sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Fé x ateísmo

Por Arthur Virmond de Lacerda Neto e-mail: arthurlacerda@onda.com.br

As pessoas aderem ou “aderem” às religiões, freqüentemente, por influência do ambiente em que são criadas: família e escola. Criadas em meio, por exemplo, católico, as crianças deixam-se persuadir pelos dogmas, ritos, tradições, maneiras de pensar e de atuar que encontram no seu ambiente e que reproduzem por imitação. A criança criada em família católica será, tendencialmente, católica; criada em ambiente budista será, tendencialmente, budista e assim por diante, e as suas “verdades” resultarão do seu meio familiar e não do exercício racional do seu discernimento, que as leve a analisar as diferentes religiões e a eleger uma, dentre várias. Por outro lado, as pessoas apostatam da religião que professam, em regra, após a infância, da adolescência por diante, quando informam-se acerca das origens dos dogmas, culto e práticas da sua religião, ou quando atentam às críticas que se lhes fazem, ou quando exercem crítica pessoal acerca destes dogma, culto e práticas.
A adesão dá-se por influência do meio, sem persuasão racional; a apostasia dá-se pelo exercício da inteligência do apóstata. A adesão também pode resultar de necessidades emocionais, de insegurança pessoal, de carência de cura, em que o necessitado, o inseguro, o enfermo, de fraca ou nula capacidade crítica acerca das religiões, deixa-se persuadir pelas promessas de proteção, cura, oportunidades, gratificações, bençãos, alegrias, vitórias etc. Note que, no Brasil, a religião propaga-se por entre o povo pobre e ignaro: na pobreza, a carência material e de recursos; na ignorância, a credulidade, a propensão a deixar-se impressionar pela figura do padre ou do pastor, pelos textos da Bíblia, a ausência de contra-argumentação, de crítica, de desmentidos. O ateísmo pode consistir, apenas, na ausência de crença nos deuses (que o cristão é um deles); pode-se viver sem a idéia de deus. Mas o ateísmo pode ser, também, viver com conhecimento de filosofia, de história, de sociologia, de crítica religiosa que justifique a descrença. Para mais de mera negação do sobrenatural, o ateísmo pode comportar a afirmação da naturalidade, do humanismo, dos valores humanos, de dar sentido à vida sem sobrenatural. Ateísmo como ausência de crença sobrenatural; como tal ausência e com cultura a-religiosa, como antropocentrismo.
É uma habilidade explorada pelos religiosos dizer que apenas a fé sobrenatural propicia valores, moral, bons costumes, defesa da família, amor, paz etc. Tudo isto é possível sem deus, sem Cristo, mediante o exercício da bondade espontânea do homem e na sua inteligência, com senso de realidade, ou seja, sem ilusões, fantasias e crendices. A farsa do milagre de Guadalupe.
A história da igreja católica é pródiga em milagres e acontecimentos extraordinários; sempre, no entanto, mal contados. É claro que a versão extraordinária interessa à igreja, que a mantém e que procura corroborá-la com experiências alegadamente científicas e com depoimentos de cientistas, no intuito de tentar comprovar o caráter milagroso dos fatos com a palavra da ciência.
A igreja usa cientistas, os seus, os que escolhe; e alguns cientistas aceitam efetuar experiências. No entanto, que garantia se tem da idoneidade deles? Que idoneidade tem as experiências que realizam? São, de fato, experiências capazes de comprovar as suas alegadas conclusões ? Na verdade, como as pessoas aceitam a ciência, a igreja usa-a para validar os seus supostos milagres. É fácil um cientista qualquer fabricar conclusões falsas e com elas impressionar os ingênuos – é exatamente isto o que a igreja faz, como ardil para convencer as pessoas.
Cientista que corrobora milagre é farsante a serviço da mentira.
Tudo que o documentário exposto até 2016 no You Tube mostrava é, evidentemente, impossível e falso. Não existe milagre de aparição, de imagem gravada em manto, de imagens no fundo do olho, constelações na formação das estrelas, tecido incorruptível.Documentários deste tipo são feitos para consumo dos crédulos. É fácil encontrar algum farsante que se preste a inventar coisas, ou um crédulo já convencido do milagre que se preste a encontrar aspectos maravilhosos inéditos ou um corrupto que se preste a vender declarações para o autor do documentário.
A tela não é de aiate, material corruptível, mas de linho, material muito duradouro; ela é cópia da imagem existente na Extremadura, na Espanha; na tela, há a sobreposição de 3 pinturas, de autores identificados; ela não vem durando milagrosamente intacta há séculos, mas foi restaurada cerca de vinte vezes.
A narrativa do suposto milagre não é coevo a ele, mas foi narrado por ouvir dizer 118 anos depois. Os personagens coevos ao suposto milagre nada dizem dele, a começar pelo bispo Zumarraga, a quem João Diego narrou o milagre. O bispo seguinte também nunca nada disse a respeito, tampouco outros clérigos do tempo.
Se o milagre acontecera, era natural que, ao tempo, as autoridades eclesiásticas se referissem a eles em documentos eclesiásticos, em crônicas, em memórias; era natural que terceiros, laicos e clérigos, também escrevessem a respeito. Mas ninguém declarou nada, até , 118 depois dos supostos fatos, um padre contar , por ouvir dizer, que o “milagre” ocorrera.
É exatamente igual a Cristo: ao tempo da sua suposta existência, ninguém ouviu dizer dele; fala-se dele depois e cria-se o mito.
Em 1883 J. Icazbalceta , católico, historiador, em carta ao arcebispo do México, declarou, expressamente que o milagre de Guadalupe é falso, não existiu (nas últimas linhas do número 70):
http://www.sectas.org/Catalogo/textocompleto.asp

https://cgnauta.blogspot.com.br/2008/12/la-virgen-de-guadalupe-la-verdadera.html https://pt.scribd.com/document/93285219/Virgen-de-Guadalupe-La-Farsa-mas-grande-de-la-historia-de-la-Iglesia-Catolica http://www.sectas.org/secciones_especiales/canonizacion/guadalupana.htm


OBS: Texto extraído parcialmente do blogue do autor, com apenas uma das fotos, conforme se lê em https://arthurlacerda.wordpress.com/2018/01/03/fe-x-ateismo/

domingo, 7 de janeiro de 2018

É preciso construir uma forte via de centro para as eleições presidenciais de outubro!



