sábado, 26 de dezembro de 2015

Uma História de Amor Gospel No Rock in Rio - Aventuras do Pecador Confesso


Isto normalmente não acontece todo dia. Eu me descrevo como um garoto comum, bonito, alto e magro. As pessoas tinham mania de elogiar a minha fisionomia, mas eram pessoas que eu não levava tão a sério. Foi quando a conheci. Havia algo em mim que ela gostava. E eu estava louco em convidá-la para sair. Porem não podia parar a minha pesquisa sobre o “Rock”, afinal a banda Êxodos iria cantar no Rock in Rio. Então continuamos na fila...

Eu estava tão envolvido com a pesquisa que já tinha descoberto que o termo “Rock” foi usado pela primeira vez por cantores gospel na América do Sul em meados de 1940 e 1950 para significar algo semelhante ao êxtase espiritual. E como não fui ao primeiro Rock in Rio em 1985 por ser ainda uma criança. Fui decidido há ir este ano, por isso peguei meu carro e aqui estou na Cidade do Rock que ficava próximo ao Rio Centro, em Jacarepaguá. Só que não sabia que seria premiado na fila por uma bela moça que roubou a minha atenção.

Com os ingressos na mão e nervoso por está ao lado dela, tomei a iniciativa de oferecer uma carona. Ela aceitou, joguei a bagunça do carro para o banco de traz, ela sentou, relaxou e a conversa fluiu. Comentei sobre minha família, que são cristãos tradicionais fundamentalistas, em que eles não viam com bons olhos o “Rock and Roll”. Ela dizia que embora seus pais soubessem que a origem do rock fosse influenciada pelas músicas country, blues e principalmente gospel, eles também não queriam expor ela a este tipo de músicas por ter sinônimo de rebeldia, ritmos hipnóticos, guitarras apaixonantes e excesso de liberdade.

Foi tão fácil com ela. Eu poderia ser eu mesmo sem se preocupar em ser o mais certinho do mundo. Aproveitei para colocar uma música por nome “ That's All Right, Mama ” falei a história desta música, em que foi a primeira música de Rock and Roll gravado que se tem conhecimento. Não quis tirar os créditos da gravadora, então dize que a gravação foi feita pela Sun Records, e o cantor era nada mais nada menos que Elvis Presley lançando o seu primeiro disco gospel um compacto simples em 1954.

Ao contar esta pequena história, percebi pelos seus olhos a sede de querer saber mais e mais. Era incrível, parecia que ela amava cada pedacinho de mim. Eu, totalmente embriagado por tudo que via nela deixei de lado minhas pesquisas estudantis e comecei a estudá-la sem ela perceber.

Eu a olhava face a face, seu rosto parecia familiar, seu lábio a denunciava. Os olhos compostos por luzes e sombras eram complementos da sua maravilhosa estrutura. A nuca e o cantinho onde o nariz se transforma em bochecha era a porta dos futuros beijos.

No instante me peguei pensando alto, sussurrava. - Que olhos lindos e travessos - a compreensão de que algo aconteceria era fato notório. Eu me peguei com os meus dedos tocando as palmas de suas mãos fazendo uma interligação entre ela e eu como peças de um quebra-cabeça.

Um abraço espontâneo surgiu em meio a caricias, o envolvimento corporal transbordava de calor, seus braços nos meus, seu corpo no meu. Em seguida, foram, troca de olhares, falta de ar, suor caindo no chão.

E por fim, ela encolheu os ombros, levantou uma das sobrancelhas, percebi seu nariz marcado pelo estofado dos bancos, ela deu uma risada e disse:

- Obrigado por hoje ser meu, por não ser um idiota. Por deixa-me entrar, por querer-me tanto como eu te quero. Por precisar de mim o quanto eu preciso de você. Obrigado por você, e por tudo, porque vamos juntos e juntos estaremos lá. Foi ótimo te conhecer, e nós se encontraremos lá.

Quando ela me disse que tinha que ir, eu não sabia o que fazer. Eu me perdi de paixão por ela, e só ficamos por um curto espaço de tempo juntos. Mas estava decidido, era como se conhece ela há muito tempo. Então eu falei:

- Quero passar o resto da minha vida com você... 

Ela olhou para traz, jogou um sorriso no ar, parecendo que concordava em tudo que eu falava e se despediu. Em seguida, liguei o carro, troquei o CD, e tomei rumo a minha casa ao som da banda Êxodos da década de 70. 


A ansiedade que eu sentia de ver-la era tanta, que esqueci completamente do real objetivo "por quê eu estava lá?" fiquei louco para encontrá-la no dia seguinte lá no palco mundo... Nem eu imaginaria que encontraria um amor na fila do Rock in Rio...

Uma História de Ficção escrito por Hubner Braz

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Um herói que não pode ser esquecido




Nesta última terça-feira (03/11), a OAB prestou uma homenagem ao líder abolicionista Luiz Gonzaga Pinto da Gama, o qual viveu no século XIX, entre os anos de 1830 a 1882. Durante a solenidade ocorrida na Universidade Mackenzie, em São Paulo, o presidente do Conselho Federal da Ordem dos advogados do Brasil, Dr. Marcus Vinicius Furtado Coêlho, reconheceu a atuação de Luiz Gama como advogado conferindo-lhe título póstumo como profissional da advocacia, conforme discursou:

"Luiz Gama é um herói da nação brasileira. O reconhecimento pela OAB de sua condição de advogado é a declaração de um fato histórico.  Foi Luiz Gama um autêntico advogado, defensor de milhares de escravos nos tribunais.  Sua história há de ser reverenciada na galeria dos mártires da pátria"

Importante comentar que Luiz Gama não teve a oportunidade de cursar uma faculdade como os demais estudantes de sua época. Vivendo numa sociedade vergonhosamente racista e aristocrática, ele foi impedido de frequentar as aulas no Largo de São Francisco por ser negro, mas aprendeu sobre Direito através dos livros que lia na biblioteca e para isto recebeu o incentivo de juristas abolicionistas que o apoiavam.

