terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

“Religião como verdade para muitos, falsidade para poucos e utilidade para todos”



Grande parte da humanidade acredita em algo maior que ela. Um ser criador. Originador mas que não tem origem, criador mas incriado, Pai, mas que nunca teve mãe Este é Deus. Não vou jamais desistir da hipótese de que Deus é uma criação nossa e que sua palavra sagrada não é, como dizem, algo que parta dele para nós, e sim, algo que parte de nós para ele. Uma carta de amor daquelas que os namorados escrevem, cheias de melosidade, afeto, desejo, isto é a Bíblia, um livro que vem respaldando a crença de muitos ao longo dos milênios. Mas, quando e por que ela surgiu?

A religião surgiu no mundo em razão das necessidades do homem. As primeiras crenças da humanidade estavam relacionadas, principalmente, à agricultura. O homem sentia a necessidade de prever quando choveria para que a produção dos alimentos fosse eficiente. Como resultado disso, o homem criou métodos para tentar prever o futuro, como a astrologia, a quiromancia e a necromancia, e também métodos para tentar modificar o futuro, como a magia, a bruxaria e os encantamentos.

A ideia de Deus esteve, inicialmente, associada aos fenômenos meteorológicos. Assim, surgiram também os conceitos de deuses específicos para determinadas situações vivenciadas pelo homem, como o deus da guerra, da caça e do amor. Assim, podemos entender que a criação da religião aconteceu pela necessidade do homem de compreender ou, pelo menos, tentar explicar alguns fenômenos misteriosos.


A partir do Cristianismo, o homem passou a acreditar na existência de um Deus semelhante à humanidade. Pela Bíblia, o homem foi feito a imagem e semelhança de Deus. Em seguida, na evolução do conceito de religião, o homem criou métodos para interagir com Deus, rezar e pedir bençãos e favores. Isso acontece tanto nas aldeias indígenas, quanto nas civilizações urbanas e contemporâneas.

Com o passar dos anos, a religião começou a se basear em orações e promessas, e a determinar intermediários entre Deus e as pessoas comuns, como os padres, pastores e pais de santo, por exemplo. Hoje, as religiões têm na figura do sacerdote o desafio de converter mais adeptos. Nesse contexto, a utilização de um antagonista de Deus, o chamado demônio, e de um lugar prometido em detrimento de um “inferno” de sofrimento eterno também serve para encaminhar os fiéis para o caminho da religião, pelo medo. Esta é a realidade para muitos.

Mas, para poucos, isso tudo não passa de uma grande mentira. Uma história inventada para explicar a origem das coisas, as causas que deram origem aos fenômenos que não entendemos ainda, apenas uma etiologia infantil.

Ateus normalmente escolhem não acreditar em Deus, é o que dizem os religiosos, pois pessoas que sofreram algum tipo de trauma e por terem fé suficiente ficaram com “raiva” de Deus e que muitos ateus foram molestados quando crianças, ou sofreram maus tratos, muito se sentem a margem da sociedade, sem estudo, sem amor, sem carinho, entregue ao alcoolismo e ao homossexualismo, ou seja, nas garras de satanás. Muitos deles vem de famílias desestruturadas, pobres e sem conhecimento de Jesus. Se um Ateu parar para pensar e colocar a cabeça no lugar um segundo, ele verá que não tem como ele sequer respirar sem Deus existir. Contudo, são pessoas que não tem censo de certo e errado e desafiam a Deus a todo momento.

Não poderiam estar mais errados!

Antes de tudo, ser Ateu não é uma opção e sim uma conclusão, uma constatação. Ao contrário do que muitos cristãos costumam afirmar, a gigantesca maioria dos Ateus chegou à conclusão de que “não existem deuses” sozinho, pensando com seus botões, sem que para isso fosse necessário um trauma nas suas vidas ou dificuldades de qualquer tipo. No geral, os Ateus são, em sua maioria, mais “estudados” que os teístas, porém como a quantidade de teístas no mundo é muito maior, as afirmações são contrárias.

Dificilmente você vê uma pessoa morrendo de fome e que diz “Deus não existe”, normalmente o que é observado é que quanto mais “ignorante” (ou sem instrução) a pessoa é, mais ela tem a tendência em acreditar em mitos e divindades sem provas.

Antes de serem Ateus, no geral, eles tiveram uma religião e aqui no Brasil a maioria esmagadora deles era cristão. Logo, a maioria conhece a bíblia, alguns conhecem muito bem, outros conhecem tão pouco quanto a maioria dos cristãos, muitos frequentaram igrejas durante anos a fio e chegaram a inevitável conclusão. Obviamente o ateu não entende de tudo, mas o que um Ateu normalmente entende é que nenhuma prova, amostra ou evidência da existência de algo sobrenatural foi mostrado a ninguém até o momento. Esta é a falsidade para poucos.

Enquanto houverem pessoas dispostas a serem dominadas, haverá aqueles que as dominem”, e se partirmos de Maquiavel, perceberemos que nada mudou em seis séculos. O temor a Deus faz-se indispensável pois só assim submete-se quem deve ser dominado e como o mandamento divino é mais eficaz do que a lei humana, a prudência do governante faz-se necessária para que ele possa usar da religião para dar ânimo e dominar o exército, para ser atendido pela plebe.

Aqui reside uma exigência: para as repúblicas ou príncipes que desejam manter-se sem corrupção, devem zelar para que os cultos religiosos não sejam corrompidos. Caso os cultos se tornem corruptos, aí reside o indício da ruína do Estado. Como toda religião tem como fundamento alguma ordenação principal, o príncipe deve conhecê-la e conservá-la. Se assim o fizer, há de manter a religião e a sua república unida. Caso o príncipe acredite que a religião está inteiramente a seu serviço, há de destruir tanto a religião, quanto a crença que o povo tem nela e verá a ruína de seu próprio Estado pois “não pode haver maior indício da ruína de um estado do que o desprezo pelo culto divino” (MAQUIAVEL, 2007, p.52).

