quinta-feira, 16 de março de 2017

"Educação estagnada é sinônimo de futuro fracassado"


É um texto de desabafo. Em meio a revoltas populares, manifestações e paralisações que via de regra, impedem que outros cidadãos exerçam seu direito fundamental de locomoção, acabo por me surpreender com um amigo que, contra tudo e contra todos, resolveu remar contra a maré, um típico Pensador Fora da Gaiola, um educador, formador de opiniões, um professor por excelência. Aldim, este artigo, pouco didático e muito mais explicativo é pra você.

No último exame do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, sigla em inglês) que é realizado pelo OCDE (Organização para Cooperação e desenvolvimento econômico) que avalia os estudantes dos países-membros da OCDE e convidados, e três áreas fundamentais, conhecimentos de matemática, de Ciências e de Línguas (obviamente a língua materna do estudante, portanto, compreensão e regras de funcionamentos da língua), na última edição de 2012, dos 65 países avaliados o Brasil estava na posição 59ª, ou seja, posição cinquenta e nove de sessenta e cinco, o Brasil agora, conseguiu piorar aquilo que já era ruim. Na última edição agora, divulgada no final de 2016, de 65 países, o Brasil alcançou a posição de 63ª, olhem o absurdo, só dois países avaliados tiveram posição pior do que a nossa.


O jornalista Ricardo Boechat, por quem confesso que nutro uma grande admiração, pela clarividência de suas palavras, pela análise crítica e pela pessoa inteligente que é, há algum tempo fez uma crônica que eu achei perfeita, ele disse o seguinte: […quando nós não temos como prioridade a saúde pública e a segurança pública, que para mim são duas áreas prioritárias e para ele também, você acaba matando o presente do país, porque são os nossos concidadãos que vão padecer nas unidades de pronto atendimento, nas unidades de urgência, nas unidades hospitalares, ou que estão submetidos a toda ordem de violências nas nossas ruas …]. Portanto, tanto pra mim, quanto para ele, saúde e segurança são prioridades máximas de um estado democrático de direito, de um estado civilizatório.

No entanto, segundo a avaliação que ele faz (e eu acho corretíssima) quando você tem uma saúde pública e uma segurança pública, precárias, que não são tratadas pelas nossas elites como prioridade (até porque as nossas elites têm planos de saúde, segurança particular em seus condomínios fechados, carros blindados etc.) você mata o presente do país, porém, a educação, ou melhor, a falta dela, mata o nosso futuro.

O que a gente sabe, é que a elite dirigente brasileira, os extratos sociais mais abonados, a educação para eles, via de regra, não é um problema, por que convenhamos, eles estudam nas melhores escolas particulares, vão cursar universidades públicas porque têm uma qualidade de Ensino Fundamental e Médio boa, que lhe garantem uma aprovação para uma universidade pública, ou vão estudar em excelentes universidades privadas, dentro e fora do país. Portanto, a educação para essa elite é uma preocupação, mas não é um dado grave.

No entanto, para a população mais pobre essa educação é absolutamente essencial. Eu estava ainda a pouco conversando com esse meu amigo Aldim e explicando que a população mais pobre tem pouquíssimas alternativas de mobilidade social. Ou você tem um talento muito especial para os esportes, e aí estamos falando de esportes de alto rendimento e que seja bem remunerado como o futebol, ou você tem um talento muito significativo para a música ou outras áreas congêneres, ou a terceira grande alternativa para a população pobre ascender socialmente é via educação, e acredite, para mim, a educação é uma prioridade da população brasileira. Em todas as pesquisas a população coloca a saúde, segurança pública e educação como elementos-chave para a mobilidade social e qualidade de vida. Todavia, lamento dizer, essa mesma educação não é prioridade no Estado Brasileiro, e observem que o Estado brasileiro é comandado por uma elite econômica e política que também não tem na educação algo que seja prioridade. Por exemplo:

O Brasil fala em Lei de responsabilidade fiscal (que eu concordo, é necessária, é possível e é urgente que se faça), no entanto, o senador Cristóvão Buarque propôs uma Lei de responsabilidade Educacional, onde Municípios, Estados e União se comprometem com parâmetros objetivos de melhoria de qualidade de educação, agora, perguntem-me quando que uma Lei dessas passa no parlamento brasileiro? Eu mesmo respondo: Nunca!!! Porque os políticos não querem se comprometer com parâmetros objetivos mensuráveis a respeito da melhoria da qualidade da educação no país. E aí o Brasil vai amargando, ano após ano, resultado pífio na educação, quando na verdade, não existe nenhuma receita de bolo pronta que possa ser aplicada a todos os casos.

Mas, via de regra, a maioria dos especialistas e outros que se dedicam a refletir sobre o caso (creio que o Aldim é um desses) costumamos eleger cinco elementos-chave, que não são nada extraordinários, mas que são condição sine qua non de embasamento de uma boa educação.

1º Um professor bem formado é um elemento-chave. Pesquisa recente realizada por uma universidade Australiana mostra que a maior diferença no processo de “ensino-aprendizagem” quem faz é o professor. Não e a metodologia de ensino, não é a escola, não e laboratório, não é equipamento… é o professor. Então, ter um professor bem formado é uma condição essencial. Por outro lado, significa dizer que deve existir um plano de carreira bem estruturado e que seja atraente. Hoje no Brasil, apenas 2% dos estudantes querem ser professores. Na Coreia do Sul, onde o plano de carreira é atraente e os salários altos, 30% dos estudantes querem ser professores. Sendo assim, sem ter um professor bem formado, bem remunerado e com uma carreira atraente e estruturada, nós vamos continuar amargando o mesmo problema.

2º Precisamos ter um aluno que tome consciência de que o processo de “ensino-aprendizagem” é o seu passaporte para a mobilidade social.

3º Precisamos ter uma família que entenda que o processo de “ensino-aprendizagem” não é feito a duas mãos, as do professor, ela é feita no mínimo a seis mãos, as do professor, as do aluno e as mãos dos pais. Educar dá trabalho? Dá! Indiscutivelmente, dá trabalho, mas isso é algo que os pais escolheram quando decidiram ter filhos, então, participar deste processo, não deve ser só uma obrigação, deve ser acima de tudo uma alegria poder contribuir com o crescimento intelectual dos filhos.

4º Nós precisamos ter uma política de Estado na educação brasileira, e não apenas uma política de governo, porque a cada governo mudam-se todas as prioridades.

5º Precisamos ter uma infraestrutura básica de educação. Não precisamos ter um laboratório de primeira geração ultramoderno, mas precisamos ter uma escola que ofereça um mínimo de conforto e instalações adequadas para que a produção e a transmissão de conhecimento se dê de maneira adequada. Sem isso, a gente vai continuar amargando os piores indicadores da educação, matando o futuro de nosso amado país, e ouso dizer, com essa classe política que nós temos hoje, talvez este seja o desejo mais profundo que eles tenham, um povo sem educação que não sabe hoje e provavelmente não saberá no futuro, lutar pelos seus direitos.

