalmente através das mídias sociais. Foi eleito para presidente uma figura amedrontadora que encarnou a dimensão de sombra e do recalcado de nossa história. Ele contaminou boa parte de seus eleitores. Essa figura conseguiu trazer à tona o dia-bólico (que separa e divide) que sempre acompanha o sim-bólico (o que une e congrega) de uma forma tão avassaladora que o dia-bólico inundou a consciência de muitos e enfraqueceu o sim-bólico a ponto de dividir famílias, romper com amigos e liberar a violência verbal e também física. Especialmente ela se dirige contra minorias políticas que, na verdade, são maiorias numéricas, como a população negra, além de indígenas, quilombolas e outros de condição sexual diferenciada.

Precisamos de uma liderança ou um colegiado de líderes, com o carisma capaz de pacificar,de trazer paz e harmonia social: uma pessoa de síntese. Esta não será o presidente eleito, pois lhe faltam todas estas características. Ao contrario, reforça a dimensão de sombra, presente em todos nós, mas que pela civilidade, pela ética, pela moral e pela religião a controlamos sob a égide da dimensão de luz. Os antropólogos nos ensinam que todos nós somos sapiens e simultaneamente demens, ou na linguagem de Freud, somos perpassados pelo princípio de vida (eros) e pelo princípio de morte (thanatos)..

O desafio de cada pessoa e de qualquer sociedade é ver como se equilibram estas energias que não podem ser negadas, dando a hegemonia ao sapiens e ao princípio de vida Caso contrário nos devoraríamos uns aos outros.

Nos tempos atuais em nosso pais perdemos este ponto de equilíbrio. Se quisermos conviver e construir uma sociedade minimamente humana, devemos potenciar a força da positividade fazendo o contraponto à força da negatividade. É urgente desentranhar a luz, a tolerância, a solidariedade, o cuidado e o amor à verdade que estão enraizados em nossa essência humana. Como faze-lo?

Os sábios da humanidade, sem esquecer a sabedoria dos povos originários, nos testemunham que há um só caminho e não há outro. Ele foi bem formulado pelo poverello de Assis quando cantou: onde houver ódio que eu leve o amor, onde houver discórdia que eu leve a união, onde houver trevas que eu leve a luz e onde houver erro que eu leve a verdade.

Especialmente a verdade foi sequestrada pelo ex-capitão, dentro de um discurso de ameaças e de ódio, contrário ao espírito de Jesus, transformando a verdade numa amedrontadora falsidade e injúria. Aqui cabem os versos do grande poeta espanhol António Machado:

“Tua verdade, não: a Verdade. E vem comigo buscá-la. A tua, guarda-a contigo”. A verdade genuina nos deve unir e não separar, pois ninguém tem a posse exclusiva dela. Todos participamos dela, de um modo ou de outro sem espírito de posse.

Junto com uma frente política ampla em defesa da democracia e dos direitos sociais precisamos agregar uma outra frente ampla, de todas as tendências políticas, ideológicas e espirituais, ao redor de valores, capazes de nos tirar da presente crise.

Isso é importante: devemos usar aquelas ferramentas que eles jamais poderão usar: como o amor, a solidariedade, a fraternidade, o direito de cada um de possuir um pedacinho de Terra, da Casa Comum que Deus destinou a todos, de uma moradia decente, de cultivar a com-paixão para com os sofredores, o respeito, a compreensão, a renúncia a todo espírito de vingança, o direito de ser feliz e a verdade transparente. Valem os três “ts”do Papa Francisco: Terra, Teto e Trabalho, como direitos fundamentais.

Devemos atrair os fiéis das igrejas pentecostais através desses valores que são também evangélicos, em contra de seus pastores que são verdadeiros lobos. Ao se darem conta destes valores que os humanizam e os aproximam do Deus verdadeiro que está acima e dentro de todos mas cujo nome verdadeiro é amor e misericórdia, e não de ameaças de inferno, os fiéis se libertarão da servidão de um discurso que visa mais o bolso das pessoas do que o bem de suas almas.

