segunda-feira, 18 de junho de 2018

A escola modelo do Brasil da ilha de Marambaia



Por Mirian Bondim*

Um das iniciativas mais brilhantes do governo de Getúlio Vargas na região foi a criação, em 1939, da Escola Técnica de Pesca Darcy Vargas, na ilha de Marambaia. A escola foi construída durante o Estado Novo, sob a coordenação da Fundação do Abrigo Cristo Redentor, uma entidade filantrópica (sem fins lucrativos) criada por Rafael Levy Miranda.

A escola possuía em suas dependências dois dormitórios com duzentos leitos cada, subdivididos em camarotes, com quatro beliches de ferro, cobertos de lona, sala de diversões, biblioteca, barbearia, anfiteatro, lavanderia mecânica, enfermaria, com salas de isolamentos, gabinete dentário e médico, grupo escolar com instalações para 220 meninos, residência dos religiosos que administravam os serviços do hospital e da maternidade.

Até 1965, o estabelecimento funcionou como um grande complexo industrial profissionalizante de pesca, com a capacidade inicial para 400 alunos oriundos de vários estados brasileiros. Possuía instalações industriais com frigorífico, fábrica de redes de pescar com dois pavilhões destinados à tecelagem e o curtume das redes, fábrica de gelo, indústria do peixe com instalação frigorífica, com sala de salga e corte de cação, usando a mesma técnica de bacalhau na preparação da carne cortado em filés e na secagem e empacotamento de peixe seco, fábrica de sardinha em conserva com azeite e tomate, laboratório para o aproveitamento dos subprodutos dos peixes, entre os quais o óleo do fígado de cação, fábrica de farinha de peixe, estaleiro naval com carpintaria e todo o aparato deste, oficina mecânica de motores marítimos, usina de luz elétrica etc.

Além das instalações da escola industrial da pesca, foram construídas residências com esgoto, água encanada e energia elétrica destinadas aos pescadores e operários, uma cooperativa, uma escola primária, a Igreja Nossa Senhora das Dores, com clausura para religiosas, um parque recreativo para as crianças, um pequeno hospital, uma farmácia, além de padaria, hortas e espaço para pecuária. Esses últimos, para abastecimento dos operários, técnicos e alunos.

A Escola de Pesca, motivo de orgulho do governo de Getúlio Vargas e de Mangaratiba, marcou presença nas páginas dos principais jornais do país, sendo apontada como escola modelo do Brasil. Jornalistas acompanhavam as visitas de autoridades nacionais e internacionais à escola, noticiavam o encantamento desses visitantes pela organização por suas produções no preparo da pesca da rica Baía de Sepetiba.

Infelizmente, com o fim do governo de Vargas, em meados dos anos 50, o projeto entrou em decadência e, durante o regime Militar de 1965 a 1970, passou a funcionar dentro de um sistema comum de colégio interno (não mais como escola de pesca) com a denominação de Escola Técnica Darcy Vargas. Para tal, foi firmado um convênio entre a Fundação Abrigo Cristo Redentor e a Secretaria Estadual de Educação e um novo currículo escolar foi estabelecido, incluindo, além das disciplinas tradicionais, Artes Industriais, encadernação de livros, motores a explosão, artes gráficas, artesanato, marcenaria e noções de marinharia.

Em 1971, infelizmente, esse grandioso projeto chegou ao fim, com todas as instalações da antiga escola de pesca sendo passadas às mãos da Marinha do Brasil. Em 1981, foi criado, no local, o Centro de Adestramento da Ilha da Marambaia (CADIM), sob o comando dos Fuzileiros Navais. 
Em Mangaratiba, a Escola Darcy Vargas é saudosamente lembrada pela presença da “Banda da Marambaia”, animando as quermesses de festas das igrejas, os desfiles escolares de 7 de setembro, em torneios esportivos e outros eventos mais. Como também é lembrada por um grupo de ex-alunos que todos os anos se reúne para matar a saudade dessa inesquecível escola.

(*) Mirian Bondim é professora e historiadora. Escreve semanalmente na página Santa Paciência do sítio de relacionamentos Facebook.

OBS: A primeira imagem extraí da Wikipédia sendo os créditos autorais do trabalho fotográfico pertencentes a Diego Baravelli, conforme consta no artigo da enciclopédia virtual sobre a restinga (clique AQUI para ler). Já o texto foi extraído da postagem feita em 13/06 na página Santa Paciência do Facebook, na qual se pode ver antigas fotos sobre a escola cuja pesquisa é atribuída a Guaraci Rosa em https://www.facebook.com/GuaraciRosaHistoriador/posts/1920945787930085

quinta-feira, 14 de junho de 2018

“A Academia Paciente de Letras”





Por Isra Toledo Tov (*)
(Memorialista e pesquisador da história da Mata da Paciência)



Mariano Odelot, em abril de 1975, acordou certa manhã decidido a fundar uma academia de letras em Paciência, bairro pobre da periferia carioca, contando à época com pouco mais de 45 mil habitantes. Pegou papel e caneta e listou todas as poetisas, todos os poetas, todas as escritoras e todos os escritores que viviam no rincão periférico paciente.

Conseguiu juntar uma poetisa, um poeta, uma jornalista (que escrevia artigos e crônicas num jornal do comércio de Campo Grande) e sua própria insigne pessoa e marcaram uma reunião deliberativa para o meado de abril. Preparou um bosquejo de ata de reunião, com uma pauta bem simples. Item 1: escolha do nome da academia, sugeria-se Academia Paciente de Letras; item 2: um/a presidente/a deveria ser eleito/a nessa primeira reunião; item 3: um local fixo para reuniões e palestras deveria ser encontrado ou construído; item 4: uma personalidade nacional ou internacional deveria ser homenageada no primeiro ano de existência da academia; item 5: um ciclo de palestras já deveria ser agendado para o primeiro mês de existência da nobre academia.

