quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Carta aos eleitores e eleitoras



Na noite desta quinta-feira (20/09), o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) divulgou uma carta direcionada aos eleitores, na qual ele pede serenidade e união entre partidos contra candidatos radicais a fim de que o futuro presidente promova os ajustes necessários, evitando uma "crise econômica ainda mais profunda". Vale a pena refletirmos sobre o que nos diz esse experiente estadista em sua lúcida missiva:

Carta aos eleitores e eleitoras


Por Fernando Henrique Cardoso*

Em poucas semanas escolheremos os candidatos que passarão ao segundo turno. Em minha já longa vida recordo-me de poucos momentos tão decisivos para o futuro do Brasil em que as soluções dos grandes desafios dependeram do povo. Que hoje dependam, é mérito do próprio povo e de dirigentes políticos que lutaram contra o autoritarismo nas ruas e no Congresso e criaram as condições para a promulgação, há trinta anos, da Constituição que nos rege.

Em plena vigência do estado de direito nosso primeiro compromisso há de ser com a continuidade da democracia. Ganhe quem ganhar, o povo terá decidido soberanamente o vencedor e ponto final.

A democracia para mim é um valor pétreo. Mas ela não opera no vazio. Em poucas ocasiões vi condições políticas e sociais tão desafiadoras quanto as atuais. Fui ministro de um governo fruto de outro impeachment, processo sempre traumático. Na época, a inflação beirava 1000 por cento ao ano. O presidente Itamar Franco percebeu que a coesão política era essencial para enfrentar os problemas. Formou um ministério com políticos de vários partidos, incluída a oposição ao seu governo, tal era sua angústia com o possível despedaçamento do país. Com meu apoio e de muitas outras pessoas, lançou-se a estabilizar a economia. Criara as bases políticas para tanto.

Agora, a fragmentação social e política é maior ainda. Tanto porque as economias contemporâneas criam novas ocupações, mas destroem muitas outras, gerando angústia e medo do futuro, como porque as conexões entre as pessoas se multiplicaram. Ao lado das mídias tradicionais, as “mídias sociais” permitem a cada pessoa participar diretamente da rede de informações (verdadeiras e falsas) que formam a opinião pública. Sem mídia livre não há democracia.

Mudanças bruscas de escolhas eleitorais são possíveis, para o bem ou para o mal, a depender da ação de cada um de nós.

Nas escolhas que faremos o pano de fundo é sombrio. Desatinos de política econômica, herdados pelo atual governo, levaram a uma situação na qual há cerca de treze milhões de desempregados e um déficit público acumulado, sem contar os juros, de quase R$ 400 bilhões só nos últimos quatro anos, aos quais se somarão mais de R$ 100 bilhões em 2018. Essa sequência de déficits primários levou a dívida pública do governo federal a quase R$ 4 trilhões e a dívida pública total a mais de R$ 5 trilhões, cerca de 80% do PIB este ano, a despeito da redução da taxa de juros básica nos últimos dois anos. A situação fiscal da União é precária e a de vários Estados, dramática.

Como o novo governo terá gastos obrigatórios (principalmente salários do funcionalismo e benefícios da previdência) que já consomem cerca de 80% das receitas da União, além de uma conta de juros estimada em R$ 380 bilhões em 2019, o quadro fiscal da União tende a se agravar. O agravamento colocará em perigo o controle da inflação e forçará a elevação da taxa de juros. Sem a reversão desse círculo vicioso o país, mais cedo que tarde, mergulhará em uma crise econômica ainda mais profunda.

Diante de tão dramática situação, os candidatos à Presidência deveriam se recordar do que prometeu Churchill aos ingleses na guerra: sangue, suor e lágrimas. Poucos têm coragem e condição política para isso. No geral, acenam com promessas que não se realizarão com soluções simplistas, que não resolvem as questões desafiadoras. É necessária uma clara definição de rumo, a começar pelo compromisso com o ajuste inadiável das contas públicas. São medidas que exigem explicação ao povo e tempo para que seus benefícios sejam sentidos. A primeira dessas medidas é uma lei da Previdência que elimine privilégios e assegure o equilíbrio do sistema em face do envelhecimento da população brasileira. A fixação de idades mínimas para a aposentadoria é inadiável. Ou os homens públicos em geral e os candidatos em particular dizem a verdade e mostram a insensatez das promessas enganadoras ou, ganhe quem ganhar, o pião continuará a girar sem sair do lugar, sobre um terreno que está afundando.

Ante a dramaticidade do quadro atual, ou se busca a coesão política, com coragem para falar o que já se sabe e a sensatez para juntar os mais capazes para evitar que o barco naufrague, ou o remendo eleitoral da escolha de um salvador da Pátria ou de um demagogo, mesmo que bem intencionado, nos levará ao aprofundamento da crise econômica, social e política.

Os partidos têm responsabilidade nessa crise. Nos últimos anos, lançaram-se com voracidade crescente ao butim do Estado, enredando-se na corrupção, não apenas individual, mas institucional: nomeando agentes políticos para, em conivência com chefes de empresas, privadas e públicas, desviarem recursos para os cofres partidários e suas campanhas. É um fato a desmoralização do sistema político inteiro, mesmo que nem todos hajam participado da sanha devastadora de recursos públicos. A proliferação dos partidos (mais de 20 na Câmara Federal e muitos outros na fila para serem registrados) acelerou o “dá-cá, toma-lá” e levou de roldão o sistema eleitoral-partidário que montamos na Constituição de 1988. Ou se restabelece a confiança nos partidos e na política ou nada de duradouro será feito.

É neste quadro preocupante que se vê a radicalização dos sentimentos políticos. A gravidade de uma facada com intenções assassinas haver ferido o candidato que está à frente nas pesquisas eleitorais deveria servir como um grito de alerta: basta de pregar o ódio, tantas vezes estimulado pela própria vítima do atentado. O fato de ser este o candidato à frente das pesquisas e ter ele como principal opositor quem representa um líder preso por acusações de corrupção mostra o ponto a que chegamos.

Ainda há tempo para deter a marcha da insensatez. Como nas Diretas-já, não é o partidarismo, nem muito menos o personalismo, que devolverá rumo ao desenvolvimento social e econômico. É preciso revalorizar a virtude da tolerância à política, requisito para que a democracia funcione. Qualquer dos polos da radicalização atual que seja vencedor terá enormes dificuldades para obter a coesão nacional suficiente e necessária para adoção das medidas que levem à superação da crise. As promessas que têm sido feitas são irrealizáveis. As demandas do povo se transformarão em insatisfação ainda maior, num quadro de violência crescente e expansão do crime organizado.