O ódio não se vence com mais ódio, nem a violência com mais violência ainda. Só a mãos que se entrelaçam com outras mãos, só os ombros que se oferecem aos combalidos, só o amor incondicional nos permitirão gestar, nas palavras do injustamente odiado Paulo Freire, uma sociedade menos malfada onde não seja tão difícil o amor.

Aqui se encontra o segredo que faria do Brasil uma grande nação nos trópicos, que poderá ajudar n irrefreávell processo de mundialização a ganhar um rosto humano, jovial, alegre, hospitaleiro, tolerante terno e fraterno.

(*) Leonardo Boff é filosofo, teólogo e escritor, autor do livro A oração de São Francisco: uma mensagem de paz para o mundo atual, Vozes 2009.

OBS: Artigo publicado no blogue do autor em 01/11/2018, conforme consta em https://leonardoboff.wordpress.com/2018/11/01/grande-frente-de-valores-etico-sociais/

terça-feira, 30 de outubro de 2018

EU CHOREI



Por Guiomar Barba

Chorei pelo ódio revelado.
Chorei pelo cristianismo falsificado.
Chorei pela bíblia convenientemente distorcida .
Chorei pelos irmãos deletados.

Chorei pelas amizades rompidas;
Chorei pelos “amigos” que descobri;
Chorei pela família estremecida;
Chorei pelo caos estabelecido.

Chorei pelas armas apontadas;
Chorei pelo Brasil tinto de sangue;
Chorei pelo riso frio diante dos mortos;
Chorei pelas viúvas, pelos pais e os órfãos.

Chorei por mim e pelo nosso Brasil;
Chorei pelo amor esquecido:
Chorei pela igreja sem sal, sem luz.
Chorei, pranteei, até a exaustão.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Como se posicionar neste segundo turno?



Para quem é um social-democrata como eu me identifico, confesso estar sendo muito difícil escolher em qual o abismo menos fundo iremos nos enfiar depois dos resultados do primeiro turno das eleições presidenciais, ocorrido no dia 07/10. Após 100% das urnas apuradas, foram contados 49.276.990 votos para o candidato Jair Bolsonaro (PSL) contra 31.342.005 de Fernando Haddad (PT), representando uma diferença de quase 18 milhões de sufrágios entre os dois concorrentes que irão para uma nova disputa apenas entre si no último domingo do mês (28/10). 

Se bem refletirmos acerca disso, eis que temos hoje um pleito presidencial polarizado entre esquerda e direita, cujos vices poderiam ser considerados ainda mais radicais: o general Hamilton Mourão (PRTB) e Manuela d'Ávila (PCdoB). Esta por integrar o partido comunista e aquele por haver já cogitado a hipótese de uma intervenção militar durante um pronunciamento público feito na Loja Maçônica Grande Oriente, em setembro de 2017, no Distrito Federal. Na ocasião, o colega de chapa de Bolsonaro afirmou que, se o Judiciário não fosse capaz de sanar a política existente no país, isso seria imposto pelo Exército.

Posso dizer que ambas as candidaturas não me representam e temo que qualquer um possa agravar ainda mais a nossa situação. Pois, infelizmente, creio que não saberão dialogar com toda sociedade, buscando soluções para os problemas enfrentados, os quais envolvem uma grave crise de representação, corrupção, recessão econômica, violência, bem como a má prestação dos serviços públicos. E também me parece que, dificilmente, conseguirão fazer uma reforma política. Pois, devido ao fato de estarem bem distantes do centro e quase nos extremos ideológicos, como formularão propostas capazes de agradar a sociedade de maneira ampla?

Outra coisa é que, ao mesmo tempo em que caminhamos para o segundo turno, surgem casos de violência por todo o país gerados pela intolerância política, a exemplo do assassinato do capoeirista Moa do Katendê por um seguidor do Bolsonaro em Salvador. Tivemos também a ocorrência da jovem marcada com canivete por usar adesivo com "Ele Não" na sua mochila com a bandeira LGBT em Porto Alegre, além de um professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) preso após tentar atropelar um homem que vendia camisas do candidato do PSL, e da médica que rasgou a receita da paciente idosa após ela ter dito que votou em Haddad. 