Gama passou a infância em uma casa na Bahia e, aos 10 anos, foi vendido como escravo pelo próprio pai. Com 17 anos, conseguiu a liberdade de volta, o que não bastou. Usando os seus conhecimentos jurídicos, atuou como rábula para conseguir alforriar, pela via judicial, centenas de escravos. Tamanha foi a importância de seu trabalho na causa emancipacionista dos negros, em plena vigência das leis escravocratas, que ele recebeu o epíteto de "Apóstolo Negro da Abolição".

Segundo o presidente da OAB nacional, "a história do Brasil há de ser sempre lembrada para evitar a repetição de erros do passado". E, sem dúvida, precisamos fazer esse resgate a fim de encorajarmos a nossa sociedade a combater o preconceito e a discriminação racial, tornando o Brasil um país mais igualitário, onde haja oportunidades reais para todos.

Esta seria a primeira vez na história em que a OAB concede o título de advogado a uma pessoa que não se formou em Direito e que já morreu. Só que, no caso de Luiz Gama, nada mais do que justa a homenagem póstuma e que chega em boa hora, isto é, neste mês de novembro que é dedicado não só à Proclamação da República como também à Consciência Negra.

Valeu, Gama! As gerações de hoje reconhecem amplamente a sua luta por um país melhor.

Uma excelente semana a todos!


OBS: A imagem acima trata-se de uma foto sobre Luiz Gama por volta de 1860, a qual foi extraída do acervo virtual da Wikipédia conforme consta em https://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_Gama#/media/File:Luiz_Gama_perfil.png

domingo, 27 de setembro de 2015

Lembrando das palavras que um dia escrevi...

Durante a década de 90, enquanto exercia Fernando Henrique Cardoso o seu primeiro mandato como Presidente, a opinião pública ficou meio que surpresa quando lhe atribuíram a frase "esqueçam tudo eu escrevi", supostamente justificando a diferença entre o discurso que ele fizera no passado (como um crítico sociólogo autor de livros) e os atos de seu governo. Só que não demorou muito para que a suposta afirmação fosse colocada em dúvida como se lê neste trecho da entrevista concedida ao jornal O GLOBO do dia 24/08/1997:

"Esta frase que eu teria dito: 'Esqueçam tudo que eu escrevi', eu nunca disse a ninguém. Já perguntei um milhão de vezes: a quem eu disse, onde foi que eu disse, quando? Essa é uma frase montada para me embaraçar. Acontece exatamente o contrário: o que eu escrevi dentro das condições da época, tem bastante validade. Houve uma evolução, em alguns pontos, mas a maneira básica de encarar o mundo continua a mesma."

Verdade seja dita que a imagem de FHC como um sociólogo de esquerda perseguido pelo governo militar foi substituída pela figura presidencial. O público já não se baseou mais pela referência que uma parcela culta da sociedade tinha a seu respeito antes de ele ser nomeado ministro do Itamar Franco e se tornar o "pai" do Plano Real (1994). E acho que os jovens eleitores mais alienados, os quais estavam na minha faixa etária de seus 20 anos, simplesmente ignoravam o tempo em que S. Exa. ficou exilado na França...

Mas sem entrar no mérito dessa questão do século passado, será possível esquecermos as coisas que algum dia pensamos depois de tê-las confirmado por meio de palavras pronunciadas ou escritas?

Até que ponto as ideias construídas no passado não estão contribuindo para o nosso presente?

Sempre que releio um artigo escrito por mim anos atrás, encontro opiniões e conclusões que hoje já não tenho mais. Ou que já não encaro da mesma maneira. Noto apenas que já não sou mais o mesmo a nadar no rio de outrora, pois passo a andar por aí como uma "metamorfose ambulante" e me recusando a ficar petrificado dentro de um conceito fechado.

Tal flexibilidade tenho não somente em relação à Política, mas também ao conhecimento da História, do Direito e da Teologia. Pois é o que sinto quanto a um texto meu publicado no portal jurídico Jus Navegandi , cujo título era "Aspectos interessantes sobre o julgamento do apóstolo Paulo". Na época recebi muitos elogios e diversas pessoas enviaram e-mail através do site parabenizando-me pelo artigo. E houve até quem desejasse confirmar qual era a minha orientação religiosa dentro do cristianismo (se católico ou evangélico).

Fazendo cinco anos depois uma releitura, mantenho uma boa parte da análise feita por mim, mas confesso que, se fosse escrever novamente o artigo na atualidade, trataria de mudar algumas coisinhas principalmente quanto à historicidade dos textos sagrados, conforme a versão estabelecida pela ortodoxia cristã. Por exemplo, hoje duvido da atribuição de autoria feita pela Igreja Católica (e seguida pela maioria dos teólogos protestantes) quanto aos evangelhos e ao livro de Atos dos Apóstolos, os quais passei a considerar como obras anônimas. Outra mudança de concepção diz respeito à datação de tais obras que, no meu ponto de vista, não foram elaboradas antes das supostas perseguições de Nero, mas, sim, no século II.

De qualquer modo, por se tratarem de detalhes de pequena importância, não desisto de divulgar o artigo reproduzindo-o integralmente. Por isso, compartilho com vocês o mesmo conteúdo do texto publicado em janeiro de 2010, modificando apenas uns erros de português encontrados, mais precisamente quanto à colocação dos parágrafos:

Aspectos interessantes sobre o julgamento do apóstolo Paulo





O livro de Atos dos Apóstolos, o quinto do Novo Testamento da Bíblia, considerado também uma continuação do Evangelho segundo Lucas, contém preciosas informações não apenas de interesse teológico, despertando a atenção de historiadores e até mesmo de estudiosos do Direito. A empolgante narrativa de 28 capítulos começa na região de Jerusalém, com uma breve conversa entre Jesus e os apóstolos, alguns instantes antes de sua ascensão aos céus, e termina na cidade de Roma, com o apóstolo Paulo cumprindo a sua prisão domiciliar numa casa por ele alugada enquanto aguardava em custódia o julgamento de seu caso pelo imperador romano.