Sem que haja escolha de uma liderança serena que saiba ouvir, que seja honesto, que tenha experiência e capacidade política para pacificar e governar o país; sem que a sociedade civil volte a atuar como tal e não como massa de manobra de partidos; sem que os candidatos que não apostam em soluções extremas se reúnam e decidam apoiar quem melhores condições de êxito eleitoral tiver, a crise tenderá certamente a se agravar. Os maiores interessados nesse encontro e nessa convergência devem ser os próprios candidatos que não se aliam às visões radicais que opõem “eles” contra ”nós”.

Não é de estagnação econômica, regressão política e social que o Brasil precisa. Somos todos responsáveis para evitar esse descaminho. É hora de juntar forças e escolher bem, antes que os acontecimentos nos levem para uma perigosa radicalização. Pensemos no país e não apenas nos partidos, neste ou naquele candidato. Caso contrário, será impossível mudar para melhor a vida do povo. É isto o que está em jogo: o povo e o país. A Nação é o que importa neste momento decisivo.


(*) Fernando Henrique Cardoso é sociólogo e foi presidente da República.

terça-feira, 24 de julho de 2018

“Sempre pelo Brasil”



Por José Anibal*

Trinta anos é tempo suficiente para a experiência que ensina, mas também para que se renovem esperanças. É esta a lição que o PSDB tem a tirar no momento em que completa três décadas de fundação. É hora de novos rumos, mas é igualmente momento de rememorar o caminho que percorremos até aqui.

São poucos os partidos brasileiros que realizaram tanto em tão pouco tempo. Chegamos ao poder com sete anos de fundação, numa ascensão sem paralelo no país, e fizemos o governo mais transformador da nossa história.

Antes do presidente Fernando Henrique éramos marginalizados no mundo, com uma inflação anual na casa de quatro dígitos que boicotava qualquer possibilidade de construir o futuro – qualquer futuro. O Plano Real foi uma revolução na nossa história e correspondeu a uma refundação, a uma redescoberta; sem ele, o Brasil teria mergulhado no caos – ameaça que nos ronda hoje.

O fim da hiperinflação foi, por si só, o mais abrangente instrumento de inclusão social que o Brasil já experimentou. Os que viveram sabem a perversidade que a carestia impunha aos mais pobres, incapazes de se defender da corrosão diária do dinheiro. A estabilidade abriu novos horizontes para nossa gente. Mas não foi só.

Aqueles oito anos forjaram o Brasil da modernidade, da responsabilidade com o dinheiro público, da abertura da economia ao investimento privado. Da criação de uma rede de proteção social que busca emancipar os mais pobres e não mantê-los sob o jugo do Estado.

Rememoro essas conquistas apenas para fazer justiça à história. E ouso dizer: o que teria sido do governo Lula se não tivesse havido antes o governo do PSDB? Teria sido um desastre desde o seu começo. Aliás, o próprio Lula, no governo, disse “ainda bem que não ganhei as eleições antes”. Sorte do Brasil que aquele alicerce estivesse construído. As experiências recentes reiteraram que o pouco do Estado que funciona é aquele que legamos.

Temos passado, mas também temos futuro – basta ver a idade de muitos dos nossos prefeitos, centenas deles na casa dos 40 a 50 anos. Nossa missão agora é semelhante à que nos aguardava 25 anos atrás, mas teremos que construir a partir de escombros, pois os alicerces se foram, corroídos por anos de irresponsabilidade. Nossa tarefa é, novamente, levar o país de volta ao bom caminho. E vamos fazê-lo!

Escrevo sem saudosismo, sem o sofrimento que costuma amparar a saudade, sem nostalgia. Porque o PSDB segue sendo o lugar natural para onde convergem as mentes e vocações com sede de futuro.

Tenho orgulho do que temos sido capazes de fazer sempre que somos governo. Também tenho convicção da importância que, como oposição no plano federal, tivemos para evitar que o petismo se tornasse hegemônico.

O país tem pela frente uma encruzilhada que marcará não apenas os próximos quatro anos, mas definirá o destino de toda uma geração. Cabe ao PSDB apresentar-se novamente à nação para, com responsabilidade, conduzir a reconstrução. Estou seguro de que temos as melhores opções, os melhores quadros, as propostas mais condizentes com o momento crítico que o país atravessa. E temos um candidato talhado para esta travessia: Geraldo Alckmin.

Trinta anos é idade boa para renovar nossa profissão de fé no futuro. O PSDB sempre busca ser o condutor das aspirações da sociedade por um governo que funcione, uma economia que cresça com inclusão, uma política feita com responsabilidade e ética. Estou convicto de que faremos, de novo, a diferença, a favor do povo brasileiro.


(*) José Aníbal é economista, foi deputado federal, secretário de Estado, presidente nacional do PSDB e do Instituto Teotônio Vilela.

OBS: Artigo publicado originalmente na edição de 12 de julho de 2018 do jornal Folha de S.Paulo

segunda-feira, 23 de julho de 2018

A candidatura de Bolsonaro tem que ser impugnada!



Conforme foi amplamente noticiado pela mídia, eis que, na data de ontem (22/07), o Partido Social Liberal (PSL) oficializou a candidatura do deputado federal Jair Bolsonaro à Presidência da República nas eleições de 2018, durante o encontro nacional da legenda que ocorreu no Centro de Convenções Sulamérica, Cidade Nova, no Rio de Janeiro

Ocorre que o parlamentar é réu em ação penal perante o Supremo Tribunal Federal (STF) por suposto crime de apologia ao estupro e injúria. Isto porque, em 2014, o candidato afirmou que não estupraria a deputada Maria do Rosário (PT-RS) porque ela "não merece". E, em razão deste episódio, a Corte abriu, em 2016, a pedido da Procuradoria Geral da República, uma ação penal contra Jair Bolsonaro. 

Acontece que réus em ação penal NÃO podem ser candidatos à Presidência da República! 

Como é cediço, o artigo 86 da Constituição Federal prevê que o presidente ficará suspenso de suas funções, "nas infrações penais comuns, se recebida a denúncia ou queixa-crime pelo Supremo Tribunal Federal", de modo que, com força neste entendimento, nenhum cidadão que responde a ação penal pode ter o registro de sua candidatura aceito para tal cargo. 

Há que se lembrar de que, em fevereiro de 2017, o STF decidiu que réus na linha sucessória da Presidência da República estão impedidos de substituir o presidente, motivo pelo qual o então presidente do Senado Renan Calheiros foi afastado da linha sucessória de Michel Temer. Tratou-se, pois, da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) n.º 402, movida pelo partido político Rede Sustentabilidade. 

Sendo assim, considerando que o último dia para os partidos políticos e as coligações apresentarem junto à Justiça Eleitoral o requerimento de registro de candidatos será em 15/08 (daqui a menos de um mês), torna-se indispensável que o Ministério Público, ou algum outro legitimado previsto no artigo. 3º da Lei Complementar n.º 64/90, tome as medidas cabíveis a fim de impedir o registro da candidatura do deputado Jair Bolsonaro a presidente da República nas eleições de 2018, visto ser ele réu em ação penal perante o STF, como já exposto acima.

