domingo, 30 de novembro de 2014

A imperfeiçao da vida

Todo organismo vivo ou estrutural precisa de um momento de crise para chegar a uma acomodação, o planeta, as sociedades e as pessoas em particular só se encontram e chegam a um estado de maturação depois de um estado critico de contorções e acomodações severas em sua estrutura, simplesmente pelo fato de que nada era pra ser. E a vontade da natureza e do indivíduo tem que se acomodar ao fato de que a perfeição esta apenas na gêneses da vida, e nao na sua materialização histórica e pratica da existência. Poder viver em si mesmo, na psique do indivíduo, num sistema social e num planeta habitável já é um milagre incrível dado as forças do nao ser existente nos não encontros que nao geram vidas e mundos como o nosso. Crise é o sinal de que tudo nao era pra ser perfeito, que as coisas nao vao vir ao nosso encontro como nosso desejo. Que a gente tem que se acomodar assim como o próprio planeta se ajusta se contorce e se transforma interna e na superfície gerando depois da morte e desastres: vida nova, diferente e adaptada o tempo todo.

A vida esta posicionada na natureza e o homem no mundo de tal maneira em que a paz, o equilíbrio e a perfeição são a exceção e nao a regra da existência. Trata-se apenas de uma estado transitório e nao definitivo como a ideologia prescrevia. O embate, a crise e a confusão tanto no indivíduo como na natureza é seu estado natural de constante transformação, que a vida e a natureza sofrem e infringem a si mesmas na sua necessidade infinita de adaptação. A paz, a perfeição e o equilíbrio dos povos, estruturas, indivíduos e organismos nao é um fim em si mesmo, mais apenas um momento de acomodação e intervalo de constantes transformações que nao tem objetivo algum a nao ser se conformar a necessidade constante de sobrevivência. E só no coração do homem esse vulcão em constante transmutação arrebenta com mais força, pois só nele é sentido o fato de que a felicidade, o amor e a paz é uma raridade por nao ser uma lei de necessidade pré ordenada, mais transitória e ocasionais.

E assim a natureza vai aos poucos destruindo a ideia egocêntrica do homem de que tudo foi feito para ele, como se a noite fosse feita pra dormir, as estações regulares para a beleza e o equilíbrio do planeta, a agua e a chuva enviada para irrigar sua terra, como se tudo fosse de antemão preparado para o homem. Mas o planeta é um organismo vivo independente, e o homem um ser que ou se adapta ou morre. A terra internamente se contorce, as aguas do ceu e da terra sao aleatoriamente jogadas a mercê da sua própria força arbitraria e nao segundo um desejo do homem, pois nao foi feito para ele. Aonde era floresta, um século depois pode ser deserto, aonde tinha quatro estações regulares pode vir a ter duas rigorosas. O planeta muda o tempo todo sem nenhum propósito estabelecido. E é da crença de propósito na natureza que nasce a ideia megalomaníaca de que o homem deve ser feliz, que cada um pode encontrar seu casal ideal, que as coisas se movimentam em função de contribuir de forma direcionada em prol do seu próprio mundo ou de que ele é um ser especial ou escolhido. Por isso tanta contradição no bicho humano, tanta dor, tanta contorção, porque na pratica o mundo nao foi feito para ele, mais por ser um lugar: hora rico, belo e misterioso, hora terrivelmente tirano e hostil. Um lugar onde a vida nunca chega a um estado de paz e equilíbrio definitivo, mais onde a tensão e a luta incessante pela vida e felicidade é seu único bem não doado.

Esdras Gregorio

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Duplas Identidades



[Artigo de Arnaldo Jabor Publicado no Jornal "O Globo"  em 25/11/2014]

Tenho assistido ao ótimo seriado “Dupla Identidade” – sobre um psicopata, escrito por Gloria Perez (que já foi vítima de um deles). A serie é muito bem dirigida e fotografada e tem atores excelentes como o protagonista, Luana Piovani, Débora Falabella, Marcelo Novaes. E vejo que o personagem de Bruno Gagliasso nos fascina pelo mal. Parece até uma replica daquele “serial killer” de Goiás, jovem, bonito, que matou 39 moças.

Antigamente, nos romances, nos filmes, nos identificávamos com as vítimas; hoje nos fascinamos com os malvados. Não torcemos mais pelos mocinhos – torcemos pelos bandidos. Quem nos fascina são os filhos da p... Por quê?

Sempre houve psicopatas e seus crimes. Só no século XX são duas guerras, holocausto, Hiroshima e Nagasaki, terrorismo, tudo causado pela ausência de sentimento de culpa e pelo prazer do “inominável”.

Não estou sendo psicologista, mas a psicopatia – para além das causas políticas e econômicas – é a base dos líderes implacáveis e assassinos.

Hoje a psicopatia é mais “descentralizada”. Não tem a massiva lógica “fordista” da era industrial. Agora, no pós-tudo, o mal se dissemina, se alastra em ilhas de comportamentos já “aceitáveis”. Os psicopatas estão na moda. Vão desde os degoladores do Estado Islâmico até o sujeito que mata para roubar um tênis ou ainda para os ladrões da PTbrás, os chamados psicopatas “revolucionários”. Agora, a psicopatia é o “hype” do mal.

Dentro de casa, vivemos uma democracia de massas com o gigantesco aluvião de corrupção. Os corruptos também possuem “dupla identidade”. Falam em honra “ilibada” e roubam bilhões. O que estamos vendo é o desvelamento de uma farsa que nos assola há séculos, pelo menos desde Tomé de Souza, que, ao fundar Salvador em 1549, roubou tanto que quase quebrou Portugal.

Com a crise das utopias, com a exposição brutal de um escândalo por dia, somos levados a endurecer o coração, endurecer os olhos, em busca de um funcionamento que pareça aos outros “normal”, “comercial”, ou seremos descartados, tirados “de linha”, como carros velhos.

A propaganda e o “espírito do tempo” estimulam a “beleza” do narcisismo. Isso leva à vaidade e a um egoísmo desabrido que evolui para a psicopatia. Somos hoje “freelancers” sem limites morais e conquistamos uma liberdade para nada, para o exercício de um charme ilusório, uma subjetividade transformada em produto de mercado.