Nota-se, pois, que se a religião for corrompida, ela perde toda a sua força mobilizadora e, assim, tem-se como consequência a decadência do vivere civile (AMES, 2006.).

Maquiavel usa seu ato de conduzir o povo romano à obediência civil como exemplo da eficácia do bom uso da religião. Encontrou em Roma um povo indomado e desejou conduzi-los às “artes da paz”. Como alternativa à violência, usou a religião para domar e manter a cidade já que o poder de Deus é mais temido que o do homem. “Estas [“artes da paz”], na passagem da obra maquiaveliana citada acima, não consistem em outra coisa senão na religião, apresentada como instrumento capaz de subtrair sentimento da obrigação política do exclusivo domínio da força, e, por isso mesmo, definida ‘como elemento imprescindível para manter a vida civil’”

Cabe, então, explicitar os expedientes que fazem a religião se tornar um instrumento cuja produção é a de comportamentos individuais e coletivos úteis POLITICAMENTE. A simulação é um expediente ao qual se recorre quando a autoridade do príncipe não é suficiente para submeter os súditos. Tomemos o exemplo usado por Maquiavel da simulação feita por Numa que, ao perceber que sua autoridade não seria suficiente para fazer suas leis cumpridas, simulou familiaridade com uma Ninfa e agiu como se esta lhe desse conselhos para que ele transmitisse-os ao povo. A verdade da religião não é o mais importante, o que importa é que interpretação da vontade divina seja feita de forma a acarretar o êxito para os propósitos do príncipe, haja vista que estes sempre devem ter como fim o bem comum.

Traçando um paralelo entre o que Maquiavel escreveu e a realidade brasileira, constatamos que a dominação não cessou ao longo da história. Por exemplo, a controversa escolha do deputado federal Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara não é um fato isolado. Ela expõe a consolidação do poder político das religiões no Brasil, sobretudo da evangélica, que cada vez mais junta forças para impor sua agenda.

Os parlamentares ligados a instituições religiosas já representam um quinto do Congresso. Em 20 anos, o número de deputados federais e senadores evangélicos mais que triplicou (saltou de 23 em 1990 para 73 em 2010), perdendo hoje só para a bancada ruralista. Com isso, os embates com grupos de direitos civis, pró-liberalização do aborto e das drogas, de direitos humanos e de defesa da laicização do Estado se intensificaram.
Sob o pretexto de “proteger a família e a vida”, os parlamentares das bancadas católicas (22 congressistas) e evangélicas deixam as diferenças de lado e trabalham juntos para tentar conter o avanço de pautas como aborto, casamento homossexual e liberalização das drogas.
As alianças formadas pelas bancadas religiosas têm grande poder de ramificação. Como exemplo, a Frente Parlamentar em Defesa da Vida e Preservação da Família, que une católicos, evangélicos e outros políticos de alguma forma ligados a esses preceitos, conta com 192 parlamentares (40% do Congresso). “Não são somente eles que são conservadores. Eles vocalizam boa parte do que a população brasileira pensa sobre aborto, direitos das mulheres e de homossexuais”, diz Christina Vital, professora de ciências sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF)..
Frank Usarski, professor de ciências da religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), diz que, em comparação com a Alemanha, por exemplo, o pluralismo das forças religiosas é menor no Brasil, porém a influência da religião é maior. “O enraizamento das igrejas na consciência e na realidade social dos brasileiros é maior”, afirma.
Dessa forma, as religiões ameaçam o Estado laico brasileiro, como alerta o livro Religião e política: uma análise da atuação de parlamentares evangélicos sobre direitos das mulheres e de LGBTs no Brasil. O estudo é de autoria dos pesquisadores Christina Vital e Paulo Victor Leite Lopes. Nele, os autores descrevem o avanço dos evangélicos na política na década de 1980. As igrejas passaram a reivindicar um lugar para si a fim de ampliarem a influência de suas tradições e valores.

O Brasil se tornou formalmente laico a partir da primeira Constituição Republicana, em 1891, mas a igreja Católica sempre fez esforço ao longo desse período para garantir presença no Estado público. Como exemplo, está a introdução na Constituição de 1934 da obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas públicas brasileiras.  “No Brasil, há uma enorme presença do elemento religioso no espaço público”.
Lamentavelmente, enquanto a maioria não se interessa pela sua história religiosa, política, científica, geográfica etc, há uma minoria muitíssimo interessada em dominar por meio daquilo que a maioria acredita. Deus.

Edson Moura




quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

“Não sou pedófilo”



Era pra ser uma pergunta bem simples: “Prefere mulher depilada ou peludinha?”

Caí na besteira de confessar minhas opções (as raspadinhas), e não deu outra, fui rotulado. Mas as raspadinhas se parecem com xoxotas de crianças, logo, você gosta de crianças, logo, és pedófilo. Puts! Será?

Será que pelo simples fato de um homem preferir mulheres que carreguem traços neotênicos faz dele um estuprador de vulneráveis? Não seria aceitável que o homem, até pelo processo evolutivo, sinta certo tipo de atração por uma fêmea jovem, que carregue consigo a capacidade reprodutiva, diga-se de passagem, a maneira pela qual a espécie se prolifera? Saiamos então do campo da ciência e partamos para o campo dos afetos.

Nutrir desejos por mulheres mais jovens, ou melhor, por aquelas que aparentam ser mais jovens, consequentemente mais belas e “durinhas” não é algo que deva ser recriminado ou mesmo criminalizado. É apenas uma questão de gosto.

