domingo, 23 de abril de 2017

Indignação contra a chacina em Mato Grosso




Em meio à enxurrada de notícias sobre corrupção envolvendo as investigações da Lava Jato, pouco se tem falado acerca do mais recente massacre ocorrido nas áreas rurais brasileiras, sendo desta vez no estado de Mato Grosso. A este respeito, o bispo Dom Pedro Casaldáliga, morador de São Félix do Araguaia (MT), que participou, na década de 70 da criação da Comissão Pastoral da Terra, manifestou no feriado de Tiradentes a sua indignação no tocante à chacina da última quinta-feira (20/04), na Gleba Taquaruçu, município de Colniza, a qual deixou nove mortos. O religioso assinou uma nota que foi enviada pela Prelazia de São Félix do Araguaia, a qual compartilho a seguir:



EM MATO GROSSO O CAMPO JORRA SANGUE

A Prelazia de São Félix do Araguaia, em reunião com suas/seus agentes de pastoral, seu bispo dom Adriano Ciocca Vasino e o bispo emérito dom Pedro Casaldáliga, na cidade de São Félix do Araguaia - MT, manifesta sua dor, indignação e solidariedade com as famílias assassinadas na Gleba Taquaruçu, município de Colniza – MT, no dia 20 de abril.


Este massacre acontece num momento histórico de usurpação do poder político através de um golpe institucional, com avanços tão graves na perda de direitos fundamentais para o povo brasileiro que coloca o governo do atual presidente Temer numa posição de guerra contra os pobres, isso refletido de forma concreta nos projetos, como as Medidas Provisórias 215 e 759, que violam direitos dos povos do campo e comunidades tradicionais, como também no acirramento do cenário de violações contra as/os defensores de direitos humanos. Diversos políticos expõem abertamente seus discursos de ódio e incitação à violência contra as comunidades que lutam pelos seus direitos. Vivemos um clima de “Terra sem lei”, uma verdadeira guerra civil em nosso país.


Como consequência, o ano de 2016 foi o mais violento dos últimos 13 anos, apontando para uma perspectiva desoladora no campo. E esta situação de Colniza, onde assassinaram inclusive crianças, nos expõe diante dos objetivos de ruralistas que não temem nada para conseguir as terras que buscam.


As famílias de agricultores da Gleba Taquaruçu vêm sofrendo violência desde o ano de 2004. Neste período, em decisão judicial, a Cooperativa Agrícola Mista de Produção Roosevelt ganha reintegração de posse concedida pelo juiz de Direito da Comarca de Colniza, como anunciada na Nota da Comissão Pastoral da Terra, de 20 de abril deste ano. Em 2007, ao menos 10 trabalhadores foram vítimas de tortura e cárcere privado e, neste mesmo ano, três agricultores foram assassinados.


Como estão, neste momento, as famílias que vivem em Colniza? O município já foi considerado o mais violento do país. Sabemos que na região existem outros conflitos de extrema gravidade, como o da fazenda Magali, desde o ano 2000, e o conflito na Gleba Terra Roxa, desde o ano de 2004. A população teme que outros massacres possam acontecer.


Clamamos justiça e que os autores desses crimes sejam processados e punidos. A conseqüente impunidade no campo, fruto da omissão dos órgãos públicos, perpetua a violência.


Na semana em que lamentamos o massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido em 17 de abril de 1997, que vitimou 19 lutadoras e lutadores do povo, somos surpreendidos por outro massacre no campo, que quer amedrontar, calar as vozes e submeter a dignidade do povo brasileiro.


Temos a certeza que o massacre ocorrido jamais roubará os sonhos e as esperanças do povo. E jamais calará a voz das comunidades que lutam.


O sangue dos mártires será sempre semente de JUSTIÇA e VIDA!



OBS: Imagem acima MST/divulgação

segunda-feira, 17 de abril de 2017

As associações de moradores merecem um tratamento especial pela legislação brasileira




Considero uma pena a legislação pátria não dar às associações de moradores uma atenção especial. Pois, embora se tratem de pessoas jurídicas de direito privado, elas não deixam de ser entidades representativas das pessoas residentes numa determinada localidade, quer se trate de uma rua, um quarteirão, um bairro, uma vila, ou um distrito.

É verdade que o nosso Código Civil, em seus artigos 53 a 61, buscou assegurar um mínimo de direitos aos associados bem como garantir um processo minimamente democrático na eleição dos membros da diretoria em assembleia geral segundo previa inicialmente inciso I do art. 59, cuja redação foi logo alterada pela Lei n.º 11.127/2005. Só que, quando tratamos de uma entidade representativa dos moradores de uma localidade, há uma importante diferença em relação às demais associações civis.

Ora, jamais podemos esquecer de que a associação de moradores constitui um instrumento que interessa a todas as pessoas que vivem num bairro e que tem por objetivo reivindicar junto ao Poder Público (principalmente das prefeituras) questões de caráter coletivo de uma parcela da população da cidade como melhores condições de infraestrutura, serviços de transporte, segurança, lazer, educação, saúde, etc. Ou seja, não são apenas as pessoas associadas que possuem interesse nas suas ações, os quais são comuns também aos não associados residentes no lugar. 

Assim sendo, tanto o processo de criação de uma associação de moradores quanto a admissão de novos filiados e a eleição dos membros da diretoria precisam se distinguir das demais entidades da sociedade civil. Em outras palavras, considero que tudo precisa ser feito da maneira mais transparente e democrática possível, ampliando ao máximo as oportunidades de participação das pessoas interessadas da comunidade.

No que se refere à fundação de uma associação de moradores, não basta um grupo de pessoas do bairro se reunir num local para aprovar numa só data o estatuto e eleger uma diretoria junto com um conselho fiscal. Entendo ser preciso que os indivíduos interessados, ao formarem uma comissão, cumpram um cronograma legalmente estabelecido para a elaboração e a aprovação do estatuto através de duas reuniões abertas feitas no bairro. Somente num terceiro encontro é que os membros da diretoria e do conselho fiscal seriam eleitos.

Já a admissão dos associados (somente pessoas com residência na localidade abrangida) seria livre sem o estabelecimento de exigências que dificultem a filiação. Assim, bastaria ao interessado solicitar a sua inscrição e se dispor a cumprir com os deveres estatutários básicos de modo que a condição de membro da entidade não dependeria nem da Assembleia Geral ou da Diretoria, bastando viver no local.

Refletindo com mais profundidade sobre o assunto, creio que também faltou em nossa Carta Magna algum dispositivo específico sobre a organização dos moradores dentro dos municípios. E, por mais que a Constituição de 1988 seja criticada por haver se tornado prolixa, analítica e casuística, não consigo engolir como o constituinte deixou de lado algo tão importante para o desenvolvimento democrático da sociedade brasileira.

Pensando nisso, talvez seja oportuno pensarmos numa emenda constitucional que disponha sobre a estrutura e os direitos das associações de moradores perante os órgãos públicos. Aliás, deveria até ser assegurado ao líder comunitário a possibilidade de fazer uso da palavra nas sessões das Câmaras Municipais de suas respectivas cidades, o que daria uma maior representatividade a todos os bairros uma vez que não temos o voto distrital no Brasil.