Com a desmoralização da política e da lei no mundo todo, vão se parindo legiões de psicopatas, disfarçados de competentes ou vitoriosos. Já houve a época da histeria, do romantismo utópico onipotente, da paranoia do entre-guerras. Hoje, temos o psicopata. E veio para ficar. Eles encarnam a vida moderna. Como acreditar em harmonia futura, em bom senso, em arte, depois dessa revolução da boçalidade bruta?

O psicopata pós moderno, light, não faz picadinho de ninguém; no entanto, tem as mesmas molas que movem o esquartejador. Ele não é nervoso ou inseguro. Parece muito sadio e simpático. Ele, em geral, tem encanto e inteligência. E é muito difícil reconhecer o psicopata. Há uma frase que os define assim: “Os ratos são mais felizes que as vítimas do psicopata. Ao menos os ratos sabem ‘quem’ são os gatos”. Questionado ou flagrado, o psicopata não se responsabiliza por suas ações, sempre se achando inocente ou “vítima” do mundo, do qual tem de se vingar. Ele não sente remorso ou vergonha do que faz (o que nos dá uma secreta inveja). Ele mente compulsivamente, muitas vezes acreditando na própria mentira, para conseguir poder. Não tem capacidade de olhar para dentro de si mesmo. Não tem “insights” nem aprende com a experiência, simplesmente porque acha que não tem nada a aprender.

E esse comportamento está deixando de ser uma exceção. A velha luta pela ética, pela solidariedade, já é uma batalha vã. Muita bondade está ficando ingênua, babaca, ridícula.
Os resíduos de uma ética só existem para discursos demagógicos e impotentes. Nada impede a predação dos dinheiros públicos, porque o “público” não existe mais. Não há mais um limite para escândalos e crimes. Só nos resta o fraco recurso dos direitos humanos.

Mas o que é o “humano” hoje? O “humano” está virando um lugar-comum para uma “bondadezinha” submissa, politicamente correta, uma tarefa inócua para ONGs.

Que nos acontecerá? Ou melhor, haverá “acontecimentos” ainda ou os fatos vão se dissolver no mar morto do futuro? As coisas que já mandam no mundo vão acelerar sua tirania. Está sendo criada uma “epinatureza”, em que o homem terá projetos que fugirão sempre de seu controle. Será o tempo da deliciosa “reificação”, quando seremos talvez felizes como “coisas”.

Surgiu a era da insolubilidade. Os processos normais, com início, meio e fim, desmoronaram. Com a chegada da desesperança, surge o fatalismo e a irresponsabilidade, pois o mundo é considerado algo irremediável.

Haverá o fim da compaixão e as populações miseráveis ou desnecessárias ao mercado serão eliminadas, sob os protestos inaudíveis de humanistas fora de moda. Precisamos de uma forma nova de “transcendência”, abolida pelo consenso tecno-científico; uma nova liberdade se tornou urgente, a liberdade de “não” ser moderno.

O poeta e pensador Paul Valery escreveu: “A desordem do mundo atual nos habitua intimamente a ela; nós a vivemos, nós a respiramos, nós a criamos, e ela acaba por ser uma verdadeira necessidade nossa. Nós encontramos a desordem a nossa volta e dentro de nós mesmos, nos jornais, nos dias e noites, em nossas atitudes, nos prazeres, até em nosso saber.”

Somos máquinas desejantes que mudamos de acordo com o tempo e a necessidade.

Antes os psicopatas tocavam num mistério que não queríamos conhecer.

Hoje estamos vendo que essa antiga doença vai ser uma “virtude” que está a caminho. Teremos talvez de ficar como eles para sobreviver. Os psicopatas são o nosso futuro.




quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Que tal uma Comissão da Verdade para apurar a escravidão negra?




Achei bem oportuna a ideia de se criar uma comissão da verdade sobre a escravidão no Brasil!

Durante a 21ª Conferência Nacional dos Advogados, ocorrida mês de outubro no Rio de Janeiro, foi levantada a proposta de se formar um grupo com o objetivo de apurar os crimes cometidos nesse contexto histórico e fazer um resgate social da contribuição negra no país a partir de pesquisas sobre episódios pouco conhecidos. Sugeriu o Conselho Federal da OAB que o governo federal faça algo nos moldes da Comissão Nacional da Verdade (CNV) que apura os delitos da época do regime militar (ler matéria OAB cria Comissão Nacional da Verdade da Escravidão Negra no Brasil, de 03/11/2014).

Verdade é que a história oficial deixou de lado fatos de enorme relevância como o protagonismo do negro em revoltas e insurreições, bem como a contribuição dada pelos escravos para o desenvolvimento da nação. É o que não se costuma ensinar nas escolas e isso trouxe resultados muito negativos para a nossa sociedade pois a população negra no país ainda carece de uma valorização de sua autoestima, problema que não se resolve apenas através de medidas afirmativas temporárias, a exemplo das cotas das universidades e no serviço público federal. É o que explica Marcelo Dias, presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB/RJ:

"A comissão da OAB fará um trabalho importantíssimo de mostrar para a sociedade os mecanismos que foram usados durante séculos de escravidão e todos esses anos após a abolição que impedem que a população negra usufrua adequadamente dos frutos que gerou."

Apoiando a ideia, o presidente do Conselho Federal da OAB, Marcos Vinícius Furtado, considera que a Ordem dos Advogados precisa ser um "instrumento a favor da igualdade", conforme declarou em uma nota:

"O século passado abraçou a ideia da liberdade, agora precisamos promovê-la. Não podemos ter medo de olhar para o nosso passado. Precisamos revisitá-lo e entendê-lo, para que atrocidades contra a população negra não se repitam."

No próximo dia 25/11 (terça-feira), às 16 horas, a OAB/RJ e a Caarj realizarão um ato de apoio à criação da Comissão da Verdade da Escravidão Negra pela OAB Nacional, o que será muito importante para a sociedade brasileira começar a se mobilizar. Aliás, no dia de amanhã em que se celebra a memória de Zumbi dos Palmares, data considerada um feriado estadual aqui no Rio de Janeiro, sugiro que vários grupos de afrodescendentes, de combate à discriminação racial, de defesa dos direitos humanos  e comunidades quilombolas possam também apoiar essa bandeira nas suas manifestações afim de que o governo federal ouça o clamor do povo adotando uma posição.