Há os que preferem as “cheinhas”, outros as magricelas. Alguns se esbaldam com uma coroa e já outros se acabam com uma novinha. Também tem aqueles mais estranhos que preferem apanhar, bater, lamber os pés, e serem pisados por saltos-agulha com uma combinação perfeita de chicotes, algemas e parafina derretida, também existe uma parcela significativa que gostam de dominar, amarrar, chamar de puta, cadela e outros adjetivos “carinhosos”.

Os normais (normais?), são carinhosos, atenciosos apagam a luz para poupá-las do constrangimento de verem sua estrias e celulites, colocam aquela música romântica de fundo para dar um clima.

Quase esqueci de falar dos mais estranhos ainda, que se excitam vendo suas parceiras serem possuídas por um “negão da picona” enquanto observam pelo buraco da fechadura do armário. Gosto é gosto, eu não discuto.

Agora, tem os doentes, estes sim, são um perigo. Sentem atração por crianças, guardam material pornográfico infantil em seus computadores, molestam filhos de vizinhos, amigos e até os seus próprios, estupram e matam. E com esse tipo de animal eu não quero ser comparado quando digo que gosto de mulheres magras, pequenas e que raspem os pelos pubianos.

A mulher que não percebe que ao se maquiar com espessas camadas de corretivo, ao pedalar o “tour de france” nas ergométricas de academias, ao arriscarem sua saúde em regimes absurdos e entrarem na “faca” de cirurgiões açougueiros, estão criando um padrão de beleza que estimula esse desejo pelo que é mais jovem, ou aparenta ser, estão redondamente equivocadas.

Ah, mas eu estou apenas cuidando da minha saúde! Ah vá! E precisa colocar aquele decote mostrando a auréola do peito? Precisa colocar um shorts tão apertado na frente que podemos distinguir lábios inferiores e clitóris, e tão enfiados no cu que nem precisa fazer depilação anal, pois as fibras de tecido se encarregam de fazer o serviço? Isso tudo é pra saúde? Saúde de quem?

Parece uma crítica perversa o que estou fazendo (e é), mas a mulherada precisa se valorizar. Não estou dizendo para vestirem uma burca, jamais, apenas digo que não precisam exagerar. Nós homens já temos imaginação em demasia fértil para criarmos nossas fantasias com vocês.

Fugi um pouco do tema, mas retorno à ele. Respeitar o gosto do outro sem rotular, é um exercício de sabedoria. Nós homens somos rotulados o tempo todo por mulheres e acreditem (sei que acreditam) fazemos isso com vocês o tempo todo. São vadias, galinhas, putas, promíscuas, feministas, burras quando loiras, metidas quando inteligentes, loucas quando implicam e santas quando calam.

Mesmo assim somos profundos admiradores de todas. Das tísicas às obesas, das “fionas” às princesas, das putas às santas e obviamente, das novinhas às lobas, e nunca deixará de ser assim. Precisamos uns dos outros e essa misoginia e misandria que verifico na sociedade líquida, só prejudica os relacionamentos por vezes tão estranhos que tentamos desenvolver.

Edson Moura







segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Bendito (SQN) Chronos!

Por Donizete Vieira

Na mitologia grega, Chronos é o deus do tempo que não possuía em mínimo grau o instinto paterno, pois devorava seus próprios filhos para evitar que um dia crescidos eles não viessem a conspirar contra ele, usurpando-lhe o trono. (É o que reza uma das versões sobre Chronos)

O caráter destrutivo do tempo tem conexão com esse mito. 

Rememoramos com nostalgia eventos do passado. O presente é inexoravelmente isso que se nos apresenta sem tirar nem pôr. O futuro? bem, a ideia de que o futuro será a soma daquilo que construímos e planejamos é tão incerta que gostaríamos que o ritmo do tempo acelerasse para acabar de vez com a apreensão natural face ao desconhecido.

Todas as vezes que olhamos no espelho, chronos ali está representado pelos traços físicos característicos de quem sofre sensíveis influências degenerativas do tique-taque do relógio ou da areia que escorre pelo orifício da ampulheta. Usar a expressão "momento divino" é quase uma redundância.

Chronos é  implacável. Não adianta adorá-lo ou amaldiçoá-lo. Ele estará sempre indiferente à tudo que ocorre em nosso tempo.

domingo, 29 de janeiro de 2017

O Poder da fantasia



Cresci ouvindo frases do tipo: “Terra chamando Edson”, ou “ É preciso por os pés no chão meu amigo.” Pois é, são frases assim que nos alertam de tempos em tempos, para que paremos de sonhar e finquemos nossos pés no chão da existência. Mas a grande verdade é que nós sonhamos a maior parte de nosso tempo e só em alguns momentos acordamos.

Algumas pessoas (e eu posso afirmar que estou fora desta lista) passam um terço de suas vidas dormindo, sonhando, e quando despertam, suas fantasias ocupam um tempo muito maior do que imaginam. Mesmo no trabalho elas fantasiam estar em outro lugar, com outras pessoas. Quando têm a oportunidade de tirar umas merecidas férias, ficam imaginando que farão com os onze meses que virão depois. Num exercício platônico idealizam, se imaginam sendo o centro das atenções por alguns míseros segundos, veem-se com alguém a quem desejam, ou cogitam uma situação onde conseguem algum mérito pelos seus esforços.

Sempre que podem, e podem fazer isso várias vezes por dia, utilizam algum escape para lidar com a dura realidade. É bem verdade, que se pudéssemos, usaríamos algumas fantasias emprestadas das séries de Netflix, dos filmes ou até mesmo dos romances ou tragédias escritos pelos grandes como Fiodor Dostoiévski e William Shakespeare, nos quais a angústia por um final feliz faz do leitor quase que um co-autor. Mas o que a psicanálise fala sobre isso?