Faltam exatos dez meses para o primeiro turno das eleições presidenciais de 2018. Porém, na prática, eis que o pleito já se inicia no dia 24/01 com o julgamento em segunda instância do ex-presidente Lula pelo TRF da 4ª Região. Ou seja, caberá aos desembargadores confirmarem ou não a condenação do líder petista por corrupção tornando-o, consequentemente, inelegível por oito anos, segundo prevê a Lei da Ficha Limpa.

Até o momento, Lula aparece em primeiro lugar nas intenções de voto, seguido pelo direitista Jair Bolsonaro. Senão vejamos o que mostram alguns resultados da última pesquisa do Datafolha feita no começo de dezembro/2017 e que não difere muito dos dados do Ibope:

Cenário 1 (com Marina, Joaquim Barbosa, Temer e Meirelles):
Lula (PT): 34%
Jair Bolsonaro (PSC): 17%
Marina Silva (Rede): 9%
Geraldo Alckmin (PSDB): 6%
Ciro Gomes (PDT): 6%
Joaquim Barbosa (sem partido): 5%
Alvaro Dias (Podemos): 3%
Manuela D´Ávila (PCdoB): 1%
Michel Temer (PMDB): 1%
Henrique Meirelles (PSD): 1%
Paulo Rabello de Castro (PSC): 1%
Em branco/nulo/nenhum: 12%
Não sabe: 2%


Cenário 2 (com o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa):

Lula (PT): 37%
Jair Bolsonaro (PSC): 18%
Geraldo Alckmin (PSDB): 8%
Ciro Gomes (PDT): 7%
Joaquim Barbosa (sem partido): 6%
Alvaro Dias (Podemos): 4%
Manuela D’Ávila (PCdoB): 1%
Guilherme Boulos (sem partido): 1%
Paulo Rabello de Castro (PSC): 1%
Em branco/nulo/nenhum: 14%
Não sabe: 3%


Cenário 3 (com Meirelles):

Lula (PT): 37%
Jair Bolsonaro (PSC): 19%
Geraldo Alckmin (PSDB): 9%
Ciro Gomes (PDT): 7%
Alvaro Dias (Podemos): 4%
Manuela D’Ávila (PCdoB): 2%
Henrique Meirelles (PSD): 1%
Paulo Rabello de Castro (PSC): 1%
Guilherme Boulos (sem partido): 1%
Em branco/nulo/nenhum: 14%
Não sabe: 5%


Cenário 4 (com Marina):

Lula (PT): 36%
Jair Bolsonaro (PSC): 18%
Marina Silva (Rede): 10%
Geraldo Alckmin (PSDB): 7%
Ciro Gomes (PDT): 7%
Alvaro Dias (Podemos): 4%
Manuela D’Ávila (PCdoB): 1%
Paulo Rabello de Castro (PSC): 1%
Guilherme Boulos (sem partido): 1%
Em branco/nulo/nenhum: 13%
Não sabe: 2%


Cenário 5 (com Doria e Marina)

Lula (PT): 36%
Jair Bolsonaro (PSC): 18%
Marina Silva (Rede): 11%
Ciro Gomes (PDT): 7%
João Doria (PSDB): 5%
Alvaro Dias (Podemos): 4%
Manuela D’Ávila (PCdoB): 1%
João Amoêdo (Partido Novo): 1%
Paulo Rabello de Castro (PSC): 1%
Guilherme Boulos (sem partido): 1%
Em branco/nulo/nenhum: 14%
Não sabe: 2%

Em todas essas simulações, teríamos um segundo turno polarizado entre os dois candidatos de tendências políticas opostas, já com intenções de votos se consolidando, sendo um de esquerda e o outro de direita. Porém, isto não traz uma total segurança para os setores moderados da sociedade e para os mercados. Mesmo com a recente filiação de Bolsonaro ao PSL do Luciano Bivar, a nota por eles assinada dia 05/01 não condiz com o histórico do pré-candidato.


É certo que, com o provável improvimento do recurso de Lula, teremos uma mudança radical do cenário eleitoral e que abriria oportunidades para outros candidatos mais próximos do centro, como Marina Silva, Geraldo Alckmin, Ciro Gomes ou Álvaro Dias a fim de que possam seguir para uma disputa de segundo turno com Bolsonaro. Neste caso, qualquer um deles captaria o apoio da esquerda ou de uma parte significativa dela. Principalmente se o(a) concorrente for Marina Silva ou Ciro Gomes.

Entretanto, considero o que vem dizendo o ex-presidente Fernando Henrique ultimamente manifestando uma visão bem realista sobre as eleições. Segundo ele, caso apareça um candidato à Presidência capaz de unir o centro, os tucanos devem apoiá-lo, mesmo que não pertença ao PSDB. E, embora várias lideranças do partido não estejam ainda compreendendo esse posicionamento de FHC, justamente por não alcançarem o seu pensamento de estadista, entendo que o momento deve ser o de união das forças de centro na política brasileira tal como se viu em 2016 no segundo turno das eleições para a Prefeitura do Rio de Janeiro, a qual ficou entre o conservador Marcello Crivella (PRB) e o esquerdista Marcello Freixo (PSOL).

Certo é que, na hipótese de Lula se tornar inelegível, mesmo vindo a ser preso antes de outubro, ainda assim ele poderá influenciar nas eleições levando o candidato de sua preferência para um segundo com Jair Bolsonaro. Com isto, teríamos novamente uma eleição ideologicamente polarizada e, independentemente do resultado no segundo turno, a tendência de radicalização persistiria pelos próximos quatro anos, o que considero péssimo.

Como já havia exposto FHC no dia 03/01, "nada há mais distante de sua ação e de seu pensamento do que enfraquecer a candidatura presidencial do PSDB". Sua ideia é a de não descartar o apoio a outro nome para evitar a fragmentação do centro, o que significa, antes de mais nada, ser realista. Senão vejamos o que ele disse: 

"Se houver alguém com mais capacidade de juntar, que prove essa capacidade e que tenha princípios próximos aos nossos (do PSDB), tem que apoiar essa pessoa".

A meu ver, partidos como o PSDB, o Podemos, a Rede Sustentabilidade e até o PDT precisam desde já começar a estabelecer pontes entre si. E, neste sentido, vejo que uma composição entre Geraldo Alckmin e Marina Silva seja uma boa alternativa assim como podem os tucanos não ter um nome na disputa presidencial, passando a apoiar uma chapa Marina Silva com Álvaro Dias, por exemplo, ao mesmo tempo em que o partido lançaria alguns dos seus candidatos próprios para concorrerem à governança dos estados e ao Senado com o apoio das outras legendas aliadas.