Após termos tido quase 400 anos de escravidão africana legitimada (a abolição só ocorreu formalmente em 13/05/1888), ainda nem nos  encontramos no meio do caminho para que os efeitos dessa atrocidade histórica sejam revertidos totalmente e a população negra brasileira recupere a sua dignidade por completo. Por isso, não somente apoio esse resgate defendido pela OAB, como também sou favorável à prática de atos reparadores, os quais precisam ir muito mais além da política das cotas e das medidas afirmativas hoje aplicadas. Fica aí um debate em aberto em que, somente após a realização dos trabalhos dessa comissão, poderemos então nos posicionar com maior clareza para acelerarmos a superação dos sofrimentos do nosso passado.



Um feliz dia da consciência negra para todos!


OBS: As duas ilustrações usadas neste artigo referem-se aos trabalhos feitos pelo artista parisiense Jean-Baptiste Debret (1768-1848), nas quais se retratou a hedionda flagelação praticada contra os escravos no Brasil Imperial. Debret foi um dos principais pintores das condições da população negra da época. Ambas as imagens foram extraídas a partir do acervo virtual da Wikipédia.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Seria errado colocar os pais numa casa de repouso?




Muitas pessoas de bem, quando chegam a uma certa etapa de suas vidas, deparam-se cedo ou tarde com um preocupante problema: como manter o pai ou a mãe dentro de casa quando um deles, ou ambos, numa avançada idade, tornam-se doentes e passam a depender dos cuidados especiais de alguém?

Nessas horas difíceis, uns permanecem até o fim ao lado de seu genitor e compartilhando do mesmo ambiente enquanto que outros contratam um enfermeiro, ou um ajudante capacitado, para tal objetivo. Porém, há filhos que, por variadas razões, optam pelos serviços de uma casa de repouso, termo que hoje em dia seria mais digno do que o vocábulo asilo.

Ocorre que o fato dos filhos tomarem a decisão de colocar os pais num lar para idosos ainda é muito mal vista dentro da nossa sociedade. Principalmente pelas mentes hipócritas mais julgadoras sempre prontas a atirar a primeira pedra no outro sem nem ao menos conhecerem de perto a realidade fática de cada caso. Muitos até consideram essa atitude como uma violação do mandamento bíblico da Lei de Deus sobre honrar pai e mãe (Ex 20:12; Dt 5:16), o que, no meu ponto de vista, seria uma má interpretação das Escrituras Sagradas.

Como se sabe, há idosos que são mal cuidados em todos os lugares. Uns ficam esquecidos num asilo qualquer enquanto outros encontram-se assim dentro da própria casa! Não recebem um pingo de atenção, são tratados com as mais estúpidas grosserias e nem mesmo ouvem um bom dia ou ganham um beijo de boa noite antes de dormir. Isso quando não têm a aposentadoria subtraída pelos filhos, os quais só querem saber de ter o pai por perto para ficarem com o dinheiro do velho.

Por outro lado, existem aqueles idosos que, por razões éticas e psicológicas mal resolvidas, insistem em ser um peso além da conta para os filhos. Pois, por mais que estes tentem dar amor e carinho na medida das possibilidades, o pai ou a mãe estão sempre a inventar situações preocupantes com a saúde, implicam com o genro ou com a nora, criam dramas emocionais de todos os tipos, fogem de casa sem avisar deixando a família inteira em estado de alerta e não querem de modo algum tentar ser felizes na terceira idade procurando os saudáveis grupos de convivência. Enfim, conscientemente ou não, tais pessoas atentam contra o sossego, o casamento e até o desempenho profissional dos filhos de modo a tornar insuportável o ambiente no lar.

Além disso, há inúmeras situações de doença que extrapolam as condições dos filhos, os quais nem sempre dispõem de recursos financeiros para pagar pelos serviços de um cuidador especializado. E não apenas pode faltar a grana como também tempo, espaço adequado na casa, um mínimo de conforto para todos e ainda aquela dose necessária de atenção. Aí manter o pai ou a mãe dentro de casa numa situação dessas torna-se até algo desumano e irracional.

Ocorre que muitas das vezes os nossos valores morais e religiosos impede-nos de racionalizar corretamente as coisas. O honrar pai e mãe significa antes de tudo a expressão de um princípio amoroso de relacionamento familiar, um mandamento que é via de mão dupla como bem interpretou o apóstolo Paulo ao reconhecer deveres tanto para os filhos como para os genitores (conferir Ef 6:2-4). E aquilo que a Bíblia condena expressamente seria o desprezo do filho (Dt 27:16), algo caracterizado pelo abandono de fato e que costuma ser motivado por ódio, rancor e casos de extremo egoísmo pessoal.

Assim sendo, penso que um idoso hospedado num abrigo pode muito bem continuar amado pelos filhos e netos recebendo visitas regulares. Se as condições de saúde permitirem, os filhos podem, por exemplo, levar o pai para almoçar com eles nos finais de semana, trazê-los para as comemorações religiosas e familiares, estarem presentes em determinados exames e consultas médicas, bem como prestarem toda a assistência necessária. Em tal caso, o pai ou a mãe não ficariam desamparados, mas estariam sendo cuidados pela sociedade e acompanhados dignamente pelos de sua parentela.

Sem dúvida que tudo isso precisa ser bem trabalhado com cada família. Justamente porque a casa de repouso ainda é vista por muitos como um local de abandono e de descarte de pessoas, sendo bom que uma decisão dessas seja precedida do apoio psicológico e até mesmo passar pela orientação do pastor religioso da pessoa. Aliás, a própria igreja/congregação pode desenvolver um ministério especificamente para assistir o público de terceira idade e seus parentes próximos prestando amparo espiritual afim de que o amor nunca cesse entre pais e filhos. Afinal, neste aspecto, pouco importa a forma como que a atitude amorosa vai se manifestar.