Sendo assim, acredito que, com uma valorização legislativa das associações de moradores, as populações dos nossos municípios experimentarão uma melhor articulação com as suas instituições locais, porém uma inovação dessas irá depender do interesse político de nossos deputados e senadores em Brasilia. Mas, em que pese a inércia dos parlamentares e a falta de credibilidade do Congresso em razão das delações na Operação Lava Jato, ainda assim considero justo lutarmos pela causa em comento.


OBS: Ilustração acima extraída de http://www.bauru.sp.gov.br/sear/associacao_moradores.aspx

sábado, 15 de abril de 2017

A Lava Jato e a Páscoa brasileira




Incrível como que as notícias sobre a "Lista de Fachin", referente às delações dos executivos da empreiteira Odebrecht na Operação Lava Jato, têm tomado conta dos nossos telejornais. Se antigamente as reportagens desta época mostravam mais as procissões sacras pelas cidades e demais eventos da Semana Santa, eis que, em 2017, os acontecimentos da vida cultural e religiosa do povo brasileiro estão sendo tratados como algo secundário depois que toda a podridão de alguns depoimentos guardados em sigilo passou a ser exposta nos horários mais nobres da TV. 

Ao que parece, a Globo e outras emissoras estariam focalizando mais no assunto da corrupção do que os usuários das redes sociais onde vejo as postagens diversificando-se em que, por exemplo, muitos internautas preferem lembrar do martírio de Jesus, exibir fotos de suas viagens, comentar sobre piadas, etc. Daí fico a indagar se, nesses três anos de investigações (a Lava Jato iniciou-se em 17/03/2014), a população já não se sentiria agora saturada com tantas notícias ruins sendo continuamente vomitadas a ponto de muitos até trocarem de canal quando o apresentador William Bonner passa a falar das revelações dos depoimentos e das novas prisões.

Entretanto, por mais que a televisão possa estar potencializando um tipo de informação em detrimento das demais, tento ver algo de útil nisso tudo e estabelecer uma conexão da Lava Jato com a Páscoa, a qual muitos comemoram sem saber do que se trata. Pois, afinal, o significado cultural dessa época não tem a ver com a ingestão dos deliciosos chocolates ou menos ainda com a figura de um coelhinho que trás os ovos para a criançada na madrugada de sábado para domingo. Antes de mais nada, estamos falando de uma tradição de origem judaica e que foi re-significada pelo cristianismo em relação à morte de Jesus de Nazaré.

Como se sabe, o Pessach, que é a "Páscoa judaica", celebra a libertação dos hebreus da escravidão egípcia sob o comando de Moisés. De acordo com a tradição, cujo relato encontra-se muito bem narrado no segundo livro da Bíblia (Êxodo), a primeira festa dos israelitas teria ocorrido há mais de três mil anos, quando Deus enviou ao Egito dez "pragas" contra os opressores. Antes do décimo castigo, cada família hebreia foi instruída para que sacrificasse um cordeiro e molhasse os umbrais das portas de suas casas com o sangue do animal, a fim de que, quando o anjo passasse, os seus filhos mais velhos não fossem acometidos pela morte. Assim, depois que Deus feriu todos os primogênitos egípcios (desde as primeiras crias dos animais até os da família do Faraó), o rei, por temer a ira divina, concordou em liberar o povo de Israel para a adoração no deserto, o que levou a uma saída definitiva do país. Logo, como uma recordação desse evento mítico, ficou instituído para todas as gerações seguintes o sacrifício pascal.

Por sua vez, o Novo Testamento ensina que a ressurreição de Jesus, também celebrada pela Páscoa, seria o fundamento da fé cristã. Diz a primeira epístola de Pedro que Deus regenerou a humanidade para uma viva esperança pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos (1ª Pe 1:3). Com isso, os cristão são espiritualmente ressuscitados com Cristo a fim de que possam ter uma nova vida. Aliás, a este respeito, o apóstolo Paulo também escreveu dando as seguintes advertências à Igreja em Corinto:

"Livrem-se do fermento velho, para que sejam massa nova e sem fermento, como realmente são. Pois Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi sacrificado. Por isso, celebremos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da perversidade, mas com os pães sem fermento da sinceridade e da verdade." (1ª Co 5:7-8)

O que podemos entender acerca da Páscoa é que ela nos traz a ideia de renovação e aí, se pensarmos em política, isso diz muita coisa. Ou seja, vejo todos esses acontecimentos reveladores da Lava Jato como um convite para passarmos do velho para o novo, superando de vez esse nosso passado vergonhoso de uma escravizante corrupção para um relacionamento libertador entre o cidadão e o Poder Público.

Ora, quando falo em renovação, meus amigos, não me refiro apenas em mudarmos os nomes dos políticos, tipo colocar no Legislativo e no Executivo pessoas sem envolvimento com a Lava Jato apenas. Defendo é a eleição de homens e mulheres verdadeiramente íntegros, sem nenhuma vinculação com o "fermento antigo", ressaltando também a necessidade de não darmos mais um apoio aos candidatos que esteja condicionado a benefícios pessoais nos quais os políticos possam nos favorecer em troca. Pois é justamente isso que tanto enfraquece o mandato de um parlamentar vitorioso que, uma vez empossado, fica impossibilitado de lutar por propostas mais nobres porque se encontra comprometido a, por exemplo, empregar os seus principais colaboradores de campanha na ocupação dos cargos comissionados num governo.

Não podemos negar, queridos, que, assim como os políticos, a sociedade também se acha corrompida desde a sua base. Ontem mesmo a Globo mostrou o delator Henrique Valadares declarando que deu dinheiro a índios, policiais e sindicalistas por causa de obras feitas por sua empresa em Rondônia. Isto teria sido feito para evitar problemas na construção das hidrelétricas de Santo Antonio e Jirau. Segundo ele, os sindicalistas "cobravam pedágios mensais" à Odebrecht para "não apoiarem greves, atos de violência, esse tipo de coisa".

Sendo assim, há que se dar um novo significado à nossa Páscoa! Pois, se bem pensarmos, do que adianta assistirmos todos os anos aquelas procissões e encenações típicas que rememoram a morte de Cristo se nada de bom que as Escrituras ensinam é posto em prática pela nação?! Logo, considero até apropriado que possamos ver diante dos nossos olhos toda essa podridão agora para que amanhã sejamos capazes de estabelecer uma renovação do nosso pacto republicano de uma maneira consciente, madura e verdadeiramente arrependida dos pecados que são coletivamente cometidos até hoje.

Certamente que a Páscoa não é e nem será algo instantâneo na vida de uma pessoa ou de um povo. Ela inaugura um processo histórico dialético com seus avanços e recuos, tratando-se de uma marcha que termina por seguir em frente no passar das eras, acompanhando uma espiral evolutiva. Por isso, precisamos dessa passagem libertadora que nos conduza a uma nova política na qual os valores éticos possam prevalecer e haja uma maior transparência juntamente com a participação social dos cidadãos.