A psicanálise propõe-se o condão de decifrar as fantasias e avaliar o conteúdo da realidade a qual o sujeito sofre. O “Tio Freud”, em sua teoria que nasceu da possibilidade de fazer interpretações das fantasias dos neuróticos, descobriu que em cada sintoma do paciente havia uma história para contar. E atrama que surgia a partir do sofrimento de cada um deles era, em parte, construída de fatos da realidade, mas acrescentada de outros fatos, esses pois imaginários.

O discurso possível a respeito de quem somos na verdade e do que nos aflige, seria constituído de histórias, na tentativa de criar um sentido para nossa existência e assim poder sustentar nossos desejos inconscientes.

São nossos palácios mentais, aqueles lugares onde só nós podemos chegar, só nós temos acesso, por um portal tridimensional, uma máquina do tempo imaginária, uma porta que se abre dentro de um armário, sei lá, cada um sabe como chegar lá, ouvindo uma canção, meditando, orando numa igreja, relaxando à sombra de uma árvore ou trancado em um quarto escuro, num cárcere.

É o limite que se estabelece entre o real e o imaginário, porque ali a magia é real, pode-se voar se quiser, criar asas, encontrar-se com seres encantados, heróis de quadrinhos ou épicos, pode-se ter garras de adamantium ou soltar laser pelos olhos, ser um milionário da mega sena ou amante da mais bela atriz de Holliwood ou dos X-videos.

Quando estamos no “era uma vez”, a história imaginária se instala em um sonho, que nos projeta para uma aventura, uma situação, um momento no qual as sensações e vivências se entrelaçam permeando nosso imaginário onírico de construção de personagens que gostaríamos de ser, como o “homem tomada” do filho de um de meus amigos. A fantasia nos convoca e nos presenteia com efeitos maravilhosos que nos levam (e levam mesmo) a uma viagem fantástica e inesquecível.

Essa alienação é tão poderosa que pode suspender a lógica e o senso crítico, nos remetendo para um mundo fora do tempo, onde o espaço da imaginação cede lugar a uma fantasia construída por um ideal imaginário, e como disse, platônico. Por mais que essa viagem às vezes seja um completa desordem, ela sempre será reordenada, de acordo com o final que queiramos dar, ou, que a mensagem implícita seja pelo menos tranquilizadora, daquelas que dá um friozinho na barriga, e nos parece que uma injeção de ânimo fora aplicada diretamente em nosso cérebro.

Assim vamos levando a vida, pensando que sonhar, imaginar, fantasiar, é prerrogativa das crianças que não conseguem ainda enxergar a maldade no mundo que as circunda. Somos adultos sonhadores, obviamente que uma consciência sem graça e entrometida virá o tempo todos tentar nos acordar, nos fazer botar os pés no chão, acordar pra vida, mas não ligamos, continuamos fugindo de tempos em tempos, o tempo todo para algum lugar bem afastado de todas as responsabilidades que a vida adulta nos confere, as contas que estão atrasadas, a mulher que foi embora e não vai voltar, o emprego dos sonhos, o salário merecido que nunca chega.

Há um significado pra tudo isso?

Olha, não sei se há, mas que nos ajuda a viver, nos ajuda a sofrer com dignidade, isso não podemos negar. Isso não quer dizer que devamos levar a vida de avestruzes que escondem a cabeça num buraco crendo que estão protegidos de seus predadores, de forma alguma. Seria mais como o pavão, que abre suas plumas, e mesmo sendo menor, consegue convencer seu adversário de que é maior e mais poderoso.

Assim superaremos melhor os traumas, as perdas, as falhas, alienando-nos de vez em quando, em doses medicinais, para que possamos crescer por dentro e tornarmo-nos o Super homem de Jerry Siegel ou de Nietzche.


Edson Moura

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A pílula da felicidade


Uma das melhores coisas que a filosofia despertou em mim, foi a capacidade de questionar. Não só questionar para poder debater com amigos e outros blogueiros, mas sim, avaliar tudo aquilo que vejo e depois digerir este conteúdo e quando possível, escrever sobre ele com minhas próprias palavras. Uma dessas maravilhas é a capacidade de não mais assistir a um filme e não fazer uma avaliação crítica de seu conteúdo. Pois bem, assisti recentemente a um filme chamado “Sem limites”, onde um jovem escritor com bloqueio criativo se vê desesperado por não conseguir escrever seu livro.

Casualmente ele encontra um amigo que lhe oferece uma pílula misteriosa, e daí para frente tudo em sua vida muda. Sua capacidade cognitiva é elevada ao extremo e sua cabeça se torna um turbilhão. Me perguntei se esta pílula seria possível com os avanços na área da farmacologia e neurociência. Pesquisei aqui e ali e quero fazer um breve relato sobre os males e os benefícios dos avanços da tecnologia. Boa leitura.

Muito antes de Heidegger formular sua crítica romântica à tecnologia e nos falar de niilismo, o sociólogo alemão Max Weber já preconizava que a época moderna se caracterizaria pelo desencantamento do mundo. Desencantar-se é uma característica inevitável do processo de racionalização provocado pela ciência e pelo surgimento das sociedades industriais. A nova imagem do mundo que se consolidou ao longo século XX visou aniquilar com a religião e com tudo que poderia haver de mágico na nossa concepção de universo.

No século XXI assistimos a mais um passo nessa direção: o desencantamento do "eu". As novas ciências, em especial a neurociência, nos convidam a abandonar a imagem do ser humano como criatura dotada de uma alma imortal, que seria uma centelha do divino. Temos todos um cérebro igual, de onde se quer inferir que somos todos iguais. Mas isso pode soar tão absurdo como querer dizer que o cardápio de todos os restaurantes do mundo deveria ser igual porque o estômago humano é igual em todos os lugares e culturas.