Antecipadamente desejo um ótimo fim de semana para todos!


OBS: Foto acima extraída de um site do governo do Rio de Janeiro onde a Secretaria de Estado de Saúde noticiou informações sobre cursos para cuidadores, conforme consta em http://www.rj.gov.br/web/ses/exibeconteudo?article-id=1305933

sábado, 1 de novembro de 2014

Oficina do Diabo

A internet é a maior oficina do diabo de todos os tempos, por que é pra lá que correm e concorrem todas as pessoas com tempo vago da atualidade. Quem só trabalha ou só estuda e não tem família, filho, marido, esposa ou netos pra cuidar, tem de quatro, oito ou ate doze horas por dias disponíveis para navegar, mais precisamente vagar pela internet. Pois quem estuda e trabalha, tem de manha a ate a noite: obrigações e compromisso sérios, tem pouco tempo, e só entram na internet para se atualizar, e selecionam muito bem o que vão ver, por não ter tempo a perder. Pois é esse imenso tempo vago que possibilita num lugar infinito de possibilidade de informações falsas e verdadeira, e a mistura das duas a fermentações de todas essas paranoias e teorias de conspiração que florescem a cada dia. O pior de tudo, é que quem tem tempo pra isso, pode criar a jogar na rede o que quiser, tudo movido por um desejo de influenciar. Se ate empresas serias de imprensa demonstra inescrupulosamente com noticias falsas ou verdadeiras, isso já não importa a essa altura, um enorme desejo de mudar o destino e rumo das coisas com noticias. Imagina uma pessoa completamente á toa, com um mínimo de inteligência para juntar e fermentar ideias, o que ela pode semear, simplesmente pelo desejo de poder, de sentir que tem a capacidade de através da internet gerar sentimentos de histerias e paranoias coletivas. Os lunáticos de ontem são os internautas do hoje, são pessoas com um tempo vago imenso suficiente para vagar de um lado pro outro, jogados pelo sensacionalismo e feitiços de informações cujo leque de possibilidades são infinitas. Quem trabalha de dia e estuda ou cuida da família de noite, sente ao entrar na internet, estar entrando em outro mundo, num mundo de guerras e revoluções, num mundo com sensações de fim de mundo. Num Mundo surreal, diferente daquele em que pautou sua vida durante o dia. Nunca fez tanto sentido a frase de que mente vazia é oficina do diabo, ainda mais na modernidade com tanta gente que só estuda ou só trabalha e tem muita hora vaga, pra simplesmente vagar.
Esdras Gregório

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A Criatura e o Criador [2ª Parte]




O Criador desce do seu trono de glória, com três dos seus principais arcanjos, para se inteirar dos acontecimentos ocorridos durante a primeira semana presidencial de sua criatura re-eleita para reger o destino do complicado povo da  terra de Vera Cruz. Um dia antes de sua descida tinha dado ordens a sua criatura para que saísse do infecto planalto central e se dirigisse a montanha de ar ameno onde está encravada a cidade de Petrópolis ― precisamente no palácio que pertenceu a D. Pedro II.

Lá chegando, foi recebido com guloseimas acompanhadas do champagne francês, Dom Perignon, de RS 18.000 reais a unidade.

Brindaram ao sucesso da nova república. O Criador, que adora piadas, mostrando seus dentes de ouro através de um riso sincero, disse: “fosse no Nordeste estaria a divindade tomando agora uma caipirinha com tira-gosto de buchada de bode e sarapatel”. A gargalhada foi geral.

Mas vamos ao que interessa, disse o divino criador, sentando-se na cadeira que pertenceu ao último imperador da terra de Vera Cruz:

―Minha divina criatura, apesar de ser onisciente, quero saber como reagiram os anjos que vão ser despedidos do Congresso no final do ano, ante a minha proposta de Reforma eleitoral e do Marco Regulatório?

― Meu querido criador já tem gente importante que votou em mim, chamando o seu projeto de “reforma placebo”.

― Eu sei minha serva, falar em Reforma é o mesmo que discutir o sexo dos anjos: ninguém não sabe, nem nunca viu, nem jamais verá. Mas lembre-se que esse povinho de Vera Cruz, acredita em tudo. Acredita que os males da república cessarão com a Reforma que eles consideram a mãe de todas faxinas. Eu que não cursei Universidade sei que o tal de Lutero se lascou todinho com esse negócio de Reforma. Aqui em Vera Cruz, só de 2004 para cá, ocorreu um escândalo por ano, e em todos eles a tônica dos revoltados era: ”reforma política já!”.

A Criatura com ares de espanto, disse:

― A vossa divindade, quer dizer que de 2004 à 2014 foi a década dos escândalos? Não me lembro de tanto escândalo, meu Mestre e Salvador?

― Já que tens um déficit neuronal, vou refrescar tua memória:
Em 2004 foi o escândalo de Waldomiro Diniz e Carlinhos Cachoeira; em 2005 a farra dos correios; em 2006 os aloprados inventaram um dossiê contra Serra; em 2007, o envolvimento da Abin no caso Daniel Dantas; em 2008 a farra escandalosa dos cartões corporativos; em 2009 a investigação sobre a família Sarney; em 2010 as negociatas de tua secretária, Erenice; em 2011 foi a vez do Lupi da Pasta do Trabalho; em 2012 a bomba do mensalão; em 2013 o caso Rosemary, e em 2014 o Petrolão, que acho o mais grave de todos.

― Mestre! O senhor esqueceu o Bolsolão.

― Ah, esse bolsolão, não é problema, a gente tira de letra! Mas voltando ao tema da reforma política: eu acho que se a nova bancada do congresso de 2015 fixar um teto para o caixa dois, talvez fique mais fácil a reforma política passar.

Dilma faz um muxoxo, como querendo dizer: “vai sobrar para mim”.
― Você tem que ser firme e representar bem, minha doce criatura. Você tem de insistir que o inimigo número um do Brasil é essa imprensa burguesa e golpista que anda nos atrapalhando ao se meter em negócios dos nossos companheiros dentro do palácio.

― Acho que vou ter muita dor de cabeça! ― disse a criatura esfregando as têmporas.