O apóstolo Paulo, sem dúvida, deu uma grande contribuição à expansão da fé cristã no século I da era comum. Depois de ter sido um implacável perseguidor da Igreja, Paulo converteu-se ao cristianismo e começou a pregar o Evangelho por diversas regiões da parte oriental do Mar Mediterrâneo, empreendendo três viagens missionárias que incluíram territórios atuais de Síria, Chipre, Turquia e Grécia.

Contudo, o ex-perseguidor da Igreja tornou-se perseguido. Em muitas das cidades nas quais Paulo exerceu o seu ministério apostólico, ele veio a sofrer uma forte oposição tanto de judeus quanto de pagãos, vindo a ser injustamente preso e violentado sem que houvesse qualquer condenação criminal contra ele. Na cidade macedônica de Filipos, Paulo chegou a demonstrar um razoável conhecimento a respeito dos direitos que tinha como cidadão romano quando as autoridades locais mandaram libertá-lo de sua prisão ilegal.

É importante lembrar que, nos tempos de Paulo, nem todos eram iguais perante as leis de Roma. Uns eram escravos e tratados como mercadorias. Outros eram meros estrangeiros para os romanos, embora vivessem dentro da circunscrição do Império pagando os seus pesados impostos. E existiam ainda aqueles que, por motivo de nascimento, ou de aquisição mediante algum pagamento ao governo, tornavam-se cidadãos romanos e que, portanto, passavam a ter alguns direitos naquela sociedade. Pois Roma era a cidade que governava o mundo no século I e, deste modo, quem tivesse a cidadania romana teria direitos protegidos pelas leis, entre os quais o de receber um julgamento justo, caso fosse feita alguma acusação.

Sendo assim, mesmo naquela época, uma autoridade não poderia jamais prender uma pessoa que fosse cidadão romano sem que houvesse um justo motivo. E muito menos castigar com açoites, dando um tratamento desumano, conforme tinha ocorrido com Paulo e Silas na cidade de Filipos. Logo, Paulo teve que ser libertado e ainda recebeu desculpas das autoridades locais pelo ocorrido.

Contudo, após concluir a sua terceira viagem missionária e retornar mais uma vez para Jerusalém, Paulo veio a enfrentar um processo criminal, o que desperta até hoje o interesse de muitos pesquisadores. Nesta ocasião, o ministério apostólico de Paulo já tinha muitos colaboradores. Lucas diz que, desta vez, quando o apóstolo retornou a Jerusalém, acompanharam-no vários discípulos oriundos de lugares anteriormente evangelizados na primeira e na segunda missão evangelística.

Ao chegar na cidade, Paulo é orientado por Tiago a submeter-se aos costumes dos judeus para evitar conflitos, pois alguns de seus compatriotas tinham espalhado boatos de que o apóstolo estaria negando a Moisés e ensinando os judeus a não circuncidarem mais os seus filhos. Entretanto, a atitude praticada por Paulo, no sentido de externar aos judeus a observância das tradições de seu povo, não foi capaz de evitar a sua prisão. E, justamente quando ele se encontrava no templo judaico, o apóstolo veio a ser repentinamente acusado por alguns de seus compatriotas por ter "profanado" aquele local introduzindo gentios ali, pelo que passaram a espancá-lo e toda cidade ficou tumultuada, de modo que o comandante as forças romanas em Jerusalém precisou intervir para fazer cessar a confusão. Paulo, então, escapou do linchamento, mas ficou detido.

Pouco depois de sua prisão, Cláudio Lísias, o comandante da fortaleza de Jerusalém, tomou a providência de enviar Paulo para o governador da província da Judeia, na cidade de Cesareia, a fim de zelar pela segurança do apóstolo por ser ele um cidadão romano. Lucas, em sua narrativa, chega a transcrever o teor da correspondência que comunicava a sua transferência:

"Cláudio Lísias ao excelentíssimo governador Félix, saúde. Este homem foi preso pelos judeus e estava prestes a ser morto por eles, quando eu, sobrevindo com a guarda, o livrei, por saber que ele era romano. Querendo certificar-me do motivo por que o acusavam, fi-lo descer ao Sinédrio deles; verifiquei ser ele acusado de coisas referentes à lei que os rege, nada, porém, que justificasse morte ou mesmo prisão. Sendo eu informado de que ia haver uma cilada contra o homem, tratei de enviá-lo a ti, sem demora, intimando também os acusadores a irem dizer, na tua presença, o que há contra ele." (ver Atos 23:26-30)

Nos primeiros momentos, a sua prisão havia ocorrido por causa de um tumulto na cidade de Jerusalém. Porém, ao chegar em Cesareia, Paulo passou a ser efetivamente processado pelo sumo sacerdote judeu que pretendia matá-lo como havia sido feito anteriormente com Jesus e com Estevão. Nesta época, a sede do governo romano na região da Judeia não estava mais situado em Jerusalém e sim em Cesareia. Contudo, o Sinédrio ainda se reunia em Jerusalém onde também havia um comando das forças romanas e, ao que parece, seria uma unidade subordinada ao governador daquela província romana.

Para o comandante das forças romanas em Jerusalém seria mais tranquilo livrar-se de Paulo, mandando-o para junto do governador numa outra cidade, do que suportar toda aquela pressão dos judeus querendo assassinar um prisioneiro que portava a cobiçada cidadania romana. Mais uma vez, tal como no incidente de Filipos, Paulo havia prevalecido de sua cidadania romana, a qual iria lhe assegurar o direito a um julgamento justo, conforme as leis da época. Pois, se Paulo fosse apenas um judeu, provavelmente teria sofrido injustos açoites e teria sido entregue nas mãos dos seus compatriotas para ser julgado e condenado pelo Sinédrio por se tratar de uma questão meramente religiosa. E, caso viesse a ser linchado publicamente como foi Estevão, as autoridades romanas nem teriam com o que se preocupar, se não fosse ele um cidadão romano.