A reunião deliberativa ocorreu, de fato, no armazém das Nove Portas, na rua Serrolândia, no Jardim Sete de Abril, um modestíssimo estabelecimento pertencente a um português, o Seu José. Na parte externa, com uma mesa de madeira cedida pelo dono do local, mais quatro rústicas cadeiras, montou-se a sede provisória da APL (Academia Paciente de Letras). Mariano se vestiu cerimoniosamente para a ocasião, pois considerava de máxima relevância para a cultura local, paciente, a fundação de uma inspiradora academia de letras.

Logo no início dos trabalhos da tertúlia, verificou-se que nenhum deles, nem a poetisa, nem o poeta jamais tinham publicado um livro sequer! Tudo o que tinham eram textos e poemas dispersos, em folhas de caderno, no máximo um ou dois fragmentos datilografados. O jornalista, porém, sabiamente ponderou que a literatura oral, ágrafa, era tão importante quanto a escrita, e o fato de não haver livros publicados entre eles não lhes tirava o orgulho e a honra de serem literatos. Eram grandes e sedentos leitores, inveterados, já que liam de prosa a poesia, sem descanso, diuturnamente. Sempre andavam pelas ruas do bairro com livros sobre os braços, e até mesmo a vizinhança percebia nisso uma certa mescla de distinção com leve demência.

Ao fim de duas horas de reunião, deliberou-se que, todas as últimas sextas-feiras de cada mês, reunir-se-iam às 17 horas, no mesmo lugar, no armazém do Seu Zé das Nove Portas, na rua Serrolândia, esquina com rua Carapicuíba. Uma pessoa ficaria encarregada de trazer, numa garrafa térmica, um chá de camomila, ou de hortelã, ou de outra erva qualquer, para que a conversa e os debates literários pudessem fluir com maior vazão.

O primeiro item da pauta de reunião foi decidido facilmente, e a plêiade deliberou que o nome Academia Paciente de Letras (APL) caía muito bem para o grupo. O segundo item foi igualmente resolvido com agilidade: optou-se pela rotatividade automática da presidência da APL, sem votos, começando a escolha pela ordem alfabética do primeiro nome de cada membro. Assim, Mariano – que deu a ideia da rotatividade – só assumiria a presidência do colegiado no quarto ano de sua existência, já que a primeira presidenta seria a poetisa Amália. O segundo presidente, no segundo ano da APL, seria o poeta Fúlvio. A terceira presidenta, Gretchen, assumiria no terceiro ano de constituição da APL.

O terceiro item da pauta – a construção de um local fixo para reuniões e eventos – ficou para a reunião seguinte. O quarto item – que grande personalidade deveria ser escolhida como homenageada do ano – consumiu mais tempo do que se supunha. Mariano propôs Lima Barreto, pois venerava sua obra, "Os bruzundangas". Amália apostava todas as suas fichas em Luís Vaz de Camões. Fúlvio bateu pé por "Dom Quixote", o cavaleiro da triste figura, mas o grupo deixou claro que precisava ser alguém de carne e osso, não uma personagem célebre. Gretchen, mais ousada, sugeriu Johann Wolfgang von Goethe, o maior nome da literatura alemã, autor de "Fausto" e "Werther". O grupo silenciou, refletiu profundamente e aceitou o arroubo da jovem jornalista. No primeiro ano de fundação da Academia Paciente de Letras, o escritor homenageado seria Goethe, o gênio alemão nascido em Frankfurt, em 1749, e falecido em Weimar, em 1832, do alto de seus 82 anos burgueses bem vividos.

Decidiram iniciar, imediatamente, a leitura de "Werther", seu primeiro trabalho de sucesso instantâneo em toda a Europa, em 1774. Foi uma delícia para os quatro corações da APL a leitura do diário angustiante do jovem rapaz apaixonado pela distante Charlotte. Terminada a leitura do romance, partiram para a obra mais densa do intelectual alemão, o "Fausto", publicamente postumamente, em 1832. Os debates eram acalorados, a cada encontro da tertúlia paciente, e sempre havia pessoas convidadas, de fora da APL, de outros bairros; até mesmo da Zona Sul veio um dia uma moça que fazia mestrado em literatura alemã.

O quinto item da pauta – a escolha de um tema para um círculo de palestras – foi facilmente acertado: optou-se por uma série de palestras acerca da vida e da obra de Lima Barreto, o homenageado do ano pela APL. Desta vez, o primeiro palestrante a falar, dentro de quinze dias, seria o último a assumir a presidência da instituição, Mariano Odelot! Apresentou, com brilhantismo, a obra "Os bruzundangas" (publicada em 1922), comparou o mundo da obra satírica com o Brasil de então, e foi bastante elogiado pelos colegas da APL e convidados. O pobre do Seu José do Nove Portas era obrigado a trazer cadeiras de sua própria residência para acomodar o grupo literário que tanto crescia. Ainda bem que o encontro só ocorria na última sexta-feira de cada mês, minha Santa Eugênia!

O símbolo oficial da instituição literária paciente era bastante semelhante ao da Academia Brasileira de Letras: o lema “AD IMMORTALITATEM” (“Rumo à imortalidade”, em latim), no centro, e dois galhos ao lado. Diferentemente, porém, do símbolo da ABL, o galho da esquerda era de cana-de-açúcar e o da direita era de café, dois produtos responsáveis pela riqueza do bairro no século XIX. E, no alto e no topo do símbolo, uma laranja, representando a riqueza paciente até o início dos anos de 1950.

Amália passou, anos depois, para um concurso público nacional e foi trabalhar em Rondônia. Fúlvio mudou-se para Belford Roxo, a contragosto, após namorico com a filha de um policial militar... Engravidou a pobre donzela, foi casado à força, na Baixada Fluminense, e toca hoje um bar longínquo por lá, vendendo cervejas e organizando pequenos saraus. Gretchen estudou, profundamente, a língua alemã, no Instituto Goethe, na rua do Passeio, no centro do Rio, conheceu um alemão e vive hoje com ele no interior da Baviera, no Sul da Alemanha. Mariano Odelot, desolado, não conseguiu manter as tertúlias mensais na calçada do Seu Zé das Nove Portas, já que não conseguia juntar membros tão valorosos quanto os três que se perderam no mundo. Até hoje diz existir ainda a APL, mas ela não tem endereço, não realiza reuniões, nem encontros, nem seminários, nem debates, nem nada. A Academia Paciente de Letras é apenas uma lembrança remota de Mariano, mas nunca deixará de existir, ainda que só possua um único membro paciente.