Para concluir, quero amanhã poder degustar, mesmo simbolicamente, o produto da foto ilustrativa lançado pela Casa de Chocolates Schimmelpfeng, o qual seria um ovo de chocolate no sabor "moroango", em referência ao sobrenome do magistrado que julga casos da Operação Lava Jato - o juiz Sérgio Moro. E embora a chocolateria não pretenda tomar partido de nenhuma questão ideológica nesse momento político do Brasil, mas tão somente prestar uma homenagem a um profissional que se tornou nacionalmente célebre pelo cumprimento de seu papel, é com muito gosto que dou significado a esse novo doce. Adoto-o, pois como um símbolo para a Passagem que necessitamos empreender em nossa caminhada histórica rumo a um desejado futuro que "mana leite e mel", quando o brasileiro finalmente poderá desfrutar de bons serviços prestados pelo Estado bem como orgulhar-se de seu país, além dos vitoriosos jogos da seleção de futebol.

Portanto, desejo uma feliz Páscoa a todos e viva Sérgio Moro.


OBSTexto publicado originalmente em meu blog pessoal (clique AQUI para acessar), sendo que a foto acima foi extraída de http://www.erickvidigal.com.br/empresa-lanca-ovo-de-pascoa-de-moroango-para-homenagear-juiz-da-operacao-lava-jato/

terça-feira, 11 de abril de 2017

O POETA

Por CÉU
(Do blogue Ausente do Céu)



O poeta gera e pare sonhos e fantasias, conta histórias
e vive memórias, incrível, que nem dele são
que se farão imaginação, demência ou verdade
vivendo dores pungentes e prantos alheios
trazendo, ao de cima, neste enleio e neste meio
um amor martírio, muita desilusão e mais as saudades.

E como se isso não bastasse, como se não fosse pouco
busca, indomável, nos sonhos dele, um rosto
que jamais encontrará, mas, só ele não vê isso
porque tem um pouco, um muito de louco
continuando, afincadamente, buscando, procurando
o que nunca perdeu, e que, paradoxalmente, não é seu.

Encontra o fim do arco-íris e junta-lhe ainda mais cores
achando tesouros de piratas e chaves de baús
que dá aos corações desafortunados e desalojados
descurando o dele, que do mesmo mal sofre
mas os sonhos, que trilha, mais vastos que a morte
oferecem-lhe horizontes irresistíveis, que o fazem delirar.

O poeta não possui calendário, passado, presente, futuro
nem relógios que o compreendam ou aceitem
que o façam parar ou avançar. O tempo é casmurro
porém, ele vive em muitas épocas e lugares
e em tantos cantadores e trovadores, mas em tantos
que entoam e tocam versos a mais, ao som de liras irreais.

Dão festas mentais, repletas de sensualidade e erotismo 
e em cada momento que faz nascer poesia
o poeta renasce e perde a alma para ser de outro
antes, de muitas almas penadas e cansadas
que se vão perdendo numa boca surda e carnuda
e nuns lábios de mosto, ali à mão de semear, fogo posto.

Perde-se olhando uns olhos pacatos, arrasadores, de gato
acha-se com aquele marialva de viela e ruela
que fugiu da legítima, para uma saborosa escapadela
no quarto mais reles, que já excitado encontrou
onde o poeta tem tantos rostos, gostos, contragostos
que se pararmos, para lhe escutarmos o peito
ouviremos trombetas e clarins, entoando, exaltando
de batida diferente, insensata, descoordenada e incoerente.

Tanto novo, quanto velho, o poeta é eterno, nunca fenece
e nos anos e séculos que se seguem, é gente
que vos pede, encarecido, que não desconfieis dele
porque pode engendrar e criar mil e um versos
arrebatadores, acerca de histórias de bizarros amores
que caso não pareça que é ele, ele é aquilo que não parece.

Porém, se ele parecer insensato, inominável, algo abstrato
não o culpem dos desenganos e desencantos
dos planos, por água abaixo, destronados, arrasados 
porque a culpa é dos desencontros, que gritam
dos olhos desiludidos, exaustos, desbotados, perdidos
que guardam as desventuras dos poetas, que nele habitam.


OBS: Postagem acima de 21/03/2017, o Dia Mundial da Poesia, conforme extraído de http://ausentedoceu.blogspot.com.br/2017/03/o-poeta.html

quinta-feira, 16 de março de 2017

"Educação estagnada é sinônimo de futuro fracassado"


É um texto de desabafo. Em meio a revoltas populares, manifestações e paralisações que via de regra, impedem que outros cidadãos exerçam seu direito fundamental de locomoção, acabo por me surpreender com um amigo que, contra tudo e contra todos, resolveu remar contra a maré, um típico Pensador Fora da Gaiola, um educador, formador de opiniões, um professor por excelência. Aldim, este artigo, pouco didático e muito mais explicativo é pra você.

No último exame do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, sigla em inglês) que é realizado pelo OCDE (Organização para Cooperação e desenvolvimento econômico) que avalia os estudantes dos países-membros da OCDE e convidados, e três áreas fundamentais, conhecimentos de matemática, de Ciências e de Línguas (obviamente a língua materna do estudante, portanto, compreensão e regras de funcionamentos da língua), na última edição de 2012, dos 65 países avaliados o Brasil estava na posição 59ª, ou seja, posição cinquenta e nove de sessenta e cinco, o Brasil agora, conseguiu piorar aquilo que já era ruim. Na última edição agora, divulgada no final de 2016, de 65 países, o Brasil alcançou a posição de 63ª, olhem o absurdo, só dois países avaliados tiveram posição pior do que a nossa.


O jornalista Ricardo Boechat, por quem confesso que nutro uma grande admiração, pela clarividência de suas palavras, pela análise crítica e pela pessoa inteligente que é, há algum tempo fez uma crônica que eu achei perfeita, ele disse o seguinte: […quando nós não temos como prioridade a saúde pública e a segurança pública, que para mim são duas áreas prioritárias e para ele também, você acaba matando o presente do país, porque são os nossos concidadãos que vão padecer nas unidades de pronto atendimento, nas unidades de urgência, nas unidades hospitalares, ou que estão submetidos a toda ordem de violências nas nossas ruas …]. Portanto, tanto pra mim, quanto para ele, saúde e segurança são prioridades máximas de um estado democrático de direito, de um estado civilizatório.

No entanto, segundo a avaliação que ele faz (e eu acho corretíssima) quando você tem uma saúde pública e uma segurança pública, precárias, que não são tratadas pelas nossas elites como prioridade (até porque as nossas elites têm planos de saúde, segurança particular em seus condomínios fechados, carros blindados etc.) você mata o presente do país, porém, a educação, ou melhor, a falta dela, mata o nosso futuro.