Edson Moura


sábado, 11 de março de 2017

O lápis

O menino observava seu avô escrevendo em um caderno, e perguntou:
  
— Vovô, o senhor está escrevendo algo sobre mim?

O avô sorriu e disse ao netinho:

— Sim, estou escrevendo algo sobre você. Entretanto, mais importante do que as palavras que estou escrevendo é este lápis que estou usando. Espero que você seja como ele, quando crescer.

O menino olhou para o lápis e não vendo nada de especial, intrigado, comentou:

— Mas este lápis é igual a todos os que eu já vi. O que ele tem de tão especial?

— Bem, depende do modo como você olha. Há cinco qualidades nele que, se você conseguir vivê-las, será uma pessoa de bem e em paz com o mundo, respondeu o avô.

— Primeira qualidade: assim como o lápis, você pode fazer coisas grandiosas, mas nunca se esqueça de que existe uma "mão" que guia os seus passos, e que sem ela o lápis não tem qualquer utilidade: a mão de Deus.

— Segunda qualidade: assim como o lápis, de vez em quando você vai ter que parar o que está escrevendo, e usar um "apontador". Isso faz com que o lápis sofra um pouco, mas, ao final, ele se torna mais afiado. Portanto, saiba suportar as adversidades da vida, porque elas farão de você uma pessoa mais forte e melhor.

— Terceira qualidade: assim como o lápis, permita que se apague o que está errado. Entenda que corrigir uma coisa que fizemos não é necessariamente algo mau, mas algo importante para nos trazer de volta ao caminho certo.

— Quarta qualidade: assim como no lápis, o que realmente importa não é a madeira ou sua forma exterior, mas o grafite que está dentro dele. Portanto, sempre cuide daquilo que acontece dentro de você. O seu caráter será sempre mais importante que a sua aparência.

— Finalmente, a quinta qualidade do lápis: ele sempre deixa uma marca. Da mesma maneira, saiba que tudo que você fizer na vida deixará traços e marcas na vida das pessoas. Portanto, procure ser consciente de cada ação, deixe um legado, e marque positivamente a vida das pessoas. 


OBS: Texto de autor desconhecido compartilhado pelo participante Baltazar no grupo da CPFG do Whatsapp

sexta-feira, 10 de março de 2017

PARA QUE UM GAY SEJA CRISTÃO TEM QUE REVERTER SUA ORIENTAÇÃO SEXUAL?

Por Hermes C. Fernandes
(Do Facebook)

Em meados de 2015, uma das mais badaladas igrejas do mundo protagonizou outro escândalo (Sim, não foi o primeiro!). Segundo uma matéria divulgada nas redes sociais, a Hillsong teria ordenado um casal de homossexuais como ministros de louvor de sua filial em Nova Iorque. Em menos de vinte e quatro horas, o pastor Brian Houston, presidente da igreja australiana, veio a público desmentir a matéria, afirmando que sua posição quanto à prática homossexual seguia a ortodoxia evangélica, e que, tão logo os dois ministros de louvor admitiram seu relacionamento, foram afastados de seus postos. Ficou a impressão de que, se eles não houvessem assumido sua orientação sexual e seu relacionamento não se tornasse público, teriam sido mantidos no cargo. Sem querer emitir juízo de valor, confesso meu desconforto com posturas que beiram a hipocrisia. É cada vez mais rara uma igreja em que não haja homossexuais envolvidos diretamente com ministérios de louvor, dança ou teatro. Se eles se comportarem direitinho, ninguém vai implicar. Mas se forem atrevidos o bastante para assumir o que são, correm o risco de não apenas serem removidos do cargo, mas também serem excluídos do rol de membros da igreja. Estamos mais preocupados com a língua do povo e com a nossa reputação do que em comprar a briga deste segmento tão sofrido e discriminado.

Deixe-me relatar a conversa que tive com um colega de turma durante meu tempo de faculdade. Um rapaz com inteligência acima da média. Não raramente roubava a cena durante a aula, explicando a matéria com mais desenvoltura que o próprio professor. Ele era gay e já havia sido evangélico. Num dia em que a professora atrasou-se para aula, tivemos a oportunidade de trocar ideias. Ele me confessou ter sido criado na igreja, chegando a ser presidente do grupo jovem. Quando se percebeu homossexual, lutou bravamente para libertar-se (sic). Jejuou por um ano inteiro. Orou. Chorou. Participou de reuniões de libertação. Submeteu-se a sessões de exorcismo. Mas, nada. Ele continuava sentindo-se atraído por pessoas do mesmo sexo. Vendo que a igreja não se dispunha a acolher quem se assumisse como gay, ele resolveu se afastar. Aparentemente emocionado, contou-me que tentou recorrer a outras religiões. Frequentou centro de umbanda, templo budista, reuniões kardecistas, mas não conseguiu se achar. “O problema é que sou cristão”, confidenciou-me.

Desde que comecei a escrever sobre o tema em meu blog, já recebi muitos e-mails e mensagens in box de pessoas em crise por causa de sua orientação sexual. Algumas considerando tirar a própria vida, outras já teriam tentado suicídio várias vezes. É fácil julgar moralmente quando se coloca de lado o coração. Mas quando a gente se aproxima desprovido de preconceito, o coração se enternece. Principalmente quando se trata de um adolescente. “Poderia ser um filho meu”, ponderamos. 

O que dizer a esses indivíduos? Que não tiveram fé suficiente para se libertarem? Que não amam a Cristo o bastante para renunciar seus sentimentos “pervertidos”? Que encabeçam a lista dos que serão lançados no inferno?

Não reconheço área mais complexa da natureza humana do que a sexualidade. Quanto mais busco compreendê-la, mas percebo quão rasas são as abordagens que tentam dissecá-la. A situação se agrava quando adentramos a questão da diversidade sexual.

Respostas prontas ofendem a sensibilidade e a inteligência dos que se debruçam sobre o assunto. Já ouvi inúmeras vezes o argumento de que se Deus aprovasse a homossexualidade, não teria criado Adão e Eva, mas Adão e Ivo. De fato, só existem dois gêneros sexuais: macho e fêmea. Porém, os espinhos, cardos e abrolhos que passaram a crescer em nosso habitat desde o evento que a teologia chama de “queda”, também brotaram na própria natureza humana, afetando seus relacionamentos, seu comportamento, seu psiquismo. O mundo ideal ficou atrás do portão do paraíso. Condenados ao exílio, os humanos tiveram que aprender a lidar com as demandas de um mundo real, por vezes hostil à sua presença.

Sabiamente, Jesus nos descortina esta realidade ao abordar um dos mais delicados assuntos no campo do relacionamento humano: o divórcio. Segundo o mestre galileu, o divórcio não constava do plano original do Criador. Ele não apenas o reprova, como também o detesta.  Mesmo assim, nos dias de Jesus, o divórcio havia se banalizado. Os homens estavam despedindo suas esposas por qualquer bobagem, e se justificavam na autorização dada por Deus através de Moisés. 