Ora, tudo isso mostra o quanto a sociedade brasileira encontra-se hoje dividida, embrutecendo-se cada vez mais e decaindo dos seus valores éticos básicos. E como se já não bastassem as fakenews rolando direto pelo esgoto da internet que é o aplicativo WhatsApp, ainda houve alguns eleitores do candidato Bolsonaro que alegram supostas irregularidades envolvendo a confiança na votação eletrônica do dia 07/10.

Na minha postagem do dia 29/09 (clique AQUI para ler), eu havia levantado a hipótese sobre a possibilidade de sofrermos um golpe de Estado, caso Bolsonaro venha a perder as eleições para o PT. E, embora alguns amigos meus achem que eu esteja "viajando na maionese", não descarto essa hipótese, ainda que outros desfechos menos infelizes venham a ocorrer.

Penso que para tomarmos uma decisão racionalmente refletida diante de uma situação onde o voto responsável não pode ser omisso, o caminho seria imaginarmos como seriam os possível acontecimentos após a votação do dia 28/10 com Haddad ou Bolsonaro ganhando as eleições.

I - CENÁRIO COM HADDAD PRESIDENTE


No caso do PT vencer,  o que seria muito difícil diante da diferença de quase 18 milhões de votos, o primeiro problema seria acalmar a militância truculenta e organizada de Bolsonaro, a qual dificilmente aceitaria o resultado por achar que teria ocorrido uma fraude. O país poderia passar por protestos, greves como a dos caminhoneiros e até confrontos armados. Os militares poderiam não querer impedir uma eventual deposição do presidente Michel Temer e aí haveria um golpe civil-militar como em 1930.

Porém, pode ser que as matérias divulgadas na mídia, juntamente com a atuação influente de várias lideranças políticas, consigam conformar essa militância de direita em que o próprio candidato derrotado aceitaria o resultado das urnas. Porém, em tal hipótese, Haddad cederia ainda mais quanto às suas propostas desagradando a esquerda que o tem apoiado. Inclusive a grupos do próprio partido. Então, caso a economia cresça, a grande maioria da população ficaria satisfeita e o seu governo se consolidaria.

Já um desfecho que ninguém deseja seria Haddad chegar ao governo e depois começar a praticar uma política anti-liberal e de sustentação da ditadura venezuelana, convocando uma constituinte. Com isso, ele criaria um problema ainda maior, não conseguiria governabilidade através do Legislativo e, no mínimo, perderíamos mais quatro anos sem crescimento da economia. Isto sem descartarmos a possibilidade de que, neste caso, poderia ocorrer uma cassação da chapa por motivo de uma eventual investigação eleitoral, ele e a vice serem denunciados perante o STF (pois não seria estratégico o caminho do impeachment,) ou aquela intervenção militar prometida pelo general Mourão.

II - CENÁRIO COM BOLSONARO PRESIDENTE


Mas vejamos como pode ser o Brasil com o Bolsonaro eleito presidente dia 28/10...

A melhor das hipóteses aí seria o presidente abandonar o seu jeito truculento, fazer um governo que seja o mais próximo possível do técnico, não inventar mudanças polêmicas na Constituição (e menos ainda substituir a atual carta de 1988), nem cometer a insanidade de facilitar o acesso do cidadão às armas de fogo. Teríamos uma política econômica conservadora, com um liberalismo moderado, sem tantos escândalos de corrupção, mais investimentos na segurança pública, sem grandes retrocessos na área social e tendo uma oportunidade conjuntural de crescimento como foi na década passada com Lula.

Claro que, quando se tem dinheiro e distribuição da riquezas, temos satisfação dentro de uma sociedade. Porém, se o futuro governo não for capaz de resolver o problema do desemprego e da falta de oportunidades (ou se tivermos um crescimento sem distribuição de renda), Bolsonaro precisará arrumar meios de anestesiar os efeitos da crise. Então, neste caso, poderemos assistir o mais triste quadro no Brasil com perseguições políticas, um patrulhamento ideológico dentro das escolas, na mídia e no serviço público, mais divisões na sociedade, supressão de direitos do trabalhador, repressão estatal através da Polícia, espetaculização das ações de segurança e de investigação, incitação velada à homofobia, intolerância religiosa, criminalização do comunismo, aumento das desigualdades raciais, etc.