Vale lembrar que, além do caso em que ofendeu a sua colega na casa legislativa, Bolsonaro também já foi condenado pela Justiça Federal ao pagamento de uma indenização, por danos morais, no valor de R$ 50 mil (cinquenta mil reais), por ofensas aos quilombolas, durante discurso em um evento no Clube Hebraica, no Rio de Janeiro. A condenação foi determinada pela juíza Dra. Frana Elizabeth Mendes, em 25/09/2017, e foi merecida pelas frases racistas, misóginas e xenófobas que o parlamentar havia proferido contra as comunidades quilombolas e a população negra em geral

Que tenhamos uma política mais limpa neste país e livre de gente intolerante como esse sujeito de extrema direita cujas posições não são nada construtivas para a nossa nação.

OBS: Imagem acima extraída de uma página da Agência Brasil de Notícias, conforme consta em http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2017-10/justica-condena-bolsonaro-indenizacao-por-ofensa-quilombolas 

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Um clube voltado para os excluídos em meados do século XX

Estudar a história local de uma cidade ou uma região faz com que conheçamos detalhes interessantes do nosso passado coletivo que muitas das vezes vão passando desapercebidos ou ficam no esquecimento.

Moro num lugarejo balneário no sul do litoral fluminense e uma historiadora daqui tem feito com brilhantismo esse resgate histórico em que, recentemente, ela postou algo bem interessante sobre um velho clube que tivemos em meados do século XX, criado para aceitar pessoas excluídas da sociedade.

Vale a pena ler o seu texto a seguir reproduzido e acredito que muitas pessoas de outras regiões do estado e do país também poderão se identificar, havendo no artigo informações sobre a história de Muriqui, 4º Distrito do Município de Mangaratiba/RJ, sendo que, ao final, a autora propõe algo muito útil. Ou seja, ela defende que a antiga sede vire um centro cultural da nossa localidade.

Boa leitura!


Memória do “Muriqui Praia Clube”




Por Mirian Bondim*

Até 1941, Muriqui era apenas uma fazenda produtora de lenha, carvão e bananas. Em 1942, começou a ser loteada e durante a década de 40, foi enorme a procura por terrenos na nova localidade. Em sete anos de loteamento, se desenvolveu tanto que foi elevada à categoria de 4º Distrito de Mangaratiba, em maio de 1949.

Como um pequeno balneário voltado ao lazer e ao descanso dos moradores da Zona Sul do Rio de Janeiro, Muriqui cresceu no cenário municipal e estadual, sendo denominada nas propagandas de venda de terrenos, como a “Copacabana Fluminense”.



No propósito de atender ao lazer, os moradores e veranistas, logo fundaram dois clubes na próspera localidade: “Muriqui Esporte Clube”, mais tarde denominado como “Muriqui Country Clube”, e “Muriqui Iate Clube” (atualmente fundidos em um só clube).

Esses dois clubes promoviam muitas atividades recreativas e culturais, marcando presença nos campeonatos esportivos, nos saudosos bailes carnavalescos, nos desfiles de beleza, shows artísticos e outros eventos. Porém, essas atividades não alegravam todos os cidadãos muriquienses, pois não era permitida a entrada de negros, nem de desquitados, nesses dois estabelecimentos.


UM NOVO CLUBE SURGE COM O DESAFIO DE VENCER CONFLITOS NAS RELAÇÕES HUMANAS


Apesar de Muriqui, no final da década de 40, já possuir dois clubes sociais, um triste quadro de discriminação contra desquitados e negros, fez surgir à necessidade da construção de um terceiro clube, na localidade: “Muriqui Praia Clube”. Este novo clube surge tendo como principal sócio fundador um dos excluídos, que por ser desquitado, não era permitida a sua entrada nos dois clubes, anteriormente construídos. Outro importante sócio fundador teve a filha (negra) também barrada na porta desses dois estabelecimentos recreativos.

Assim, lutando por uma bandeira democrática, surge em 1949, (ano da criação do distrito de Muriqui), o “Muriqui Praia Clube”. O jornal informativo do clube (“O Praiano”), na sua primeira edição, em novembro de 1949, deixa claro que o principal objetivo da criação dessa instituição era o de estreitar laços de amizades em franca e democrática camaradagem.



Nesse documento, os sócios fundadores agradecem a todos que prestaram solidariedade ao grupo, (naturalmente ao grupo dos discriminados), pela feliz iniciativa de colaborar com a criação do novo clube, destacando que o sentido da empresa (clube) era de se constituir em um “espaço-escola”, fecundo de vida, alegria e amizade.


UM IMPORTANTE PATRIMÔNIO HISTÓRICO DE MURIQUI


Poucas são as construções que guardam a memória da fundação de Muriqui. Infelizmente, não existe mais o prédio do antigo cineminha, da estação, da charmosa “casa-castelinho, da capelinha, das antigas escolas, das primeiras sedes dos clubes Muriqui Esporte Clube e do Muriqui Iate Clube e outros mais, que guardam a memória dessa localidade.

Por sorte, esse prédio do antigo “Muriqui Praia Clube” que representa um precioso patrimônio histórico de Muriqui, permanece internamente muito bem preservado, com seu salão de baile em prefeito estado, destacando, no centro, a famosa estrela solitária, símbolo do “Botafogo Futebol e Regatas”, clube que já foi proprietário do imóvel. Também preserva a linda armadura de madeira de seu teto e o pequeno e charmoso palco. Suas dependências internas ainda apresentam uma boa cozinha-bar e dois eficientes banheiros (masculino e feminino).

Vale ressaltar que, além de abrigar o “Muriqui Praia Clube” e o “Botafogo Futebol e Regatas”, essa construção foi também sede do “Muriqui Lions Clube”.Atualmente, encontra-se sob a administração da Prefeitura Municipal de Mangaratiba, funcionando como um Centro de Capacitação Profissional (CECAP).



No próximo ano, juntamente com o distrito de Muriqui, esse prédio histórico completará 70 primaveras. Por esses e outros motivos, defendo a idéia de transformá-lo em um “Centro Cultural de Muriqui”.

(*) Mirian Bondim é professora e historiadora.


OBS: Texto e imagens extraídos da postagem feita pela autora em seu perfil no sítio de relacionamentos da internet Facebook, conforme consta em https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1737534319633032&set=pcb.1737537899632674&type=3&theater

domingo, 1 de julho de 2018

Sejamos radicais



Por Fernando Henrique Cardoso*

O Brasil exige: sejamos radicais. Mas dentro da lei: que a Justiça puna os corruptos, sem que o linchamento midiático destrua reputações antes das provas serem avaliadas. Não sejamos indiferentes ao grito de “ordem!”. Ele não vem só da “direita” política, nem é coisa da classe média assustada: vem do povo e de todo mundo. Queremos punição dos corruptos e ordem para todos, entretanto, dentro da lei e da democracia.