Perguntado se era lícito ao homem divorciar-se da mulher por qualquer motivo, Jesus respondeu:

“Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez, e disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne? Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem. Disseram-lhe eles: Então, por que mandou Moisés dar-lhe carta de divórcio, e repudiá-la? Disse-lhes ele: Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim.” Mateus 19:4-8

Repare na última frase: “ao princípio não foi assim.” O divórcio foi uma concessão divina em resposta a uma demanda humana em seu trânsito pelo mundo real. Não significa que Deus endosse tal prática. Porém, Jesus reconheceu a necessidade desta alternativa frente à dureza da condição humana. Dizer que nem sempre foi assim equivale a afirmar que este não é o ideal de Deus para o ser humano. O ideal é que ele se case e continue casado com a mesma pessoa até o fim. O ideal é que o casamento seja monogâmico, indissolúvel e entre pessoas de sexos opostos. Todavia, nem sempre é isso que acontece. Temos, portanto, que tratar a situação de maneira realista, levando em conta todas as suas nuances.

Desde que atravessamos os portões do Éden, tantas coisas mudaram. E provavelmente, nenhum outro campo sofreu tantas alterações quanto o dos relacionamentos.

Recebi um comentário em meu blog que me chamou a atenção. Resolvi compartilhá-lo na timeline do meu perfil no facebook para saber o que as pessoas pensavam sobre o argumento apresentado; o que acabou originando um debate que me desafiou a pensar um pouco mais sobre o tema. Reproduzo abaixo o comentário postado por um anônimo:

"Diante destas investidas satânicas, fico a imaginar: o que seria da humanidade sem o nascimento de figuras ilustres e que, de fato, trouxeram algo de bom, de construtivo para a humanidade. Figuras como Albert Einstein, maior cientista do século XX, Martin Luther King, o símbolo máximo da luta contra uma das pragas do século XX, o racismo, Henry Ford, Ludwig van Beethoven, compositor alemão, enfim, a lista é imensa e nas mais diversas áreas do conhecimento humano. Será que estas pessoas nasceram do nada? Ou nasceram de chocadeira? Com certeza que não, nasceram de um relacionamento amoroso entre um homem e uma mulher! NASCERAM no seio de uma família tradicional. Ainda dentro do meu círculo imaginário, pensei: e se a MÃE ou PAI destes defensores desta abominável aberração (DIVERSIDADE SEXUAL) tivessem optado por serem GAYS. Conclui que uma coisa seria certa, não estaria eu, neste momento, perdendo o meu tempo precioso escrevendo este texto”(sic).

Imagino o prazer sentido pelo comentarista ao achar que estava dando a palavra final sobre a questão. Confesso que não perderia tempo respondendo a este infeliz comentário se não verificasse que é exatamente assim que muitos pensam.

Ora, o argumento usado poderia ser aplicado também em casos de esterilidade. Quem é incapaz de conceber filhos não teria o direito de se casar? Somente a concepção de uma prole justificaria nossa passagem por este mundo? E quanto aos celibatários? Quem opta pelo celibato estaria desperdiçando a vida? Convém lembrar de que o próprio Jesus era celibatário, juntamente com Paulo, João Batista e tantos outros. Portanto, se quiser combater a diversidade sexual terá que apelar a um argumento mais sólido e razoável.

Ademais, temos que admitir que graças ao fato de muitos não poderem ter filhos biológicos, tantas crianças órfãs ou abandonadas puderam ser adotadas. 

Quanto à diversidade sexual em si, devemos considerar que muitos personagens proeminentes da história foram homossexuais. Não nos deixaram filhos, porém, deixaram-nos um legado valioso. Um exemplo disso foi Santos Dumont, de quem todo brasileiro se orgulha por ter inventado o avião, além do relógio de pulso (espero que ninguém resolva boicotar nenhum dos dois...rs). O pai da viação acabou se suicidando. Segundo alguns dos seus biógrafos, por ver sua invenção usada como arma na primeira grande guerra. Mas para outros, o que o teria levado ao suicídio foi uma depressão profunda devido aos conflitos na área da sexualidade.

Alan Turing, matemático e cientista da computação foi um dos responsáveis pela formalização do conceito de algoritmo, base da teoria da computação. Também foi o inventor da Máquina de Turing, precursora do computador moderno. Em sua condição de homossexual, Turing não deixou herdeiros, mas deixou um legado e tanto. Consegue imaginar um mundo sem computador?

Falta-me tempo e disposição para falar de tantos outros como o gênio Leonardo da Vinci, o conquistador Alexandre, o Grande, e Sócrates, o pai da filosofia clássica. Portanto, não se deve julgar o caráter ou a genialidade de um ser humano por sua orientação sexual.

Enquanto expunha tais fatos em minha timeline, surgiram várias questões. Uma recorrente é se acredito que um homossexual possa ter sua orientação sexual transformada. Em outras palavras, se um gay pode vir a se tornar heterossexual.

Primeiro, quero deixar claro que para Deus tudo é possível. Se Ele quiser, pode fazer nascer cabelo em careca, fazer um branco tornar-se negro ou vice-versa, e até possibilitar que um animal fale. Porém, tenho minhas dúvidas se haja n’Ele interesse de realizar tais proezas.

O que me cansa é ver a exploração que se faz em cima do testemunho de pessoas que teriam sido homossexuais e que agora exibem seus cônjuges e filhos como prova de que foram transformadas.

É um crime impor a um gay que mude sua orientação sexual para evidenciar sua conversão. Conheço casos em que a pessoa contraiu matrimônio por pressão da igreja, e tempos depois não havia nem sequer consumado o ato. Nesses casos, acho bem mais louvável que se abdique voluntariamente de uma vida sexual ativa por amor à causa do evangelho. É mais honesto do que forjar uma transformação. Porém, isso jamais deveria ser imposto a ninguém. É desumano.

Há, todavia, casos de pseudo-homossexuais que se tornaram o que, no fundo, jamais deixaram de ser: héteros. Algumas delas se lançaram na prática homossexual devido a contingências tais como abusos sofridos na infância, influências externas como amigos, mídia, cultura, educação, etc., mas jamais perderam o desejo por pessoas do outro sexo. Muitas acabam adotando um comportamento bissexual. Porém, em boa parte das vezes, o que ocorre é que a pessoa anuncia ter sido transformada, casa-se com alguém do sexo oposto, mas segue nutrindo desejos inconfessáveis por pessoas do mesmo sexo. Não ouso por em xeque sua conversão. Elas amam a Cristo e sentem-se amarguradas por terem que lidar com tais pulsões. Se ao menos a igreja fosse mais complacente, não haveria necessidade disso.

A igreja deveria ser aquele lugar de que Paulo fala: “Onde está o Espírito de Deus, aí há liberdade.”  Não se trata de liberdade para viver promiscuamente, mas para ser o que se é, sem medo de ser rejeitado, olhado com nojo e preconceito. Em vez disso, a igreja se tornou num antro de discriminação. Os púlpitos destilam homofobia, e tudo, cínica e ironicamente em nome do amor.