Da mesma maneira que o PT pode ambicionar a promulgação de uma nova Constituição, não descarto que Bolsonaro ou o seu vice pretendam isso. Aliás, no mês passado, o próprio general Mourão já andou defendendo por aí a propositura de uma nova Carta, sem haver uma Assembleia Constituinte (clique AQUI para ler a matéria no jornal A Folha de São Paulo). E, sendo assim, não sabemos como seria o novo Estado brasileiro, ainda que restasse ao povo aceitar ou negar a novidade em sede de plebiscito.

CONCLUSÃO


Quero agora dizer que o mais importante pra mim não é quem irá governar o Brasil, mas, sim, se conseguiremos preservar a nossa democracia com o máximo de direitos sociais possíveis, resistindo a essa onda de direita do momento. E aí recordo de uma matéria da Época , intitulada Na cadeia, Lula admite possível derrota e diz que deixou seu legado para o Brasil, a qual li justo no dia das eleições (antes do resultado da votação) mostrando as opiniões de Lula e do José Dirceu:

"Neste sábado (6), a menos de 24 horas das eleições, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva assistia a um filme na televisão de sua cela, localizada no quarto andar da sede da Polícia Federal, em Curitiba. O vídeo foi levado por advogados que tem a permissão judicial para entregar pen drives com músicas, séries e outras atrações ao preso. De calça e blusa de moletom, o petista passou o dia sozinho, já que não pode receber visitas aos finais de semana. A chuva e a temperatura em torno de 10 graus também não permitiram que ele desfrutasse das duas horas diárias de banho de sol. O mau tempo também afugentou os militantes que fazem plantão no acampamento do PT em frente à PF pedindo sua liberdade. Apenas seis militantes resistiam ao frio na véspera do primeiro turno.

A exceção no sábado de Lula foi a breve conversa que teve com os agentes da PF que levam suas refeições e fazem a segurança da porta de sua cela. No bate-papo, Lula não mudou seu comportamento: fez piadas e mostrou otimismo. No entanto, começou a admitir um assunto que até então evitava: uma possível derrota de Fernando Haddad, candidato do PT que o substituiu na disputa pelo Palácio do Planalto, para o Jair Bolsonaro, do PSL.

Segundo pessoas que conversaram com o presidente, nos últimos dias ele tem dito que sabe que deixou seu legado para o Brasil e que entrará para a história do país. Afirma ainda que esse não será o caminho de seus algozes. Lula defende que sua permanência na prisão será um grande problema num eventual governo Bolsonaro. Acredita que a visão de que ele é um preso político está consolidada no exterior e que a pressão de países estrangeiros e da ONU pela sua liberdade será crescente."

E sobre o Dirceu, assim expôs a revista:

"A cúpula do partido também passou a admitir a possibilidade de vitória de Bolsonaro. Se antes as pesquisas internas do PT mostravam que Haddad lideraria a votação ainda no primeiro turno, o mesmo não foi comprovado na véspera da eleição. Os números da própria sigla, geralmente mais otimistas do que pesquisas como Ibope e Datafolha, mostravam que o candidato do PSL chegará a um provável segundo turno na frente do ex-prefeito de São Paulo. Os dados são a pior notícia que o PT poderia receber. Sempre que chegou ao segundo turno, com Lula e depois com Dilma Rousseff, a sigla já estava na liderança.

O ex-ministro José Dirceu, que já foi condenado na Lava Jato, tem comparado o segundo turno entre Haddad e Bolsonaro à sangrenta Batalha de Stalingrado — com três meses de duração, ela foi um marco da Segunda Guerra Mundial, em 1942, quando soviéticos derrotaram as tropas alemãs de Adolf Hitler. No entanto, o petista tem defendido que a derrota pode ser o caminho de sobrevivência.  Em rodas restritas, ele afirma que se for para Haddad ser eleito e não conseguir governar, como aconteceu com Dilma Rousseff, que sofreu o impeachment em 2016, é melhor que o partido perca as eleições. Parte da sigla concorda com Dirceu e defende que o PT deixe o país sangrar com Bolsonaro voltar em um ambiente com menos rejeição e se viabilizar como opção dos eleitores."