O País foi longe demais ao não coibir o que está fora da lei, o contrabando, o narcotráfico, a violência urbana e rural, a corrupção público-privada. Devemos refrear isso mantendo a democracia e as liberdades antes que algum demagogo, fardado ou disfarçado de civil, venha a fazê-lo com ímpetos autoritários.

Só com soldados armados se enfrentam os bandidos, eles também com fuzis na mão. Se não há mais espaço para a pregação e a condescendência, tampouco queremos, entretanto, que a arbitrariedade policial prevaleça.

O Brasil tem pressa: chega de governos incompetentes. Não se trata só da falta de dinheiro, mas da má gestão aliada às vantagens corporativas e partidárias. Não há crescimento da economia nem empregabilidade sem investimento público e privado. Precisamos reintegrar nossa economia aos fluxos de criatividade e às cadeias produtivas mundiais. Assim como precisamos melhorar a infraestrutura para escoar a produção.

Não haverá adesão aos valores básicos que mantêm a coesão social sem crescimento contínuo da economia e sem respeito ao meio ambiente. Crescer de modo sustentável a 4% ao ano por 20 anos assegura melhor distribuição de renda e oferece mais emprego do que picos ocasionais de 6% ou 7% de crescimento em um ou dois anos, seguidos de mergulhos de 1 a 3 pontos negativos a cada três anos.

Nada disso se conseguirá sem que a educação seja o centro das atenções governamentais e populares.

Sem reformas, a da Previdência acima de todas, pelos danos que a legislação previdenciária atual causa ao Orçamento público, e sem uma “reforma moral” nas nossas práticas políticas, eleitorais e partidárias, nosso destino nacional estará comprometido por décadas.

Um Congresso com 26 partidos torna o País ingovernável. Um governo que tem quase 30 ministérios, cujos titulares são desconhecidos até pelos cidadãos mais bem informados, é incapaz de se haver com os desafios do futuro. Há que reconhecer que o sistema político que montamos em 1988 se exauriu.

A Constituição preserva, e isso deve ser mantido, tanto a intangibilidade e os limites sociais da propriedade privada como os direitos humanos fundamentais. Mas ela não abriga atos de violência nem de desordem continuada.

Entende-se a motivação dos sem-teto, como também a dos sem-terra. Mas fora da lei o que era propósito de reconstrução se transforma em instrumento de deterioração. Há que dar um basta a tanta desordem. Façamo-lo com a Constituição nas mãos, antes que outros o façam, em nome da ordem, mas sem lei.

É este o radicalismo de que precisamos: decência na vida pública, crescimento da economia, salários mais condizentes com o custo de vida, seriedade no trato das finanças públicas, reformas em nome da igualdade social e regional e um serviço público que atenda às demandas básicas das pessoas: moradia, transporte, saúde, educação e segurança. Que os governos se unam à iniciativa privada se for necessário e lhe cedam o passo quando for mais racional para assegurar o atendimento às necessidades do povo.

Um programa simples como esse requer autoridade moral dos que vierem a nos comandar. Só com ela haverá força para dar rumo seguro ao País. Só assim levaremos adiante as reformas, incluída a da Constituição, sem que os poderosos se tornem suspeitos de estar a serviço das oligarquias políticas, econômicas e corporativas.

É para isso que precisamos formar um Polo Popular e Progressista. Por popular entenda-se que respeite a dinâmica dos mercados, pois vivemos num sistema capitalista, mas que saiba que ela não é suficiente para atender às necessidades de toda a população. Por progressista entenda-se que esse bloco seja consciente das transformações produtivas e políticas do mundo, tenha coragem de viver nele tal como ele é e preserve a crença no Brasil como nação.

Ou participamos ativamente das mudanças do mundo contemporâneo ou seremos irrelevantes. Pior, perderemos o que de melhor podemos tirar dele: sua capacidade de renovar-se tecnológica e politicamente.

Na campanha eleitoral que se aproxima os temas centrais estão se delineando: o desprezo aos partidos e à classe política, que advém da descoberta de que as bases do poder apodreceram pela corrupção, só poderá ser ultrapassado se o povo perceber que há alternativas à desmoralização de tudo e de todos.

O grito dos desesperados por emprego e renda não se resolve só com assistencialismo. Este é necessário para a sobrevivência das pessoas. Mas a dignidade delas requer medidas que restabeleçam a confiança na economia, no investimento e no emprego, dando-lhes um horizonte de futuro.

O medo da violência reinante e a perda de oportunidades econômicas tornam o eleitorado suscetível às pregações de “mais ordem”. Empunhemos essa consigna, mas sem substituir a lei pelo arbítrio. Ordem na lei e com bases morais sólidas.

Não é pedir demais que alguns candidatos em disputa no próximo dia 3 de outubro subscrevam essas diretrizes. Qual deles passará ao segundo turno depende do empenho de seus respectivos partidários e da decisão do eleitorado. Unamo-nos desde já, entretanto, em torno desses princípios com a firme disposição de chegar ao segundo turno. Se dois de nossos candidatos lá chegarem, tanto melhor: será o povo que dirá qual deles há de conduzir-nos nos próximos anos. Não devemos arriscar, porém. Se for o caso, devemo-nos unir ainda no primeiro turno para evitar que o povo tenha de escolher entre o ruim e o menos pior.

(*) Fernando Henrique Cardoso é  sociólogo e foi Presidente da República.

OBS: Artigo publicado hoje no jornal O Estado de São Paulo. Créditos autorais da imagem atribuídos a Renato Araujo/ABr.

sábado, 30 de junho de 2018

PARÓDIAS

Por Lacerda
(Do blogue Mangaratiba)



“Eva coava o café que Adão tomava...
Mas, um dia, Adão furou o coador
E nunca mais Eva coou.”


Benedito Lacerda e Luiz Vassalo fizeram a marchinha “Eva querida” para o carnaval de 1935. A paródia fez sucesso por muitos carnavais seguintes através da paródia acima que eu cantava quando ainda criança.

Houve um tempo em que todos os sucessos musicais –sucessos mesmo, não essas porcarias atuais - viravam paródias. Principalmente as marchinhas carnavalescas, e até os sucessos românticos como “Saudade torrente de paixão, emoção diferente”. Cantávamos assim: “Soldado correndo de calção, mas que coisa indecente”.