― Olha minha filha: claro que vai dar trabalho. Acho que o Brasil chega lá, tenha fé em mim!. Você veja que no mensalão ninguém nem fala mais: virou sítio arqueológico. Como aquela música de Nelson Ned: “Mas tudo passa/tudo passará/E nada fica/nada ficará./Só se encontra a felicidade/Quando se entrega o coração.”

A criatura emocionou-se e chegou às lagrimas ao ouvir esse divino refrão ser entoado por uma miríade de anjos ao som de violinos e harpas.

Depois de um lauto almoço, desceram a rampa e se dirigiram a uma belíssima varanda para abordarem o tema “marco regulamentório”:

― Aqui no céu onde habito, foi o marco regulamentório que salvou a mim e mais dois terços dos meus queridos e obedientes anjos e arcanjos. Expulsei um terço dos anjos rebeldes, inclusive, entre eles estava o mais belo de todos, que queria saber demais e tomar o meu lugar. Sei que eles, os expulsos, eram de uma inteligência incomum. Denominavam-me de apedeuta, e isso me irava muito. Incomodavam-me muito os seus arroubos filosóficos e científicos, que terminei por alijá-los para a Terra de Vera Cruz.

― Em que países os marcos regulatórios da mídia já estão a pleno vapor, meu Criador? ― pergunta, a amnésica criatura.

― Oh, minha frágil criatura! É uma pena não saberes ainda que na Venezuela, desde março de 2000 existe o “Marco Legal das Telecomunicações”; que na Bolívia funciona, desde agosto de 2011, a “Lei Geral de Telecomunicações e informações”; que desde 2009 está em vigor na Argentina de Cristina  Kirschner uma legislação super-abrangente sobre a regulação do setor de comunicações, com cerca de 166 artigos.

― Só nós aqui da terra de Vera Cruz é que estamos sem lei que domine o monstro das redes de comunicações, minha inocente criatura – concluiu o Criador, vermelho de raiva.

―Estou confusa, meu Mestre: Quanto mais Pronatecs, Universidades eu inauguro, mais pessoas de Vera Cruz me vaiam. E aí, que faço, meu adorado criador?

― Olhe bem, aqui nessa terrinha sem deus, o teu grande projeto é manter a ocupação da máquina pública com os amigos que nos ajudam quando liberamos projetos para eles. Se vai ajudar a educação, fique só na básica. Se faltar doutores, temos Cuba, a Bolívia e a Venezuela para nos suprirem, e ponto.  A “Frente Contra Corrupção”, que será uma das nossas bandeiras de fachada, não deve nunca ser aparelhada com a parentela de anjos rebeldes que expulsei do meu Reino e que está aí por toda parte querendo nos tragar. Não seja pautada pela mídia. Não ligue para as manchetes escandalosas sobre superfaturamento. Eles fazem barulho por um certo tempo e depois esquecem, e tudo volta a normalidade. Lembra-te do “Não Vai Ter Copa”? Houve Copa sim, e sem baderna. Se baderna e vergonha ocorreram foi dentro de campo, por conta dos jogadores brasileiros que amarelaram e foram arrasados vergonhosamente pela Alemanha.

― Quanto ao desempenho de nossas universidades, a USP caiu do 158º posição no ranking para a 250º. Isso não é uma vergonha. meu venerado Criador?

―Vergonha que nada! Eu quero é que essas arapucas de ensino das elites fiquem na lanterna. Menos aperreio para mim. Não estou esquecido do que aconteceu com o meu Reino Celestial, onde a terça parte enveredou para conhecer o que não devia e se deu mal.

― Sabias que a bancada do Temer, o meu vice do PMDB, votou contra o teu projeto de regulação da mídia?

― Cuidado, trate o Michel Temer com mãos de seda. O que seríamos nós sem o PMDB? “Ele é o amigo das horas incertas”. Antes de o Criador terminar a frase, a orquestra sinfônica, e seu coro de anjos celestiais, emplacou a canção “Amigo” de Roberto Carlos.



[ Por Levi B.Santos ]

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A CRIATURA E O CRIADOR [1ª Parte]





A criatura em sua campanha por mais quatro anos no Paraíso de Vera Cruz está em apuros e pede socorro ao seu Criador:

― Meu criador, onde estás que não me ouves?

― Estou onde sempre estive. Estou aqui em cima no meu trono a olhar se estás cumprindo com o script que com tanto esmero e cuidado te entreguei. Por que andas te escondendo de mim?


― Meu criador. Tu és onipotente, onisciente e onipresente, e sabes muito bem que a natureza humana não se muda. Perdoa-me pois não consigo representar como bem me ensinaste. Tenho o pavio curto. Coisa da genética.


― Como queres ficar no paraíso por mais quatro anos, se não sabes te amoldar às circunstâncias. Lembra-te bem  daquele tiro que deste no pé ao revelar que o fruto da venda da refinaria que jorrava o ouro negro caríssimo que estava nos servindo, não foi com a tua aprovação. Tu, como personagem central da “Divina Comédia”, jamais poderia ter cometido tamanho pecado!


― Mas não só eu, quanto Tu também, meu criador, estamos correndo perigo! Peço humildemente a tua proteção. Apareces aqui para ajudar a tua serva que corre perigo de ser alijada do paraíso.  O inimigo de nossas almas, segundo as pesquisas do anjo Manoel, está na dianteira, e o prazo é curto para me recuperar. Os anjos do segundo escalão que aqui deixaste para me assessorar estão todos perdidos.

― És teimosa demais! Se andas te atropelando nas palavras, para que inventar de falar de improviso? Por que teimas em recusar ler meu manual para iniciantes? Às vezes, chego a me arrepender de ter te escolhido entre outras mulheres mais sábias do meu Reino.

― No capítulo primeiro do meu manual está escrito: “Não cometerás sincericídio”. No segundo capítulo está escrito: “Em política a verdade dita fora do tempo não liberta, antes traz confusão e discórdia”. Como é que foste cometer pecado tão grave?   

― Vou te conceder perdão. Serei misericordioso contigo. Alegra-te e incendeia a cambada de anjos que te seguem. Eu te livrarei do laço do passarinheiro.