Confesso que fiquei bem intrigado com o que li, mas depois refleti que a cúpula petista talvez prefira permanecer por mais quatro anos na oposição do que ganhar dia 28 e não assumir em 01/01. Ou então, preferem deixar de vencer  do que depois não governarem como desejam.

Desse modo, eu que antes havia até ingressado com uma notícia de inelegibilidade contra Bolsonaro em agosto, refleti que não valeria a pena fazer uma campanha pedindo votos para Haddad já que o próprio PT não está interessado numa vitória agora. E então, como sou filiado ao PSDB de Mangaratiba, preferi antes esperar pela decisão da Executiva Nacional do meu partido para me posicionar sobre o segundo turno das eleições. 

Tendo o PSDB decidido pela neutralidade, liberando os diretórios e os filiados para apoiarem quem eles desejarem, resolvi prestar a atenção em duas lideranças que muito estimo: FHC e Marina Silva 

Recentemente, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, respondeu ao blogue de Bernardo Mello Franco, do jornal O GLOBO, que "nenhum dos candidatos agrada, mas Bolsonaro está excluído. Não tem sentido". E ainda acrescentou que o candidato do PSL "não tem jeito", pois é "uma folha seca que vai com o vento", alertando o ex-presidente estar "forte" a ventania. 

Outra liderança que também teve um posicionamento semelhante foi a candidata da Rede Sustentabilidade, Marina Silva. Seu partido recomendou "nenhum voto" em Bolsonaro. E, numa nota divulgada após reunião da Comissão Executiva Nacional, a Rede criticou o "projeto de poder" e a "corrupção sistemática" do PT, dizendo que não apoiará a candidatura Haddad e que será oposição ao futuro governo, seja qual for o vencedor da eleição.

Como livre pensador que sou, estou de acordo com FHC e com Marina Silva. Não porque eu precise das opiniões deles, mas, sim, pelo fato de que me identifiquei com as suas respectivas análises, considerando-as coerentes e sábias. E acrescento que todo o esforço deve ser feito para preservar a democracia brasileira como bem expôs a nota da Executiva Nacional da Rede que incluiu aí a preocupação com o meio ambiente:

"Nestas eleições, a Rede Sustentabilidade apresentou à sociedade brasileira um projeto alternativo à polarização. Frente ao ódio e à mentira, oferecemos a face da verdade e da união em prol de um Brasil mais próspero, justo e sustentável. Infelizmente, os dois postulantes no segundo turno representam projetos de poder prejudiciais ao país, atrasados do ponto de vista da concepção de desenvolvimento, autoritários em relação ao papel das instituições de Estado, retrógrados quanto à visão do sistema político e questionáveis do ponto de vista ético.

A Rede não se alinha e não apoia nenhum deles. A corrupção sistemática revelada pela Operação Lava Jato foi uma marca dos governos petistas, assim como de boa parcela dos parlamentares que agora estão com o Bolsonaro. Os dirigentes petistas construíram um projeto de poder pelo poder pouco afeito à alternância democrática.

Por outro lado, é impossível ignorar que o projeto de Bolsonaro, conforme tem sido reiteradamente afirmado, representa um retrocesso brutal e inadmissível em três pontos muito caros aos princípios e propósitos da Rede. Primeiro, promete desmontar inteiramente a estrutura de proteção ambiental existente no país, conquistada ao longo de décadas, por gerações de ambientalistas. Chega ao absurdo de anunciar a incorporação do Ministério do Meio Ambiente ao Ministério da Agricultura. Com isso, atenta contra o interesse da sociedade brasileira e destrói pilares fundamentais para o futuro do país. Além disso, ataca os direitos das comunidades indígenas e quilombolas, anunciando que não será demarcado mais um centímetro de suas terras. Segundo, é um projeto que despreza direitos humanos e a diversidade existente na sociedade, promovendo a incitação sistemática ao ódio, à violência e à discriminação. Por fim, é um projeto que ameaça a democracia e põe em cheque as conquistas históricas desde a Constituinte de 1988.

Dessa forma, a Rede Sustentabilidade declara publicamente que:

1. Será oposição democrática ao governo de qualquer dos candidatos que saia vencedor do embate a que se reduziu essa eleição.