Mata da Paciência, 1.o de agosto de 2015.

(*) Isra Toledo Tov é professor e escritor- Escreve semanalmente na Santa Paciência.

OBS: Texto e imagem extraídas da página no sítio de relacionamentos Facebook "Santa Paciência", conforme consta em https://www.facebook.com/GuaraciRosaHistoriador/photos/a.1807970865894245.1073741829.1800233896667942/1919259084765422/?type=3&theater

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Uma sexualidade vivida com mais prazer e conhecimento



"Então acontece mesmo que quanto mais sexual uma pessoa é, mais inventiva ela pode ser. Quando mais sexual uma pessoa é, mais inteligente é. Com menos energia sexual, menos inteligência existe; com mais energia sexual, mais inteligência, porque o sexo é uma procura profunda para revelar, não apenas corpos, não apenas o corpo do sexo oposto, mas também tudo que está escondido." (Osho, em The Ultimate Alchemy

Começo o frio mês de junho escrevendo sobre um assunto super quente - sexo. Algo que, apesar de ter mudado muito nos últimos 50 anos, ainda é tabu para uma significativa parcela da sociedade brasileira.

Por esses dias eu estava lendo a respeito da massagem yone, a qual, por sua vez, é uma das modalidades da massagem tântrica, tendo se tornado uma prática cada vez mais procurada ultimamente tanto por mulheres solteiras quanto por casais.

Mas, afinal, o que vem a ser isso?

Para melhor entendermos o assunto, há que se estudar um pouco a respeito do Tantra, o qual é uma filosofia que abrange ensinamentos e práticas originados na antiga sociedade indiana, tendo por objetivo o desenvolvimento integral do ser humano nos seus aspectos físico, mental e espiritual. É um termo sânscrito bem amplo que pode significar "uso, trama, tecer".

Certamente que o Tantra não se restringiu ao Hinduísmo pois se misturou com diversas outras culturas e correntes filosóficas como o Vedanta, o Yoga, o Budismo e o Taoísmo, somente se tornando mais conhecido no Ocidente a partir das últimas cinco décadas. Principalmente entre os místicos e esotéricos (muitos deles baseados nos ensinos do guru Osho), havendo no Brasil várias escolas iniciáticas.

Todavia, graças à internet e ao interesse das pessoas por temas ligados à saúde, vários ensinamentos do tantrismo divulgaram-se rapidamente, sobretudo quanto à sexualidade. Aliás, pode-se dizer até que os sites pornográficos têm promovido vídeos sobre massagens eróticas inspiradas no tantrismo embora totalmente desconectados com os seus conceitos filosóficos básicos. E não descarto que esteja havendo até uma larga comercialização dessas práticas como serviços prestados e que estariam divorciados até dos seus aspectos terapêuticos.

Para um pesquisador voltado para o saber científico e que busca ter a sua mente fora da gaiola, estudar o tantrismo e sua aplicação à sexualidade poderá não ter conotação religiosa, porém há que se respeitar tal conhecimento das tradições orientais, considerando o milenar alcance da qualidade de vida pelas sociedades que experimentam esses ensinos. Pois, em que pareça ser conhecimento empírico, este jamais deve ser desprezado pela mente que busca sistematizar tudo pela razão e creio que assim age um massoterapeuta interessado em atuar na área.

Indo agora direto às massagens eróticas, falarei um pouco da yoni, uma palavra no idioma sânscrito e que funciona como um sinônimo para "vagina", que, no Tantra, é conhecida como o "espaço sagrado" ou o "templo sagrado". E, assim sendo, devemos considerar que um entendimento desses induz à ideia de amor e respeito pela sexualidade feminina.

Como consequência, um dos objetivos do chamado sexo tântrico consiste em proporcionar mais prazer à parceira, desde o relaxamento e excitação até o orgasmo. Daí a massagem yoni tem sido vista como uma excelente ferramenta para se construir a intimidade e a confiança num relacionamento.

Por outro lado, independentemente da questão do relacionamento afetivo, tal massagem tem ajudado muitas mulheres a romper bloqueios e traumas sexuais. E, além de contribuir para o alcance do orgasmo, há vários efeitos emocionais que são percebidos no cotidiano, ligados, por exemplo, à autoestima pessoal, ao domínio próprio, ao relaxamento e ao bem estar.

De modo algum pretendo neste artigo dar uma aula sobre um tema acerca do qual eu seria tão somente um pesquisador neófito. Porém, o que podemos apurar na atualidade é que a visão sobre a sexualidade mudou muito já que as parcelas mais esclarecidas da nossa sociedade tem buscado vivenciar o sexo livre dos tabus e dos valores impostos pela cultura religiosa repressora do cristianismo.

Por óbvio que para quem vive engaiolado dentro de uma igreja tais conhecimentos vindos do Oriente acabam sendo associados ao "pecado", ao paganismo e até demonizados. Pois, ainda que os segmentos católico e evangélico tenham experimentado alguma evoluções nos últimos 50 anos, dificilmente uma cristã religiosa aceitaria de boa consciência buscar a ajuda de um(a) terapeuta, ainda que o profissional não demonstre qualquer interesse sexual na sua pessoa. Ela mesma, caso seja uma radical, talvez recusaria tocar nas partes íntimas de seu próprio corpo ou, se bobear, nem permitir que o marido venha a fazer nela a massagem erótica temendo contrariar algum preceito da Bíblia.

De qualquer modo, as reações dos segmentos dominantes da religião cristã não impedem o crescente estudo acerca da sexualidade humana. Pois, muito pelo contrário, vejo pessoas hoje em dia querendo se informar mais sobre sexo e se tratarem de distúrbios que afetam os seus relacionamentos. Daí serem muitos os que, na atualidade, dispõem-se a enfrentar de peito aberto problemas tipo a frigidez, a falta de orgasmos, as dores relacionadas ao sexo, a ejaculação precoce, a impotência.