― As lágrimas que saem dos meus olhos agora, meu Mestre, são sinceras. De joelhos agradeço a tua divina intervenção. Só tu podes me livrar de tamanha humilhação, age rápido!

― É! Mas isso não vai sair de graça não. Farei o diabo para te dar vitória. Tem uma coisa: ganharás por pouco. Vou preparar um discurso que irás fazer no final da votação. Não poderás errar uma vírgula sequer.

― Fala-me rápido, meu Criador. A tua serva é só ouvidos. Fala! Fala!

― Calma! Pega o discurso que redigi para leres depois que o nosso nobre amigo do TSE divulgar a tua vitória. Decora-o tim-tim por tim-tim.

A criatura passa seus olhos pelas laudas do discurso redigido pelo auxiliar-mor do criador, e se arrepia toda.


― Que cara é essa? Que tens? Estás passando mal? ― brada o criador.

― Perdoa-me meu Mestre e Criador: é que eu estou vendo palavras indigestas nos teu divino discurso.

― O que? Tens a ousadia de dizer que estou a escrever porcarias?

― É de minha natureza meu criador. Tu sabes como ninguém. É que eu passo mal quando ouço palavras como: “diálogo”, “união sem ação monolítica”, “responsabilidade fiscal”. E o pior, meu criador é ter que falar em “Reforma Política” e negociação com aqueles que me ofenderam.

― Vais dormir. Pedes uma semana de férias, e lá, num litoral bem secreto te ungirei com o óleo milagroso que o Chavez me presenteou. Lá, teus olhos se abrirão e verás a gloria do filho de Garanhuns que te sucederá por mais oito anos.

― E o Petrolão, meu Mestre, como conviverei com ele?

― Não temas! Agrada-me o perigo. Acredita que podemos nos perder?.  Aquilo que procuro desenvolver e frutificar dentro de minha matéria e nas circunvoluções do meu cérebro jamais se extinguirá. Alegria, alegria, nobre criatura! Saibas que eu e tu somos uma só pessoa. Não te deixarei, nem te desampararei.

― E se a reforma política não passar nesse novo e complexo congresso, meu mestre?

― Melhor pra nós, criatura! Eles vão bater cabeça com cabeça e não sairão do lugar.


― Estás rindo com tanta confiança, meu criador, que estou toda inflamada de emoção e coragem.

― Avante, minha camarada!

― Avante meu pai, meu mestre e criador! 



[Por Levi B. Santos]
                                                                                                  Site da Imagem: historiasemquadrinhos.blogspot          

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

"Tomara Que Deus Não Exista"



Sob o título “Tomara que Deus não exista“, o artigo a seguir é de autoria do procurador da República Davy Lincoln Rocha, de Joinville (SC), que manifesta sua discordância sobre a concessão do auxílio-moradia. Texto replicado por Frederico Vasconcelos na Folha de São Paulo de 09/10/2014.




“TOMARA QUE DEUS NÃO EXISTA”


 “Brasil, um país onde não apenas o Rei Está nu. Todos os Poderes e Instituiçōes estão nus, e o pior é que todos perderam a vergonha de andarem nus. E nós, o Procuradores da República, e eles, os Magistrados, teremos o vergonhoso privilégio de recebermos R$ 4.300,00 reais de “auxílio moradia”, num país onde a Constituição Federal determina que o salário mínimo deva ser suficiente para uma vida digna, incluindo alimentação, transporte, MORADIA, e até LAZER.

A Partir de agora, no serviço público, nós, Procuradores da República dos Procuradores, e eles, os Magistrados, teremos a exclusividade de poder conjugar nas primeiras pessoas o verbo MORAR.

Fica combinado que, doravante, o resto da choldra do funcionalismo não vai mais “morar”. Eles irão apenas se “esconder” em algum buraco, pois morar passou a ser privilégio de uma casta superior. Tomara que Deus não exista…
Penso como seria complicado, depois de minha morte (e mesmo eu sendo um ser superior, um Procurador da República, estou certo que a morte virá para todos), ter que explicar a Deus que esse vergonhoso auxílio-moradia era justo e moral.

Como seria difícil tentar convencê-Lo (a ele, Deus) que eu, DEFENSOR da Constituição e das Leis, guardião do princípio da igualdade e baluarte da moralidade, como é que eu, vestal do templo da Justiça, cheguei a tal ponto, a esse ponto de me deliciar nesse deslavado jabá chamado auxílio-moradia.

Tomara, mas tomara mesmo que Deus não exista, porque Ele sabe que eu tenho casa própria, como de resto têm quase todos os Procuradores e Magistrados e que, no fundo de nossas consciências, todos nós sabemos, e muito bem, o que estamos prestes a fazer.

Mas, pensando bem, o Inferno não haverá de ser assim tão desagradável com dizem, pois lá, estarei na agradável companhia de meus amigos Procuradores, Promotores e Magistrados.

Poderemos passar a eternidade debatendo intrincadas teses jurídicas sobre igualdade, fraternidade, justiça, moralidade e quejandos.
Como dizia Nelson Rodrigues, toda nudez será castigada!”


sábado, 18 de outubro de 2014

Ética e Política São Inconciliáveis?




Nas nações supostamente democráticas, muito se tem debatido sobre ética na política. Aqui nas terras de D. João VI a vivência demonstra com tons fortes que os conselhos de ética em política ao invés de lutarem pela transparência de suas ações, caminham mais no sentido de abafar os delitos cometidos por seus próprios membros.
 

Mas será que existe mesmo um abismo intransponível entre a política e a ética?

O cientista político, Noberto Bobbio (falecido em 2004) foi de longe quem mais se aprofundou no estudo nas relações da moral com a política. Ele diz no seu livro “Elogio da Serenidade” (página 50) que, “o problema das relações entre ética e política é mais grave porque a experiência histórica mostrou, que o político pode se comportar de modo diferente da moral comum, que um ato ilícito em moral pode ser considerado e apreciado como lícito em política, em suma, que a política obedece a um código de regras ou sistema normativo que não se coaduna, e em parte é incompatível com o código de regras ou sistema normativo de conduta moral”.