2. Não tem ilusões quanto às práticas condenáveis do PT, dentro e fora do governo. No entanto, frente às ameaças imediatas e urgentes à democracia, aos grupos vulneráveis, aos direitos humanos e ao meio ambiente, a Rede Sustentabilidade recomenda que seus filiados e simpatizantes não destinem nenhum voto ao candidato Jair Bolsonaro e, isso posto, escolham de acordo com sua consciência votar da forma que considerem melhor para o país."

Finalmente, faço apenas o comentário de que a oposição a qualquer dos novos presidentes precisará ser sempre inteligente e construtiva, sem jamais lesarmos os interesses do país. Menos ainda ser uma conduta interesseira para amanhã um partido obter um ministério ou cargos para seus afiliados. Logo, essa é a linha que pretendo seguir, sem fazer campanha a nenhum dos candidatos, mas atuando como observador das eleições, sempre denunciando as coisas erradas, a intolerância e as ideias contrárias aos interesses coletivos.

Ótima noite de quinta-feira a todos e tenham um excelente feriadão!

terça-feira, 9 de outubro de 2018

OUTUBRO ― Mês da Consciência do Erro


OUTUBRO Mês da Consciência do Erro



Consciência do Erro Arrependimento e Perdão têm tudo a ver com o mês de Outubro.

O Yom Kippur, dia do perdão (uma das maiores festas dos judeus), é comemorada no décimo dia do sétimo mês (tishrei) que no calendário gregoriano (o nosso) corresponde exatamente ao mês de outubro. Era por ocasião do Yom kipur, que os judeus se arrependiam de seus erros e pediam perdão pelos males causados aos seus irmãos.


Se a “consciência do erro” era a condição sine qua non para o perdão, aqui por nossas plagas, ao que parece, ela deu o ar de sua graça: os dois candidatos à presidência da nossa república, um dia após o encerramento do primeiro turno, admitiram que seus programas de governo continham erros crassos. Ambos, pela TV, prometeram fazer a correção, em tempo.


Versículos da Bíblia, com Deus no meio, por ora, estão sendo imiscuídos em muitos discursos.

E aqui fica uma pergunta que não quer calar:

Será que até o dia 28 desse mês, os “cristãos”, de ambos os lados, recitarão em uníssono a ordenança divina largamente usada em suas pregações: “Sem arrependimento não há remissão de erros ou pecados”?


sexta-feira, 5 de outubro de 2018

A urgência do Paz e Bem de São Francisco de Assis



Por Leonardo Boff *

No nosso país, dentro de um ambiente de muito ódio, destruição de biografias e mentiras de todo tipo, vale recorrer ao espírito de São Francisco de Assis, à sua famosa oração pela paz e à sua saudação de Paz e Bem. Era um ser que havia purificado seu coração de toda a dimensão de sombra , tornando-se “o coração universal…porque para ele qualquer criatura era uma irmã, unida a ela por laços de carinho” como escreveu o Papa Francisco em sua encíclica ecológica (n.10 e 11). Por onde quer que passasse, saudava as pessoas com o seu "Paz e Bem", saudação que ficou na história especialmente dos frades que começam suas cartas desejando Paz e Bem.

Construiu laços de paz e de fraternidade com o Senhor irmão Sol, e com a senhora Mãe Terra. Essa figura singular, seja talvez uma das mais luminosas que o Cristianismo e o próprio Ocidente já produziram. Há quem o chame de o “ultimo cristão” ou o “primeiro depois do Único” quer dizer, de Jesus Cristo.

Seguramente podemos dizer: quando o Cardeal Bergoglio escolheu nome de Francisco quis sinalizar um projeto de sociedade pacifica, de irmãos e irmãs, reconciliados com todos os irmãos e irmas da natureza e de todos os povos. A mesmo tempo, pensou numa Igreja na linha do espírito de São Francisco. Este era o oposto do projeto de Igreja de seu tempo que se expressava pelo poder temporal sobre quase toda a Europa até a Rússia, por imensas catedrais, suntuosos palácios e grandes abadias.