Há, ainda, uma falácia que tem sido disseminada principalmente por pregadores televisivos: a de que ninguém nasce gay. E isso geralmente é dito como se fosse cientificamente comprovado. Para quem vive refém do ambiente eclesiástico, uma declaração como esta, não influi, nem contribui. Mas quem transita por outros ambientes, principalmente o acadêmico, tem que aturar piadinhas e insinuações grosseiras por conta deste tipo de posicionamento anacrônico e infundado.  

Se não quiserem dar ouvidos às últimas descobertas científicas, que ouçam o próprio Jesus que afirma haver ao menos três classes de eunucos: os que foram feitos eunucos (castrados para que pudessem cuidar dos haréns dos reis sem se constituir ameaça à integridade da rainha e de suas concubinas), os que se faziam eunucos pelo reino de Deus (celibatários como Paulo) e os que nasciam nesta condição, isto é, desprovidos de desejo por pessoas do sexo oposto. Os eunucos eram, em geral, homossexuais.  Portanto, segundo Jesus, a homossexualidade pode sim ser de nascença.

No debate que fomentei no facebook, perguntaram-me se eu não pregava contra o homossexualismo e lesbianismo (sic). Respondi que prego contra o pecado que há em nós, em nossa natureza corrompida, e que se manifesta tanto na vida do homossexual, quanto na vida do heterossexual. Mas me recuso a entrar nesta campanha sórdida que alguns setores da igreja evangélica têm travado contra os gays, e que, no fundo, tem cunho político. Descobriram aí uma mina de votos. Se amassem mais às almas do que os votos, olhariam para a causa do homossexual com mais compaixão e amor, em vez de fomentarem tanto preconceito e ódio.

Repito: creio que por amor a Cristo, tanto o gay, quanto o hétero, podem ofertar sua sexualidade, isto é, renunciar suas pulsões para dedicarem-se exclusivamente à causa do reino de Deus. Porém, não me vejo capaz de impor isso a ninguém. Paulo dizia que gostaria que todos fossem como ele, porém, reconhecia que cada um tinha recebido de Deus o seu próprio dom.  Portanto, acredito num celibato consciente, fruto do amor e não de imposição de terceiros. O que me recuso a acreditar é que alguém possa mudar sua orientação sexual mediante pressões externas.

E, sinceramente, creio que a existência do homossexual serve a um propósito divino: por à prova nosso amor e desafiar nossos preconceitos.

Se Deus pode mudá-los? Quem sou eu para limitar o seu poder? Ele também podia ter removido o espinho que havia na carne de Paulo, mas não o fez, alegando que sua graça deveria ser-lhe suficiente. 

*Este é um dos assuntos mais polêmicos de que trato em meu livro "INTOLERÂNCIA ZERO". Se quiser adquiri-lo, deposite na conta abaixo o valor de 59,90 e envie-me seu endereço inbox para receber pelo correio. 

HERMES CARVALHO FERNANDES 
BRADESCO 
Agência 2649
C/C 6676-1

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Rir para não chorar

Inacreditável como somos capazes de humorizar a própria tragédia. Tanto na política quanto na economia, assim como nos esportes (na histórica derrota de 7 a 1 para a Alemanha) e em relação às principais notícias dos jornais, tudo vira piada nos labios desse povo.

Pois bem. Por esses dias de festa coletiva, recebi pelo Whatsapp umas paródias envolvendo quatro tradicionais marchinhas de Carnaval que logo fui compartilhar em minhas redes sociais pelo telefone móvel celular. A primeira delas, baseada em Cachaça não é água, escrita em 1953 por Mirabeau Pinheiro, Lúcio de Castro e Heber Lobato, zomba da empreiteira Odebrecht por sua distribuição de propinas a políticos do país, como se lê a seguir:

"Se você pensa que dinheiro é água.
Dinheiro não é água não.
Dinheiro vem da Odebrecht.
E água vem do ribeirão."

Outra que me chamou a atenção por sua criatividade foi a versão inspirada em A Jardineira, a qual foi composta no começo do século passado por Humberto Porto e Benedito Lacerda, mas que se tornou célebre pela voz de Orlando Silva, este considerado o "cantor das multidões". Em sua crítica, o autor parodial se refere aos desvios dos recursos da estatal Petrobras através dos esquemas criminosos praticados nos contratos onde um percentual era pactuado para a ilicitude:

"O petroleira por que estás tão triste?
Mas o que foi que te aconteceu?
Foi a propina que caiu no grampo,
Deu dois por cento
E depois morreu."

A terceira paródia, baseada na politicamente incorreta Cabeleira do Zezé, feita por João Roberto Kelly, na década de 60, foi direcionada ao ex-governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, o qual se acha preso desde o ano passado em Bangu 8. Só que, pelo fato dos detentos serem obrigados a ter os cabelos cortados nos estabelecimentos penais e de custódia, o criativo humorista apenas poderia ridicularizar a careca do réu:

"Olha a cabeça do Cabral.
Será que ele é?
Será que ele é?
Marginal?"

A última que li, também do Kelly, inspirou-se em Maria Sapatao, outra música inapropriada para a nossa época onde tudo cheira a preconceito mas que, nos anos 80, o saudoso Chacrinha costumava cantar em seu divertido programa de TV que ía ao ar nas tardes de sábado. Contudo, o crítico da política trocou o sinônimo vulgar de lésbica para "delação", que seria um nome coloquial para o benefício jurídico da tão festejada colaboração premiada. Isto porque, graças à sua aplicação é que muitos delitos passaram a ser descobertos pelas autoridades de investigação, levando inúmeros políticos e empresários ricos para a cadeia como jamais se viu em toda a nossa história:

"Maria delação,
Delação, delação.
De dia, mordomia.
De noite, a prisão."

Como se vê, meus leitores, a situação no país pode estar uma calamidade nacional, com milhões de desempregados, mas ainda assim o brasileiro, em sua pacificidade passiva, consegue encontrar bons motivos para se alegrar (ou anestesiar-se) e não sentir o lado esquerdo do peito tão deprimido com as más notícias. Ou seja, o nosso povo tenta levar a vida na brincadeira e faz com que a tragédia, nesses três dias, vire um animado samba.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

“Religião como verdade para muitos, falsidade para poucos e utilidade para todos”



Grande parte da humanidade acredita em algo maior que ela. Um ser criador. Originador mas que não tem origem, criador mas incriado, Pai, mas que nunca teve mãe Este é Deus. Não vou jamais desistir da hipótese de que Deus é uma criação nossa e que sua palavra sagrada não é, como dizem, algo que parta dele para nós, e sim, algo que parte de nós para ele. Uma carta de amor daquelas que os namorados escrevem, cheias de melosidade, afeto, desejo, isto é a Bíblia, um livro que vem respaldando a crença de muitos ao longo dos milênios. Mas, quando e por que ela surgiu?