O desencantamento do “eu” visa à dissolução da subjetividade. A ciência estaria tentando profanar um dos últimos bastiões da Religião e da Filosofia ao buscar uma explicação científica da natureza da consciência humana. Contra essa iniciativa, que parece tão drástica, mas, ao mesmo tempo reconhecida como inexorável, cada vez mais surgem grupos humanos que se agarram às crenças mais bizarras ou à fé fundamentalista. O fundamentalismo seja religioso ou político, tornou-se uma marca da vida contemporânea tanto quanto a ciência, embora se alastre predominantemente nas sociedades pré-tecnológicas do terceiro mundo.

Essa avalanche sobre o “eu”, protagonizada pela neurociência, manifesta-se, sobretudo, no uso crescente de drogas que produzem estados alterados de consciência. Sabemos que todas as sociedades humanas sempre tentaram, por meio da legislação, impor uma política da experiência ou uma espécie de ética da consciência, que visa banir as drogas proibidas, nem sempre com justificativas médicas ou científicas aceitáveis.

Mas agora não se trata mais apenas de banir as drogas ilegais. É preciso discutir as drogas lícitas que produzem estados alterados de consciência. As tentativas de suprimir as tristezas e a falta de atenção das crianças na escola levaram a uso quase que indiscriminado de antidepressivos e de substâncias como a ritalina. As consequências desse processo já se fazem sentir até na modificação da psicologia popular, na qual já não se fala: “Estou triste”, mas “Estou deprimido”.

Mas será que se pode exigir das pessoas que não se entristeçam ou não se angustiem? Em um futuro próximo é possível que o uso dessas drogas para melhorar o humor e o aprendizado passe a ser por parte dos empregadores (item da cesta básica) e pelos professores (farão parte da merenda escolar). E alguém poderia proclamar: por que não? O exército americano já obriga seus soldados a ingerirem algumas drogas que podem fazer que eles percorram grandes distâncias carregando equipamentos geralmente muito pesados sem, entretanto, sentir cansaço.

Não faz muito tempo, a neuro-farmacologia descobriu algumas substâncias que induzem a experiência religiosa. Ora, será que essas substâncias não deveriam ser consumidas por todos e o Estado declará-las obrigatórias? A religião é mais confortável que o ateísmo, disso já sabia o velho Kant. Então por que não disseminar a religiosidade? Afinal, indivíduos e sociedades religiosas serão, supostamente, mais pacatos e administráveis... Será esta a “pílula de Deus”, já que existem pílulas para tantas outras coisas.

A questão de fundo, contudo, continua a mesma. O que torna alguns estados alterados de consciência mais desejáveis que os outros? A neuro-farmacologia trouxe, a reboque, um amplo leque de dilemas éticos e força novas pautas de discussão filosófica. Afinal, o que define um bom estado de consciência e quais, dentre todos os que podemos ter, devem ser declarados ilegais ou inaceitáveis? Essa é a pergunta principal que deve nortear uma ética da consciência, já que vivemos (e viveremos) predominantemente em estados alterados de consciência, produzidos pela ingestão, cada vez mais frequente, de drogas legais ou ilegais. Afinal, desde a invenção do Prozac, ingressamos definitivamente no admirável mundo novo de que nos falava Aldous Huxley.

Não estamos preparados para a demolição do “eu”. Se há uma década temíamos que máquinas se tornassem conscientes, hoje, temos de temer que humanos percam a consciência. Não há nada mais abundante no planeta do que seres humanos, e eles podem se tornar úteis para os propósitos de uns poucos por maio da supressão da consciência. A supressão da consciência tem se revelado um investimento menor, do ponto de vista econômico, do que a construção de robôs conscientes. Essa é a nova forma que a angústia passou a ter a partir do século XXI.

A ética da consciência precisará nos ajudar a escolher entre os possíveis estados alterados de consciência no intervalo entre a “angústia mórbida”, que não nos permite sequer levantar da cama, e o “alienado feliz”, aquele que Sartre chamava de “salaud”, ou o idiota imune à própria angústia. Não será uma escolha nada fácil.

Edson Moura

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Fatos novos de cada dia nos dai hoje...

Por Donizete Vieira

Quanto maior a tragédia melhor! 

Seria decepcionante acontecer um terremoto, maremoto, ou a erupção de um vulcão que seja, se o número de mortos não passar dos milhares. 

O legal não é ver um lutador de MMA ganhar com um nocaute técnico, mas sim arrebentar o adversário até deixá-lo sagrando. Principalmente se este for um falastrão desaforado. 

O que nos prende na frente da telinha, não é a notícia de que um avião monomotor caiu e cinco apenas morreram, (a não ser que entre as vítimas tenha alguém famoso) , ou se o ônibus caiu na ribanceira e apenas a metade dos passageiros morreram. Isso é fato comum, não repercute nem no dia seguinte. 

O trivial não nos interessa, não satisfaz nossa natureza animal. Não sacia a sede dos “Datenas” da vida espalhados aos milhares pelas agências de notícias. Nem tampouco a nossa, que já elegemos os canais News como nossa principal fonte de entretenimento.

Somos naturalmente propensos a sentir prazer, satisfação, mesmo naquilo que é repugnante e trágico na realidade. Diante das tragédias o ser humano experimenta um misto de “piedade”, “temor” e “prazer”. Prazer sutilmente disfarçado de consternação. 

Por que enfatizar tantos detalhes das tragédias? Simples, é exatamente isso que o ser humano quer ver!

A propósito, é bom destacar que esta questão foi histórica e filosoficamente tratada com Aristóteles. Os leitores podem ler um artigo largamente difundido com o título: “sobre o prazer na tragédia em Aristóteles”

Agora, estaria este “eu Psicopata” escondido nos porões do nosso inconsciente? Ou seja, tudo aquilo que vivemos tentando evitar ou negar acabamos empurrando para lá? Alguns podem negar! Mas para aqueles que são sensíveis de imaginação, sempre acaba se convencendo que está “lá”. Freud explica!

domingo, 22 de janeiro de 2017

“Escrevo, logo posto, logo existo”




Recentemente, eu, com um grupo de amigos muito próximos, resolvemos colocar em pauta um tema para ser debatido. O assunto era justamente a transformação pela qual a sociedade passou nas últimas duas décadas, Zygmunt Bauman, grande sociólogo que infelizmente nos deixou recentemente, a nomeou de modernidade líquida. Teria ele sido um crítico ferrenho da maneira como nos relacionamos hoje? Veremos.