Quanto ao público masculino, talvez seja o machismo o maior dos obstáculos para o bem estar sexual já que muitos homens preferem negar que sofrem de alguma disfunção. Porém, os que se libertam dessa outra gaiola comportamental costumam se tornar aptos para serem mais felizes na cama com a parceira e até resgatarem um relacionamento fracassado. Inclusive aprendendo sobre novas maneiras de proporcionar prazer à sua mulher.

domingo, 6 de maio de 2018

O País precisa de renovação, mas com conhecimento, visão, honestidade, esperança

Por Fernando Henrique Cardoso*


Passei uma semana em Nova York para participar de um evento sobre novas tecnologias para a medição da ingestão de drogas por condutores de caminhão pelas marcas deixadas nos cabelos. Tendo exercido por muitos anos a presidência da Comissão Global de Políticas sobre Drogas, da qual continuo a ser membro, achei útil difundir os aperfeiçoamentos na medição do seu uso continuado para coibir que os adictos a tal prática ocupem funções em que esse hábito possa ser daninho ao bem público e à vida de terceiros.

Defender uma política não repressiva aos usuários de drogas não significa ser partidário de seu uso. Nem se devem tratar os usuários como criminosos (tratamento a ser dado aos narcotraficantes) nem deixar de restringir as possibilidades do uso das drogas, a começar pelo tabaco, hoje praticamente expulso dos locais de trabalho, estudo e mesmo lazer.

Pois bem, à margem da conferência, que se realizou em dependência da ONU, ao ler os jornais e ver a TV, voltei nesta terça-feira ao Brasil com a intenção de fazer um paralelo entre a “política” nos Estados Unidos e a nossa. Por lá a mídia não perdoa. Por menos que eu tenha simpatia pelos métodos e propósitos de Trump, há que reconhecer que qualquer passo dele é vigiado e se tenta obstruir seu caminho usando notícias em geral verdadeiras, mas também duvidosas. Isso é da alma da democracia contemporânea, hoje mais atribulada pela força das mídias sociais. Tanto lá como aqui. Com uma diferença: as instituições americanas são mais fortes do que as nossas e os rumos do país são debatidos com argumentos pelas organizações partidárias.

Aqui chegando, um susto: pegou fogo e ruiu um edifício em pleno centro de São Paulo, no qual habitavam dezenas ou mesmo centenas de famílias e que pertencia à União, a qual negociava com a Prefeitura sua posse e seu uso. Pelo nome do prédio, a família que o construiu deve ter sido a mesma que possuía uma fábrica de alumínio e vidros para os batentes e para as portas e janelas, materiais que na época (1950-1960) eram o símbolo da “modernidade”. Sabe-se lá por que tropeços, o edifício foi parar nas mãos da União (provavelmente dívidas não pagas) e esta, depois de usá-lo, ficou sem saber o que fazer com ele, assim como com milhares de outras edificações. Mais grave ainda: esse edifício era tombado pelo patrimônio histórico. Quer dizer, nele nada se pode fazer sem autorização pública. Ora, diante da carência de habitação para os mais pobres e dos movimentos sociais e políticos (falsos e verdadeiros), seria previsível o que aconteceu e acontece em centenas de outros edifícios do centro de São Paulo: a ocupação por famílias “sem teto”.

Daí por diante a ação do poder público se torna ainda mais lenta, com boa escusa: trata- se de uma questão social que requer o olho da Justiça antes da ação da polícia. Tempo suficiente para que exploradores se misturem aos que autenticamente têm compromisso com a causa do acesso à moradia e comecem a explorar os mais miseráveis, cobrando taxas e todo tipo de subordinação. Ou seja, a “questão social” (falta de renda, trabalho e moradia) explode, confundindo-se com a exploração feita por malandros ou pelos próprios organizadores de invasão, ainda que justifiquem suas ações com propósitos defensáveis.

Ruiu um prédio, morreram pessoas (por sorte poucas, mas no caso de vidas não são os números que contam), dezenas de famílias estão desabrigadas, a mídia faz barulho, as administrações fazem jogo de empurra e, pior, o que aconteceu não é diferente do que provavelmente acontecerá em muitos outros prédios ocupados.

Ocupações também houve em Nova York, no Bronx ou mesmo no Harlem. E não faltaram squatters em Londres. Em Paris, até hoje os habitantes podem solicitar às prefeituras apartamentos com aluguel moderado, chamados HLM (habitations à loyer modéré), solução que não deu certo porque, como a maioria dos projetos do Minha Casa, Minha Vida, em geral resulta em habitações localizadas em áreas pouco urbanizadas e distantes dos locais de trabalho dos moradores. Muitos se transformaram em aglomerações urbanas com altos índices de delinquência. Mas nas cidades citadas houve maior continuidade nas ações dos governos, mesmo com coloração política distinta, em busca do bem-estar comum.

É isso o que nos falta. Marchamos quase às cegas para novas eleições daqui a cinco meses. Candidatos à Presidência proliferam. Por quê? Ah, porque sim; porque “tenho todas as condições pessoais para isso”, diz a maioria. E é assim que se consegue governar? Talvez algum caudilho antiquado ou “carismático” engane as massas por algum tempo. Mas governar é coisa mais séria. Se a União nem consegue dar destino a um prédio que é seu e a Prefeitura nem sabe bem como fazer para ocupá-lo (ou desocupá-lo para evitar tragédias...), vê-se que o País precisa reformar a máquina pública. O que dizem a respeito os candidatos? Com que forças sociais e políticas contarão se eleitos? Em uma palavra: com o que estão eles ou elas política e socialmente comprometidos? O que farão com o Brasil, que, afinal, é o que conta? Com o País e com sua gente.

Há uns poucos que têm história e carregam o peso de terem partidos. Sabe-se mais ou menos o que pensam e como agem. E digo isso sem me referir apenas a um candidato, e sim aos que têm trajetória e experiência. O País precisa de renovação, mas esta não é apenas juventude e falta de prática político-administrativa. Para dar bom resultado ela precisa de conhecimento, visão, persistência, honestidade e esperança.