Enfim, este é um momento de estratégia na política nacional, não de vaidades. É hora dos grupos moderados se unirem em prol do desenvolvimento da democracia e de uma política equilibrada que sirva de alternativa tanto para o PT de Lula quanto para o direitista Jair Bolsonaro, consolidando votos do eleitorado para um terceiro nome de centro.

Ótima semana a todos! 


OBS: Imagem acima extraída do Instituto FHC para divulgação.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

A percepção dos direitos em sociedades democráticas do século XXI



Por Yeda Crusius*

Avança o século XXI no tempo. Em breve, ingressaremos na terceira década dentre as dez que formam um século. A mudança radical acontecida nas democracias do nosso tempo é fruto da tecnologia da internet. Em cada celular está o acesso instantâneo e sem fronteiras ao mundo, e cada celular permite o compartilhamento instantâneo do que uma câmera alcança. Daí a necessária compreensão e adaptação inclusive legal ao mundo do hoje, da hora, do instante. As redes semeiam a liberdade de expressão, de opinião, mas lá do fundo emerge pelas redes o que é da própria natureza humana: do amor ao ódio, tudo é permitido. Só que não. Nem tudo pode ser permitido. Há limites necessários para que resulte para a convivência social em tempos de liberdade o seu padrão civilizatório, contrapondo-se à barbárie. No campo das leis, esses limites. Leis são feitas por maioria, e por vezes por consenso.

Nesse sentido, por acordo entre todos os partidos, pude relatar e ver aprovado o projeto de lei da Deputada Luizianne Lins que estende à Polícia Federal o poder de investigação do crime cometido via internet de propagação do ódio a mulheres, o crime de misoginia. Já que pelas redes esse crime ultrapassa qualquer fronteira, até a “nuvem” (cloud), cabe incorporar a investigação que é feita pelas polícias estaduais até a Política Federal, que já cuida, por acordo entre países, de crimes como o financeiro e o contrabando de armas e drogas – além-fronteiras. São muitos os projetos de lei que tratam de assuntos deste século e é preciso selecioná-los para que avance a regulação do que é novo. Este é um dos objetivos da Frente Parlamentar de Prevenção à Violência que constituímos no Congresso Nacional este ano, e que já realizou 2 de suas 10 audiências públicas previstas, até que se tenha o Plano Nacional de Prevenção à Violência que ofereceremos ao Executivo Federal com força de lei.

Muito mais precisamos dedicar para compreendermos a sociedade da era da internet, e que tem invertido, por uma natureza de exclusão de uns em detrimento de outros, os avanços que foram conquistados após a II Grande Guerra: a grande batalha de buscar a inclusão de todos a um mundo de direitos. No dia 10 de dezembro se celebra o Dia Mundial dos Direitos Humanos, que tem ONU o seu maior observatório. Quando falamos em direitos humanos se colocam como que em guerra dois grupos: o que se considera monopolista de sua defesa, e o outro grupo que é pelo primeiro excluído da defesa desse bem comum. Quando a defesa é ideológica, a exclusão decorre, e o conflito se abre. Péssimo caminho.

Para entender melhor o que está acontecendo, busquem ler o que Fernando Schüler escreveu no caderno Ilustríssima da Folha de São Paulo do último domingo, dia 11, “O mal-estar da democracia. Identidade, conservadorismo, e os limites da política”. No jornal – como é de seu costume, a manchete “Obsessão com identidade e histeria conservadora desafia democracia” muda o título dado pelo autor, praticando aquilo para o que o artigo chama a atenção. Fico com o título original. Schüler foi meu Secretário de Justiça, inovando em projetos que respeitavam direitos humanos, e através das políticas públicas que criamos e aplicamos, os tornaram eficazes na prática, e não no discurso. Com seu Socioeducativo, para os jovens egressos da Fase, Schüler produziu o programa de melhores resultados no mundo. Quem o diz não somos nós, nosso governo, incompreendido à época, e sim especialistas de todos os matizes partidários. Que bom, já que se mostra que é possível ter déficit zero como instrumento que produza melhorias sociais. Bom manter esse padrão. O artigo mostra como.


(*) Presidente do PSDB-Mulher, Yeda Crusius é economista e deputada federal pelo PSDB-RS em seu quarto mandato. Já ocupou os cargos de Ministra do Planejamento e Governadora do Rio Grande do Sul.

OBS: Artigo extraído de http://www.psdb.org.br/acompanhe/artigos/percepcao-dos-direitos-em-sociedades-democraticas-seculo-xxi-por-yeda-crusius/

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O espírito de Natal do capitalismo




Por Sabrina Marcelino

Às vésperas desse Natal, fui a um shopping. Como sempre, cheguei antes das pessoas com quem tinha marcado. Impaciente, fui até o banheiro. Na porta do banheiro, uma senhorinha terceirizada da limpeza me olhava. Quando ficamos só eu e ela no banheiro ela veio na minha direção e me disse: “Você já está indo embora?“. Achando estranho, respondi que tinha acabado de chegar. Ela então falando muito baixo e rápido: “É que eu queria te pedir um favor“. E me pediu para trocar um panetone na promoção do shopping. Disse que me levava até o lugar, que era só juntar 400 reais em notas de compras e trocar por um panetone, mas ela não podia fazer isso porque trabalhava lá.

Arrancou um bolinho amassado de notinhas fiscais do uniforme e me levou até o elevador de serviço. Tentei puxar algum assunto e ela não respondia, apertava impaciente o botão do elevador e olhava para todos os lados como quem estava nervosa e com medo de ser vista. Apontou para o ponto de troca e quando eu ia comentar mais alguma coisa ela já tinha virado as costas e saído andando disfarçando.

Peguei a fila um pouco chocada – era só um panetone Bauducco, mesmo que fosse caro não parecia nada demais, desses que as pessoas ganham junto com cestas no final do ano. Mas já me bateu o ódio de saber que nada no capitalismo é psra todo mundo. O shopping distribui panetones simples pra pessoas que nem esperavam ganhar nada, só são avisadas em alguma loja cara que com os R$ 400  que gastaram podem ganhar um panetone. Eu mesma nunca gastaria R$ 400  num shopping acho, aliás, ainda é um mistério para minha cabeça como que tem gente que faz compras de verdade em shopping, se existem lugares bem mais baratos.