Não há possibilidade alguma de dicotomizar, a modernidade líquida das redes sociais, que obviamente também não podemos desentranhar da Internet. Creio que o que vou relatar a seguir, reflete o pensamento de todos que porventura estão lendo este pequeno artigo. Só de pensar em ficar sem conexão já nos dá aquele friozinho na barriga, afinal, preciso dela para fazer este texto chegar até vocês, uma vez que minha máquina de datilografia está perdida em alguns dos cômodos onde acumulo bugigangas em casa, além do mais, sinceramente, não saberia enviar uma carta a cada um dos mais de Mil amigos que quero que leiam. Começo a escrever estas linhas tentando controlar a ansiedade (com S, antes que o Marcio me critique) que este inocente pensamento me traz.


É difícil manter uma só linha de raciocínio, pois o tema me remete a outros tantos pensamentos, que apenas uma relação pessoal, uma conversa real numa roda amigos, me proporcionariam tempo suficiente para expor tudo que penso, e de uma maneira que todos possam entender, então tragicamente, me dou conta de que há quem esteja neste exato momento “conectado” a milhares de pessoas em seus smart phones, tablets, PC’s, e mais, há até quem prefira isto, ou seja, aquelas pessoas que, literalmente, pausam suas vidas reais e se plugam alegremente ao virtual.


Deste modo, podemos concluir que é fato então, quando alguns de nós afirmam que nossos passos estão pautados pelo fenômeno da internet e como consequência, seu impacto na subjetividade dos seres modernos. Neste debate, que pode ser encontrado em nosso canal no You Tube (olha ela aí) o tema fora superficialmente debatido por um viés Filosófico, Sociológico, Psicológico com um pé na Psicanálise, e por que não dizer, especulativo, e como não poderia deixar de ser, ainda requer de nós um aprofundamento acerca da influência da tecnologia na construção de identidades para o mundo líquido em que vivemos.


A relevância deste tema é significativa, uma vez que é perceptível (e por que não dizer, preocupante), a dependência que temos hoje de um sinal Wi-fi, mesmo para aqueles que ainda se aventuram do lado de fora de suas casas, acabem se deparando com a virtualização das relações. Andamos pelas ruas sem olhar mais para a frente, para o horizonte, em geral nossos olhos estão voltados para o celular, ou nossas atenções concentradas na vibração dos mesmos em nossos bolsos, à espera de um contato. Experimentem levantar a cabeça e avaliar quantas pessoas, dentro de um metrô, trem ou ônibus lotado, estão mergulhadas em seu mundo virtual, arrisco dizer...quase ninguém. Reparem também, num grupo sentado à mesa de bar ou restaurante, como teclam descompensadamente em seus aparelhos, mesmo estando na companhia de amigos, bem ali do lado.


Vivemos pela primeira vez na história da humanidade em um mundo no qual ser parte de um grupo globalmente interconectado é a situação normal da maioria dos cidadãos. Os nossos debates, de certo modo, me fizeram enxergar esse novo cenário das relações interpessoais que se ramifica para outras análises que podemos fazer, como a do desenvolvimento de uma solidão “off-line”, em que estar “desligado” é praticamente um suicídio social, e da sensação que nos acomete de que o real é sempre traumático e excessivo ou pior ainda (se é que pode haver algo pior) a nossa felicidade diametralmente ligada ao parâmetro do “posto, logo existo”.


O Bauman nos mostrou esta armadilha criada por nós mesmos, em que somos caçadores e presas ao mesmo tempo, pois à medida que nos desdobramos para chamar a tenção de nossos “amigos” virtuais, líquidos, também ficamos na dependência angustiante de que ele nos note, e nos responda, e que aqueles “dois pauzinhos” do Whats fiquem azuis.


“O mundo mudou, as pessoas mudaram, a maneira de nos relacionarmos também, e o no górdio desta transformação pela qual a sociedade passou, é saber se permitiremos que essa liquidez própria da água nos fará sermos uma correnteza onde pessoas entram o tempo todo e logo se perdem carregadas pela velocidade do declive, ou se seremos maleáveis e adaptáveis a todos os recipientes onde seremos colocados, mantendo nossas moléculas ligadas por uma força muito maior, não pelas leis da física, mas pela lei do amor, chamada AMIZADE".


Aos grandes amigos virtuais que consegui nos últimos 7 anos…


Eduardo
Rodrigo
Edson
Aldim
Elídia
Elaine
Esdras
Doni
Franklin
Mari
Aline
Edu cabeça
Hubner
Lene
Adeíldes

Salmito

Por Edson Moura

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

"Cuidar de quem mais precisa"




Por Teresa Bergher *

No final do ano passado, o prefeito Marcelo Crivella me chamou para dar a nobre missão: ajudá-lo a cuidar das pessoas. No primeiro dia do ano, assumi a secretaria municipal de Assistência Social e Direitos Humanos e o compromisso de tentar melhorar a vida de quem mais precisa.

O desafio é grande. O primeiro passo é promover de fato a unificação das três secretarias que ficaram sob a minha responsabilidade: assistência social, idoso e defesa da mulher. Para ter maior efetividade e oferecer um serviço de maior qualidade, vamos eliminar as sobreposições de atividades, evitando o desperdício. Isso só será possível através de uma gestão competente, que cuide dos recursos públicos com rigor e austeridade.