Mais adiante (na página 90) o cientista político italiano, afirma: “Não há esfera política sem conflitos. Ninguém pode esperar levar a melhor num conflito sem recorrer à arte do fingimento, do engano, do mascaramento das próprias intenções. A “finta”, o “mentir” fazem parte da suprema estratégia para enganar o adversário. Não há política sem o uso do segredo. O segredo não só tolera como exige a mentira. Ficar preso ao segredo significa ter o dever de não revelá-lo, o dever de não revelá-lo implica o dever de mentir”.

Segundo Bobbio, a tradicional máxima Salus Rei Publicae Suprema Lexa ‘Salvação do Estado é a Lei suprema’, se explica dessa maneira: “A separação entre a moral política nasce do fato de que a conduta política é guiada pela máxima de que ‘os fins justificam os meios’. Nesse caso, o bem público, o bem comum ou coletivo é tão superior ao bem do indivíduo, que acaba por justificar a violação das regras morais fundamentais que valem para os indivíduos”.

Há quem traduza o episódio da tentação de Cristo, relatada nos evangelhos, como uma metáfora que mostra claramente uma faceta intrínseca ou inseparável dos fundamentos da política. No mito cristão, há um messias que em uma de suas crises existenciais (tentação) chega a desejar, talvez num nível inconsciente, o poder político. O “Tudo isso será meu, se eu aceitar o código do “toma lá dá cá” – deve ter passado por Sua imaginação. E o “posso, mas não devo” – pilar básico e central da ética, deve ter rechaçado a sua vontade de, quem sabe, tornar-se chefe de uma facção política de um sofrido proletariado urbano, que em Jerusalém proporcionara-Lhe uma entrada triunfal digna de um grande revolucionário, que enfim, iria livrar os oprimidos do jugo romano.

Os evangelhos dão a entender que Cristo já percebia a inconciliabilidade entre a ética e a política do seu tempo. Recusou enveredar pelos meandros do poder político que ele denominava “O Reino desse Mundo. Trezentos anos depois de sua morte, o imperador Constantino numa atitude totalmente diversa, e destruindo tudo que o Mestre plantara em seus ensinamentos, selou um pacto político com a igreja, acordo esse, que dura até os dias de hoje. Ora, o que a maioria dos negociadores “cristãos” sempre desejou inconscientemente, foi sentar à mesa do rei. Mas para isso, a ética que é incompatível com a política teve que ser jogada às favas.

Constantino, um exemplo de cristão político “nota dez” do nosso tempo, mudou as diretrizes de Cristo, reforçou de forma inteligente o seu poder, tanto é, que atenuou a crise do Estado com a colaboração da “santa igreja”, realizando àquilo que Cristo não conseguira: premiar os apóstolos ainda nessa frágil vida terrena, alçando-os aos mais altos cargos do império (consulados, prefeitura de Roma, Prefeitura do Pretório).

Pablo Henrique de Jesus, em sua tese de mestrado que versou sobre “A Cisão Entre Ética e Política na Filosofia de Hannah Arendt”  , assim escreveu:

“A política, e considerando junto com ela todas as referências conceituais que lhe competem, é um fenômeno estritamente mundano, ao passo que a ética pode-se dizer, considerada estritamente na relação de seus princípios fundamentais, é um evento que de toda sorte compete exclusivamente à vida interna da consciência. [...] É aí que se situa, pode-se dizer, o motivo principal da cisão entre a vida ética e a vida política do ser humano”.

Maquiavel, na sua maior obra, “O Príncipe”, já dava a entender que, o objetivo principal de um político, não é apenas conquistar o poder político do Estado, mas se manter lá, a qualquer custo, não importa o que ele tenha que fazer para se manter lá no poder”.


E o leitor e eleitor amigo o que me diz?



Por Levi B. Santos

Guarabira, 30 de julho de 2011



Imagem: http://juliomahfus.blogspot.com/2009/04/etica-na-politica.htm

domingo, 12 de outubro de 2014

É preciso cautela diante das pesquisas eleitorais!





Curioso como as pesquisas eleitorais andam falhando ultimamente?!

O fato é que, no primeiro turno de 2010, Dilma venceu o Serra com 43,1%. Já este ano, ela caiu para 37,7%, o que significa uma perda de 5,4 pontos percentuais. Isso é fato comprovado! Não é fruto de pesquisas e nem de projeções.

É certo que Aécio e Marina cresceram pouco em relação às eleições presidenciais passadas, comparando-se o PSDB com seu candidato anterior José Serra e a Marina Silva consigo mesma quando ela veio pelo PV. Só que os nulos e brancos dessa vez somaram 10,44%. Já a abstenção que, em 2010, fora de 18,12%, subiu em 2014 para 19,39%.

Pois bem. Vamos tomar o Datafolha como exemplo. Em 08/10/2010, nas pesquisas de segundo turno, esse instituto mostrou Dilma com 48%, Serra com 41% enquanto os brancos, nulos e indecisos somavam ao todo 11%. Este mês, logo após o primeiro turno de 2014, mostraram Aécio com 46%, o que seria um crescimento de 5 pontos sobre Serra, enquanto a Dilma só teria 44%, importando numa suposta queda de 4 pontos sobre os dados de 2010.

Realmente é curioso como que, em tão pouco tempo, Aécio teria crescido 15,7 pontos sobre o primeiro turno enquanto Dilma apenas subiu 6,3 pontos! Isso significa que o tucano teria aumentado uns 70% sobre os 21,6% que Marina e os demais candidatos tiveram no primeiro turno enquanto somente 30% foram para Dilma. Surpreendente, não? Entretanto, como a metade dos eleitores inscritos não votou em nenhum dos dois no primeiro turno, tem-se aí um sugestivo campo para ficções estatísticas.

Inegavelmente uma pesquisa precisa ser analisada por gênero, instrução, renda, faixa etária, religião, região, etc. Na verdade, o que os institutos podem fazer agora é avaliar os potenciais de migração de votos, nunca retratar a realidade.

Não dá para o Datafolha ir a um bairro de classe A de SP e entrevistar os eleitores do lugar como sendo eles representativos do país todo!