Chegou minha vez e entreguei o bolinho de papel para a atendente, que fez um cadastro meu (claro, como tudo no capitalismo, o negócio não é nem só uma promoção para aumentar as vendas – quem se sente estimulado a gastar R$ 400 só pra ganhar um panetone Bauduco? -, é para aumentar o banco de dados de contatos do shopping para futura publicidade). A moça contava as notinhas quando tirou uma e disse: “Senhora, essa nota não é daqui“. Foi aí que percebi que provavelmente a senhorinha só tinha juntado notinhas que achou limpando o shopping, quem sabe no lixo, observando as pessoas que saíam das lojas.

Ao final da contagem a atendente disse de novo: “Está faltando R$ 2 “. Não aguentei, repeti chocada: “Está faltando R$ 2 de R$ 400? Se eu pagasse o estacionamento desse shopping já ia dar esse valor, vou ter que pegar a fila toda de novo depois de comprar sei lá, uma casquinha?” E a atendente só deu de ombros porque realmente não podia fazer nada. O capitalismo é assim também, toda essa compartimentalização alienante do trabalho para tirar qualquer poder de decisão do trabalhador sobre seu próprio trabalho, enquanto o consumidor só poderia dirigir a raiva a alguém que não pode fazer nada. Já ia quase saindo quando um homem do meu lado tirou uma notinha do bolo dele e disse: “Ah, no meu está sobrando R$ 3, toma pra completar o seu“. Foi uma gentileza qualquer. Agradeci, entreguei a última e triunfante notinha e recebi o panetone depois de mais ou menos meia hora de história.

Tentei voltar pelo elevador de serviço, onde mais um terceirizado esperava. Perguntei se o elevador ia subir ou descer e ele me olhou espantado, como quem não entendeu porque eu estava ali ou quem não está acostumado a ser percebido, e não respondeu. Decidi descer de escada rolante até o banheiro onde tinha encontrado a senhora. No caminho, passei por ela e satisfeita estendi o panetone. Para minha surpresa, ela passou reto, fingindo que não me viu, e foi até o banheiro. No banheiro ela finalmente parou de me ignorar, pegou o panetone muito feliz e disse “Deus te abençoe!“. Virou e saiu andando antes que fosse vista falando comigo.

Terrível. Saber que certamente ela seria demitida se alguém percebesse qualquer parte daquela movimentação, mesmo uma simples conversa entre a “cliente” e a funcionária da limpeza. Um panetone, um simples panetone que muita gente ganha do serviço e que os clientes nem queriam muito. Quem sabe não vai fazer o Natal feliz na casa dela, quem sabe ela não deu de presente para alguém que gosta muito. Quem sabe ela já não devia estar aposentada. Mas o certo é que ela quis arriscar muito pelo panetone. Eu mesma nem teria coragem de pedir isso para alguém, só um panetone não ia me fazer falar com um estranho. Por mais que eu não fosse o público alvo da promoção, eu também não ligava para o panetone.

Tudo aquilo me embrulhou o estômago e me peguei pensando de novo no motivo pelo qual a gente luta. Por que é que as pessoas acham normal um mundo desses e loucura é falar de revolução? Teorizamos refeitórios públicos, lavanderias públicas, creches públicas, hospitais, escolas, uma economia planificada em oposição à anarquia do livre mercado, pleno emprego para ninguém mais passar por uma humilhação sequer. Tem gente que só quer um simples panetone e é bombardeada pelo Luciano Huck num sábado à tarde proclamando a beleza do Natal por ser essa época de caridade. Mas é o socialismo que é a tal da “utopia”. Se Huck um dia tivesse que usar o SUS e visse gente chegando esfaqueada e escoltada pela PM, quem sabe deixava de ser o playboy imbecil que largou a São Francisco porque ganhou um programa de TV na Globo, com os contatinhos certos.

São 100 anos desde a Revolução Russa. Os primeiros passos foram dados. Outubro criou creches, ampliou o número de escolas, deu o direito até à cultura aos trabalhadores, multiplicando teatros e óperas públicas. A miséria era maior que os planos bolcheviques previram, a guerra na Europa e as guerras contrarrevolucionárias foram duras. Mas nada é mais duro que o capitalismo, onde a miséria faz parte da roda da produção.

Não sei vocês, mas cada gesto de gentileza das pessoas, daqueles que quem faz não ganha nada, reforça a chama da esperança revolucionária. Não somos naturalmente ruins e egoístas, somos resultado de um emaranhado complicado de relações sociais. Só falta mesmo uma faísca de consciência, porque somos a esmagadora maioria e temos o controle do funcionamento do mundo em nossas mãos.

Que esse Natal seja muito vermelho, que anuncie um ano de muitas lutas e greves e que o coração de vocês também tenha certeza de que não há sentido algum senão em viver pela construção de outra realidade.


OBS: Artigo originalmente publicado dia 24/12/2017 em https://www.pstu.org.br/o-espirito-de-natal-do-capitalismo/

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

"O tempo que estava vivendo o meu sonho, nem vi passar"

                              



Elidia Rosa

Abrindo a obra teatral de Shakespeare, 'Sonho de uma noite de verão', peça clássica do bardo inglês, há uma fala, iniciando toda trama, que veio a calhar enquanto pensava o que aqui escrevo:

-  Mergulharão depressa quatro dias na negra noite; quatro noites, presto, farão escoar o tempo como em sonhos. (1)

Um sonho, é muitas vezes a mistura de eventos, passados e futuros, mediante o conteúdo dos pensamentos, manifestos de forma literal, com significado no conteúdo latente. Máscaras "protetivas" são muitas vezes vistas e rostos sem nome muitas vezes aparecem.

Freud chamou de "conteúdo manifesto" o que é lembrado de um sonho. Mas é do pensamento do sonho e não do conteúdo manifesto que depreendemos seu sentido. Os sonhos já eram objeto de estudo desde a antiguidade. A pesquisa psicanalítica inovou ao investigar as relações entre conteúdo manifesto e pensamentos oníricos latentes. Os pensamentos do sonho equivalem aos processos inconscientes. O método psicanalítico de interpretação dos sonhos requer, em primeiro lugar, as associações daquele que sonhou. Esse método investiga os processos pelos quais os pensamentos do sonho se transformaram em conteúdos manifestos do sonho. (2)

Nesse sentido, há obras como Cidadão Kane, o qual passa em torno de uma palavra dita em sonho pelo personagem {Rosebud}, que pelo seu peso de memórias, é simbolizado de forma mais simplificada, pelo sentido que carregava em seu significado.