São Francisco optou por viver o evangelho puro, ao pé da letra, na mais radical pobreza, numa simplicidade quase ingênua, numa humildade que o colocava junto à Terra, no nível dos mais desprezados da sociedade vivendo entre os hansenianos e comendo com eles da mesma escudela.

Para aquele tipo de Igreja e de sociedade, confessa explicitamente: “quero ser um ‘novellus pazzus’, um novo louco”: louco pelo Cristo pobre e pela “senhora dama” pobreza, como expressão de total liberdade: nada ser, nada ter, nada poder, nada pretender. Atribui-se a ele a frase: “desejo pouco e o pouco que desejo é pouco”. Na verdade era nada. Considerava-se “idiota, mesquinho, miserável e vil”.

A despeito de todas as pressões de Roma e as internas dos próprios confrades que queriam conventos e regras nunca renunciou ao eu sonho de seguir radicalmente o Jesus, pobre junto com os mais pobres.

A humildade ilimitada e a pobreza radical lhe permitiram uma experiência que vem ao encontro de nossas indagações: é possível resgatar o cuidado e o respeito para com a natureza? É possível uma sociedade sem ódios que inclua a todos, como ele o fez: com o sultão do Egito que encontrou na cruzada, com o bando de salteadores, como lobo feroz de Gúbbio e até com a irmã morte?

Francisco mostrou esta possibilidade e sua realização. ao fazer-se radicalmente humilde. Colocou-se no mesmo chão (húmus=humildade) e ao pé de cada criatura, considerando-a sua irmã. Inaugurou uma fraternidade sem fronteiras: para baixo com os últimos, para os lados com os demais semelhantes, independente se eram Papas ou servos da gleba, para cima com o sol, a lua e as estrelas, filhos e filhas do mesmo Pai bom.

A pobreza e a humildade assim praticadas não têm nada de beatice. Supõem algo prévio: o respeito ilimitado diante de cada ser. Cheio de devoção, tirava a minhoca do caminho para não ser pisada, enfaixava um galhinho quebrado para que se recuperasse, alimentava no inverno as abelhas que esvoaçam por aí, famintas.

Não negou o húmus original e as raízes obscuras de onde todos viemos. Ao renunciar a qualquer posse de bens ou de interesses ia ao encontro dos outros com as mãos vazias e o coracão puro, oferecendo-lhes apenas o Paz e Bem, a cortesia, e o amor cheio de e ternura.

A comunidade de paz universal surge quando nos colocamos com grande humildade no seio da criação, respeitando todas as formas de vida e cada um dos seres pois todos possuem um valor em si mesmo, antes de qualquer uso humano. Essa comunidade cósmica, fundada no respeito ilimitado, constitui o pressuposto necessário para fraternidade humana, hoje abalada pelo ódio e pela discriminação dos mais vulneráveis de nosso país. Sem esse respeito e essa fraternidade dificilmente a Constituição a Declaração dos Direitos Humanos terão eficácia. Haverá sempre violações, por razões étnicas, de gênero, de religião e outras.

Este espírito de paz e fraternidade, poderá animar nossa preocupação ecológica de salvaguarda de cada espécie, de cada animal ou planta, pois são nossos irmãos e irmãs. Sem a fraternidade real nunca chegaremos a formar a família humana que habita a “irmã e Mãe Terra”, nossa Casa Comum, com cuidado.

Essa fraternidade de paz é realizável. Todos somos sapiens e demens mas podemos fazer com que o sapiens em nós humanize nossa sociedade dividida que deverá repetir:”onde há ódio que eu leve o amor”.

(*) Leonardo Boff é teólogo, ex-frade e sempre franciscano e comentou “A oração de São Francisco pela paz”,Vozes 1999.