A proposta é envolver toda a sociedade civil e religiosa na atenção à infância e à população de rua, hoje estimada em 14 mil pessoas. Não pretendo recolhê-las, mas acolhê-las, com humanidade. Ainda nestes primeiros dias quero percorrer os abrigos públicos, para ver como a prefeitura vem recebendo quem vive sem um teto.

Com o apoio da secretaria de Saúde e dos mais diversos segmentos religiosos, pretendo atender com dignidade os dependentes químicos, com especial atenção às cracolândias.

Mas não bastam as boas intenções e ideias sem o indispensável apoio de todos vocês. Cada um precisa fazer a sua parte, pelo menos o mínimo possível; olhar para quem está do lado; estender a mão; oferecer ajuda. Só assim, juntos, poder público e sociedade, será possível cuidar verdadeiramente das pessoas.


(*) Teresa Bergher é Secretária Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos da prefeitura do Rio de Janeiro


OBS: Imagem acima extraída de http://www.psdb-rj.org.br/site/midia/artigos/5967-qcuidar-de-quem-mais-precisaq-por-teresa-bergher

domingo, 15 de janeiro de 2017

Com tanta gente sofrendo no país e um deputado preocupado com a masturbação alheia...




Não é piada, não! O caso é sério...

Como se no Brasil faltassem coisas mais importantes para alguém se preocupar, eis que o cantor Gospel e deputado federal Marcelo Aguiar (DEM-SP) apresentou o Projeto de Lei de n.º 6.449/2016, o qual pretende obrigar as operadoras a criarem sistemas que filtrem e interrompam automaticamente todos os conteúdos de sexo virtual, prostituição e sites pornográficos. O objetivo do parlamentar é, dentre outros, diminuir o número de masturbação dos adolescentes na internet brasileira. Senão leiamos a seguir o que ele propõe no texto normativo e nos trechos da justificativa de sua proposição...

"Art. 1º As empresas operadoras que disponibilizam o acesso à rede mundial de computadores, ficam obrigadas por esta lei, a criarem sistema que filtra e interrompe automaticamente na internet todos os conteúdos de sexo virtual, prostituição, sites pornográficos;
Parágrafo Único – As normas elencadas no artigo 1º. não se aplicam aos sites privados, o quais são pagos pelos assinantes.
Art. 2º Esta lei entra em vigor na data de sua publicação."

Justificativa:

"(...) Todos os dias se ouve falar da segurança na Internet e, em particular, nos perigos a que crianças e adolescentes estão expostos enquanto navegam. Contudo, pais, educadores e a sociedade em geral, não estão conscientes o bastante dos perigos envolvidos. Estudos atualizados informam um aumento no número de viciados em conteúdo pornô e na masturbação devido ao fácil acesso pela internet e à privacidade que celular e o tablet proporcionam. Os jovens são mais suscetíveis a desenvolver dependência e já estão sendo chamados de autossexuais – pessoas para quem o prazer com sexo solitário é maior do que o proporcionado, pelo método, digamos, tradicional (...) Mais alarmante ainda é o fato de que pode-se dizer após os estudos realizado que a pornografia veio substituir a prática sexual com outra pessoa, porque mesmo uma garota de programa tem um custo, e o encontro não pode ser a qualquer hora (...) Do lado educacional, acredita-se que a facilidade de acesso à pornografia e o tabu que ainda envolve a sexualidade está transformando o pornô na base da educação sexual dos jovens de hoje, com uma série de efeitos indesejados. Do mesmo modo que é importante alertar aos usuários, jovens e adolescentes para a necessidade de seguir regras para uma navegação segura e para fazerem uso de forma moderada, também é importante conscientizar às operadoras a oferecerem serviços que não tragam riscos à população no todo (...) Quando falamos em perigo na Internet, expressões como pornografia infanto-juvenil, violência sexual são as primeiras que nos ocorrem. Efetivamente o acesso a conteúdos nocivos como pornografia, racismo, violência, referência sobre drogas, gangues, seitas ou outras informações perigosas e incorretas é um dos maiores riscos que as crianças podem estar sujeitas (...)"

Sinceramente, qualquer um que possui um mínimo de senso crítico dentro de si consegue perceber a incoerência do que o parlamentar propõe sem precisar discutir a inconstitucionalidade da matéria do seu projeto por contrariar princípios basilares do Estado Democrático de Direito como a liberdade de expressão.

A princípio, a educação dos menores é dever dos pais. Logo, se a criança ou o adolescente for acessar o computador, cabe a quem o educa orientar o uso correto da internet e até mesmo estabelecer as restrições necessárias para o seu comportamento de maneira adequada. Pois, como sabemos, existem programas que, uma vez instalados no computador ou no celular, bloqueiam automaticamente qualquer conteúdo de violência ou de pornografia.

Além disso, a posse do aparelho pode ser regrada para que, por exemplo, o filho ou o tutelado não deixe de estudar regularmente para ficar distraindo-se o dia todo na rede. Pois, quando falamos de crianças (menores de até 12 anos), a liberdade torna-se ainda mais restrita mesmo que os pais não possam reprimi-lo de maneira abusiva a ponto de violarem a intimidade e a vida privada do educando causando lesões psicológicas.

Mas o que dizermos acerca dos que estão na adolescência e já entraram numa fase de transição para a idade adulta?! Será que é possível proibir um rapaz ou uma moça de seus 13 anos de tocar em seu próprio corpo e descobrir (com segurança) as suas primeiras sensações sexuais? Logo, não vejo razões plausíveis na justificativa apresentada pelo parlamentar sendo que, na visão de muitos pais e educadores, o acesso do filho a um material de conteúdo erótico seria um escape para ele não se iniciar imaturamente no sexo com outra pessoa, o que poderia importar numa maior exposição a doenças, gravidez precoce e outros problemas mais.