O que a gente sabe, é que a elite dirigente brasileira, os extratos sociais mais abonados, a educação para eles, via de regra, não é um problema, por que convenhamos, eles estudam nas melhores escolas particulares, vão cursar universidades públicas porque têm uma qualidade de Ensino Fundamental e Médio boa, que lhe garantem uma aprovação para uma universidade pública, ou vão estudar em excelentes universidades privadas, dentro e fora do país. Portanto, a educação para essa elite é uma preocupação, mas não é um dado grave.

No entanto, para a população mais pobre essa educação é absolutamente essencial. Eu estava ainda a pouco conversando com esse meu amigo Aldim e explicando que a população mais pobre tem pouquíssimas alternativas de mobilidade social. Ou você tem um talento muito especial para os esportes, e aí estamos falando de esportes de alto rendimento e que seja bem remunerado como o futebol, ou você tem um talento muito significativo para a música ou outras áreas congêneres, ou a terceira grande alternativa para a população pobre ascender socialmente é via educação, e acredite, para mim, a educação é uma prioridade da população brasileira. Em todas as pesquisas a população coloca a saúde, segurança pública e educação como elementos-chave para a mobilidade social e qualidade de vida. Todavia, lamento dizer, essa mesma educação não é prioridade no Estado Brasileiro, e observem que o Estado brasileiro é comandado por uma elite econômica e política que também não tem na educação algo que seja prioridade. Por exemplo:

O Brasil fala em Lei de responsabilidade fiscal (que eu concordo, é necessária, é possível e é urgente que se faça), no entanto, o senador Cristóvão Buarque propôs uma Lei de responsabilidade Educacional, onde Municípios, Estados e União se comprometem com parâmetros objetivos de melhoria de qualidade de educação, agora, perguntem-me quando que uma Lei dessas passa no parlamento brasileiro? Eu mesmo respondo: Nunca!!! Porque os políticos não querem se comprometer com parâmetros objetivos mensuráveis a respeito da melhoria da qualidade da educação no país. E aí o Brasil vai amargando, ano após ano, resultado pífio na educação, quando na verdade, não existe nenhuma receita de bolo pronta que possa ser aplicada a todos os casos.

Mas, via de regra, a maioria dos especialistas e outros que se dedicam a refletir sobre o caso (creio que o Aldim é um desses) costumamos eleger cinco elementos-chave, que não são nada extraordinários, mas que são condição sine qua non de embasamento de uma boa educação.

1º Um professor bem formado é um elemento-chave. Pesquisa recente realizada por uma universidade Australiana mostra que a maior diferença no processo de “ensino-aprendizagem” quem faz é o professor. Não e a metodologia de ensino, não é a escola, não e laboratório, não é equipamento… é o professor. Então, ter um professor bem formado é uma condição essencial. Por outro lado, significa dizer que deve existir um plano de carreira bem estruturado e que seja atraente. Hoje no Brasil, apenas 2% dos estudantes querem ser professores. Na Coreia do Sul, onde o plano de carreira é atraente e os salários altos, 30% dos estudantes querem ser professores. Sendo assim, sem ter um professor bem formado, bem remunerado e com uma carreira atraente e estruturada, nós vamos continuar amargando o mesmo problema.

2º Precisamos ter um aluno que tome consciência de que o processo de “ensino-aprendizagem” é o seu passaporte para a mobilidade social.

3º Precisamos ter uma família que entenda que o processo de “ensino-aprendizagem” não é feito a duas mãos, as do professor, ela é feita no mínimo a seis mãos, as do professor, as do aluno e as mãos dos pais. Educar dá trabalho? Dá! Indiscutivelmente, dá trabalho, mas isso é algo que os pais escolheram quando decidiram ter filhos, então, participar deste processo, não deve ser só uma obrigação, deve ser acima de tudo uma alegria poder contribuir com o crescimento intelectual dos filhos.

4º Nós precisamos ter uma política de Estado na educação brasileira, e não apenas uma política de governo, porque a cada governo mudam-se todas as prioridades.

5º Precisamos ter uma infraestrutura básica de educação. Não precisamos ter um laboratório de primeira geração ultramoderno, mas precisamos ter uma escola que ofereça um mínimo de conforto e instalações adequadas para que a produção e a transmissão de conhecimento se dê de maneira adequada. Sem isso, a gente vai continuar amargando os piores indicadores da educação, matando o futuro de nosso amado país, e ouso dizer, com essa classe política que nós temos hoje, talvez este seja o desejo mais profundo que eles tenham, um povo sem educação que não sabe hoje e provavelmente não saberá no futuro, lutar pelos seus direitos.

Edson Moura


sábado, 11 de março de 2017

O lápis

O menino observava seu avô escrevendo em um caderno, e perguntou:
  
— Vovô, o senhor está escrevendo algo sobre mim?

O avô sorriu e disse ao netinho:

— Sim, estou escrevendo algo sobre você. Entretanto, mais importante do que as palavras que estou escrevendo é este lápis que estou usando. Espero que você seja como ele, quando crescer.

O menino olhou para o lápis e não vendo nada de especial, intrigado, comentou:

— Mas este lápis é igual a todos os que eu já vi. O que ele tem de tão especial?

— Bem, depende do modo como você olha. Há cinco qualidades nele que, se você conseguir vivê-las, será uma pessoa de bem e em paz com o mundo, respondeu o avô.

— Primeira qualidade: assim como o lápis, você pode fazer coisas grandiosas, mas nunca se esqueça de que existe uma "mão" que guia os seus passos, e que sem ela o lápis não tem qualquer utilidade: a mão de Deus.

— Segunda qualidade: assim como o lápis, de vez em quando você vai ter que parar o que está escrevendo, e usar um "apontador". Isso faz com que o lápis sofra um pouco, mas, ao final, ele se torna mais afiado. Portanto, saiba suportar as adversidades da vida, porque elas farão de você uma pessoa mais forte e melhor.

— Terceira qualidade: assim como o lápis, permita que se apague o que está errado. Entenda que corrigir uma coisa que fizemos não é necessariamente algo mau, mas algo importante para nos trazer de volta ao caminho certo.

— Quarta qualidade: assim como no lápis, o que realmente importa não é a madeira ou sua forma exterior, mas o grafite que está dentro dele. Portanto, sempre cuide daquilo que acontece dentro de você. O seu caráter será sempre mais importante que a sua aparência.

— Finalmente, a quinta qualidade do lápis: ele sempre deixa uma marca. Da mesma maneira, saiba que tudo que você fizer na vida deixará traços e marcas na vida das pessoas. Portanto, procure ser consciente de cada ação, deixe um legado, e marque positivamente a vida das pessoas. 


OBS: Texto de autor desconhecido compartilhado pelo participante Baltazar no grupo da CPFG do Whatsapp

sexta-feira, 10 de março de 2017

PARA QUE UM GAY SEJA CRISTÃO TEM QUE REVERTER SUA ORIENTAÇÃO SEXUAL?