OBS: Artigo postado originalmente no blogue do autor.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

O Que Mais Se Deseja em Época Pré-eleitoral

                                                                                                                               Dois jovens pugilistas de Santorini (1550 a.C)



Em tempos pré-eleitorais o que mais se deseja (consciente ou inconscientemente) não é unir, não é buscar no outro, seu próprio sintoma esquecido ou guardado a sete chaves. O que mais se deseja, entre os grupos, é rotular o outro de direita ou de esquerda, como se a identidade negativa e burra estivesse sempre presente no outro e não no seu próprio Eu. O que talvez não compreendam é que os afetos que identificam tanto o “republicano” quanto o “democrata” fazem parte de nossa alma dúbia. Alma que ora pende para um lado, ora para outro, tal qual um equilibrista a caminhar perigosamente em uma corda bamba. Essa realidade psíquica desqualifica qualquer um a ser árbitro para julgar os afetos de natureza subjetiva do outro.

Parece que em tempos de acirramento político há uma regressão ou involução humana, uma espécie de retorno ao tempo em que éramos bárbaros ou selvagens, retorno ao tempo dos clãs. Tempo em que éramos cegos para o mal que existia em nós mesmos: só tínhamos a capacidade de percebê-lo na tribo que considerávamos inferior à nossa.

De certa forma, o embate ideológico dos tempos atuais, nada mais faz que trazer à tona os monstros que estavam adormecidos na psique humana, desde tempos imemoriais. Como fez ver o psicanalista Christian Dunker, quando no jornal NEXO, em janeiro de 2018, discorreu sobre “os efeitos da crise política para os brasileiros”:

“A massa tem esse funcionamento polar, de precisar sempre segregar os inimigos para reforçar os laços de identificação [entre iguais]. É como se o funcionamento de massa exigisse a produção de grandes ídolos, que são sucedâneos do Pai, um Pai muito autoritário”.

A História sempre mostrou que é em época de descontrole e vazio de poder, que a figura paterna (arquétipo patriarcal) ressurge das profundezas da psique humana com força total. O veneno dessa força instintiva descomunal ao aflorar nas almas humilhadas, desamparadas e desesperadas, insinuam, em suas mentes infantilizadas, o desejo ou anseio de proteção. Proteção, que em ambos polos ideológicos extremistas (direita e esquerda), se remontam a figura paterna onipotente (super-ego). Nietzsche, naquilo que ficou cunhado de "eterno retorno", já fazia menção a uma tendência inata de se repetir fatos indigestos no desenrolar da história humana, desde as mais remotas eras.

O que Freud, com a descoberta da área sombria de nossa psique a que denominou de “Inconsciente” conseguiu deixar tão claro, senão a de que, em tempos de paz, instintos altamente agressivos representados por paixões ideológicas antagônicas dormem de forma latente em cada ser humano? 

Procurando entender o que levava os homens a essa forma cruel e extravagante de conflito, Albert Einstein, em uma de suas muitas cartas enviadas a Freud, fez a fatídica pergunta: “Por Que a Guerra?”. O fundador da psicanálise, sendo judeu, ainda mais numa época conturbada de violento antissemitismo, não quis se estender no tema, revelando, apenas, que os dois polos representativos da ambivalência humana, quando em atrito, davam lugar a “pulsões destrutivas” (Tanathos).

Só não vê quem não quer, a “indomável psicose coletiva” que grassa em nossas glebas.

Por Levi B. Santos
Guarabira, 16 de setembro de 2018

OBS: O Trecho acima foi retirado do ensaio publicado originariamente no Blog "Ensaios & Prosas" - em 16 de setembro de 2018 - sob o título: "Abordagem Psicanalítica de Nossa Postura Político-Ideológica"

POESIA DO DIA: #ELENÃO!#ELENUNCA!



por Cláudio Mello

Um dia lindo
Muitos Abraços apertados
Arrepios por todo lado
Lágrimas nos olhos

Gente linda em profusão
Muito Amor e Compaixão
Todos gritando: EleNão!
E naquela multidão...nenhuma confusão

Mães, filhos....avós
Amigos, conhecidos...novas amizades
Bate-papo feliz por toda parte
A bondade, o afeto....Vencerão
E vai se comprovando...o EleNão!

Encontros de EleNão e Heleninhas
E quanto mais se olhava...mais amigos vinha!

Nunca mais se esquecerá
Aqui, no Brasil....em todo lugar
A capacidade de mobilização
Mulherada da Porra! EleNão!

Meu coração exultante
Grita e se exalta
O facismo não passa....não passarão
E gritamos de novo: EleNunca!EleNão!
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...