Mas não desejo falar de teorias, apenas apresentar algumas considerações a respeito. Faltariam aqui ainda considerações no campo da neurociência, porém, é sobre a questão cronológica do sonho que queria deter-me um pouco.

Em um sonho, o tempo e o lugar é que menos interessa. As pessoas, do mundo dos vivos e dos mortos podem conviver normalmente, e do nada estarão navegando em um barco pirata, num mar cheio de ondas, depois de uma café em algum bistrô.

Há tempos, em que nossa existência, corre como no sonho, e se torna um borrão de vivências. Não gosto de dar exemplo pessoais, mas nesse caso, talvez um texto confessional, cabe. 

2017 foi um ano que "não vi passar", tamanhas experiências as quais me subjetivaram e deixaram marcas existenciais modificadoras de curso de vida, e confesso, assim como na peça shakesperiana, foi quase tudo uma questão de mudança de quatro luas.

Dias de pouco sono entremeados de longos períodos sonolentos. Freud explica? Não muito (risos). Talvez.

Acordava com o sentimento de que era uma mistura de eventos, e pessoas, e transitoriedades, e me procurava no "sonho vivo".

Perder-se de si em um sonho, é fácil, e as quedas são assustadoras. Quem nunca sentou depressa na cama, olhos arregalados, despencando de abismos oníricos?

Ainda talvez, estivesse rindo feliz, como naquele outro ano em que tudo era realização, e felicidade. Que espaço havia para ser triste? Nenhum!! Sonhar acordado era obrigação superficial, não força do pensamento.

É preciso dar espaço às dores, é preciso caminhar no frio para ter depois o prazer da caneca quente  sob as mãos. É preciso navegar mares "nunca dantes navegados", águas escuras e sombrias (pesadelo?) para então despertar.

Depois do Despertar, se volta a sonhar, agora de olhos fechados. 

E nesse sentido, não poderia deixar de evocar mais um grande mestre do "pensar o sonhar", que contrapõe Freud (risos):

Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro, desperta.





(1) Shakespeare, W. - Sonho de uma Noite de verão, 1590 (aproximadamente) 

 (2)  Freud, S. (1900a/1990). A Interpretação dos Sonhos. Sigmund Freud. Obras Completas. 

domingo, 31 de dezembro de 2017

ANO NOVO, VIDA NOVA



Por Frei Betto*

Estamos à porta de 2018. E o que fizemos de nós mesmos em 2017?

Há em nós abissal distância entre o que somos e queremos ser. Um apetite de Absoluto e a consciência aguda de nossa finitude. Olhamos para trás: a infância que resta na memória com sabor de paraíso perdido; a adolescência tecida em sonhos e utopias; os propósitos altruístas.

Hoje, o salário apertado num país tão caro; os filhos, sem projeto, apegados à casa e ao consumismo; os apetrechos eletrônicos que perenizam a criança que ainda resta em nós.

Em volta, a violência da paisagem urbana e nossa dificuldade de conectar efeitos e causas. Como se os infratores fossem cogumelos espontâneos, e não frutos do darwinismo econômico que segrega a maioria pobre e favorece a minoria abastada. O mesmo executivo que teme assalto e brada contra bandidos, abastece o crime consumindo drogas.

Ano novo. Vida nova? Depende. Podemos continuar a nos empanturrar de carnes e doces, encharcados em bebidas alcoólicas, como se a alegria saísse do forno e a felicidade viesse engarrafada. Ou a opção de um momento de silêncio, um gesto litúrgico, uma oração, a efusão de espíritos em abraços afetuosos.

No fundo da garganta, um travo. Vontade de remar contra a corrente e, enquanto tantos celebram a pós-modernidade, pedir colo a Deus e resgatar boas coisas: uma oração em família, a leitura espiritual, a solidão orante, o gesto solidário que ameniza a dor de um enfermo.

Reencontrar, no ano que se inicia, a própria humanidade. Despir-nos do lobo voraz que, na arena competitiva do mercado, nos faz estranhos a nós mesmos. Por que acelerar tanto, se temos que parar no sinal vermelho? Por que tanta dependência do celular e dificuldade de dialogar olho no olho?

Ano novo de eleições. Olhemos o país. As obras que beneficiam empreiteiras trazem proveito à maioria da população? Melhoram o transporte público, o serviço de saúde, a rede educacional? Nosso bairro tem um bom sistema sanitário, as ruas são limpas, existem áreas de lazer? Participamos do debate sobre a reforma da Previdência? Os políticos em quem votamos tiveram desempenho satisfatório? Prestaram contas do mandato?

Em política, tolerância é cumplicidade com maracutaias. Voto é delegação e, na verdadeira democracia, governa o povo por meio de seus representantes e de mobilizações diretas junto ao poder público. Quanto mais cidadania, mais democracia.

Ano de nova qualidade de vida. De menos ansiedade e mais profundidade. Aceitar a proposta de Jesus a Nicodemos: nascer de novo. Mergulhar em si, abrir espaço à presença do Inefável. Braços e corações abertos também ao semelhante. Recriar-se e apropriar-se da realidade circundante, livre da pasteurização que nos massifica na mediocridade bovina de quem rumina hábitos mesquinhos, como se a vida fosse uma janela da qual contemplamos, noite após noite, a realidade desfilar nos ilusórios devaneios de uma telenovela.

Feliz homem novo. Feliz mulher nova.


*Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais

OBS: Créditos autorais da imagem atribuídos à Rose Brasil/Agência Brasil, sendo o texto extraído do blogue do teólogo Leonardo Boff, conforme consta em https://leonardoboff.wordpress.com/2017/12/30/frei-betto-ano-novo-vida-nova/

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Nudez e vergonha do corpo



Por Arthur Virmond de Lacerda Neto

e-mail: arthurlacerda@onda.com.br


Por que o brasileiro encobre certas partes do seu corpo nas praias? Décadas atrás, havia traje de banho: as pessoas banhavam-se no mar vestidas, com trajes próprios, que, nos homens e nas mulheres, encobriam-lhes o peito e a metade superior das coxas. Depois, os homens descobriram o tórax e as mulheres adotaram o “maillot”.  A seguir, o calção de banho masculino reduziu-se a as mulheres adotaram o biquini, em que se lhes ocultam as mamas e o púbis. Surgiram, a seguir, a sunga, o “fio dental” (que seria melhor designado por fio de nádegas) e a porção superior do biquíni reduziu-se drasticamente. Hoje, é mínima a parcela do corpo humano que a moral convencional obriga a encobrir, nas praias.
As mamas e a genitália feminina são, ainda, ocultas por indumentos mínimos, se é que se pode chamá-los de roupas. Na verdade, não o são; não são trajes de banho. São a expressão da mentalidade do brasileiro, segundo a qual é moralmente necessário, por decência, por pudor, por “uma questão de ética” e de moralidade, que se velem, minimamente que seja, as mamas e a genitália (as nádegas acham-se totalmente expostas, há décadas). Da mesma forma, o homem deve encobrir as nádegas, o pênis e o escroto.
Qual a racionalidade da ocultação destas partes? Nenhuma. Assim como, dantes, nenhuma imoralidade havia na exposição do peito dos homens e na do abdômen das mulheres, nenhuma indecência há em as mulheres andarem de mamas ao vento e os homens de pênis solto.
O corpo é natural (ou não?); ele não é imoral (ou é?).  Nenhuma das suas partes deve ser motivo de vergonha (ou deve?); não há regiões do corpo mais decentes e outras menos (ou há?). “Naturalia non turpia”, diziam os antigos: o natural não envergonha, não deve envergonhar, não há porque envergonhar.
Qual é a justificativa racional, defensável, coerente, de se obrigar moralmente ao velamento de certas partes do corpo? Nenhuma. Por que o pênis deve ser ocultado? Por que as mamas devem ser encobertas? Por nenhum motivo; apenas e exclusivamente por causa da rotina mental, do costume, da imitação do uso, da repetição, do modelo mental a que as pessoas são condicionadas, a que aderem e que se perpetua por inércia.
Ninguém pense que a exposição da genitália é excitante. Quem nunca viu, observa, na primeira vez, por curiosidade; na segunda, ainda observa, ainda por curiosidade; na terceira, já viu e, mais do mesmo, a repetição enfara e desaparece a curiosidade e, com ela, o olhar. Ademais, pode excitar mais o encobrimento do que a exposição: imagina-se o que se não vê; o que se vê pode decepcionar…
E se a exposição da totalidade do corpo fosse excitante? Que mal haveria em que o fosse? Há mal na libido, na sexualidade, na excitação, na atração física, no interesse? Acaso nada disto existe? Acaso devemos fingir que nada disto existe? E acaso a excitação limita-se às partes encobertas? Só há excitação mercê da observação do que se oculta ou o restante corpo também atrai? E porventura, nas praias, as pessoas sentem-se todas e sempre atraídas e  excitadas com a observação dos corpos quase nus?
A experiência demonstra que a visão do nu completo não é excitante após a segunda ou  a terceira vezes:  o que já se viu torna-se sensaborão, perde a graça. Os brasileiros pensam em contrário, acreditam que o nudismo excita por quase total falta de experiência de observação da nudez total.
Há, no Brasil, raras praias de nudismo, isoladas, quase como se fossem campos de concentração ou lazaretos, cujos freqüentadores devem ser segregados. No Brasil, apesar do calor (Rio de Janeiro, quarenta graus!), ai da mulher que andar de mamas ao vento no areal da praia! Toda a gente olhá-la-a, em regra por curiosidade (nunca viram cousa tal) e haverá policial que intervenha para coibir o atentado ao pudor, duplo índice do retrógrado da mentalidade do brasileiro, para quem o descobrimento das mamas é moralmente condenado e atentatório aos bons costumes. Para mim (brasileiro) é ridículo, é primário que os bons costumes envolvam, ainda, o encobrimento de certas partes do corpo; é idiota que se censurem as mulheres por exporem as suas mamas; é sem sentido que os homens devam ocultar o seu órgão de emissão da urina.
Que diferença há entre tapar-se o bico da mama das mulheres e não o fazer? Uma tira estreita de pano amarrada nas costas; outra tira, mais estreita, sobre os pentelhos,  resguardam a moral e a decência? A sua ausência é atentatória do pudor e dos bons costumes? Pense com seriedade, reflita por um minuto, fora da rotina mental a que está condicionado: que diferença faz? Por que tais trapinhos seriam sinônimos de pudor? Por que a sua ausência é despudorada? O mesmo em relação à genitália masculina. Em que há indecência, imoralidade, atentado ao pudor, ofensa na exposição do que é natural?
Por que nas praias de nudismo a decência é diferente, a pudicícia prescinde de tapa-sexos, o corpo exposto é decente? Em que difere a moralidade do nudista da do vestido? Em que o primeiro encara o corpo com  naturalidade e o segundo associa-o à sexualidade. Erotiza-0 não  quem o expõe, senão quem o oculta: quem o expõe, fá-lo desinibidamente, sem lhe atribuir conotação sensual; atribui-lhe sensualidade quem oculta certas partes, a que atribui papel lúbrico. O nudista não pensa só em sexo; o ocultador, sim. Para o nudista, o corpo é apenas o corpo; para o ocultador, certas das suas partes são motivo de vergonha, a sexualidade é motivo de vergonha.
No areal das praias do Rio de Janeiro, se uma mulher retirar o  tapa-sexo superior, haverá quem chame a polícia, para reprimi-la por ato de despudor, como ocorreu com uma estrangeira, acostumada, no seu país, à exposição das mamas e que se perplexou com a atitude do brasileiro, que admite a nudez integral no carnaval, masculina e feminina, que suporta temperaturas de quarenta graus e para quem os bons costumes dependem de se encobrir o bico do seio.