Por Hermes C. Fernandes
(Do Facebook)

Em meados de 2015, uma das mais badaladas igrejas do mundo protagonizou outro escândalo (Sim, não foi o primeiro!). Segundo uma matéria divulgada nas redes sociais, a Hillsong teria ordenado um casal de homossexuais como ministros de louvor de sua filial em Nova Iorque. Em menos de vinte e quatro horas, o pastor Brian Houston, presidente da igreja australiana, veio a público desmentir a matéria, afirmando que sua posição quanto à prática homossexual seguia a ortodoxia evangélica, e que, tão logo os dois ministros de louvor admitiram seu relacionamento, foram afastados de seus postos. Ficou a impressão de que, se eles não houvessem assumido sua orientação sexual e seu relacionamento não se tornasse público, teriam sido mantidos no cargo. Sem querer emitir juízo de valor, confesso meu desconforto com posturas que beiram a hipocrisia. É cada vez mais rara uma igreja em que não haja homossexuais envolvidos diretamente com ministérios de louvor, dança ou teatro. Se eles se comportarem direitinho, ninguém vai implicar. Mas se forem atrevidos o bastante para assumir o que são, correm o risco de não apenas serem removidos do cargo, mas também serem excluídos do rol de membros da igreja. Estamos mais preocupados com a língua do povo e com a nossa reputação do que em comprar a briga deste segmento tão sofrido e discriminado.

Deixe-me relatar a conversa que tive com um colega de turma durante meu tempo de faculdade. Um rapaz com inteligência acima da média. Não raramente roubava a cena durante a aula, explicando a matéria com mais desenvoltura que o próprio professor. Ele era gay e já havia sido evangélico. Num dia em que a professora atrasou-se para aula, tivemos a oportunidade de trocar ideias. Ele me confessou ter sido criado na igreja, chegando a ser presidente do grupo jovem. Quando se percebeu homossexual, lutou bravamente para libertar-se (sic). Jejuou por um ano inteiro. Orou. Chorou. Participou de reuniões de libertação. Submeteu-se a sessões de exorcismo. Mas, nada. Ele continuava sentindo-se atraído por pessoas do mesmo sexo. Vendo que a igreja não se dispunha a acolher quem se assumisse como gay, ele resolveu se afastar. Aparentemente emocionado, contou-me que tentou recorrer a outras religiões. Frequentou centro de umbanda, templo budista, reuniões kardecistas, mas não conseguiu se achar. “O problema é que sou cristão”, confidenciou-me.

Desde que comecei a escrever sobre o tema em meu blog, já recebi muitos e-mails e mensagens in box de pessoas em crise por causa de sua orientação sexual. Algumas considerando tirar a própria vida, outras já teriam tentado suicídio várias vezes. É fácil julgar moralmente quando se coloca de lado o coração. Mas quando a gente se aproxima desprovido de preconceito, o coração se enternece. Principalmente quando se trata de um adolescente. “Poderia ser um filho meu”, ponderamos. 

O que dizer a esses indivíduos? Que não tiveram fé suficiente para se libertarem? Que não amam a Cristo o bastante para renunciar seus sentimentos “pervertidos”? Que encabeçam a lista dos que serão lançados no inferno?

Não reconheço área mais complexa da natureza humana do que a sexualidade. Quanto mais busco compreendê-la, mas percebo quão rasas são as abordagens que tentam dissecá-la. A situação se agrava quando adentramos a questão da diversidade sexual.

Respostas prontas ofendem a sensibilidade e a inteligência dos que se debruçam sobre o assunto. Já ouvi inúmeras vezes o argumento de que se Deus aprovasse a homossexualidade, não teria criado Adão e Eva, mas Adão e Ivo. De fato, só existem dois gêneros sexuais: macho e fêmea. Porém, os espinhos, cardos e abrolhos que passaram a crescer em nosso habitat desde o evento que a teologia chama de “queda”, também brotaram na própria natureza humana, afetando seus relacionamentos, seu comportamento, seu psiquismo. O mundo ideal ficou atrás do portão do paraíso. Condenados ao exílio, os humanos tiveram que aprender a lidar com as demandas de um mundo real, por vezes hostil à sua presença.

Sabiamente, Jesus nos descortina esta realidade ao abordar um dos mais delicados assuntos no campo do relacionamento humano: o divórcio. Segundo o mestre galileu, o divórcio não constava do plano original do Criador. Ele não apenas o reprova, como também o detesta.  Mesmo assim, nos dias de Jesus, o divórcio havia se banalizado. Os homens estavam despedindo suas esposas por qualquer bobagem, e se justificavam na autorização dada por Deus através de Moisés. 

Perguntado se era lícito ao homem divorciar-se da mulher por qualquer motivo, Jesus respondeu:

“Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez, e disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne? Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem. Disseram-lhe eles: Então, por que mandou Moisés dar-lhe carta de divórcio, e repudiá-la? Disse-lhes ele: Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim.” Mateus 19:4-8

Repare na última frase: “ao princípio não foi assim.” O divórcio foi uma concessão divina em resposta a uma demanda humana em seu trânsito pelo mundo real. Não significa que Deus endosse tal prática. Porém, Jesus reconheceu a necessidade desta alternativa frente à dureza da condição humana. Dizer que nem sempre foi assim equivale a afirmar que este não é o ideal de Deus para o ser humano. O ideal é que ele se case e continue casado com a mesma pessoa até o fim. O ideal é que o casamento seja monogâmico, indissolúvel e entre pessoas de sexos opostos. Todavia, nem sempre é isso que acontece. Temos, portanto, que tratar a situação de maneira realista, levando em conta todas as suas nuances.

Desde que atravessamos os portões do Éden, tantas coisas mudaram. E provavelmente, nenhum outro campo sofreu tantas alterações quanto o dos relacionamentos.

Recebi um comentário em meu blog que me chamou a atenção. Resolvi compartilhá-lo na timeline do meu perfil no facebook para saber o que as pessoas pensavam sobre o argumento apresentado; o que acabou originando um debate que me desafiou a pensar um pouco mais sobre o tema. Reproduzo abaixo o comentário postado por um anônimo:

"Diante destas investidas satânicas, fico a imaginar: o que seria da humanidade sem o nascimento de figuras ilustres e que, de fato, trouxeram algo de bom, de construtivo para a humanidade. Figuras como Albert Einstein, maior cientista do século XX, Martin Luther King, o símbolo máximo da luta contra uma das pragas do século XX, o racismo, Henry Ford, Ludwig van Beethoven, compositor alemão, enfim, a lista é imensa e nas mais diversas áreas do conhecimento humano. Será que estas pessoas nasceram do nada? Ou nasceram de chocadeira? Com certeza que não, nasceram de um relacionamento amoroso entre um homem e uma mulher! NASCERAM no seio de uma família tradicional. Ainda dentro do meu círculo imaginário, pensei: e se a MÃE ou PAI destes defensores desta abominável aberração (DIVERSIDADE SEXUAL) tivessem optado por serem GAYS. Conclui que uma coisa seria certa, não estaria eu, neste momento, perdendo o meu tempo precioso escrevendo este texto”(sic).