Quem sabe, no entremear de alianças partidárias para aumentar o tempo de televisão, do esforço desesperado para escapar das acusações em curso, das manobras congressuais para abocanhar pedaços do “fundo eleitoral”, ainda se consiga ouvir a voz dos candidatos, tonitruantes, mas não apenas com slogans, e sim com propostas embasadas no que sabem e no que serão capazes de alcançar porque terão apoio na sociedade. É minha torcida.


OBS: Artigo publicado hoje no jornal Estadão.

(*) Fernando Henrique Cardoso é sociólogo. Foi presidente da República por dois mandatos consecutivos de 1995 a 2002.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Convivência significativa

Ontem eu estava refletindo sobre a importância de melhorarmos a qualidade da nossa convivência com as pessoas do nosso presente e, principalmente, com as que estão próximas de nós.

Conviver é um desafio. Ainda mais quando nem sempre somos nós quem escolhemos as pessoas a exemplo dos nossos familiares e colegas de trabalho, ao contrário do que ocorre nas amizades e nos relacionamentos amorosos. São situações em que a vida, aleatoriamente, nos aproxima do outro e, com isso, nos leva a ter que lidar com as diferenças.

Por outro lado, vejo esse desafio como um aprendizado em que nem sempre conseguimos tirar nota 10 e muitas das vezes há situações que fogem do nosso controle por não dependerem das escolhas conscientes que fazemos. Por isso, chego à conclusão de que nunca devemos nos sentir culpados ou fracassados por não termos atingido um padrão ideal de convivência com o outro. Até mesmo quando somos a causa da discórdia visto que a culpa não leva a nada.

Fato é que esse aprendizado precisa ser encarado como uma oportunidade para melhorarmos como pessoas, mas há momento a em que o convívio também pode nos fazer mal. É quando o outro passa a assediar a nossa consciência, nos agredir, sufocar a nossa personalidade e, enfim, nos prejudicar. Então chega o momento em que precisamos tomar decisões nem sempre agradáveis pelo nosso próprio bem e até pelos outros na escolha de um afastamento ou da separação.

Por outro lado, posso dizer que o Evangelho me ensinou algo muito importante chamado perdão e que, apesar da religião nem sempre saber refletir adequadamente sobre isso, cuida-se de uma atitude importantíssima. Pois tendo em vista os conflitos existentes entre os seres humanos, pode-se dizer que a vida seria insustentável neste planeta se não houvesse uma certa dose de perdão liberada entre as pessoas.

Perdoar eu diria que é uma atitude humilde. É quando abrimos mão de exigir o que entendemos ser nosso por direito para reiniciarmos o relacionamento sobre novas bases. Em outras palavras, é  o entendimento de que é melhor sermos felizes do que querer ter razão.

Por certo que perdoar não significa abrir mão do amor próprio e nem se submeter a uma situação contínua de indignidade. Daí eu entender que muitas das vezes a religião não aborda o assunto com a clareza necessária pois muitas das vezes ela pouco desenvolve os seus conceitos da Bíblia e/ou da tradição.  Sem contarmos que é preciso levar em conta a necessidade de evitarmos a repetição dos erros que levaram ao conflito anterior.

Nesta segunda-feira, que para muitos de nós é parte de um feriadão de quatro dias, teremos nas despreocupadas horas de hoje uma grande oportunidade para convivernos melhor com aqueles que a vida aproximou de nós ou com quem escolhemos nos relacionar. Poderá ser o momento de quem sabe ficarmos menos na internet e tentarmos uma outra conexão mais direta e verdadeira com essas pessoas que compõem de fato a nossa breve passagem por este mundo como são os pais, filhos, irmãos, cônjuge e amigos.

Ótima segunda-feira a todos e que tenhamos ótimas conexões presenciais no decorrer deste dia.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

O LADRÃO E A LADRA




Estávamos no Parque Municipal de Belo Horizonte, quando um cidadão vinha ofegante correndo atrás de um ladrão que assaltava na feira hippie da Av. Afonso Pena. Ele conseguiu alcançar o ladrão que lhe estendeu a mão intentando enganá-lo. O cidadão mandou-o dar a volta e tirando do seu bolso uma caixa com o óculos roubados, mandou-o embora. Poucos minutos depois uma gritaria e uns dez policiais passaram por nós correndo e logo depois voltaram com o ladrão algemado e uma multidão aplaudindo o trabalho deles. “Muito bem!”


Apesar do número de policiais e da multidão ensandecida, o sujeito agrediu um dos policias deixando os sinais das suas unhas no seu braço.
Enquanto um policial revistava o sujeito, eu me aproximei dele e comecei a lhe falar do quanto ele era amado por Deus, ao que ele me respondeu prontamente: “Eu sei.” 
Olhei aqueles rostos felizes, delirantes com a prisão daquele jovem e minha lembrança penetrou as celas de um cárcere, escola para marginais. Lugar de violência que gera violência. Sabia também que logo, logo, aquele sujeito estaria novamente nas ruas, mais cheio de ódio e disposto até mesmo, quem sabe, a matar o cidadão que o perseguiu.



Mas o que mais gritava dentro de mim era a hipocrisia em que vive a nossa sociedade. Dos ladrões declarados, nos cuidamos contra eles como podemos, mas dos ladrões disfarçados não temos como nos esconder.



Naquela mesma semana estivemos no Shopping Estação de Belo Horizonte. Minhas cunhadas, estrangeiras, foram comprar dois botões de rosas para decorar um presente. Lá estava uma garota, arrumadinha, trabalhando, vendendo flores. Que lindo! Quem diria que ali estava uma ladra oportunista...