Na Alemanha, pratica-se o nudismo integral há cerca de 120 anos. A nudez total integra os costumes alemães. Anda-se nu, em pelo, em público, nas áreas verdes de toda a Alemanha, sem que tal seja motivo de escândalo nem de atentado à moral e aos bons costumes. Para o alemão, o corpo não é motivo de vergonha nem a nudez é sexual: é natural. Na França, na Espanha, em Portugal (em parte), na Itália (em parte), na Alemanha, na Inglaterra,  na Grécia, na Croácia, na Dinamarca, na Finlândia, na Noruega, na Suécia, na Califórnia e alhures, as mulheres apresentam-se, nas praias, de mamas ao vento e ninguém se escandaliza com isto nem se põe a mirá-las como objetos sexuais, exceto os brasileiros, bisonhos em tais costumes de liberdade.
Na Europa pratica-se o nudismo doméstico: todos nus, pai, mãe, filhos; 42% dos franceses o fazem. Na Espanha, há 230 praias de nudismo. Na Alemanha, há mais de uma centena de campos e praias de nudismo; há dezenas deles na Inglaterra e na França. Nos E.U.A.,  passa de 200 o número de centros de bem-estar (“resorts”) nudistas.
Na Universidade de Berkeley (Califórnia), é tradicional a corrida dos nus, em que estudantes correm pelos corredores dela, nus, rapazes e moças, alacremente. Em Roskilde (Dinamarca), realiza-se, desde 1971 festival musical, em que há uma corrida de nus; também em Aahrus, na Suécia, em festival popular, correm os nus. Nas Filipinas, a fraternidade Alpha Pi Omega, presente na Universidade de Manilha, promove, anualmente, a corrida e passeio dos seus integrantes, nus. Em Londres, os estudantes das altas escolas promovem o banho no Tâmisa, nus. Na Califórnia, há décadas há escolas nudistas: todos nus, alunos e professores.
Nestes países, quem quiser, é livre de andar nu na rua, no mercado, na praça, no metrô. E as pessoas fazem-no. Reconhece-se: 1- a ausência de obrigatoriedade de vestir-se; 2- a liberdade de nudez, como soberania sobre o próprio corpo.
Liberdade de nudez, de andar nu, de não se vestir; direito de não encobrir o próprio corpo. É liberdade que as populações européias reconhecem e praticam e que o brasileiro ainda sequer concebe.
“Mas o que é que uma criança vai pensar disto?”. É exclamação (com forma de interrogação e intuito de censura) típica de brasileiros, que perguntam o mesmo em relação às manifestações homoafetivas. Perante dois homens de mãos dadas, o brasileiro convencional exclama: “O que vai se dizer para uma criança, disto?” (diga-lhe que há homens que amam homens). Perante a possibilidade da nudez total na praia ou na cidade, o brasileiro convencional preocupar-se-á (sincera e também hipocritamente) com a formação das crianças e manifestará escândalo (digo hipocritamente porque a maioria dos pais jovens negligencia a formação dos seus filhos, papel que atribui à escola, como se o professor devesse fazer de pai dos filhos alheios. Outros são hipócritas porque usam a saúde moral das crianças como pretexto com que dissimulam o seu moralismo).
Se uma criança, na praia, na cidade, no campo de nudismo, vir o pênis, o escroto, os pentenhos, as nádegas, a vagina, as mamas, terá visto o corpo como ele é  e terá aprendido que tudo isto integra os seres humanos (inclusivamente ele próprio) e que  nada disto merece, razoável nem justificadamente, ocultação como critério de moralidade.
“Se eu ficar nu, toda a gente vai me olhar”. Muita gente olhá-lo-a por curiosidade, por não estar acostumada com a nudez. A nudez individual, isolada, é atrativa; deixará de sê-lo se, a pouco e pouco, as pessoas exercerem a sua liberdade e tornar-se, gradualmente, costumeira a exposição, a começar pelas praias.
Na praias francesas, portuguesas (em parte), italianas (em parte), espanholas, gregas, alemãs, francesas, croatas, e mais na Austria, na Suécia, na Dinamarca, na Finlândia, na Noruega, na Inglaterra, na Califórnia, na cidade de Nova Iorque e em outras,  as mulheres andam de mamas ao vento e ninguém lhes liga. Liga-lhes o brasileiro que nunca viu tal: observa-as, por curiosidade, uma vez; outra vez, ainda com curiosidade. Da terceira por diante, já viu. Na quarta, é mais do mesmo. Assim é na Europa há décadas: o europeu abandonou o preconceito de que o tapa-sexo é indispensável à moralidade, aos bons costumes, à salvaguarda da família e dos mais valores da civilização ocidental, de deus e da evitação do pecado.
Neste momento, a mentalidade dos brasileiros, quanto à nudez, é demasiadamente conservadora, convencional, rotineira, mesmo arcaica. Já foi pior, quando o cristianismo, religião repressora por excelência da sexualidade, preponderava com o seu etosEm décadas pretéritas inexistia o banho de mar: que imoralidade uma mulher expor o tornozelo. O tornozelo! Poderá piorar, na medida em que se propagarem as formas evangélicas de cristianismo, atualmente em avanço no Brasil. Manter-se-á estacionária enquanto não se despertar a atenção do público em relação a tal matéria: hostilizam a nudez as gerações supra-50, cinquentagenários, sexagenários, septuagenários, octogenários, gente formada em décadas passadas, em modelos mentais de acentuada austeridade e repressão de costumes. Gente velha, de mentalidade arcaica. Também a hostilizam os religiosos de todas as idades, para quem toda nudez deve ser negada. Gente de mente fechada, submetida aos mandamentos bíblicos.
O preconceito contra a nudez, a vergonha do corpo, o automatismo do seu encobrimento constituem, propriamente, heranças católicas: padrões de pensamento, de comportamento, de reação emocional, em suma,  mentalidades e costumes que se incutiu no brasileiro mercê da pregação insistente, reiterada, efetuada pelo clero católico e, agora, pelo evangélico, com aplicação de dizeres da Bíblia.
Como sempre, a Bíblia justifica o arcaísmo de comportamentos e a negação das liberdades. Daí, a existência, em décadas pretéritas, do padrão católico de vestimenta feminina e o padrão atual de vestimenta evangélica, em Curitiba, pelo menos, em que as crentes (normalmente da classe C) usam cabelos compridos, presos na nuca, a que não aplicam shampoos nem condicionadores (tampouco se pintam); vestem camisa de mangas compridas ou blusa; saia de brim azul ou semelhante, até a altura dos joelhos; calçam sandálias. Vista uma mulher trajada por esta forma, como forma de identificação de pertencimento à sua classe social, identifica-se nela mulher evangélica.