Imagino o prazer sentido pelo comentarista ao achar que estava dando a palavra final sobre a questão. Confesso que não perderia tempo respondendo a este infeliz comentário se não verificasse que é exatamente assim que muitos pensam.

Ora, o argumento usado poderia ser aplicado também em casos de esterilidade. Quem é incapaz de conceber filhos não teria o direito de se casar? Somente a concepção de uma prole justificaria nossa passagem por este mundo? E quanto aos celibatários? Quem opta pelo celibato estaria desperdiçando a vida? Convém lembrar de que o próprio Jesus era celibatário, juntamente com Paulo, João Batista e tantos outros. Portanto, se quiser combater a diversidade sexual terá que apelar a um argumento mais sólido e razoável.

Ademais, temos que admitir que graças ao fato de muitos não poderem ter filhos biológicos, tantas crianças órfãs ou abandonadas puderam ser adotadas. 

Quanto à diversidade sexual em si, devemos considerar que muitos personagens proeminentes da história foram homossexuais. Não nos deixaram filhos, porém, deixaram-nos um legado valioso. Um exemplo disso foi Santos Dumont, de quem todo brasileiro se orgulha por ter inventado o avião, além do relógio de pulso (espero que ninguém resolva boicotar nenhum dos dois...rs). O pai da viação acabou se suicidando. Segundo alguns dos seus biógrafos, por ver sua invenção usada como arma na primeira grande guerra. Mas para outros, o que o teria levado ao suicídio foi uma depressão profunda devido aos conflitos na área da sexualidade.

Alan Turing, matemático e cientista da computação foi um dos responsáveis pela formalização do conceito de algoritmo, base da teoria da computação. Também foi o inventor da Máquina de Turing, precursora do computador moderno. Em sua condição de homossexual, Turing não deixou herdeiros, mas deixou um legado e tanto. Consegue imaginar um mundo sem computador?

Falta-me tempo e disposição para falar de tantos outros como o gênio Leonardo da Vinci, o conquistador Alexandre, o Grande, e Sócrates, o pai da filosofia clássica. Portanto, não se deve julgar o caráter ou a genialidade de um ser humano por sua orientação sexual.

Enquanto expunha tais fatos em minha timeline, surgiram várias questões. Uma recorrente é se acredito que um homossexual possa ter sua orientação sexual transformada. Em outras palavras, se um gay pode vir a se tornar heterossexual.

Primeiro, quero deixar claro que para Deus tudo é possível. Se Ele quiser, pode fazer nascer cabelo em careca, fazer um branco tornar-se negro ou vice-versa, e até possibilitar que um animal fale. Porém, tenho minhas dúvidas se haja n’Ele interesse de realizar tais proezas.

O que me cansa é ver a exploração que se faz em cima do testemunho de pessoas que teriam sido homossexuais e que agora exibem seus cônjuges e filhos como prova de que foram transformadas.

É um crime impor a um gay que mude sua orientação sexual para evidenciar sua conversão. Conheço casos em que a pessoa contraiu matrimônio por pressão da igreja, e tempos depois não havia nem sequer consumado o ato. Nesses casos, acho bem mais louvável que se abdique voluntariamente de uma vida sexual ativa por amor à causa do evangelho. É mais honesto do que forjar uma transformação. Porém, isso jamais deveria ser imposto a ninguém. É desumano.

Há, todavia, casos de pseudo-homossexuais que se tornaram o que, no fundo, jamais deixaram de ser: héteros. Algumas delas se lançaram na prática homossexual devido a contingências tais como abusos sofridos na infância, influências externas como amigos, mídia, cultura, educação, etc., mas jamais perderam o desejo por pessoas do outro sexo. Muitas acabam adotando um comportamento bissexual. Porém, em boa parte das vezes, o que ocorre é que a pessoa anuncia ter sido transformada, casa-se com alguém do sexo oposto, mas segue nutrindo desejos inconfessáveis por pessoas do mesmo sexo. Não ouso por em xeque sua conversão. Elas amam a Cristo e sentem-se amarguradas por terem que lidar com tais pulsões. Se ao menos a igreja fosse mais complacente, não haveria necessidade disso.

A igreja deveria ser aquele lugar de que Paulo fala: “Onde está o Espírito de Deus, aí há liberdade.”  Não se trata de liberdade para viver promiscuamente, mas para ser o que se é, sem medo de ser rejeitado, olhado com nojo e preconceito. Em vez disso, a igreja se tornou num antro de discriminação. Os púlpitos destilam homofobia, e tudo, cínica e ironicamente em nome do amor.

Há, ainda, uma falácia que tem sido disseminada principalmente por pregadores televisivos: a de que ninguém nasce gay. E isso geralmente é dito como se fosse cientificamente comprovado. Para quem vive refém do ambiente eclesiástico, uma declaração como esta, não influi, nem contribui. Mas quem transita por outros ambientes, principalmente o acadêmico, tem que aturar piadinhas e insinuações grosseiras por conta deste tipo de posicionamento anacrônico e infundado.  

Se não quiserem dar ouvidos às últimas descobertas científicas, que ouçam o próprio Jesus que afirma haver ao menos três classes de eunucos: os que foram feitos eunucos (castrados para que pudessem cuidar dos haréns dos reis sem se constituir ameaça à integridade da rainha e de suas concubinas), os que se faziam eunucos pelo reino de Deus (celibatários como Paulo) e os que nasciam nesta condição, isto é, desprovidos de desejo por pessoas do sexo oposto. Os eunucos eram, em geral, homossexuais.  Portanto, segundo Jesus, a homossexualidade pode sim ser de nascença.

No debate que fomentei no facebook, perguntaram-me se eu não pregava contra o homossexualismo e lesbianismo (sic). Respondi que prego contra o pecado que há em nós, em nossa natureza corrompida, e que se manifesta tanto na vida do homossexual, quanto na vida do heterossexual. Mas me recuso a entrar nesta campanha sórdida que alguns setores da igreja evangélica têm travado contra os gays, e que, no fundo, tem cunho político. Descobriram aí uma mina de votos. Se amassem mais às almas do que os votos, olhariam para a causa do homossexual com mais compaixão e amor, em vez de fomentarem tanto preconceito e ódio.

Repito: creio que por amor a Cristo, tanto o gay, quanto o hétero, podem ofertar sua sexualidade, isto é, renunciar suas pulsões para dedicarem-se exclusivamente à causa do reino de Deus. Porém, não me vejo capaz de impor isso a ninguém. Paulo dizia que gostaria que todos fossem como ele, porém, reconhecia que cada um tinha recebido de Deus o seu próprio dom.  Portanto, acredito num celibato consciente, fruto do amor e não de imposição de terceiros. O que me recuso a acreditar é que alguém possa mudar sua orientação sexual mediante pressões externas.

E, sinceramente, creio que a existência do homossexual serve a um propósito divino: por à prova nosso amor e desafiar nossos preconceitos.

Se Deus pode mudá-los? Quem sou eu para limitar o seu poder? Ele também podia ter removido o espinho que havia na carne de Paulo, mas não o fez, alegando que sua graça deveria ser-lhe suficiente. 