Minha cunhada lhe deu uma nota de cinquenta reais. Ela tomou a nota em sua mão, mas falou que não tinha troco, eu lhe estendi uma nota de dez reais, ela também disse que não tinha troco, meu marido então contou moedas e lhe deu exatamente o preço dos botões de rosa. Daí eu vi que ela estava com os cinquenta reais na mão como se fosse guardar, mas esperei que a minha cunhada pediria o seu dinheiro e me distraí. Saímos dali e logo depois, minha cunhada se deu conta de que a garota não tinha lhe devolvido os cinquenta reais, então voltou lá com seu irmão e um sobrinho e falou com a moça que ela não tinha devolvido o dinheiro... simplesmente ela negou deixando a minha cunhada, apesar de indignada, impotente. Como ela poderia provar que a vendedora não devolveu o seu dinheiro?
Aquela garota por certo, continua no seu trabalho “honesto,” roubando os mais confiantes, a final é vendedora no Shopping Estação.



Esta mesma sociedade que grita: “Pega o ladrão!” Talvez na sua grande maioria é ladrão oportunista “legal”: no Planalto; nas lojas; nas feiras; nos salões de beleza; nos serviços informais; nos transportes; aonde não?



“Pega o ladrão!” E todos eles olham para alguém que está correndo na rua...



17.03.2018
Guiomar Barba.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

O clamor da ministra pela serenidade

Nesta segunda-feira (02/04), a ministra Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), gravou um pronunciamento de 3 minutos e 18 segundos no qual defendeu o "fortalecimento da democracia", afirmando sobre a necessidade de "se respeitar opiniões diferentes" e pediu "serenidade" a fim de que diferenças ideológicas não resultem em "desordem social". 

Embora a sua assessoria não haja informado qual a motivação do comunicado da ministra ao país, pode-se perfeitamente presumir que tudo o que Carmen Lúcia disse tem a ver com o polêmico julgamento do habeas corpus impetrado pela defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva cujo desfecho, por certo, não poderá agradar a uma nação hoje dividida.

De qualquer modo, vale a pena refletirmos sobre o que disse a presidente da mais alta Corte de Justiça deste país pois, afinal, os dias não têm sido lá muito favoráveis para o cultivo da tolerância depois que as redes sociais de internet promoveram a bipolarização da sociedade pela radicalização do debate. 

Com a palavra, a nossa excelentíssima ministra:



A democracia brasileira é fruto da luta de muitos. E fora da democracia não há respeito ao direito nem esperança de justiça e ética.

Vivemos tempos de intolerância e de intransigência contra pessoas e instituições.

Por isso mesmo, este é um tempo em que se há de pedir serenidade.

Serenidade para que as diferenças ideológicas não sejam fonte de desordem social.

Serenidade para se romper com o quadro de violência. Violência não é justiça. Violência é vingança e incivilidade.

Serenidade há de se pedir para que as pessoas possam expor suas ideias e posições, de forma legítima e pacífica.

Somos um povo, formamos uma nação. O fortalecimento da democracia brasileira depende da coesão cívica para a convivência tranquila de todos. Há que serem respeitadas opiniões diferentes.

Problemas resolvem-se com racionalidade, competência, equilíbrio e respeito aos direitos. Superam-se dificuldades fortalecendo-se os valores morais, sociais e jurídicos. Problemas resolvem-se garantindo-se a observância da Constituição, papel fundamental e conferido ao Poder Judiciário, que o vem cumprindo com rigor.

Gerações de brasileiros ajudaram a construir uma sociedade, que se pretende livre, justa e solidária. Nela não podem persistir agravos e insultos contra pessoas e instituições pela só circunstância de se terem ideias e práticas próprias. Diferenças ideológicas não podem ser inimizades sociais. A liberdade democrática há de ser exercida sempre com respeito ao outro.

A efetividade dos direitos conquistados pelos cidadãos brasileiros exige garantia de liberdade para exposição de ideias e posições plurais, algumas mesmo contrárias. Repito: há que se respeitar opiniões diferentes. O sentimento de brasilidade deve sobrepor-se a ressentimentos ou interesses que não sejam aqueles do bem comum a todos os brasileiros.

A República brasileira é construção dos seus cidadãos.

A pátria merece respeito. O Brasil é cada cidadão a ser honrado em seus direitos, garantindo-se a integridade das instituições, responsável por assegurá-los.

OBS: Créditos autorais da imagem acima atribuídos a Marcelo Camargo/Arquivo/Agência  Brasil, conforme extraído de http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2018-04/em-pronunciamento-na-tv-carmen-lucia-destacara-tempos-de-intolerancia-no

quinta-feira, 29 de março de 2018

Água e energia



Por Danilo Cabral*

Durante a última semana (de 18 a 23 de março) aconteceu, em Brasília, o Fórum Mundial da Água (FMA) e o Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA), reunindo movimentos sociais, sindicatos e ONGs que defendem a gratuidade da água. Ao todo, foram mais de 170 países representados nos dois eventos.

O ministro da Integração Nacional, Helder Barbalho mostrou dados alarmantes sobre a situação da crise hídrica brasileira. Pelo menos 917 municípios brasileiros apresentam algum risco relacionado à falta d’água. Isso corresponde a 16% das cidades do país, ou seja, uma a cada seis. “A escassez e a insegurança hídrica não se reportam mais somente ao Nordeste. É fundamental que as intervenções passem para um nível federal, de maneira estruturante para todas as regiões do Brasil”, disse o ministro.

Isso ressalta, ainda mais, a importância desse bem público à sociedade. E diretamente ligado a isso, encontra-se a Eletrobras e suas subsidiárias (a Companhia Hidrelétrica do São Francisco – Chesf, Furnas Centrais Elétricas S.A. – Furnas, Companhia Hidrelétrica do Vale da Paraíba – Chevap e Termelétrica de Charqueadas (S.A. – Termochar). Sua relevância justifica-se, pois das dez maiores usinas hidrelétricas do país, nove são da Eletrobras, que detém 52% da capacidade de armazenamento em termos de reservatórios hídricos e 44% da capacidade de geração hidráulica no Brasil.

A Eletrobras foi e continua sendo a principal responsável por interligar as regiões mais remotas do país ao Sistema Interligado Nacional. A energia elétrica produzida é consumida por praticamente todos os brasileiros e não pode ser substituída. Com a privatização sugerida pelo governo já é certo que haverá um aumento na tarifa de energia em 16%, acarretando mais um prejuízo à população.