Também os jesuítas concorreram para a formação da mentalidade anti-nudez. Nos seus manuais, no século XVIII ensinava-se, nos colégios, a trocar de camisa sem se olhar para a própria genitália e de forma a que nenhuma parte do corpo se expusesse, mesmo quando o aluno estivesse sozinho: a nudez torna-se vergonhosa mesmo perante o próprio indivíduo, independentemente de olhares alheios.
Em 1920, José Tomaz de Almeida, na revista Ave Maria, publicada em São Paulo, escrevia: “escravizar-se uma senhora digna ou uma donzela, à moda indecorsa, apresentando-se de pernas expostas, tão curtas usam as saias, de braços nus, com colo e costas à mostra, provocando maus sentimentos, excitando pecados, é contra a moral, é tudo que pode haver de anti-cristão, de condenável, de verdadeiro paganismo!”
            Adiante: “O corpo da mulher deve andar velado, pois ele é o templo vivo do santuário da divindade. O dernier cri do nu, como a desfaçates da impudica e leviana, avilta e deshonra a virtude nas suas exibições”.
            “O pudor, a modéstia e a timidez, são o encanto da mulher.”
            “Encompridae as saias curtas, que exibem as pernas; levantae os decotes que expõem vosso corpo; baixai as mangas que descobrem os braços; sede discretas no trajar para não vos confundir com as heroínas do vício”.
            Por sua vez, o padre Ascânio da Cunha Brandão, na mesma revista Ave Maria, em 1936, verberava os costumes de liberdade dos alemães:
Aí está por exemplo a Alemanha, mandando buscar nas ruínas da Grécia pagã o fogo sagrado para a suas Olimpíadas e prestando à carne e aos deuses pagãos um culto que excede as raias da estupidez e do ridículo.
            Os deuses! A Grécia! As Olimpíadas! O nudismo! O atletismo!”
Adiante: “Não é condenável, por exemplo, este espetáculo de vergonha e despudor de nossas praias de banho? Este nudismo escandaloso está reclamando uma medida enérgica. É incrível!”.
            Em 1944, o mesmo padre, em outra colaboração com a revista, asseverava:  “Sim, a Igreja, ou melhor, a moral católica reprova como ocasião de pecado e de escândalo, o nudismo exagerado nas praias e o banho em comum na promiscuidade dos sexos”. Pretendia ele que as mulheres usassem maiô (peça de vestuário que lhes velava o tronco, das mamas à virilha) e que os homens e as mulheres freqüentassem o areal da praia separadamente, à maneira do regime de segregação da Africa do Sul, em que se isolavam os brancos dos negros.
O etos católico de velamento do corpo perpetuou-se, como dado da formação dos costumes brasileiros; o que há de mais imbecil, mais retrógrado, mais tacanho, mais obtuso, mais burro da igreja católica inveterou-se nos costumes do brasileiro. As pessoas já não se lembram de pregações deste tipo, porém praticam os comportamentos correspondentes porque se lhes criou uma verdade e uma ética, que considero verdadeira porcaria mental e moral.
O exercício da nudez e o uso da vestimenta compreendem formas de liberdade. Na Alemanha e em outros países europeus, há a liberdade de vestir-se e a de não o fazer. Veste-se quem o quer fazer e anda nu quem entende fazê-lo: isto é liberdade.  Não significa que os alemães exibam-se preferencial ou corriqueiramente desnudos, porém a desnudez não os escandaliza. Não é que prevalece no Brasil.
A moralidade liga-se aos valores, ao senso de verdade, de solidariedade, de probidade, à disciplina pessoal, à generosidade, à paciência, à compreensão, à empatia, à perseverança, ao estudo, ao cultivo de si próprio, à aquisição da cultura, aos bons modos, à colaboração. A moralidade não se prende à repressão da sexualidade (até certo ponto) nem ao velamento de certas partes do corpo, tampouco à obediência à textos da Bíblia nem a padrões de comportamento baldos de sentido.
Há moralidade e há moralismo. Aquela envolve a liberdade pessoal e de costumes; este compreende, também, padrões de comportamento liberticidas e irracionais. É o caso, a segunda, do brasileiro, em relação à nudez. Oxalá evoluam eles do moralismo para a moralidade; da censura que praticam por rotina para a liberdade de que aprendam a usufruir.
Na Inglaterra, Alexandre Sutherland Neill (1883-1973) criou a escola Summerhill, em que os próprios alunos criavam as regras porque nela se regiam (auto-regulação). Laico, o seu ensino era destituído de inculcação religiosa (pelo que os seus  alunos desenvolviam-se fora do conceito de pecado e do sentimento de culpa que ele origina) e fora da repressão da masturbação e da nudez, pelo que os seus alunos adquiriam a saúde psicológica de que tão freqüentemente eram privadas as crianças e os jovens educados com censura da sexualidade, em geral, e com obrigação de ocultarem o seu corpo.
A nudez, observava Neill, jamais deveria ser desencorajada. O bebê deveria ver seus pais despidos, desde o princípio”. Em Summerhill,  prevalecia “atitude absolutamente natural” (Liberdade sem medo, p. 213. São Paulo, Ibrasa, 1977), acerca da nudez, em resultado do que os seus alunos não desenvolviam curiosidade mórbida por corpos (femininos nem masculinos), não se tornavam mixoscopistas, não se envergonhavam diante do desnudamento alheio, não  se vexavam por serem vistos nus por outrem.
Um casal, pais de filhos crianças, adotou, com hábito, o desnudamento doméstico, ao que A. Neill observou à mãe: “A nudez no lar  é excelente e natural. Seus  filhos, mais tarde, evitarão muito o sexo doentio.  É improvável que um deles se torne um `voyeur´, pois que terão visto tudo quanto há para ver” (Liberdade sem excesso, p. 64. São Paulo, Ibrasa, 1976).
É hora de os brasileiros perceberem a falta de sentido da mentalidade anti-corpo; a ausência de inerência entre nudez e sexualidade, entre sexualidade e culpa, entre nudez e vergonha do corpo, entre velamento das mamas e do pênis e moralidade. É altura de os brasileiros descobrirem o direito à nudez natural, de manifestarem-se a respeito, por palavras e gestos.
Na prática, julgo que: 1) deve-se revogar o artigo 233 do Código Penal (ato obsceno); 2) autorizar-se a nudez total em todas as praias do Brasil. Quando menos, o monoquini; 3) autorizar-se que as mulheres possam expor as mamas em público, conforme, aliás, decisão do Tribunal de Justiça de SP, de 2015; 4) criar mais praias de nudismo; criar campos de nudismo.
Se gostou, divulgue esta idéia.

OBS: Texto extraído parcialmente do blogue do autor, com apenas uma das fotos, conforme se lê em https://arthurlacerda.wordpress.com/2016/01/01/nudez-e-vergonha-do-corpo-3/
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