A paródia com o “Pirata da perna de pau”, marchinha de 1947, quando eu tinha quase dez anos, incrivelmente eu lembro toda:



“Eu sou o Getúlio, já fui ditador,
Eu sou trapaceiro, eu sou gozador...
Meti o papo no trabalhador,
Com o voto dos trouxas, eu sou senador.
Minha galera, com quinze anos de navegação,
Trouxe a miséria, o câmbio negro e a inflação...
Por isso, eu sou pai dos pobres,
Sou mãe dos ricos em compensação.
Pro Borghi eu dei muita roupa,
Roupa de algodão”.






Até o hino da Marinha, o Cisne Branco, virou paródia lá em Bangu: “O Silveirinha, em noite de lua, saiu de casa e foi cagar na rua. Vem cá seu guarda, mete o dedo e cheira, vê se é de hoje ou de sexta-feira”.

Empolgado pelas paródias, eu fiz algumas para o colégio onde estudava o ginásio. Com a melodia de “Torrente de paixão”, eu cantava: “Na MABE a organização é toda diferente, os professores ajudam a gente e ao pau não vai quase ninguém. Nas provas, se cola às pamparras, não há quem reclama, pois o ensino na MABE é bacana, reprovação entre nós não convém”. Também fiz uma paródia da imortal "Ronda" de Paulo Vanzolini.



Quem nunca passou por isso?
De noite, que puta vontade
Me dá de mijar, sem levantar...
Cansado, com sono, com frio,
Sinto um calafrio, não vou aguentar...
Fico na cama contido, durmo apertado, encolhido,
O sonho agonia me dá, nele vou urinar.
Ah! Se eu pudesse e acordasse depressa,
ao banheiro corria... 
Desisto, a corrida é inútil, isso é covardia.
Mas sei que em minha sonolência
Eu não posso urinar, hei de aguentar.
Acordo sentindo a torrente,
Um líquido quente a jorrar sem parar.
Sei que esse dia, então, vai ser o meu dia de cão...
E ela se zanga a gritar "quero um novo colchão".


OBS: Texto extraído do blogue Mangaratiba, originalmente postado em 26/06/2018, conforme consta em http://muriqui-lacerda.blogspot.com/2018/06/parodias.html

segunda-feira, 18 de junho de 2018

A escola modelo do Brasil da ilha de Marambaia




Por Mirian Bondim*

Um das iniciativas mais brilhantes do governo de Getúlio Vargas na região foi a criação, em 1939, da Escola Técnica de Pesca Darcy Vargas, na ilha de Marambaia. A escola foi construída durante o Estado Novo, sob a coordenação da Fundação do Abrigo Cristo Redentor, uma entidade filantrópica (sem fins lucrativos) criada por Rafael Levy Miranda.

A escola possuía em suas dependências dois dormitórios com duzentos leitos cada, subdivididos em camarotes, com quatro beliches de ferro, cobertos de lona, sala de diversões, biblioteca, barbearia, anfiteatro, lavanderia mecânica, enfermaria, com salas de isolamentos, gabinete dentário e médico, grupo escolar com instalações para 220 meninos, residência dos religiosos que administravam os serviços do hospital e da maternidade.

Até 1965, o estabelecimento funcionou como um grande complexo industrial profissionalizante de pesca, com a capacidade inicial para 400 alunos oriundos de vários estados brasileiros. Possuía instalações industriais com frigorífico, fábrica de redes de pescar com dois pavilhões destinados à tecelagem e o curtume das redes, fábrica de gelo, indústria do peixe com instalação frigorífica, com sala de salga e corte de cação, usando a mesma técnica de bacalhau na preparação da carne cortado em filés e na secagem e empacotamento de peixe seco, fábrica de sardinha em conserva com azeite e tomate, laboratório para o aproveitamento dos subprodutos dos peixes, entre os quais o óleo do fígado de cação, fábrica de farinha de peixe, estaleiro naval com carpintaria e todo o aparato deste, oficina mecânica de motores marítimos, usina de luz elétrica etc.

Além das instalações da escola industrial da pesca, foram construídas residências com esgoto, água encanada e energia elétrica destinadas aos pescadores e operários, uma cooperativa, uma escola primária, a Igreja Nossa Senhora das Dores, com clausura para religiosas, um parque recreativo para as crianças, um pequeno hospital, uma farmácia, além de padaria, hortas e espaço para pecuária. Esses últimos, para abastecimento dos operários, técnicos e alunos.

A Escola de Pesca, motivo de orgulho do governo de Getúlio Vargas e de Mangaratiba, marcou presença nas páginas dos principais jornais do país, sendo apontada como escola modelo do Brasil. Jornalistas acompanhavam as visitas de autoridades nacionais e internacionais à escola, noticiavam o encantamento desses visitantes pela organização por suas produções no preparo da pesca da rica Baía de Sepetiba.




Infelizmente, com o fim do governo de Vargas, em meados dos anos 50, o projeto entrou em decadência e, durante o regime Militar de 1965 a 1970, passou a funcionar dentro de um sistema comum de colégio interno (não mais como escola de pesca) com a denominação de Escola Técnica Darcy Vargas. Para tal, foi firmado um convênio entre a Fundação Abrigo Cristo Redentor e a Secretaria Estadual de Educação e um novo currículo escolar foi estabelecido, incluindo, além das disciplinas tradicionais, Artes Industriais, encadernação de livros, motores a explosão, artes gráficas, artesanato, marcenaria e noções de marinharia.

Em 1971, infelizmente, esse grandioso projeto chegou ao fim, com todas as instalações da antiga escola de pesca sendo passadas às mãos da Marinha do Brasil. Em 1981, foi criado, no local, o Centro de Adestramento da Ilha da Marambaia (CADIM), sob o comando dos Fuzileiros Navais. 

Em Mangaratiba, a Escola Darcy Vargas é saudosamente lembrada pela presença da “Banda da Marambaia”, animando as quermesses de festas das igrejas, os desfiles escolares de 7 de setembro, em torneios esportivos e outros eventos mais. Como também é lembrada por um grupo de ex-alunos que todos os anos se reúne para matar a saudade dessa inesquecível escola.

(*) Mirian Bondim é professora e historiadora. Escreve semanalmente na página Santa Paciência do sítio de relacionamentos Facebook.

OBS: A primeira imagem extraí da Wikipédia sendo os créditos autorais do trabalho fotográfico pertencentes a Diego Baravelli, conforme consta no artigo da enciclopédia virtual sobre a restinga (clique AQUI para ler). Já o texto foi extraído da postagem feita em 13/06 na página Santa Paciência do Facebook, na qual se pode ver antigas fotos sobre a escola, cuja pesquisa é atribuída a Guaraci Rosa em https://www.facebook.com/GuaraciRosaHistoriador/posts/1920945787930085

quinta-feira, 14 de junho de 2018

“A Academia Paciente de Letras”





Por Isra Toledo Tov (*)
(Memorialista e pesquisador da história da Mata da Paciência)



Mariano Odelot, em abril de 1975, acordou certa manhã decidido a fundar uma academia de letras em Paciência, bairro pobre da periferia carioca, contando à época com pouco mais de 45 mil habitantes. Pegou papel e caneta e listou todas as poetisas, todos os poetas, todas as escritoras e todos os escritores que viviam no rincão periférico paciente.