Ao ser conduzido preventivamente preso para a cidade de Cesareia, Paulo ficou distante do foco de tensão, de modo que o seu julgamento ali receberia menos pressões por parte dos judeus do que se fosse realizada uma audiência em Jerusalém.

Interessante perceber que todos esses acontecimentos no final colaboraram que Paulo fosse mais tarde dar prosseguimento ao seu apostolado na cidade de Roma, conforme se verá. Porém, Paulo precisou permanecer por pelo menos dois anos preso em custódia na cidade de Cesareia sob os cuidados do governador da Judeia devido à queixa apresentada pelos judeus, cinco dias depois de ter sido transferido de Jerusalém. Isto porque uma vez sendo formalizada a acusação, foi instaurado um verdadeiro processo criminal dentro dos moldes a época, segundo as leis romanas.

Embora na época não existisse ainda a separação entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, tal como nos dias de hoje, já era proibido uma autoridade condenar um cidadão romano a cumprir qualquer tipo de pena arbitrariamente. Pois, para que alguém fosse morto ou condenado a trabalhos forçados, seria preciso passar por um processo criminal com direito à defesa e à produção de provas, como que se encontra registrado por Lucas em Atos:

"A eles respondi que não é costume dos romanos condenar quem quer que seja, sem que o acusado tenha presentes os seus acusadores e possa defender-se da acusação" (Atos 25:16).

Como ocorre nos dias de hoje numa CPI do Congresso Nacional, o então governador da Judeia, Marco Antônio Félix, procurou tirar vantagens políticas e pessoais a respeito do caso Paulo. Lucas conta que Félix ficou protelando o andamento do processo de Paulo e, com frequência, mandava chamá-lo alimentando a vã expectativa de arrumar alguma propina (Atos 24:26).

Agindo com ousadia, Paulo certa vez chegou a pregar sobre Jesus para Félix e sua jovem esposa Drusila, filha do rei Herodes Agripa. Porém, o governador apenas sentiu-se amedrontado e se recusou a abraçar a fé, tendo mantido contatos com Paulo pelo período de dois anos, deixando-o encarcerado em custódia a fim de agradar os judeus e, talvez, aumentar sua influência política sobre a região.

Segundo a História, Félix tinha um casamento considerado adúltero com Drusila, sob o ponto de vista judaico-cristão, pois ela havia sido casada com Azis de Emesa e, portanto, jamais poderia contrair novas núpcias enquanto vivesse o seu marido. Porém, como ela era filha de Herodes Agripa, a afinidade com aquela influente família da Palestina poderia dar mais poderes a Félix na região.

Ao fim de dois anos depois, Félix foi substituído por Pórcio Festo em seu cargo. O novo governador, na certa desejando conquistar o apoio político dos judeus na região, planejou então realizar logo o julgamento de Paulo em Jerusalém e para isto convocou uma audiência em Cesareia para decidir sobre a questão.

Sabiamente, Paulo utilizou-se de um recurso previsto nas leis romanas – o apelo para César. Isto porque, naquela época, as leis garantiam a um cidadão romano o direito de requerer uma audiência com o imperador, caso entendesse estar sofrendo injustiças no seu processo.

Ao fazer uso desse instrumento jurídico (o apelo para César), Paulo estaria ganhando a sua passagem de ida para Roma, o que, em breve, iria lhe acontecer. Porém, antes disto, Paulo ainda iria prestou um depoimento perante o rei Agripa e à sua irmã Berenice, os quais vieram visitar Festo em Cesareia naqueles dias.

Assim, aproveitando a presença do rei Agripa na cidade, Festo resolve lhe expor o caso de Paulo pedindo-lhe uma orientação, pelo que o governador convocou uma nova audiência a fim de ser colhido mais um depoimento pessoal do apóstolo.

Embora a jurisdição de Festo tivesse sido esvaziada com o apelo de Paulo, o governador ainda pretendia obter o posicionamento do rei Agripa a fim de poder justificar qual seria o motivo das acusações que pesavam contra o apóstolo e que teriam dado ensejo à sua injusta prisão e à manutenção daquela absurda custódia. Festo acreditava que Agripa, por ser judeu, poderia ajudá-lo na compreensão daquele difícil caso para o qual ele não conseguia encontrar uma justificativa já que Paulo não cometera nenhum crime que contrariasse as leis romanas e tão pouco teria profanado a religião judaica. 

Pela lógica do sistema romano, Paulo jamais deveria ter ficado preso! Desde o momento em que foi agredido, em Jerusalém, cabia às autoridades romanas tê-lo protegido dos judeus que tentavam matá-lo, sem restringir-lhe a liberdade. Contudo, essas autoridades desejavam satisfazer às multidões conquistando o apoio político dos líderes judeus e, como não encontraram permissão das próprias leis para permitirem o linchamento de um cidadão romano em praça pública, ficaram todos embaraçados para decidir.

Ora, se dois anos antes Félix recebeu Paulo em Cesareia mantendo-o em custódia por todo este período, longe de Jerusalém, logo precisaria haver um justo motivo que justificasse esta providência excepcional. E, uma vez que outra autoridade assumiu o caso, cabia ao novo governador da Judeia (Festo) julgar Paulo, uma vez que ele havia resolvido levar o caso para Jerusalém a fim de dar andamento ao processo e lá proferir a sentença. Só que, com o apelo de Paulo ao imperador, Festo precisava escrever algo a respeito de seu prisioneiro. E, como não tinha o que dizer para justificar aquela prisão, aproveitou a presença de Agripa em Cesareia para lhe apresentar o caso confiando na possibilidade do rei identificar alguma conduta desabonadora capaz de justificar a restrição de liberdade praticada.