A maior obra, depois da própria Chesf é a transposição do São Francisco que deverá desempenhar um papel cada vez mais relevante para o desenvolvimento regional, através do uso múltiplo de sua água, podendo ultrapassar em termos econômicos, os benefícios associados à geração de energia elétrica. Hoje, a Companhia se apresenta como uma das maiores empresas do Brasil, com um robusto sistema de transmissão e um projeto de integração que assegura a oferta de água, até 2025 para 12 milhões de habitantes do Nordeste.

E tudo isso está ameaçado com a venda da Eletrobras. Essa privatização significa entregar à iniciativa privada toda riqueza pertencente ao nosso país. O Governo Temer quer vendê-la a preço de banana – R$ 12 bi, já anunciados. Uma empresa superavitária, que em 2016, segundo dados oficiais, apresentou um lucro de R$ 3,9 bilhões.
Seguiremos na luta contra a privatização da Eletrobras e a valorização da água, porque entendemos que ela é primordial para o desenvolvimento do país.

(*) Danilo Cabral é deputado federal pelo PSB-PE 

OBS: Artigo originalmente publicado em 26/3/2018 na Folha de Pernambuco

segunda-feira, 26 de março de 2018

Com o Papa Francisco termina a Igreja só ocidental e começa a Igreja universal



Por Leonardo Boff*

Passaram-se já cinco anos do papado de Francisco, bispo de Roma e Papa da Igreja universal. Muitos fizeram balanços minuciosos e brilhantes sobre essa nova primavera que irrompeu na Igreja. De minha parte enfatizo apenas alguns pontos que interessam à nossa realidade.

O primeiro deles é a revolução feita na figura do papado, vivida em pessoa por ele mesmo. Não é mais o Papa imperial com todos os símbolos, herdados dos imperadores romanos. Ele se apresenta como simples pessoa como quem vem do povo. Sua primeira palavra de saudação foi dizer aos fiéis”buona sera”: boa noite. Em seguida, anunciou-se como bispo de Roma, chamado a dirigir no amor a Igreja que está no mundo inteiro . Antes de ele mesmo dar a benção oficial, pediu que o povo o abençoasse. E foi morar não num palácio – o que teria feito chorar Francisco de Assis – mas numa casa de hóspedes. E come junto com eles.

O segundo ponto importante é anunciar o evangelho como alegria, como superabundância de sentido de viver e menos como doutrinas dos catecismos. Não se trata de levar Cristo ao mundo secularizado. Mas descobrir sua presença nele pela sede de espiritualidade que se nota em todas as partes.

O terceiro ponto é colocar no centro de sua atividade três pólos: o encontro com o Cristo vivo, o amor apaixonado pelos pobres e o cuidado da Mãe Terra. O centro é Cristo e não o Papa. O encontro vivo com Cristo tem o primado sobre a doutrina.

Em vez da lei anuncia incansavelmente a misericórdia e a revolução da ternura, como o disse, falando aos bispos brasileiros em sua viagem ao nosso país.

O amor aos pobres foi expresso na sua primeria intervenção oficial:”como gostaria que a Igreja fosse a Igreja dos pobres”. Foi ao encontro do refugiados que chegavam à ilha de Lampeduza no sul da Itália. Ai disse palavras duras contra certo tipo de civilização moderna que perdeu o sentido da solidariedade e não sabe mais chorar sobre o sofrimento de seus semelhantes.

Suscitou o alarme ecológico com sua encíclica Laudato Si:sobre o cuidado da Casa Comum (2015), dirigida a toda a humanidade. Mostra clara consciência dos riscos que o sistema-vida e o sistema-Terra correm. Por isso expande o discurso ecológico para além do ambientalismo. Diz enfaticamente que devemos fazer uma revolução ecológica global(n.5). A ecologia é integral e não apenas verde, pois involucra a sociedade, a política, a cultura, a educação, a vida cotidiana e a espiritualidade. Une o grito dos pobres com o grito da Terra(n. 49). Convida-nos a sentir como nossa a dor da natureza, pois todos somos interligados e envolvidos numa teia de relações. Convoca-nos a “alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo….uma mística que nos anima, nos impele, motiva e encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária”(n. 216).

O quarto ponto significativo foi apresentar a Igreja não um castelo fechado e cercado de inimigos, mas um hospital de campanha que a todos acolhe sem reparar sua extração de classe, de cor ou de religião. É uma Igreja em permanente saida para os outros especialmente para as periferias existenciais que grassam no mundo inteiro. Ela deve servir de alento, infundir esperança e mostrar um Cristo que veio para nos ensinar a viver como irmãos e irmãs, no amor, na igualdade, na justiça, abertos ao Pai que tem características de Mãe de misericórdia e de bondade.

Por fim, mostra clara consciência de que o evangelho se opõe às potências desse mundo que acumulam absurdamente, deixando na miséria grande parte da humanidade. Vivemos sob um sistema que coloca o dinheiro no centro e que é assassino dos pobres e um depredador dos bens e serviço da natureza. Contra esses tem as mais duras palavras.

Dialoga com todas as tradições religiosas e espirituais. No lava-pés da Quinta-Feira Santa estava uma menina muçulmana. Quer as Igrejas, co m suas diferenças, unidas no serviço ao mundo especialmente aos mais desamparados. É o verdadeiro ecumenismo de missão.

Com esse Papa que “vem do fim do mundo” se encerra uma Igreja só ocidental e começa uma Igreja universal, adequada à fase planetária da humanidade, chamada a encarnar-se nas várias culturas e construir ai um novo rosto a partir da riqueza inesgotável do evangelho.

(*) Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escreveu Francisco de Assis-Francisco de Roma, a irrupção da primavera, Mar de Ideias, Rio 2013.