A religião surgiu no mundo em razão das necessidades do homem. As primeiras crenças da humanidade estavam relacionadas, principalmente, à agricultura. O homem sentia a necessidade de prever quando choveria para que a produção dos alimentos fosse eficiente. Como resultado disso, o homem criou métodos para tentar prever o futuro, como a astrologia, a quiromancia e a necromancia, e também métodos para tentar modificar o futuro, como a magia, a bruxaria e os encantamentos.

A ideia de Deus esteve, inicialmente, associada aos fenômenos meteorológicos. Assim, surgiram também os conceitos de deuses específicos para determinadas situações vivenciadas pelo homem, como o deus da guerra, da caça e do amor. Assim, podemos entender que a criação da religião aconteceu pela necessidade do homem de compreender ou, pelo menos, tentar explicar alguns fenômenos misteriosos.


A partir do Cristianismo, o homem passou a acreditar na existência de um Deus semelhante à humanidade. Pela Bíblia, o homem foi feito a imagem e semelhança de Deus. Em seguida, na evolução do conceito de religião, o homem criou métodos para interagir com Deus, rezar e pedir bençãos e favores. Isso acontece tanto nas aldeias indígenas, quanto nas civilizações urbanas e contemporâneas.

Com o passar dos anos, a religião começou a se basear em orações e promessas, e a determinar intermediários entre Deus e as pessoas comuns, como os padres, pastores e pais de santo, por exemplo. Hoje, as religiões têm na figura do sacerdote o desafio de converter mais adeptos. Nesse contexto, a utilização de um antagonista de Deus, o chamado demônio, e de um lugar prometido em detrimento de um “inferno” de sofrimento eterno também serve para encaminhar os fiéis para o caminho da religião, pelo medo. Esta é a realidade para muitos.

Mas, para poucos, isso tudo não passa de uma grande mentira. Uma história inventada para explicar a origem das coisas, as causas que deram origem aos fenômenos que não entendemos ainda, apenas uma etiologia infantil.

Ateus normalmente escolhem não acreditar em Deus, é o que dizem os religiosos, pois pessoas que sofreram algum tipo de trauma e por terem fé suficiente ficaram com “raiva” de Deus e que muitos ateus foram molestados quando crianças, ou sofreram maus tratos, muito se sentem a margem da sociedade, sem estudo, sem amor, sem carinho, entregue ao alcoolismo e ao homossexualismo, ou seja, nas garras de satanás. Muitos deles vem de famílias desestruturadas, pobres e sem conhecimento de Jesus. Se um Ateu parar para pensar e colocar a cabeça no lugar um segundo, ele verá que não tem como ele sequer respirar sem Deus existir. Contudo, são pessoas que não tem censo de certo e errado e desafiam a Deus a todo momento.

Não poderiam estar mais errados!

Antes de tudo, ser Ateu não é uma opção e sim uma conclusão, uma constatação. Ao contrário do que muitos cristãos costumam afirmar, a gigantesca maioria dos Ateus chegou à conclusão de que “não existem deuses” sozinho, pensando com seus botões, sem que para isso fosse necessário um trauma nas suas vidas ou dificuldades de qualquer tipo. No geral, os Ateus são, em sua maioria, mais “estudados” que os teístas, porém como a quantidade de teístas no mundo é muito maior, as afirmações são contrárias.

Dificilmente você vê uma pessoa morrendo de fome e que diz “Deus não existe”, normalmente o que é observado é que quanto mais “ignorante” (ou sem instrução) a pessoa é, mais ela tem a tendência em acreditar em mitos e divindades sem provas.

Antes de serem Ateus, no geral, eles tiveram uma religião e aqui no Brasil a maioria esmagadora deles era cristão. Logo, a maioria conhece a bíblia, alguns conhecem muito bem, outros conhecem tão pouco quanto a maioria dos cristãos, muitos frequentaram igrejas durante anos a fio e chegaram a inevitável conclusão. Obviamente o ateu não entende de tudo, mas o que um Ateu normalmente entende é que nenhuma prova, amostra ou evidência da existência de algo sobrenatural foi mostrado a ninguém até o momento. Esta é a falsidade para poucos.

Enquanto houverem pessoas dispostas a serem dominadas, haverá aqueles que as dominem”, e se partirmos de Maquiavel, perceberemos que nada mudou em seis séculos. O temor a Deus faz-se indispensável pois só assim submete-se quem deve ser dominado e como o mandamento divino é mais eficaz do que a lei humana, a prudência do governante faz-se necessária para que ele possa usar da religião para dar ânimo e dominar o exército, para ser atendido pela plebe.

Aqui reside uma exigência: para as repúblicas ou príncipes que desejam manter-se sem corrupção, devem zelar para que os cultos religiosos não sejam corrompidos. Caso os cultos se tornem corruptos, aí reside o indício da ruína do Estado. Como toda religião tem como fundamento alguma ordenação principal, o príncipe deve conhecê-la e conservá-la. Se assim o fizer, há de manter a religião e a sua república unida. Caso o príncipe acredite que a religião está inteiramente a seu serviço, há de destruir tanto a religião, quanto a crença que o povo tem nela e verá a ruína de seu próprio Estado pois “não pode haver maior indício da ruína de um estado do que o desprezo pelo culto divino” (MAQUIAVEL, 2007, p.52).

Nota-se, pois, que se a religião for corrompida, ela perde toda a sua força mobilizadora e, assim, tem-se como consequência a decadência do vivere civile (AMES, 2006.).

Maquiavel usa seu ato de conduzir o povo romano à obediência civil como exemplo da eficácia do bom uso da religião. Encontrou em Roma um povo indomado e desejou conduzi-los às “artes da paz”. Como alternativa à violência, usou a religião para domar e manter a cidade já que o poder de Deus é mais temido que o do homem. “Estas [“artes da paz”], na passagem da obra maquiaveliana citada acima, não consistem em outra coisa senão na religião, apresentada como instrumento capaz de subtrair sentimento da obrigação política do exclusivo domínio da força, e, por isso mesmo, definida ‘como elemento imprescindível para manter a vida civil’”

Cabe, então, explicitar os expedientes que fazem a religião se tornar um instrumento cuja produção é a de comportamentos individuais e coletivos úteis POLITICAMENTE. A simulação é um expediente ao qual se recorre quando a autoridade do príncipe não é suficiente para submeter os súditos. Tomemos o exemplo usado por Maquiavel da simulação feita por Numa que, ao perceber que sua autoridade não seria suficiente para fazer suas leis cumpridas, simulou familiaridade com uma Ninfa e agiu como se esta lhe desse conselhos para que ele transmitisse-os ao povo. A verdade da religião não é o mais importante, o que importa é que interpretação da vontade divina seja feita de forma a acarretar o êxito para os propósitos do príncipe, haja vista que estes sempre devem ter como fim o bem comum.

Traçando um paralelo entre o que Maquiavel escreveu e a realidade brasileira, constatamos que a dominação não cessou ao longo da história. Por exemplo, a controversa escolha do deputado federal Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara não é um fato isolado. Ela expõe a consolidação do poder político das religiões no Brasil, sobretudo da evangélica, que cada vez mais junta forças para impor sua agenda.