Conseguiu juntar uma poetisa, um poeta, uma jornalista (que escrevia artigos e crônicas num jornal do comércio de Campo Grande) e sua própria insigne pessoa e marcaram uma reunião deliberativa para o meado de abril. Preparou um bosquejo de ata de reunião, com uma pauta bem simples. Item 1: escolha do nome da academia, sugeria-se Academia Paciente de Letras; item 2: um/a presidente/a deveria ser eleito/a nessa primeira reunião; item 3: um local fixo para reuniões e palestras deveria ser encontrado ou construído; item 4: uma personalidade nacional ou internacional deveria ser homenageada no primeiro ano de existência da academia; item 5: um ciclo de palestras já deveria ser agendado para o primeiro mês de existência da nobre academia.

A reunião deliberativa ocorreu, de fato, no armazém das Nove Portas, na rua Serrolândia, no Jardim Sete de Abril, um modestíssimo estabelecimento pertencente a um português, o Seu José. Na parte externa, com uma mesa de madeira cedida pelo dono do local, mais quatro rústicas cadeiras, montou-se a sede provisória da APL (Academia Paciente de Letras). Mariano se vestiu cerimoniosamente para a ocasião, pois considerava de máxima relevância para a cultura local, paciente, a fundação de uma inspiradora academia de letras.

Logo no início dos trabalhos da tertúlia, verificou-se que nenhum deles, nem a poetisa, nem o poeta jamais tinham publicado um livro sequer! Tudo o que tinham eram textos e poemas dispersos, em folhas de caderno, no máximo um ou dois fragmentos datilografados. O jornalista, porém, sabiamente ponderou que a literatura oral, ágrafa, era tão importante quanto a escrita, e o fato de não haver livros publicados entre eles não lhes tirava o orgulho e a honra de serem literatos. Eram grandes e sedentos leitores, inveterados, já que liam de prosa a poesia, sem descanso, diuturnamente. Sempre andavam pelas ruas do bairro com livros sobre os braços, e até mesmo a vizinhança percebia nisso uma certa mescla de distinção com leve demência.

Ao fim de duas horas de reunião, deliberou-se que, todas as últimas sextas-feiras de cada mês, reunir-se-iam às 17 horas, no mesmo lugar, no armazém do Seu Zé das Nove Portas, na rua Serrolândia, esquina com rua Carapicuíba. Uma pessoa ficaria encarregada de trazer, numa garrafa térmica, um chá de camomila, ou de hortelã, ou de outra erva qualquer, para que a conversa e os debates literários pudessem fluir com maior vazão.

O primeiro item da pauta de reunião foi decidido facilmente, e a plêiade deliberou que o nome Academia Paciente de Letras (APL) caía muito bem para o grupo. O segundo item foi igualmente resolvido com agilidade: optou-se pela rotatividade automática da presidência da APL, sem votos, começando a escolha pela ordem alfabética do primeiro nome de cada membro. Assim, Mariano – que deu a ideia da rotatividade – só assumiria a presidência do colegiado no quarto ano de sua existência, já que a primeira presidenta seria a poetisa Amália. O segundo presidente, no segundo ano da APL, seria o poeta Fúlvio. A terceira presidenta, Gretchen, assumiria no terceiro ano de constituição da APL.

O terceiro item da pauta – a construção de um local fixo para reuniões e eventos – ficou para a reunião seguinte. O quarto item – que grande personalidade deveria ser escolhida como homenageada do ano – consumiu mais tempo do que se supunha. Mariano propôs Lima Barreto, pois venerava sua obra, "Os bruzundangas". Amália apostava todas as suas fichas em Luís Vaz de Camões. Fúlvio bateu pé por "Dom Quixote", o cavaleiro da triste figura, mas o grupo deixou claro que precisava ser alguém de carne e osso, não uma personagem célebre. Gretchen, mais ousada, sugeriu Johann Wolfgang von Goethe, o maior nome da literatura alemã, autor de "Fausto" e "Werther". O grupo silenciou, refletiu profundamente e aceitou o arroubo da jovem jornalista. No primeiro ano de fundação da Academia Paciente de Letras, o escritor homenageado seria Goethe, o gênio alemão nascido em Frankfurt, em 1749, e falecido em Weimar, em 1832, do alto de seus 82 anos burgueses bem vividos.

Decidiram iniciar, imediatamente, a leitura de "Werther", seu primeiro trabalho de sucesso instantâneo em toda a Europa, em 1774. Foi uma delícia para os quatro corações da APL a leitura do diário angustiante do jovem rapaz apaixonado pela distante Charlotte. Terminada a leitura do romance, partiram para a obra mais densa do intelectual alemão, o "Fausto", publicamente postumamente, em 1832. Os debates eram acalorados, a cada encontro da tertúlia paciente, e sempre havia pessoas convidadas, de fora da APL, de outros bairros; até mesmo da Zona Sul veio um dia uma moça que fazia mestrado em literatura alemã.

O quinto item da pauta – a escolha de um tema para um círculo de palestras – foi facilmente acertado: optou-se por uma série de palestras acerca da vida e da obra de Lima Barreto, o homenageado do ano pela APL. Desta vez, o primeiro palestrante a falar, dentro de quinze dias, seria o último a assumir a presidência da instituição, Mariano Odelot! Apresentou, com brilhantismo, a obra "Os bruzundangas" (publicada em 1922), comparou o mundo da obra satírica com o Brasil de então, e foi bastante elogiado pelos colegas da APL e convidados. O pobre do Seu José do Nove Portas era obrigado a trazer cadeiras de sua própria residência para acomodar o grupo literário que tanto crescia. Ainda bem que o encontro só ocorria na última sexta-feira de cada mês, minha Santa Eugênia!

O símbolo oficial da instituição literária paciente era bastante semelhante ao da Academia Brasileira de Letras: o lema “AD IMMORTALITATEM” (“Rumo à imortalidade”, em latim), no centro, e dois galhos ao lado. Diferentemente, porém, do símbolo da ABL, o galho da esquerda era de cana-de-açúcar e o da direita era de café, dois produtos responsáveis pela riqueza do bairro no século XIX. E, no alto e no topo do símbolo, uma laranja, representando a riqueza paciente até o início dos anos de 1950.