OBS: Artigo extraído diretamente do blogue do autor (clique AQUI para conhecer), sendo os créditos da imagem acima atribuídos a Nuno Veiga/Pool/Agência Lusa.

sábado, 24 de março de 2018

QUE AS MORTES NÃO NOS SEPAREM



Por Fernando Gabeira*

A morte de Marielle Franco e 60 mil mortes estúpidas registradas anualmente no Brasil deveriam unir-nos. Ou, pelo menos, nos aproximar. Mas não é isso que acontece no momento. Prevalecem discursos de ódio e a exploração política mais descarada.

Até autoridades engrossam o coro dos que tentam reescrever a história da vereadora, atribuindo-lhe um passado inexistente. O PT afirma que a morte de Marielle e a pena de Lula são faces de uma mesma moeda. Dilma a considera uma parte do golpe.

A sensação de emergência com que vejo o problema da segurança pública no Rio às vezes me faz sonhar romanticamente com uma solução parecida com a que demos ao surto de febre amarela. Havia um problema, definiu-se a saída – vacinação – e as pessoas foram aos postos saúde. Nas filas, ninguém gritando “fora Temer”.

Era um tipo de problema que precisava ser enfrentado, não importa quem estivesse lá em cima. Restou apenas uma pequena minoria contra vacinas que defendeu suas ideias na rede, democraticamente, sem agressividade.

É impossível transplantar esse comportamento para a segurança pública. As saídas são mais complexas. E há um pesado clima político-ideológico em torno delas.

No entanto, não creio que o Brasil se resuma ao debate ensandecido, com tanta gente zangada e os robôs incendiando a discussão. Existe um espaço racional de conversa, sobretudo para um tema tão atacado pela esquerda e pela própria Marielle: a intervenção federal na segurança do Rio.

O primeiro desafio é desvendar o crime. Houve um debate inicial sobre federalizar ou não as investigações. Temo que isso nos leve aos impasses de quando surgiu a dengue: estadual ou federal?

A hipótese indicada, creio, é reunir o que há de melhor tanto na polícia do Rio quanto nos quadros federais. Mesmo porque a polícia do Rio tem experiência no campo.

Todavia é razoável desconfiar da possibilidade de um trabalho isolado. Mas não deixa de ser uma contradição aparente: combater a intervenção federal e duvidar da capacidade da polícia. Os que o fazem desprezam a desconfiança que grande parte dos cariocas tem na capacidade da polícia de deter sozinha o avanço da ocupação armada.

Usei a expressão aparente contradição porque cabe argumentar que uma coisa é a investigação técnico-científica e outra, a crítica à presença do Exército nas favelas do Rio.

O argumento dos defensores dos pobres, às vezes sem consultar realmente os pobres, é de que a presença do Exército traz ameaças aos direitos humanos. Mas a presença de um Exército que cumpre as leis, que tem regras de engajamento transparentes, não pode ser comparada à presença de traficantes com fuzis ou milicianos armados.

Entre um Exército ostentando a bandeira do Brasil e outro exército, de boné e sandálias, mas com modernos fuzis, parece existir uma hesitação. Como explicar isso?

De um lado, a dificuldade de compreender que os anos passaram e o Exército Brasileiro está comprometido com a democracia. De outro está a romantização dos bandidos. Não me refiro apenas às conversas em torno do chope nos botequins da vida. Nem à simples interpretação vulgar do marxismo. Essa romantização está presente em textos de eruditos de esquerda, como o historiador Eric Hobsbawn. Ele via o banditismo como reação a certas condições sociais. Apesar de brilhante, interpretava o mundo apenas com os olhos do marxismo.

No cenário cultural brasileiro, discutiu-se muito a frase de Hélio Oiticica “seja marginal, seja herói”, como um exemplo disso. Nesse caso específico, entretanto, creio que Oiticica falava do criador e sua relação com o mercado de artes plásticas.

O argumento dos opositores da presença militar é o de que os favelados são incomodados pelo Exército. A verdade é que, às vezes, são estuprados por traficantes, achacados pelas milícias, que vendem de tudo, do gás ao acesso à televisão fechada. E não há espaço para a sociedade monitorá-los amplamente, como o faz com o Exercito.

Um dos argumentos do PSOL é que a intervenção não é necessária. Talvez ele se apoie nos índices de homicídios mais altos, como os do Ceará e de outros Estados do Nordeste, por exemplo. Mas não enfrenta a questão específica do Rio: a ocupação armada. Como resolvê-la?

A resposta, nesse caso, costuma estar na ponta da língua: educação, saúde, saneamento, cultura. Mas como chegar lá com isso tudo?

A presença dos militares em si também não resolve o problema de fundo. Mas abre caminho para que a polícia estadual se recupere e tente reduzir a mancha territorial ocupada.

Alguns traficantes toleram o trabalho político em suas áreas. No caso da Vila Cruzeiro, do Complexo do Alemão, liberavam algumas ruas para o corpo a corpo eleitoral. Mas isso são concessões, migalhas de liberdade, pois não só o governo, como todos os candidatos devem ter acesso irrestrito a todos os pontos da cidade.

Às vezes, alguns mais exaltados nos dão a impressão de que, se a favela de repente tivesse segurança e todos os serviços básicos assegurados, seu discurso cairia no vazio, não saberiam mais para onde apontar a luta. Quando Temer decretou a intervenção na segurança, Bolsonaro disse que estava roubando sua bandeira.

Todos sabemos que Temer não se preocupa senão com a própria sorte e a do seu bando, já dizimado pela Lava Jato. Se a intervenção conseguir equilibrar as forças no Rio e contribuir para o longo processo de libertação de parte do território, muitas bandeiras podem ser roubadas também.

Não há nada a temer. Outras virão. Uma delas, congelada há algum tempo, são os escritórios de arquitetura destinados a orientar construções e reformas. Beleza, funcionalidade e conforto, de alguma forma, podem ser acrescentados aos morros pacificados.

(*) Fernando Paulo Nagle Gabeira é escritor, jornalista e ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro. Nascido em 1941, é mineiro de Juiz de Fora e carioca por opção desde 1963.

OBS: Artigo extraído do blogue do autor (clique AQUI para ler) e publicado no  Estadão em 23/03/2018, sendo os créditos autorais da foto acima atribuídos a Fernando Frazão/Agência Brasil. 
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