Os parlamentares ligados a instituições religiosas já representam um quinto do Congresso. Em 20 anos, o número de deputados federais e senadores evangélicos mais que triplicou (saltou de 23 em 1990 para 73 em 2010), perdendo hoje só para a bancada ruralista. Com isso, os embates com grupos de direitos civis, pró-liberalização do aborto e das drogas, de direitos humanos e de defesa da laicização do Estado se intensificaram.
Sob o pretexto de “proteger a família e a vida”, os parlamentares das bancadas católicas (22 congressistas) e evangélicas deixam as diferenças de lado e trabalham juntos para tentar conter o avanço de pautas como aborto, casamento homossexual e liberalização das drogas.
As alianças formadas pelas bancadas religiosas têm grande poder de ramificação. Como exemplo, a Frente Parlamentar em Defesa da Vida e Preservação da Família, que une católicos, evangélicos e outros políticos de alguma forma ligados a esses preceitos, conta com 192 parlamentares (40% do Congresso). “Não são somente eles que são conservadores. Eles vocalizam boa parte do que a população brasileira pensa sobre aborto, direitos das mulheres e de homossexuais”, diz Christina Vital, professora de ciências sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF)..
Frank Usarski, professor de ciências da religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), diz que, em comparação com a Alemanha, por exemplo, o pluralismo das forças religiosas é menor no Brasil, porém a influência da religião é maior. “O enraizamento das igrejas na consciência e na realidade social dos brasileiros é maior”, afirma.
Dessa forma, as religiões ameaçam o Estado laico brasileiro, como alerta o livro Religião e política: uma análise da atuação de parlamentares evangélicos sobre direitos das mulheres e de LGBTs no Brasil. O estudo é de autoria dos pesquisadores Christina Vital e Paulo Victor Leite Lopes. Nele, os autores descrevem o avanço dos evangélicos na política na década de 1980. As igrejas passaram a reivindicar um lugar para si a fim de ampliarem a influência de suas tradições e valores.

O Brasil se tornou formalmente laico a partir da primeira Constituição Republicana, em 1891, mas a igreja Católica sempre fez esforço ao longo desse período para garantir presença no Estado público. Como exemplo, está a introdução na Constituição de 1934 da obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas públicas brasileiras.  “No Brasil, há uma enorme presença do elemento religioso no espaço público”.
Lamentavelmente, enquanto a maioria não se interessa pela sua história religiosa, política, científica, geográfica etc, há uma minoria muitíssimo interessada em dominar por meio daquilo que a maioria acredita. Deus.

Edson Moura




quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

“Não sou pedófilo”



Era pra ser uma pergunta bem simples: “Prefere mulher depilada ou peludinha?”

Caí na besteira de confessar minhas opções (as raspadinhas), e não deu outra, fui rotulado. Mas as raspadinhas se parecem com xoxotas de crianças, logo, você gosta de crianças, logo, és pedófilo. Puts! Será?

Será que pelo simples fato de um homem preferir mulheres que carreguem traços neotênicos faz dele um estuprador de vulneráveis? Não seria aceitável que o homem, até pelo processo evolutivo, sinta certo tipo de atração por uma fêmea jovem, que carregue consigo a capacidade reprodutiva, diga-se de passagem, a maneira pela qual a espécie se prolifera? Saiamos então do campo da ciência e partamos para o campo dos afetos.

Nutrir desejos por mulheres mais jovens, ou melhor, por aquelas que aparentam ser mais jovens, consequentemente mais belas e “durinhas” não é algo que deva ser recriminado ou mesmo criminalizado. É apenas uma questão de gosto.

Há os que preferem as “cheinhas”, outros as magricelas. Alguns se esbaldam com uma coroa e já outros se acabam com uma novinha. Também tem aqueles mais estranhos que preferem apanhar, bater, lamber os pés, e serem pisados por saltos-agulha com uma combinação perfeita de chicotes, algemas e parafina derretida, também existe uma parcela significativa que gostam de dominar, amarrar, chamar de puta, cadela e outros adjetivos “carinhosos”.

Os normais (normais?), são carinhosos, atenciosos apagam a luz para poupá-las do constrangimento de verem sua estrias e celulites, colocam aquela música romântica de fundo para dar um clima.

Quase esqueci de falar dos mais estranhos ainda, que se excitam vendo suas parceiras serem possuídas por um “negão da picona” enquanto observam pelo buraco da fechadura do armário. Gosto é gosto, eu não discuto.

Agora, tem os doentes, estes sim, são um perigo. Sentem atração por crianças, guardam material pornográfico infantil em seus computadores, molestam filhos de vizinhos, amigos e até os seus próprios, estupram e matam. E com esse tipo de animal eu não quero ser comparado quando digo que gosto de mulheres magras, pequenas e que raspem os pelos pubianos.

A mulher que não percebe que ao se maquiar com espessas camadas de corretivo, ao pedalar o “tour de france” nas ergométricas de academias, ao arriscarem sua saúde em regimes absurdos e entrarem na “faca” de cirurgiões açougueiros, estão criando um padrão de beleza que estimula esse desejo pelo que é mais jovem, ou aparenta ser, estão redondamente equivocadas.

Ah, mas eu estou apenas cuidando da minha saúde! Ah vá! E precisa colocar aquele decote mostrando a auréola do peito? Precisa colocar um shorts tão apertado na frente que podemos distinguir lábios inferiores e clitóris, e tão enfiados no cu que nem precisa fazer depilação anal, pois as fibras de tecido se encarregam de fazer o serviço? Isso tudo é pra saúde? Saúde de quem?

Parece uma crítica perversa o que estou fazendo (e é), mas a mulherada precisa se valorizar. Não estou dizendo para vestirem uma burca, jamais, apenas digo que não precisam exagerar. Nós homens já temos imaginação em demasia fértil para criarmos nossas fantasias com vocês.

Fugi um pouco do tema, mas retorno à ele. Respeitar o gosto do outro sem rotular, é um exercício de sabedoria. Nós homens somos rotulados o tempo todo por mulheres e acreditem (sei que acreditam) fazemos isso com vocês o tempo todo. São vadias, galinhas, putas, promíscuas, feministas, burras quando loiras, metidas quando inteligentes, loucas quando implicam e santas quando calam.

Mesmo assim somos profundos admiradores de todas. Das tísicas às obesas, das “fionas” às princesas, das putas às santas e obviamente, das novinhas às lobas, e nunca deixará de ser assim. Precisamos uns dos outros e essa misoginia e misandria que verifico na sociedade líquida, só prejudica os relacionamentos por vezes tão estranhos que tentamos desenvolver.

Edson Moura







segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Bendito (SQN) Chronos!

Por Donizete Vieira

Na mitologia grega, Chronos é o deus do tempo que não possuía em mínimo grau o instinto paterno, pois devorava seus próprios filhos para evitar que um dia crescidos eles não viessem a conspirar contra ele, usurpando-lhe o trono. (É o que reza uma das versões sobre Chronos)

O caráter destrutivo do tempo tem conexão com esse mito. 