Ousadamente, Paulo aproveita aquela nova audiência perante Festo para pregar o Evangelho perante o próprio governador, Agripa, sua irmã Berenice e várias outras pessoas presentes, demonstrando pouca preocupação com o que poderia ser decidido a seu respeito.

Interessante que Paulo poderia muito bem ter reclamado das injustiças cometidas em seu processo, mas preferiu pregar sobre Jesus para esse público de autoridades corruptas e injustas, fazendo com que toda aquela situação se tornasse mais uma oportunidade para falar a respeito do Evangelho. Em Atos 26:1-23, Lucas reproduz o discurso de Paulo até ser interrompido pelo governador no versículo 24, sendo que a defesa de Paulo perante o rei Agripa representa um emocionante testemunho sobre a sua vida. Paulo não escondeu o seu passado perverso como perseguidor da Igreja e de ex-seguidor da seita dos fariseus. Mencionou sua conversão quando ia prender cristãos na cidade de Damasco, falou sobre a missão evangelística que recebeu e quanto ao trabalho eclesiástico que desempenhou durante seus últimos anos.

Além de Paulo ter informado ao rei sobre o seu passado e a sua vocação apostólica, ele também contextualizou o seu julgamento dentro de uma visão religiosa, "por causa da esperança da promessa que por Deus foi feita" (At 26:6-7), explicando que o motivo pelo qual chegou a ser preso foi o fato de anunciar o arrependimento e a conversão (Atos 26:20-21).

Curioso que, mesmo interrompido pelo governador (Atos 26:24), Paulo conseguiu completar a sua mensagem abordando os principais aspectos da evangelização cristã: o sacrifício de Jesus, a necessidade de arrependimento e de conversão a Deus, bem como a ressurreição dos mortos. Ao prestar um depoimento sobre a sua vida, Paulo foi capaz de reunir na sua mensagem todos os pontos essenciais de uma pregação, agindo com ousadia e liberdade diante de reis e das autoridades da época, ainda que estivesse aparentemente algemado.

Segundo a narrativa de Lucas em Atos, verifica-se que o governador Festo resolveu interromper a pregação de Paulo chamando-o de louco. E, quanto ao rei Agripa, mesmo conhecendo as Escrituras e o que diziam os profetas a respeito de Cristo, preferiu afirmar que "por pouco" teria se tornado um cristão.

De acordo com a História, havia rumores na época de que Agripa vivia uma relação incestuosa com sua irmã Berenice, a qual foi mais tarde amante do imperador Tito. O seu apego ao poder político e a um estilo de vida fora dos padrões judaico-cristãos podem ter se tornado um impedimento para que se convertesse ao cristianismo. Contudo, ao se retirarem do local da audiência e se reunindo separadamente, Festo e Agripa concordaram entre si que Paulo nada havia praticado que merecesse a morte ou a prisão (Atos 26:31).

Dando uma solução para o caso de Paulo, Agripa resolve proferir o seu parecer pela absolvição do apóstolo, justificando a permanência da sua custódia apenas pelo fato do recurso interposto à César (Atos 26:32), como se o uso deste instrumento processual de defesa tivesse sido desnecessário.

Assim, reconhecendo a inocência de Paulo, as autoridades romanas da região da Judeia estavam se justificando formalmente diante do imperador, no sentido de que Paulo era realmente inocente e só estava sendo enviado para Roma porque recorreu para César ao invés de ter aceitado o julgamento ali na Palestina.

Deste modo, Paulo seguiu para Roma com um parecer em favor de sua inocência, o que só contribuiu para a sua absolvição, o que, de fato, veio a ocorrer, segundo sabemos pela História da Igreja, visto que a decisão do imperador não consta registrada na Bíblia.

Importante esclarecer que a decapitação de Paulo, ocorrida anos depois, em nada tinha a ver com os acontecimentos relacionados à sua prisão descrita em Atos dos Apóstolos. Pois, ao deixar Cesareia em um navio, Paulo ainda permaneceu em custódia e continuou neste estado ainda por mais dois anos em Roma (Atos 28:30).

Outra observação relevante é que até então não tinha se levantado nenhuma perseguição declarada do Império Romano contra a Igreja. Os fatos descritos no Livro de Atos dos Apóstolos diziam respeito à intolerância de integrantes do judaísmo e a incidentes ocorridos em algumas cidades com os gentios como em Filipos (Atos 16:16-24) e também em Éfeso (Atos 19:23-41).

Para a época em que foi escrito, Atos dos Apóstolos, ao mesmo tempo, alcançou o objetivo de manter registrada a história inicial da Igreja e, principalmente, encorajar os demais cristãos que tão logo seriam massacrados por Nero, o qual, dentro de um contexto diferente das passagens narradas por Lucas, mataria Paulo e também a outros discípulos contemporâneos a Jesus.

Não demorou muito, Jerusalém veio a ser destruída pelas tropas de Tito durante o governo de seu pai, o general Verpasiano, sucessor de Nero. O templo judaico, tal como fora profetizado por Jesus no Evangelho de Mateus, foi verdadeiramente devastado pelas tropas romanas, restando apenas pedras e ruínas. 

Por tais motivos, pode-se dizer que a maioria dos livros do Novo Testamento, entre os quais Atos e os três primeiros Evangelhos, foram escritos justamente antes da grande perseguição que se levantou por Nero e da destruição de Jerusalém. Não só para que houvesse memória histórica dos acontecimentos sobre a formação da Igreja como também para encorajamento dos cristãos diante das perseguições futuras. E, sem dúvida, Lucas encontrou a melhor maneira para encerrar o seu segundo livro, mostrando Paulo cumprindo dando continuidade ao seu ministério apostólico na cidade de Roma (Atos 28:30-31).