Amália passou, anos depois, para um concurso público nacional e foi trabalhar em Rondônia. Fúlvio mudou-se para Belford Roxo, a contragosto, após namorico com a filha de um policial militar... Engravidou a pobre donzela, foi casado à força, na Baixada Fluminense, e toca hoje um bar longínquo por lá, vendendo cervejas e organizando pequenos saraus. Gretchen estudou, profundamente, a língua alemã, no Instituto Goethe, na rua do Passeio, no centro do Rio, conheceu um alemão e vive hoje com ele no interior da Baviera, no Sul da Alemanha. Mariano Odelot, desolado, não conseguiu manter as tertúlias mensais na calçada do Seu Zé das Nove Portas, já que não conseguia juntar membros tão valorosos quanto os três que se perderam no mundo. Até hoje diz existir ainda a APL, mas ela não tem endereço, não realiza reuniões, nem encontros, nem seminários, nem debates, nem nada. A Academia Paciente de Letras é apenas uma lembrança remota de Mariano, mas nunca deixará de existir, ainda que só possua um único membro paciente.

Mata da Paciência, 1.o de agosto de 2015.

(*) Isra Toledo Tov é professor e escritor- Escreve semanalmente na Santa Paciência.

OBS: Texto e imagem extraídas da página no sítio de relacionamentos Facebook "Santa Paciência", conforme consta em https://www.facebook.com/GuaraciRosaHistoriador/photos/a.1807970865894245.1073741829.1800233896667942/1919259084765422/?type=3&theater

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Uma sexualidade vivida com mais prazer e conhecimento



"Então acontece mesmo que quanto mais sexual uma pessoa é, mais inventiva ela pode ser. Quando mais sexual uma pessoa é, mais inteligente é. Com menos energia sexual, menos inteligência existe; com mais energia sexual, mais inteligência, porque o sexo é uma procura profunda para revelar, não apenas corpos, não apenas o corpo do sexo oposto, mas também tudo que está escondido." (Osho, em The Ultimate Alchemy

Começo o frio mês de junho escrevendo sobre um assunto super quente - sexo. Algo que, apesar de ter mudado muito nos últimos 50 anos, ainda é tabu para uma significativa parcela da sociedade brasileira.

Por esses dias eu estava lendo a respeito da massagem yone, a qual, por sua vez, é uma das modalidades da massagem tântrica, tendo se tornado uma prática cada vez mais procurada ultimamente tanto por mulheres solteiras quanto por casais.

Mas, afinal, o que vem a ser isso?

Para melhor entendermos o assunto, há que se estudar um pouco a respeito do Tantra, o qual é uma filosofia que abrange ensinamentos e práticas originados na antiga sociedade indiana, tendo por objetivo o desenvolvimento integral do ser humano nos seus aspectos físico, mental e espiritual. É um termo sânscrito bem amplo que pode significar "uso, trama, tecer".

Certamente que o Tantra não se restringiu ao Hinduísmo pois se misturou com diversas outras culturas e correntes filosóficas como o Vedanta, o Yoga, o Budismo e o Taoísmo, somente se tornando mais conhecido no Ocidente a partir das últimas cinco décadas. Principalmente entre os místicos e esotéricos (muitos deles baseados nos ensinos do guru Osho), havendo no Brasil várias escolas iniciáticas.

Todavia, graças à internet e ao interesse das pessoas por temas ligados à saúde, vários ensinamentos do tantrismo divulgaram-se rapidamente, sobretudo quanto à sexualidade. Aliás, pode-se dizer até que os sites pornográficos têm promovido vídeos sobre massagens eróticas inspiradas no tantrismo embora totalmente desconectados com os seus conceitos filosóficos básicos. E não descarto que esteja havendo até uma larga comercialização dessas práticas como serviços prestados e que estariam divorciados até dos seus aspectos terapêuticos.

Para um pesquisador voltado para o saber científico e que busca ter a sua mente fora da gaiola, estudar o tantrismo e sua aplicação à sexualidade poderá não ter conotação religiosa, porém há que se respeitar tal conhecimento das tradições orientais, considerando o milenar alcance da qualidade de vida pelas sociedades que experimentam esses ensinos. Pois, em que pareça ser conhecimento empírico, este jamais deve ser desprezado pela mente que busca sistematizar tudo pela razão e creio que assim age um massoterapeuta interessado em atuar na área.

Indo agora direto às massagens eróticas, falarei um pouco da yoni, uma palavra no idioma sânscrito e que funciona como um sinônimo para "vagina", que, no Tantra, é conhecida como o "espaço sagrado" ou o "templo sagrado". E, assim sendo, devemos considerar que um entendimento desses induz à ideia de amor e respeito pela sexualidade feminina.

Como consequência, um dos objetivos do chamado sexo tântrico consiste em proporcionar mais prazer à parceira, desde o relaxamento e excitação até o orgasmo. Daí a massagem yoni tem sido vista como uma excelente ferramenta para se construir a intimidade e a confiança num relacionamento.

Por outro lado, independentemente da questão do relacionamento afetivo, tal massagem tem ajudado muitas mulheres a romper bloqueios e traumas sexuais. E, além de contribuir para o alcance do orgasmo, há vários efeitos emocionais que são percebidos no cotidiano, ligados, por exemplo, à autoestima pessoal, ao domínio próprio, ao relaxamento e ao bem estar.

De modo algum pretendo neste artigo dar uma aula sobre um tema acerca do qual eu seria tão somente um pesquisador neófito. Porém, o que podemos apurar na atualidade é que a visão sobre a sexualidade mudou muito já que as parcelas mais esclarecidas da nossa sociedade tem buscado vivenciar o sexo livre dos tabus e dos valores impostos pela cultura religiosa repressora do cristianismo.

Por óbvio que para quem vive engaiolado dentro de uma igreja tais conhecimentos vindos do Oriente acabam sendo associados ao "pecado", ao paganismo e até demonizados. Pois, ainda que os segmentos católico e evangélico tenham experimentado alguma evoluções nos últimos 50 anos, dificilmente uma cristã religiosa aceitaria de boa consciência buscar a ajuda de um(a) terapeuta, ainda que o profissional não demonstre qualquer interesse sexual na sua pessoa. Ela mesma, caso seja uma radical, talvez recusaria tocar nas partes íntimas de seu próprio corpo ou, se bobear, nem permitir que o marido venha a fazer nela a massagem erótica temendo contrariar algum preceito da Bíblia.

De qualquer modo, as reações dos segmentos dominantes da religião cristã não impedem o crescente estudo acerca da sexualidade humana. Pois, muito pelo contrário, vejo pessoas hoje em dia querendo se informar mais sobre sexo e se tratarem de distúrbios que afetam os seus relacionamentos. Daí serem muitos os que, na atualidade, dispõem-se a enfrentar de peito aberto problemas tipo a frigidez, a falta de orgasmos, as dores relacionadas ao sexo, a ejaculação precoce, a impotência.