Rememoramos com nostalgia eventos do passado. O presente é inexoravelmente isso que se nos apresenta sem tirar nem pôr. O futuro? bem, a ideia de que o futuro será a soma daquilo que construímos e planejamos é tão incerta que gostaríamos que o ritmo do tempo acelerasse para acabar de vez com a apreensão natural face ao desconhecido.

Todas as vezes que olhamos no espelho, chronos ali está representado pelos traços físicos característicos de quem sofre sensíveis influências degenerativas do tique-taque do relógio ou da areia que escorre pelo orifício da ampulheta. Usar a expressão "momento divino" é quase uma redundância.

Chronos é  implacável. Não adianta adorá-lo ou amaldiçoá-lo. Ele estará sempre indiferente à tudo que ocorre em nosso tempo.

domingo, 29 de janeiro de 2017

O Poder da fantasia



Cresci ouvindo frases do tipo: “Terra chamando Edson”, ou “ É preciso por os pés no chão meu amigo.” Pois é, são frases assim que nos alertam de tempos em tempos, para que paremos de sonhar e finquemos nossos pés no chão da existência. Mas a grande verdade é que nós sonhamos a maior parte de nosso tempo e só em alguns momentos acordamos.

Algumas pessoas (e eu posso afirmar que estou fora desta lista) passam um terço de suas vidas dormindo, sonhando, e quando despertam, suas fantasias ocupam um tempo muito maior do que imaginam. Mesmo no trabalho elas fantasiam estar em outro lugar, com outras pessoas. Quando têm a oportunidade de tirar umas merecidas férias, ficam imaginando que farão com os onze meses que virão depois. Num exercício platônico idealizam, se imaginam sendo o centro das atenções por alguns míseros segundos, veem-se com alguém a quem desejam, ou cogitam uma situação onde conseguem algum mérito pelos seus esforços.

Sempre que podem, e podem fazer isso várias vezes por dia, utilizam algum escape para lidar com a dura realidade. É bem verdade, que se pudéssemos, usaríamos algumas fantasias emprestadas das séries de Netflix, dos filmes ou até mesmo dos romances ou tragédias escritos pelos grandes como Fiodor Dostoiévski e William Shakespeare, nos quais a angústia por um final feliz faz do leitor quase que um co-autor. Mas o que a psicanálise fala sobre isso?

A psicanálise propõe-se o condão de decifrar as fantasias e avaliar o conteúdo da realidade a qual o sujeito sofre. O “Tio Freud”, em sua teoria que nasceu da possibilidade de fazer interpretações das fantasias dos neuróticos, descobriu que em cada sintoma do paciente havia uma história para contar. E atrama que surgia a partir do sofrimento de cada um deles era, em parte, construída de fatos da realidade, mas acrescentada de outros fatos, esses pois imaginários.

O discurso possível a respeito de quem somos na verdade e do que nos aflige, seria constituído de histórias, na tentativa de criar um sentido para nossa existência e assim poder sustentar nossos desejos inconscientes.

São nossos palácios mentais, aqueles lugares onde só nós podemos chegar, só nós temos acesso, por um portal tridimensional, uma máquina do tempo imaginária, uma porta que se abre dentro de um armário, sei lá, cada um sabe como chegar lá, ouvindo uma canção, meditando, orando numa igreja, relaxando à sombra de uma árvore ou trancado em um quarto escuro, num cárcere.

É o limite que se estabelece entre o real e o imaginário, porque ali a magia é real, pode-se voar se quiser, criar asas, encontrar-se com seres encantados, heróis de quadrinhos ou épicos, pode-se ter garras de adamantium ou soltar laser pelos olhos, ser um milionário da mega sena ou amante da mais bela atriz de Holliwood ou dos X-videos.

Quando estamos no “era uma vez”, a história imaginária se instala em um sonho, que nos projeta para uma aventura, uma situação, um momento no qual as sensações e vivências se entrelaçam permeando nosso imaginário onírico de construção de personagens que gostaríamos de ser, como o “homem tomada” do filho de um de meus amigos. A fantasia nos convoca e nos presenteia com efeitos maravilhosos que nos levam (e levam mesmo) a uma viagem fantástica e inesquecível.

Essa alienação é tão poderosa que pode suspender a lógica e o senso crítico, nos remetendo para um mundo fora do tempo, onde o espaço da imaginação cede lugar a uma fantasia construída por um ideal imaginário, e como disse, platônico. Por mais que essa viagem às vezes seja um completa desordem, ela sempre será reordenada, de acordo com o final que queiramos dar, ou, que a mensagem implícita seja pelo menos tranquilizadora, daquelas que dá um friozinho na barriga, e nos parece que uma injeção de ânimo fora aplicada diretamente em nosso cérebro.

Assim vamos levando a vida, pensando que sonhar, imaginar, fantasiar, é prerrogativa das crianças que não conseguem ainda enxergar a maldade no mundo que as circunda. Somos adultos sonhadores, obviamente que uma consciência sem graça e entrometida virá o tempo todos tentar nos acordar, nos fazer botar os pés no chão, acordar pra vida, mas não ligamos, continuamos fugindo de tempos em tempos, o tempo todo para algum lugar bem afastado de todas as responsabilidades que a vida adulta nos confere, as contas que estão atrasadas, a mulher que foi embora e não vai voltar, o emprego dos sonhos, o salário merecido que nunca chega.

Há um significado pra tudo isso?

Olha, não sei se há, mas que nos ajuda a viver, nos ajuda a sofrer com dignidade, isso não podemos negar. Isso não quer dizer que devamos levar a vida de avestruzes que escondem a cabeça num buraco crendo que estão protegidos de seus predadores, de forma alguma. Seria mais como o pavão, que abre suas plumas, e mesmo sendo menor, consegue convencer seu adversário de que é maior e mais poderoso.

Assim superaremos melhor os traumas, as perdas, as falhas, alienando-nos de vez em quando, em doses medicinais, para que possamos crescer por dentro e tornarmo-nos o Super homem de Jerry Siegel ou de Nietzche.


Edson Moura

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A pílula da felicidade


Uma das melhores coisas que a filosofia despertou em mim, foi a capacidade de questionar. Não só questionar para poder debater com amigos e outros blogueiros, mas sim, avaliar tudo aquilo que vejo e depois digerir este conteúdo e quando possível, escrever sobre ele com minhas próprias palavras. Uma dessas maravilhas é a capacidade de não mais assistir a um filme e não fazer uma avaliação crítica de seu conteúdo. Pois bem, assisti recentemente a um filme chamado “Sem limites”, onde um jovem escritor com bloqueio criativo se vê desesperado por não conseguir escrever seu livro.

Casualmente ele encontra um amigo que lhe oferece uma pílula misteriosa, e daí para frente tudo em sua vida muda. Sua capacidade cognitiva é elevada ao extremo e sua cabeça se torna um turbilhão. Me perguntei se esta pílula seria possível com os avanços na área da farmacologia e neurociência. Pesquisei aqui e ali e quero fazer um breve relato sobre os males e os benefícios dos avanços da tecnologia. Boa leitura.