Vale prestar a atenção também que o deputado autor do projeto fala em proibir o acesso livre a sítios "de sexo virtual, prostituição, sites pornográficos", possibilitando que somente as páginas pagas (as que exigem uma assinatura periódica com identificação do internauta) continuem existindo na internet brasileira. Assim sendo, a liberdade dos adultos estaria em risco sendo que a indefinição do que seja pornografia poderia servir de motivo para uma operadora bloquear uma quantidade ilimitada de sites, blogues, postagens e fotos que estejam fora de um padrão rígido e conservador de maneira que até a imagem de uma mãe amamentando o seu bebê vai acabar sendo retirada do ar porque a cena poderá ser julgada como pornográfica devido à exibição dos seios.

Enfim, o cidadão é o maior responsável por essas anedotas ridículas que encontramos na Câmara Federal e nas demais casas legislativas do país. Pois, infelizmente, muitos que portam o título eleitoral não sabem (e nem querem saber) como votar corretamente visto que escolhem o fulaninho de tal porque o pastor de sua igreja indicou-o como sendo "um homem de Deus". E aí querem impor para toda a sociedade os valores morais de suas respectivas seitas, ignorando que vivemos num Estado laico no qual prevalece a pluralidade de crenças, inclusive a possibilidade de alguém ser ateu e/ou não seguir religião alguma.

Apensado ao Projeto de Lei n.º 5016/2016, de autoria do deputado Célio Silveira (PSDB/GO) e também ao de n.º 2390/2015, sendo este do parlamentar Pastor Franklin (PTdoB/MG) sobre a criação do Cadastro Nacional de Acesso à Internet, com a finalidade de proibir o acesso de crianças e adolescentes a sítios eletrônicos com conteúdo inadequado, a proposição  tramita pelo regime ordinária, conforme previsto no artigo 151, III, do Regimento Interno da Câmara dos Deputados. Encontra-se desde o dia 21/11 na Coordenação de Comissões Permanentes.


domingo, 8 de janeiro de 2017

Uma declaração infeliz mas que reflete o pensar da grande maioria...




Não poderia eu deixar de comentar sobre a infeliz declaração feita sexta-feira (06/01) pelo então secretário nacional de Juventude Bruno Júlio, filiado ao PMDB, quando comentou sobre a barbárie nos presídios de Manaus e de Boa Vista na coluna do jornalista Ilimar Franco do jornal O Globo na internet. Na ocasião, assim havia dito o rapaz que, horas depois, tratou de entregar o cargo que tinha dentro do governo Temer: 

"Eu sou meio coxinha sobre isso. Sou filho de polícia, né? Sou meio coxinha. Tinha é que matar mais. Tinha que fazer uma chacina por semana." (destaquei)

Fato é que as suas palavras refletem o pensar da maioria dos brasileiros acerca do assunto no país. Pois, pelo que observo nas redes sociais, sobretudo no sítio de relacionamentos Facebook, muitos andam comemorando a morte desses quase noventa presos nos dois massacres ocorridos na primeira semana de 2017. 

Sinceramente, não tenho dúvida de que, caso houvesse uma consulta popular no Brasil quanto à adoção da pena de morte (e para isso seria necessário promulgar uma nova Constituição), a maioria seria a favor tal como foi na questão do porte de armas. E não duvido que ainda haveria gente disposta a defender o uso da tortura, castigos físicos, prisão perpétua, trabalhos forçados, castração para estupradores, e outras penas degradantes para os criminosos.

Devido à grande repercussão de suas palavras e da possibilidade de colocar o turbulento governo Temer em mais uma crise política, Bruno ainda tentou emendar-se. Porém, ocorreu que já era tarde e ele acabou tendo que se demitir do cargo por livre e espontânea pressão, dizendo posteriormente que: 

"O que eu quis dizer foi que, embora o presidiário também mereça respeito e consideração, temos que valorizar mais o combate à violência com mecanismos que o Estado não tem conseguido colocar a disposição da população plenamente"

Evidenciado está que Bruno não conseguiu desfazer esse imbróglio que, por pouco, não teria prejudicado mais uma vez a imagem do governo (nem Temer e nem Eliseu Padilha que o indicou têm a ver com as opiniões boçais desse ex-secretário). Porém, há uma situação ainda mais difícil que precisa ser resolvida. Trata-se do fato de nossa sociedade hoje estar pouco se importando com os direitos humanos por se sentir vitimada pela violência e pela corrupção quase sempre impunes.

É certo, meus amigos, que, se abrirmos mão dos direitos humanos, a nossa situação se tornará ainda muito pior. Se, por exemplo, o Brasil pudesse adotar a pena de morte, quanta gente inocente não iria pagar com a vida, sendo a grande maioria dos condenados pessoas pobres e negras que mal teriam condições de se defender num processo?!

Ora, será que não somos capazes de nos colocar no lugar do pai ou de uma mãe cujo filho encontra-se recluso numa penitenciária, a qual, devido às más condições de espaço, de gestão e de recursos, em nada ressocializa o indivíduo condenado pela Justiça?!

De modo algum quero eu crucificar o jovem Bruno Júlio pelas suas más colocações na mídia. Entendo o quanto ele e várias outras pessoas acabam se tornando reféns emocionais dos problemas relacionados à violência sendo que vivemos num ambiente social que pouco promove uma reflexão madura. E isto, inegavelmente, tem tornado o povo brasileiro refém dos discursos oportunistas dos políticos fanfarrões que incitam ódio oferecendo falsas soluções.

Mais do que nunca é hora da nação colocar os dois pés no chão e, com o uso salutar da racionalidade, buscar as medidas necessárias para prevenir e combater a violência. E isso só será alcançado quando de fato as causas da criminalidade forem enfrentadas e deixarmos de mascarar a realidade com um punitivismo excessivo, o qual tem contribuído para inchar ainda mais as cadeias.
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