Quanto ao público masculino, talvez seja o machismo o maior dos obstáculos para o bem estar sexual já que muitos homens preferem negar que sofrem de alguma disfunção. Porém, os que se libertam dessa outra gaiola comportamental costumam se tornar aptos para serem mais felizes na cama com a parceira e até resgatarem um relacionamento fracassado. Inclusive aprendendo sobre novas maneiras de proporcionar prazer à sua mulher.

domingo, 6 de maio de 2018

O País precisa de renovação, mas com conhecimento, visão, honestidade, esperança

Por Fernando Henrique Cardoso*


Passei uma semana em Nova York para participar de um evento sobre novas tecnologias para a medição da ingestão de drogas por condutores de caminhão pelas marcas deixadas nos cabelos. Tendo exercido por muitos anos a presidência da Comissão Global de Políticas sobre Drogas, da qual continuo a ser membro, achei útil difundir os aperfeiçoamentos na medição do seu uso continuado para coibir que os adictos a tal prática ocupem funções em que esse hábito possa ser daninho ao bem público e à vida de terceiros.

Defender uma política não repressiva aos usuários de drogas não significa ser partidário de seu uso. Nem se devem tratar os usuários como criminosos (tratamento a ser dado aos narcotraficantes) nem deixar de restringir as possibilidades do uso das drogas, a começar pelo tabaco, hoje praticamente expulso dos locais de trabalho, estudo e mesmo lazer.

Pois bem, à margem da conferência, que se realizou em dependência da ONU, ao ler os jornais e ver a TV, voltei nesta terça-feira ao Brasil com a intenção de fazer um paralelo entre a “política” nos Estados Unidos e a nossa. Por lá a mídia não perdoa. Por menos que eu tenha simpatia pelos métodos e propósitos de Trump, há que reconhecer que qualquer passo dele é vigiado e se tenta obstruir seu caminho usando notícias em geral verdadeiras, mas também duvidosas. Isso é da alma da democracia contemporânea, hoje mais atribulada pela força das mídias sociais. Tanto lá como aqui. Com uma diferença: as instituições americanas são mais fortes do que as nossas e os rumos do país são debatidos com argumentos pelas organizações partidárias.

Aqui chegando, um susto: pegou fogo e ruiu um edifício em pleno centro de São Paulo, no qual habitavam dezenas ou mesmo centenas de famílias e que pertencia à União, a qual negociava com a Prefeitura sua posse e seu uso. Pelo nome do prédio, a família que o construiu deve ter sido a mesma que possuía uma fábrica de alumínio e vidros para os batentes e para as portas e janelas, materiais que na época (1950-1960) eram o símbolo da “modernidade”. Sabe-se lá por que tropeços, o edifício foi parar nas mãos da União (provavelmente dívidas não pagas) e esta, depois de usá-lo, ficou sem saber o que fazer com ele, assim como com milhares de outras edificações. Mais grave ainda: esse edifício era tombado pelo patrimônio histórico. Quer dizer, nele nada se pode fazer sem autorização pública. Ora, diante da carência de habitação para os mais pobres e dos movimentos sociais e políticos (falsos e verdadeiros), seria previsível o que aconteceu e acontece em centenas de outros edifícios do centro de São Paulo: a ocupação por famílias “sem teto”.

Daí por diante a ação do poder público se torna ainda mais lenta, com boa escusa: trata- se de uma questão social que requer o olho da Justiça antes da ação da polícia. Tempo suficiente para que exploradores se misturem aos que autenticamente têm compromisso com a causa do acesso à moradia e comecem a explorar os mais miseráveis, cobrando taxas e todo tipo de subordinação. Ou seja, a “questão social” (falta de renda, trabalho e moradia) explode, confundindo-se com a exploração feita por malandros ou pelos próprios organizadores de invasão, ainda que justifiquem suas ações com propósitos defensáveis.

Ruiu um prédio, morreram pessoas (por sorte poucas, mas no caso de vidas não são os números que contam), dezenas de famílias estão desabrigadas, a mídia faz barulho, as administrações fazem jogo de empurra e, pior, o que aconteceu não é diferente do que provavelmente acontecerá em muitos outros prédios ocupados.

Ocupações também houve em Nova York, no Bronx ou mesmo no Harlem. E não faltaram squatters em Londres. Em Paris, até hoje os habitantes podem solicitar às prefeituras apartamentos com aluguel moderado, chamados HLM (habitations à loyer modéré), solução que não deu certo porque, como a maioria dos projetos do Minha Casa, Minha Vida, em geral resulta em habitações localizadas em áreas pouco urbanizadas e distantes dos locais de trabalho dos moradores. Muitos se transformaram em aglomerações urbanas com altos índices de delinquência. Mas nas cidades citadas houve maior continuidade nas ações dos governos, mesmo com coloração política distinta, em busca do bem-estar comum.

É isso o que nos falta. Marchamos quase às cegas para novas eleições daqui a cinco meses. Candidatos à Presidência proliferam. Por quê? Ah, porque sim; porque “tenho todas as condições pessoais para isso”, diz a maioria. E é assim que se consegue governar? Talvez algum caudilho antiquado ou “carismático” engane as massas por algum tempo. Mas governar é coisa mais séria. Se a União nem consegue dar destino a um prédio que é seu e a Prefeitura nem sabe bem como fazer para ocupá-lo (ou desocupá-lo para evitar tragédias...), vê-se que o País precisa reformar a máquina pública. O que dizem a respeito os candidatos? Com que forças sociais e políticas contarão se eleitos? Em uma palavra: com o que estão eles ou elas política e socialmente comprometidos? O que farão com o Brasil, que, afinal, é o que conta? Com o País e com sua gente.

Há uns poucos que têm história e carregam o peso de terem partidos. Sabe-se mais ou menos o que pensam e como agem. E digo isso sem me referir apenas a um candidato, e sim aos que têm trajetória e experiência. O País precisa de renovação, mas esta não é apenas juventude e falta de prática político-administrativa. Para dar bom resultado ela precisa de conhecimento, visão, persistência, honestidade e esperança.

Quem sabe, no entremear de alianças partidárias para aumentar o tempo de televisão, do esforço desesperado para escapar das acusações em curso, das manobras congressuais para abocanhar pedaços do “fundo eleitoral”, ainda se consiga ouvir a voz dos candidatos, tonitruantes, mas não apenas com slogans, e sim com propostas embasadas no que sabem e no que serão capazes de alcançar porque terão apoio na sociedade. É minha torcida.


OBS: Artigo publicado hoje no jornal Estadão.

(*) Fernando Henrique Cardoso é sociólogo. Foi presidente da República por dois mandatos consecutivos de 1995 a 2002.
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