*Este é um dos assuntos mais polêmicos de que trato em meu livro "INTOLERÂNCIA ZERO". Se quiser adquiri-lo, deposite na conta abaixo o valor de 59,90 e envie-me seu endereço inbox para receber pelo correio. 

HERMES CARVALHO FERNANDES 
BRADESCO 
Agência 2649
C/C 6676-1

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Rir para não chorar

Inacreditável como somos capazes de humorizar a própria tragédia. Tanto na política quanto na economia, assim como nos esportes (na histórica derrota de 7 a 1 para a Alemanha) e em relação às principais notícias dos jornais, tudo vira piada nos labios desse povo.

Pois bem. Por esses dias de festa coletiva, recebi pelo Whatsapp umas paródias envolvendo quatro tradicionais marchinhas de Carnaval que logo fui compartilhar em minhas redes sociais pelo telefone móvel celular. A primeira delas, baseada em Cachaça não é água, escrita em 1953 por Mirabeau Pinheiro, Lúcio de Castro e Heber Lobato, zomba da empreiteira Odebrecht por sua distribuição de propinas a políticos do país, como se lê a seguir:

"Se você pensa que dinheiro é água.
Dinheiro não é água não.
Dinheiro vem da Odebrecht.
E água vem do ribeirão."

Outra que me chamou a atenção por sua criatividade foi a versão inspirada em A Jardineira, a qual foi composta no começo do século passado por Humberto Porto e Benedito Lacerda, mas que se tornou célebre pela voz de Orlando Silva, este considerado o "cantor das multidões". Em sua crítica, o autor parodial se refere aos desvios dos recursos da estatal Petrobras através dos esquemas criminosos praticados nos contratos onde um percentual era pactuado para a ilicitude:

"O petroleira por que estás tão triste?
Mas o que foi que te aconteceu?
Foi a propina que caiu no grampo,
Deu dois por cento
E depois morreu."

A terceira paródia, baseada na politicamente incorreta Cabeleira do Zezé, feita por João Roberto Kelly, na década de 60, foi direcionada ao ex-governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, o qual se acha preso desde o ano passado em Bangu 8. Só que, pelo fato dos detentos serem obrigados a ter os cabelos cortados nos estabelecimentos penais e de custódia, o criativo humorista apenas poderia ridicularizar a careca do réu:

"Olha a cabeça do Cabral.
Será que ele é?
Será que ele é?
Marginal?"

A última que li, também do Kelly, inspirou-se em Maria Sapatao, outra música inapropriada para a nossa época onde tudo cheira a preconceito mas que, nos anos 80, o saudoso Chacrinha costumava cantar em seu divertido programa de TV que ía ao ar nas tardes de sábado. Contudo, o crítico da política trocou o sinônimo vulgar de lésbica para "delação", que seria um nome coloquial para o benefício jurídico da tão festejada colaboração premiada. Isto porque, graças à sua aplicação é que muitos delitos passaram a ser descobertos pelas autoridades de investigação, levando inúmeros políticos e empresários ricos para a cadeia como jamais se viu em toda a nossa história:

"Maria delação,
Delação, delação.
De dia, mordomia.
De noite, a prisão."

Como se vê, meus leitores, a situação no país pode estar uma calamidade nacional, com milhões de desempregados, mas ainda assim o brasileiro, em sua pacificidade passiva, consegue encontrar bons motivos para se alegrar (ou anestesiar-se) e não sentir o lado esquerdo do peito tão deprimido com as más notícias. Ou seja, o nosso povo tenta levar a vida na brincadeira e faz com que a tragédia, nesses três dias, vire um animado samba.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

“Religião como verdade para muitos, falsidade para poucos e utilidade para todos”



Grande parte da humanidade acredita em algo maior que ela. Um ser criador. Originador mas que não tem origem, criador mas incriado, Pai, mas que nunca teve mãe Este é Deus. Não vou jamais desistir da hipótese de que Deus é uma criação nossa e que sua palavra sagrada não é, como dizem, algo que parta dele para nós, e sim, algo que parte de nós para ele. Uma carta de amor daquelas que os namorados escrevem, cheias de melosidade, afeto, desejo, isto é a Bíblia, um livro que vem respaldando a crença de muitos ao longo dos milênios. Mas, quando e por que ela surgiu?

A religião surgiu no mundo em razão das necessidades do homem. As primeiras crenças da humanidade estavam relacionadas, principalmente, à agricultura. O homem sentia a necessidade de prever quando choveria para que a produção dos alimentos fosse eficiente. Como resultado disso, o homem criou métodos para tentar prever o futuro, como a astrologia, a quiromancia e a necromancia, e também métodos para tentar modificar o futuro, como a magia, a bruxaria e os encantamentos.

A ideia de Deus esteve, inicialmente, associada aos fenômenos meteorológicos. Assim, surgiram também os conceitos de deuses específicos para determinadas situações vivenciadas pelo homem, como o deus da guerra, da caça e do amor. Assim, podemos entender que a criação da religião aconteceu pela necessidade do homem de compreender ou, pelo menos, tentar explicar alguns fenômenos misteriosos.


A partir do Cristianismo, o homem passou a acreditar na existência de um Deus semelhante à humanidade. Pela Bíblia, o homem foi feito a imagem e semelhança de Deus. Em seguida, na evolução do conceito de religião, o homem criou métodos para interagir com Deus, rezar e pedir bençãos e favores. Isso acontece tanto nas aldeias indígenas, quanto nas civilizações urbanas e contemporâneas.

Com o passar dos anos, a religião começou a se basear em orações e promessas, e a determinar intermediários entre Deus e as pessoas comuns, como os padres, pastores e pais de santo, por exemplo. Hoje, as religiões têm na figura do sacerdote o desafio de converter mais adeptos. Nesse contexto, a utilização de um antagonista de Deus, o chamado demônio, e de um lugar prometido em detrimento de um “inferno” de sofrimento eterno também serve para encaminhar os fiéis para o caminho da religião, pelo medo. Esta é a realidade para muitos.

Mas, para poucos, isso tudo não passa de uma grande mentira. Uma história inventada para explicar a origem das coisas, as causas que deram origem aos fenômenos que não entendemos ainda, apenas uma etiologia infantil.

Ateus normalmente escolhem não acreditar em Deus, é o que dizem os religiosos, pois pessoas que sofreram algum tipo de trauma e por terem fé suficiente ficaram com “raiva” de Deus e que muitos ateus foram molestados quando crianças, ou sofreram maus tratos, muito se sentem a margem da sociedade, sem estudo, sem amor, sem carinho, entregue ao alcoolismo e ao homossexualismo, ou seja, nas garras de satanás. Muitos deles vem de famílias desestruturadas, pobres e sem conhecimento de Jesus. Se um Ateu parar para pensar e colocar a cabeça no lugar um segundo, ele verá que não tem como ele sequer respirar sem Deus existir. Contudo, são pessoas que não tem censo de certo e errado e desafiam a Deus a todo momento.