OBS: A ilustração acima refere-se a um quadro pintado por Rembrandt (1606 - 1669) retratando o apóstolo Paulo na prisão. Extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia em https://en.wikipedia.org/wiki/Paul_the_Apostle#/media/File:Paul_in_prison_by_Rembrandt.jpg 

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

É preciso mudar essa desvalorização cívica!




Diferentemente dos Estados Unidos, onde encontramos bandeiras hasteadas por todo o país, quer sejam nas casas, nos carros, nas escolas, nos hotéis, nos postos de combustíveis, nos restaurantes e até nos bares, eis que nós brasileiros só costumamos demonstrar algum interesse pela celebração cívica em época de Copa do Mundo ou nas comemorações da Independência do país, no dia 07 de setembro. Na maior parte do ano, dificilmente a pátria é lembrada.

Muito se fala, no Brasil, da falta de civismo entre as crianças e os jovens, porém há vários anos a educação do país não está mais voltada para esse fim. Não faz muito tempo, havia na grade curricular das escolas a disciplina Educação Moral e Cívica em que eram trabalhados os hinos brasileiros, as armas nacionais, noções sobre os órgãos mais importantes dos governos federal e estadual, dentre outros assuntos ligados ao civismo. Com isso, tínhamos uma população jovem mais ligada às questões políticas de interesse nacional e dando um melhor valor à pátria.

No ano de 1936, durante o governo de Getúlio Vargas, foi estabelecido costume de executar o Hino Nacional em escolas e que tinha como objetivo maior fazer com que os estudantes aprendessem a cantar o hino, além de servir como demonstração de amor ao Brasil. E assim foi por sucessivas décadas. Só que, nos anos 90, começou a ocorrer um flagrante desinteresse dentro da educação brasileira, um mal que veio junto com a alienação juvenil trazendo consigo a desorganização social. 

Na tentativa de mudar essa desvalorização cívica procurando motivar a população a ter mais paixão pelo país, as escolas de ensino fundamental passaram, a partir de 22 de setembro de 2009, a ser obrigadas a realizar o momento cívico, com a execução do hino nacional, por, no mínimo, uma vez na semana. É o que consta no parágrafo único do artigo 39 da Lei Federal nº 5.700/1971, acrescentado pela Lei nº 12.031/2009. Porém, infelizmente, a legislação ainda não tem sido satisfatoriamente cumprida em todas as unidades escolares, quer seja na rede pública ou privada. 

Embora eu considere importante haver iniciativas legislativas nesse sentido (nada impede que os estados e os municípios criem normas até mais abrangentes sobre o momento cívico), o fato é que nenhuma lei "pega" se não existir um ambiente social favorável à sua aplicação. E aí a pergunta que não quer calar seria o que falta hoje ao Brasil para o povo voltar admirar a sua pátria?!

Verdade é que a todo momento escutamos notícias sobre os escândalos de corrupção no Poder Público, o que faz as nossas instituições caírem em total descrédito. Não há mais confiança nos governantes, quer se tratem de políticos de "direita" ou de "esquerda", de modo que, como escreveu o salmista da Bíblia, "todos se desviaram, igualmente se corromperam" (Sl 53:3a). E, se esses malfeitores devoram o povo "como quem come pão" (verso 4), qualquer sentimento de celebração nacional deixa de existir. 

Pensando bem, quem faz o país é o próprio povo. Certa vez, John Fitzgerald Kenned (1917 - 1963), um dos mais lembrados presidentes dos Estados Unidos e colocado no mesmo nível como Abraham Lincoln, George Washington e Franklin D. Roosevelt, teria dito a seguinte frase: "Não pergunte o que seu país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer por seu país". Então, ao considerarmos que nenhum Estado surge por acaso, mas a sua criação geralmente é fruto de um movimento social organizado, podemos compreender o nosso papel de tentar mudar a realidade desfavorável na qual nos encontramos.

Mais do que nunca, o Hino Nacional deve servir de símbolo para as nossas conquistas sociais na luta contra a corrupção. Ainda que faltem hoje motivos para comemorações nacionais, importa fazermos do civismo um instrumento da construção do Brasil que queremos, significando o novo no velho para que as tradições jamais percam o sentido. Pois só encarando de frente esse momento ruim que o país atravessa, trabalhando incansavelmente pela moralização da política, é que amanhã poderemos ter um ambiente mais feliz em que o canto do Hino Nacional ganhará uma sintonia cada vez maior com um futuro de bem estar da população brasileira.

Um ótimo fim de semana a todos!


OBS: Imagem acima extraída de http://www.itabira.mg.gov.br/portal/?p=11683

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

OS GRANDES EVENTOS NO RIO SÃO ARMADILHAS PARA AS ELEIÇÕES SEGUINTES!




Por César Maia (*)

1. Há uma ilusão por parte dos políticos de que grandes eventos internacionais –exclusivos- no Rio, que mobilizam a imprensa e parcela da opinião pública, geram uma enorme vantagem eleitoral na eleição seguinte. Essa é uma ilusão. Não que quem governa obrigatoriamente tenha que perder as eleições, mas a realização desses grandes eventos é um complicador e não um facilitador para a vitória eleitoral.
       
2. São 2 os grandes vetores explicativos destas dificuldades. O primeiro é que a máquina pública desvia atenção e recursos para esse tipo de evento. A qualidade –e quantidade- dos serviços públicos de rotina decaem. A reorientação dos recursos para o evento gera centralização das aplicações, reduzindo obras e intervenções em vários bairros, que têm a sensação de abandono.
       
3. O noticiário termina exponenciando os problemas que ocorrem na conservação da cidade, nas escolas, na área de saúde, na falta de investimentos capilares, etc. A concentração de recursos nesses eventos amplia o descontentamento dos servidores que, no caso do Rio, alcançam quase 200 mil, incluindo aposentados e pensionistas, além de suas famílias.
       