Muito antes de Heidegger formular sua crítica romântica à tecnologia e nos falar de niilismo, o sociólogo alemão Max Weber já preconizava que a época moderna se caracterizaria pelo desencantamento do mundo. Desencantar-se é uma característica inevitável do processo de racionalização provocado pela ciência e pelo surgimento das sociedades industriais. A nova imagem do mundo que se consolidou ao longo século XX visou aniquilar com a religião e com tudo que poderia haver de mágico na nossa concepção de universo.

No século XXI assistimos a mais um passo nessa direção: o desencantamento do "eu". As novas ciências, em especial a neurociência, nos convidam a abandonar a imagem do ser humano como criatura dotada de uma alma imortal, que seria uma centelha do divino. Temos todos um cérebro igual, de onde se quer inferir que somos todos iguais. Mas isso pode soar tão absurdo como querer dizer que o cardápio de todos os restaurantes do mundo deveria ser igual porque o estômago humano é igual em todos os lugares e culturas.

O desencantamento do “eu” visa à dissolução da subjetividade. A ciência estaria tentando profanar um dos últimos bastiões da Religião e da Filosofia ao buscar uma explicação científica da natureza da consciência humana. Contra essa iniciativa, que parece tão drástica, mas, ao mesmo tempo reconhecida como inexorável, cada vez mais surgem grupos humanos que se agarram às crenças mais bizarras ou à fé fundamentalista. O fundamentalismo seja religioso ou político, tornou-se uma marca da vida contemporânea tanto quanto a ciência, embora se alastre predominantemente nas sociedades pré-tecnológicas do terceiro mundo.

Essa avalanche sobre o “eu”, protagonizada pela neurociência, manifesta-se, sobretudo, no uso crescente de drogas que produzem estados alterados de consciência. Sabemos que todas as sociedades humanas sempre tentaram, por meio da legislação, impor uma política da experiência ou uma espécie de ética da consciência, que visa banir as drogas proibidas, nem sempre com justificativas médicas ou científicas aceitáveis.

Mas agora não se trata mais apenas de banir as drogas ilegais. É preciso discutir as drogas lícitas que produzem estados alterados de consciência. As tentativas de suprimir as tristezas e a falta de atenção das crianças na escola levaram a uso quase que indiscriminado de antidepressivos e de substâncias como a ritalina. As consequências desse processo já se fazem sentir até na modificação da psicologia popular, na qual já não se fala: “Estou triste”, mas “Estou deprimido”.

Mas será que se pode exigir das pessoas que não se entristeçam ou não se angustiem? Em um futuro próximo é possível que o uso dessas drogas para melhorar o humor e o aprendizado passe a ser por parte dos empregadores (item da cesta básica) e pelos professores (farão parte da merenda escolar). E alguém poderia proclamar: por que não? O exército americano já obriga seus soldados a ingerirem algumas drogas que podem fazer que eles percorram grandes distâncias carregando equipamentos geralmente muito pesados sem, entretanto, sentir cansaço.

Não faz muito tempo, a neuro-farmacologia descobriu algumas substâncias que induzem a experiência religiosa. Ora, será que essas substâncias não deveriam ser consumidas por todos e o Estado declará-las obrigatórias? A religião é mais confortável que o ateísmo, disso já sabia o velho Kant. Então por que não disseminar a religiosidade? Afinal, indivíduos e sociedades religiosas serão, supostamente, mais pacatos e administráveis... Será esta a “pílula de Deus”, já que existem pílulas para tantas outras coisas.

A questão de fundo, contudo, continua a mesma. O que torna alguns estados alterados de consciência mais desejáveis que os outros? A neuro-farmacologia trouxe, a reboque, um amplo leque de dilemas éticos e força novas pautas de discussão filosófica. Afinal, o que define um bom estado de consciência e quais, dentre todos os que podemos ter, devem ser declarados ilegais ou inaceitáveis? Essa é a pergunta principal que deve nortear uma ética da consciência, já que vivemos (e viveremos) predominantemente em estados alterados de consciência, produzidos pela ingestão, cada vez mais frequente, de drogas legais ou ilegais. Afinal, desde a invenção do Prozac, ingressamos definitivamente no admirável mundo novo de que nos falava Aldous Huxley.

Não estamos preparados para a demolição do “eu”. Se há uma década temíamos que máquinas se tornassem conscientes, hoje, temos de temer que humanos percam a consciência. Não há nada mais abundante no planeta do que seres humanos, e eles podem se tornar úteis para os propósitos de uns poucos por maio da supressão da consciência. A supressão da consciência tem se revelado um investimento menor, do ponto de vista econômico, do que a construção de robôs conscientes. Essa é a nova forma que a angústia passou a ter a partir do século XXI.

A ética da consciência precisará nos ajudar a escolher entre os possíveis estados alterados de consciência no intervalo entre a “angústia mórbida”, que não nos permite sequer levantar da cama, e o “alienado feliz”, aquele que Sartre chamava de “salaud”, ou o idiota imune à própria angústia. Não será uma escolha nada fácil.

Edson Moura

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Fatos novos de cada dia nos dai hoje...

Por Donizete Vieira

Quanto maior a tragédia melhor! 

Seria decepcionante acontecer um terremoto, maremoto, ou a erupção de um vulcão que seja, se o número de mortos não passar dos milhares. 

O legal não é ver um lutador de MMA ganhar com um nocaute técnico, mas sim arrebentar o adversário até deixá-lo sagrando. Principalmente se este for um falastrão desaforado. 

O que nos prende na frente da telinha, não é a notícia de que um avião monomotor caiu e cinco apenas morreram, (a não ser que entre as vítimas tenha alguém famoso) , ou se o ônibus caiu na ribanceira e apenas a metade dos passageiros morreram. Isso é fato comum, não repercute nem no dia seguinte. 

O trivial não nos interessa, não satisfaz nossa natureza animal. Não sacia a sede dos “Datenas” da vida espalhados aos milhares pelas agências de notícias. Nem tampouco a nossa, que já elegemos os canais News como nossa principal fonte de entretenimento.

Somos naturalmente propensos a sentir prazer, satisfação, mesmo naquilo que é repugnante e trágico na realidade. Diante das tragédias o ser humano experimenta um misto de “piedade”, “temor” e “prazer”. Prazer sutilmente disfarçado de consternação. 

Por que enfatizar tantos detalhes das tragédias? Simples, é exatamente isso que o ser humano quer ver!

A propósito, é bom destacar que esta questão foi histórica e filosoficamente tratada com Aristóteles. Os leitores podem ler um artigo largamente difundido com o título: “sobre o prazer na tragédia em Aristóteles”

Agora, estaria este “eu Psicopata” escondido nos porões do nosso inconsciente? Ou seja, tudo aquilo que vivemos tentando evitar ou negar acabamos empurrando para lá? Alguns podem negar! Mas para aqueles que são sensíveis de imaginação, sempre acaba se convencendo que está “lá”. Freud explica!
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