Não poderiam estar mais errados!

Antes de tudo, ser Ateu não é uma opção e sim uma conclusão, uma constatação. Ao contrário do que muitos cristãos costumam afirmar, a gigantesca maioria dos Ateus chegou à conclusão de que “não existem deuses” sozinho, pensando com seus botões, sem que para isso fosse necessário um trauma nas suas vidas ou dificuldades de qualquer tipo. No geral, os Ateus são, em sua maioria, mais “estudados” que os teístas, porém como a quantidade de teístas no mundo é muito maior, as afirmações são contrárias.

Dificilmente você vê uma pessoa morrendo de fome e que diz “Deus não existe”, normalmente o que é observado é que quanto mais “ignorante” (ou sem instrução) a pessoa é, mais ela tem a tendência em acreditar em mitos e divindades sem provas.

Antes de serem Ateus, no geral, eles tiveram uma religião e aqui no Brasil a maioria esmagadora deles era cristão. Logo, a maioria conhece a bíblia, alguns conhecem muito bem, outros conhecem tão pouco quanto a maioria dos cristãos, muitos frequentaram igrejas durante anos a fio e chegaram a inevitável conclusão. Obviamente o ateu não entende de tudo, mas o que um Ateu normalmente entende é que nenhuma prova, amostra ou evidência da existência de algo sobrenatural foi mostrado a ninguém até o momento. Esta é a falsidade para poucos.

Enquanto houverem pessoas dispostas a serem dominadas, haverá aqueles que as dominem”, e se partirmos de Maquiavel, perceberemos que nada mudou em seis séculos. O temor a Deus faz-se indispensável pois só assim submete-se quem deve ser dominado e como o mandamento divino é mais eficaz do que a lei humana, a prudência do governante faz-se necessária para que ele possa usar da religião para dar ânimo e dominar o exército, para ser atendido pela plebe.

Aqui reside uma exigência: para as repúblicas ou príncipes que desejam manter-se sem corrupção, devem zelar para que os cultos religiosos não sejam corrompidos. Caso os cultos se tornem corruptos, aí reside o indício da ruína do Estado. Como toda religião tem como fundamento alguma ordenação principal, o príncipe deve conhecê-la e conservá-la. Se assim o fizer, há de manter a religião e a sua república unida. Caso o príncipe acredite que a religião está inteiramente a seu serviço, há de destruir tanto a religião, quanto a crença que o povo tem nela e verá a ruína de seu próprio Estado pois “não pode haver maior indício da ruína de um estado do que o desprezo pelo culto divino” (MAQUIAVEL, 2007, p.52).

Nota-se, pois, que se a religião for corrompida, ela perde toda a sua força mobilizadora e, assim, tem-se como consequência a decadência do vivere civile (AMES, 2006.).

Maquiavel usa seu ato de conduzir o povo romano à obediência civil como exemplo da eficácia do bom uso da religião. Encontrou em Roma um povo indomado e desejou conduzi-los às “artes da paz”. Como alternativa à violência, usou a religião para domar e manter a cidade já que o poder de Deus é mais temido que o do homem. “Estas [“artes da paz”], na passagem da obra maquiaveliana citada acima, não consistem em outra coisa senão na religião, apresentada como instrumento capaz de subtrair sentimento da obrigação política do exclusivo domínio da força, e, por isso mesmo, definida ‘como elemento imprescindível para manter a vida civil’”

Cabe, então, explicitar os expedientes que fazem a religião se tornar um instrumento cuja produção é a de comportamentos individuais e coletivos úteis POLITICAMENTE. A simulação é um expediente ao qual se recorre quando a autoridade do príncipe não é suficiente para submeter os súditos. Tomemos o exemplo usado por Maquiavel da simulação feita por Numa que, ao perceber que sua autoridade não seria suficiente para fazer suas leis cumpridas, simulou familiaridade com uma Ninfa e agiu como se esta lhe desse conselhos para que ele transmitisse-os ao povo. A verdade da religião não é o mais importante, o que importa é que interpretação da vontade divina seja feita de forma a acarretar o êxito para os propósitos do príncipe, haja vista que estes sempre devem ter como fim o bem comum.

Traçando um paralelo entre o que Maquiavel escreveu e a realidade brasileira, constatamos que a dominação não cessou ao longo da história. Por exemplo, a controversa escolha do deputado federal Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara não é um fato isolado. Ela expõe a consolidação do poder político das religiões no Brasil, sobretudo da evangélica, que cada vez mais junta forças para impor sua agenda.

Os parlamentares ligados a instituições religiosas já representam um quinto do Congresso. Em 20 anos, o número de deputados federais e senadores evangélicos mais que triplicou (saltou de 23 em 1990 para 73 em 2010), perdendo hoje só para a bancada ruralista. Com isso, os embates com grupos de direitos civis, pró-liberalização do aborto e das drogas, de direitos humanos e de defesa da laicização do Estado se intensificaram.
Sob o pretexto de “proteger a família e a vida”, os parlamentares das bancadas católicas (22 congressistas) e evangélicas deixam as diferenças de lado e trabalham juntos para tentar conter o avanço de pautas como aborto, casamento homossexual e liberalização das drogas.
As alianças formadas pelas bancadas religiosas têm grande poder de ramificação. Como exemplo, a Frente Parlamentar em Defesa da Vida e Preservação da Família, que une católicos, evangélicos e outros políticos de alguma forma ligados a esses preceitos, conta com 192 parlamentares (40% do Congresso). “Não são somente eles que são conservadores. Eles vocalizam boa parte do que a população brasileira pensa sobre aborto, direitos das mulheres e de homossexuais”, diz Christina Vital, professora de ciências sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF)..
Frank Usarski, professor de ciências da religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), diz que, em comparação com a Alemanha, por exemplo, o pluralismo das forças religiosas é menor no Brasil, porém a influência da religião é maior. “O enraizamento das igrejas na consciência e na realidade social dos brasileiros é maior”, afirma.
Dessa forma, as religiões ameaçam o Estado laico brasileiro, como alerta o livro Religião e política: uma análise da atuação de parlamentares evangélicos sobre direitos das mulheres e de LGBTs no Brasil. O estudo é de autoria dos pesquisadores Christina Vital e Paulo Victor Leite Lopes. Nele, os autores descrevem o avanço dos evangélicos na política na década de 1980. As igrejas passaram a reivindicar um lugar para si a fim de ampliarem a influência de suas tradições e valores.

O Brasil se tornou formalmente laico a partir da primeira Constituição Republicana, em 1891, mas a igreja Católica sempre fez esforço ao longo desse período para garantir presença no Estado público. Como exemplo, está a introdução na Constituição de 1934 da obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas públicas brasileiras.  “No Brasil, há uma enorme presença do elemento religioso no espaço público”.
Lamentavelmente, enquanto a maioria não se interessa pela sua história religiosa, política, científica, geográfica etc, há uma minoria muitíssimo interessada em dominar por meio daquilo que a maioria acredita. Deus.

Edson Moura




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