4. O segundo é que apenas uma parte da população está mobilizada para esses eventos. A maior parte mantém seu cotidiano. Esse cotidiano é afetado pelas restrições ao tráfego –engarrafamento, proibição de acesso em certos horários-, pelas restrições à mobilidade, pelo deslocamento de segurança para as áreas do evento, pelas férias determinadas para esse período, afetando a rotina dos pais, por exemplo.... Da mesma forma, os preços sobem no comércio, nos restaurantes e serviços diversos.
       
5. A resultante é dupla. A primeira é dos que não estão mobilizados, têm pouco interesse..., que se sentem prejudicados.  A segunda é dos que estão mobilizados, mas apontam os problemas todos que afetaram os seus cotidianos e responsabilizam os eventos. O próprio acompanhamento do noticiário, prévio e posterior aos eventos, focaliza o excesso de gastos, os desperdícios e os desvios –sempre destacados. E depois afirmam que os legados ficaram aquém do que se esperava e que pelo dinheiro aplicado não valeu a pena o evento.
       
6. No Rio de Janeiro, desde 1992, tivemos dois grandes eventos desse tipo. A ECO-92 e o PAN-2007.  A Eco-92 ocorreu no próprio ano eleitoral. Criou uma enorme expectativa de que o Rio -como capital do mundo, recebendo quase 200 chefes de Estado e de Governo- teria como desdobramento um passeio eleitoral. Essa perspectiva afetou até a disputa interna partidária, de quem seria o candidato para essa eleição tão fácil. A candidata do prefeito e do governador, favorita, não foi ao segundo turno.
       
7. No PAN-2007 da mesma maneira. A prefeitura concentrou recursos no evento afetando a conservação da cidade e a capilaridade das obras e intervenções. A associação do evento a esses fatos cobrou responsabilidade política ao prefeito. Se não bastasse, no início de 2008, quando a prefeitura normalizava e retomava a sua ação, veio uma epidemia de dengue que o boca a boca das pessoas relacionou ao evento e ao prefeito. A candidata do prefeito ficou longe do segundo lugar. O fato dos JJOO-2016 serem o grande legado do PAN-2007 só foi destacado nos documentos.
       
8. Os Jogos Olímpicos de 2016 ocorrerão –como em 1992- no mesmo ano da eleição. Os problemas que afetam o dia a dia da população serão multiplicados pelo porte e duração do evento. A concentração de recursos já afeta os serviços públicos e até a data-base de reajuste salarial foi atrasada em 2 meses. Os benefícios para a cidade não terão tempo de decantar. Os problemas sim. Até uma lei limitando a mobilidade das pessoas e horários especiais, férias, etc., durante o evento foi aprovada. Outra vez os desafios para formar opinião pública serão muito maiores do que se imagina.
       
9. Curiosamente, nos 3 casos, os prefeitos não puderam ser candidatos e tiveram que apoiar outros nomes.

                                                    * * *

(*) César Maia é político, economista e ex-prefeito da cidade do Rio de Janeiro.


OBS: Artigo extraído da edução de hoje do informativo Ex-Blog do César Maia, conforme consta em http://emkt.frontcrm.com.br/display.php?M=4458259&C=f55055c006c82ea2f27dbd46f2190801&S=10507&L=514&N=4209

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Como acabaremos com o DNA cultural da corrupção brasileira?




Não gosto quando ouço alguém me dizer que o Brasil é "um país corrupto" devido ao fato de "Portugal ter enviado para cá ladrões, assassinos e outros tipos de criminosos" durante o processo de colonização. Afirmações assim, além de serem flagrantemente preconceituosas (pois significaria termos herdado o caráter pela genética), configuram um tremendo erro em relação à História. Isto porque, embora a terra oficialmente "descoberta" por Pedro Álvares Cabral tenha recebido pessoas degredadas, jamais chegamos a ser, em essência, uma colônia penal, a exemplo do que foi Austrália em relação ao Império Britânico, hoje uma nação desenvolvida e considerada de primeiro mundo.

Entretanto, há que se levar em conta a mentalidade cultural motivadora da ocupação do território brasileiro em seus principais casos até 1808, ano da chegada da família real. De fato, enquanto os Estados Unidos foram uma colônia de povoamento para aliviar as tensões religiosas na Inglaterra, o Brasil caracterizou-se mais por ser um infeliz lugar de exploração econômica. Assim foi desde o início da extração da quase extinta Caesalpinia echinata, passando pela monocultura da cana-de-açúcar, depois pelo ciclo do ouro, até chegar no comecinho do plantio do café, quando D. Pedro I proclamou a Independência em 1822.

Sem dúvidas não podemos negar que, na nossa colonização, quando o estrangeiro aportava aqui, o seu objetivo costumava ser o de enriquecimento rápido com alguma atividade para então retornar à Europa. Mesmo os que adquiriam terras e outros bens no Brasil (da mesma maneira que seus descendentes nascidos aqui) sentiam-se mais portugueses do que brasileiros desejando desfrutar de uma futura vida luxuosa na metrópole de origem. Aliás, eram todos súditos do rei e muitos pretendiam obter favores e promoções junto à Corôa portuguesa, como muito bem explicou a historiadora Denise Moura numa matéria publicada pela BBC Brasil de 04/11/2012:

"Quando Portugal começou a colonização, a coroa não queria abrir mão do Brasil, mas também não estava disposta a viver aqui. Então, delegou a outras pessoas a função de ocupar a terra e de organizar as instituições aqui (...) Só que como convencer um fidalgo português a vir para cá sem lhe oferecer vantagens? A coroa então era permissiva, deixava que trabalhassem aqui sem vigilância. Se não, ninguém viria"

Apesar dos quase dois séculos de emancipação política brasileira, verifica-se até hoje que o pensamento de exploração não se modificou entre os ladrões do dinheiro público. A grande maioria desses corruptos sonha em comprar uma mansão em Miami, abrir conta na Suíça, dirigir carro importado de última linha e ostentar lá fora o que se apropriou ilicitamente aqui. Inclusive, o próprio D.  João VI teria deixado o seu belo exemplo quando depenou o Banco do Brasil, instituição que ele mesmo fundara, e se mandou com os nossos recursos para Portugal.