Ora, não estaria o Nordeste em sua maioria com Dilma?!

E o que esperar dos mineiros que acabaram de eleger um governador petista e que, certamente, não vão querer contar com a hostilidade de um governo federal tucano no repasse de verbas para o estado deles?!

Assim, é quanto aos potenciais de votos que os institutos precisam fazer suas respectivas avaliações, coisa que não pode ser concluída em tão pouco tempo. Por exemplo, aquele eleitor evangélico que, no 1º turno, votou no Pastor Everaldo ou na Marina tende a identificar no Aécio alguém representativo de seus anseios políticos. Mas nada impede que Dilma venha a fazer o mesmo na conquista desse voto sendo certo que temos aí quem sabe cerca de 1 milhão de eleitores considerando que nem todo crente necessariamente vai votar em quem o pastor mandou. E este é um terreno que, por experiência, posso dizer que é bem diversificado sendo um erro alguém falar generalizadamente "os evangélicos" (confiram o artigo Afinal, quem são "os evangélicos"? de autoria do Ricardo Alexandre e que foi publicado aqui dia 08/09).

De qualquer maneira, estamos diante de um quadro bem recente de modo que não podemos afirmar agora se será Dilma ou Aécio quem irá ser eleito(a). Se o candidato do PSDB possui uma curva ascendente e, supostamente, maior intenção de votos no momento, é preciso que a tendência se cristalize até dia 26. E, como bem escreveu o cientista político César Maia em seu informativo eletrônico, "a campanha eleitoral na TV e no boca a boca que provoca é que vai ajustando ou sedimentando esta reação inicial".

Por outro lado, temos hoje na sociedade brasileira um forte sentimento de mudança que é notadamente maior que em 2010. Neste cenário, pode-se considerar que essa tendência seria capaz de tirar muitos votos de Dilma, caso o eleitor venha a identificar Aécio com a renovação que o país necessita, mesmo tendo o PSDB já governado de 1994 a 2002. Só que, como as pessoas não votam em partidos, mas sim em candidatos, existe alguma chance para o Aécio assim como Dilma também pode vencer. E, neste sentido, pouco importa se o PSB, Eduardo Jorge, Pastor Everaldo, Eymael e até a própria Marina Silva declararem algum apoio político ao tucano porque não existe uma transferência automática de votos. Quando o cidadão entra na urna eletrônica da seção eleitoral e fica de frente para aquela maquinha, são as suas próprias razões/convicções que irão determinar o voto.

Que Deus ilumine a consciência do eleitor brasileiro!


OBS: Ilustração acima extraída da página oficial do Casseta & Planeta no Facebook.

domingo, 28 de setembro de 2014

Chega de eleger esses espinheiros!


 

"Certo dia as árvores saíram para ungir um rei para si. Disseram à oliveira: 'Seja o nosso rei!' A oliveira, porém, respondeu: 'Deveria eu renunciar ao meu azeite, com o qual se presta honra aos deuses e aos homens, para dominar sobre as árvores?' Então as árvores disseram à figueira: 'Venha ser o nosso rei!' A figueira, porém, respondeu: 'Deveria eu renunciar ao meu fruto saboroso e doce, para dominar sobre as árvores?' Depois as árvores disseram à videira: 'Venha ser o nosso rei!' A videira, porém, respondeu: 'Deveria eu renunciar ao meu vinho, que alegra os deuses e os homens, para ter domínio sobre as árvores?' Finalmente todas as árvores disseram ao espinheiro: 'Venha ser o nosso rei!' O espinheiro disse às árvores: 'Se querem realmente ungir-me rei sobre vocês, venham abrigar-se à minha sombra; do contrário, sairá fogo do espinheiro e consumirá os cedros do Líbano!'" (Juízes 9:8-15; NVI)

A passagem bíblica acima citada refere-se ao Apólogo de Jotão e relata uma situação de luta pelo poder que aconteceu na história do povo israelita, quando aquela nação, passivamente, havia permitido que um homem perverso chamado de Abimeleque reinasse sobre o país.

Muitas vezes reclamamos dos políticos que governam ou legislam em nome da população brasileira. Contudo, consentimos que eles sejam eleitos e ainda reeleitos, o que acaba sendo muito pior. Pois assim como o espinheiro mentiu prometendo sombra, mesmo sendo uma árvore baixa, não raramente caímos nas lábias desses mentirosos oportunistas, os quais oferecem coisas que jamais poderão ser concretizadas.

Mas por que elegemos sempre o espinheiro ao invés da oliveira, da figueira ou da videira?!

Será a ingenuidade? O medo? Ou porque somos de alguma maneira coniventes com essa corja de corruptos aceitando argumentos do tipo "ele rouba mas faz"?

Caramba! Será que o eleitor do PT não consegue ver os podres de Lula e Dilma como os desvios de dinheiro do caso do "Mensalão" e agora esse escândalo na Petrobrás?!

Desde o ano de 2010, tenho acompanhado a luta de uma mulher cristã que, pela segunda vez consecutiva, está candidatando-se à Presidência da República. De Norte a Sul, Marina Silva tem percorrido o país expondo as suas propostas num curtíssimo tempo de televisão. Porém, naquelas eleições, o brasileiro nem ao menos lhe deu a chance de disputar o segundo turno e ainda houve evangélicos que a difamaram injustamente. Já dessa vez, ela se encontra melhor colocada nas pesquisas, mas precisará muito do nosso apoio para chegar lá.

Não sou contra que os crentes verdadeiros (aqueles que de fato seguem a Cristo) coloquem seus nomes à disposição para disputarem cargos eletivos. Penso que, se for da vontade de Deus, a eleição de uma pessoa íntegra pode até cumprir um propósito bem significativo, mesmo que seja apenas durante um período na história. Todavia, o que não se pode fazer é sermos omissos a ponto de permitirmos a ascensão do "espinheiro" ao poder. Ainda mais se vivemos dentro de um regime democrático em que temos direito de votar e dar nossas opiniões.

Desejo que a população brasileira fique mais atenta contra a demagogia dos que hoje se encontram no poder e que sejamos capazes de expulsar com o voto todo político espinheiro.
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