Ora, essa é a mentalidade cancerosa que precisa mudar no Brasil e aí lamento o fato da Igreja não ter conseguido implantar uma cultura de base bíblica que valorizasse a integridade do indivíduo e o seu amor pela terra. Pois como se percebe da leitura das Escrituras Sagradas, principalmente dos livros do Antigo Testamento, os israelitas do passado foram muito bem ensinados pelos profetas a amarem o massacrado país deles, tantas vezes devastado por sangrentas guerras. São diversas as passagens que, metaforicamente, chamam Israel de "vinha" ou "figueira" e valorizam os símbolos nacionais judaicos como o Monte Sião (lugar onde ficava o Templo de Jerusalém), o sacerdócio religioso, as festas típicas do calendário deles e o primeiro diploma ético-jurídico que tiveram - a Lei de Moisés. O desejo de retorno à Terra Prometida, gerado com as invasões assírias e mais ainda com o exílio babilônico (século VI a.C.), certamente serviu de fonte inspiradora nos 2000 anos da diáspora judaica imposta pelos romanos a ponto de terem construído, já desde o século XIX, uma sólida base ideológica do vitorioso movimento sionista até 14 de maio de 1948, data da criação do Estado de Israel.

Um povo que não possui identidade e nem preserva o respeito em relação à sua terra corre o sério risco de ser assimilado/dominado por outras culturas estrangeiras. Por isso, mais do que nunca precisamos aprender a amar o Brasil e a cultivar valores corretos. Através das escolas, dos ambientes religiosos saudáveis, das instituições sociais sérias e da boa convivência familiar, devemos manter a esperança de formar uma nova geração com princípios éticos mais elevados, o que, por sua vez, poderá se refletir na condução da política, na aplicação da justiça, na elaboração e no cumprimento das leis, bem como na gestão da coisa pública.

Lutemos por um país assim, meus amigos! E viva o Brasil!


OBS: A ilustração usada acima refere-se à cerimônia do beija-mão na corte carioca de D. João VI, em que os súditos faziam os seus pedidos ao rei, um típico costume da monarquia portuguesa que entrou para o nosso folclore.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Falta de interêsse, tempo, descaso ou conhecimeno?



  





Analisando o desempenho dos autores do “(ex)” grande blog C.P.F.G percebi que durante os últimos cinco meses, um só membro carregou o andor ocupando quatro  de seus seis lados. No decorrer destes últimos cinco meses foram pastados vinte e seis temas diversos incluindo política e economia, dentre as quais vinte e duas são de autoria do confrade Rodrigo Pharnadzis da Luz com quarenta e seis comentários. Esta confraria que conta com duzentos e noventa e dois membros e quinze autores não consegue prestigiar seus confrades. Me lembro que outrora, falar mal de Deus rendia melhor atenção mas, como o registro se refere a pensadores fora da gaiola, bem que temas como ciência, atualidades, medicina e até culinária despertasse atenção. Não conheço o nível intelectual do grupo, por isso ainda não descobri qual o assunto que desperta seu interesse além de saber se estarão à esquerda ou direita de Deus. Nesta sala, jamais publicarei assuntos religiosos, mesmo que meus raros temas só amealhem cinco comentários.

domingo, 23 de agosto de 2015

Pombas brancas



Um dos livros mais vendidos no ano de 1969 foi o romance “O Enigma de Andrômeda”, de Michael Crichton, que conta a história de um grupo de cientistas envolvidos no estudo de um micro-organismo que faz o sangue  humano coagular rapidamente, provocando a morte. Embora seja um livro de ficção, O Enigma de Andrômeda é um relato arrepiante da ameaça biológica que determinados organismos podem representar ao sistema imunológico humano, que por nunca ter sido exposto a eles, não tem como combatê-los. No livro os organismos vêm do espaço sideral. Na vida real eles podem ser desenvolvidos na terra mesmo, por meio de atividades biotecnológicas humanas, propositais ou acidentais.
Para ilustrar as possibilidades, alguns anos atrás um grupo de pesquisadores australianos  produziu uma cepa de ectromelia infecciosa, uma variante do vírus da varíola, esperando esterilizar os ratos. De modo geral, a ectromelia infecciosa não representa perigo para os camundongos que participam da experiência, e os cientistas só queriam incrementá-la para esterilizar os roedores. Infelizmente, produziram uma variação do vírus tão letal, que matou até os ratos vacinados contra a moléstia.
Este é um ótimo exemplo de como um erro de cálculo pode criar a cepa de um vírus semelhante à varíola que, se sair dos limites do laboratório, pode causar uma pandemia incontrolável. Principalmente quando pesquisadores, como os australianos, publicam  a fórmula de seus vírus mortíferos em revistas científicas abertas para o mundo ler.]
Um exemplo prático do que deveria acontecer numa escala mais ampla é a epidemia de gripe espanhola após a Primeira Guerra Mundial. Em 1918 uma cepa de gripe surgida nos EUA acabou matando de trinta a cinquenta milhões de pessoas no mundo inteiro no período de um ano. Agora, imagine uma praga ou vírus com o poder de viajar por todo o mundo, como a epidemia de 1918, matando e infectando mais rapidamente. Não há vacina ou antibiótico capaz de combater. Vale salientar que isto poderia acontecer como resultado de processos naturais, não somente via mutação intencional de pesquisadores em laboratórios. Portanto a ameaça de uma pandemia global deixa de ser mero desastre e passa â categoria de verdadeira catástrofe.
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