sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Pedras no Bolso

Elidia Rosa

No filme As Horas, que narra a vida da escritora Virgínia Woolf, a cena que me marcou, entre tantas outras cenas desse filme espetacular, foi a derradeira, e que também inicia o filme.

Nele Virgínia, desesperada diante da impossibilidade cada vez maior de exercer sua criatividade, sob forma da arte de escrever, e de todo caos em torno a partir de seu próprio caos interno, decide colocar algumas pedras nos bolsos e lentamente adentrar as águas do Rio Ouse, na Inglaterra, submergindo para sempre a vida naquele mergulho.

Eu nunca gostei muito de água corrente que passasse da linha da cintura; pensando bem mesmo em piscinas, procurava não me afastar muito das bordas pelo medo de, não sabendo nadar,  afundar num engolfamento imaginário.

Águas profundas, quem as conhece pela cor...quem sabe o que carregamos na turbidez, quando colocamos pouco a pouco mais uma pedra, mais uma pitada de auto-destruição, ou mesmo como Woolf enchendo rapidamente os bolsos com avidez de quem corre para a libertação almejada, pesos aliviando pesos.

Os Outros sabem um pouco, nem mesmo nós sabemos muito, e o que temos à custa de muita análise e introspecção, parecem fragmentos de um grande vitral. Feio às vezes, para quem vê de perto, e de beleza digna de contemplação que não distinguimos ao jogar pedras no mosaico da nossa existência.

Essa semana mais alguém que se aproximou demais do mosaico, do Rio turvo, do impensável na existência, e sucumbiu. Um pastor.
- Mas não era religioso? Tinha fé? Durkheim, Freud, Jung, Beck, Rogers, ajudam a pensar esse composê, mas faltam vidros coloridos e pequenos, aliás, arrogância nossa achar que a vida (e a morte) simplesmente se explica com retalhos das coisas que se intuem.

Quando um adolescente gaúcho usando grelhas transmitiu seu suicídio pela internet, seu analista Mário Corso, articulista e escritor conhecido, admitiu sua impotência com que "o que escapa" para além do divã. Pensei que há momentos que só quem experimenta As Horas conhece a dor e a delícia de colocar as pedras e submergir, ou sentar na margem do rio e experimentar deixá-las escorregar do bolso.
E retornar.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Minha versão de dentro do acidente do ônibus que deixou sete vítimas; três em estado grave



Quase três horas da madrugada. Tudo em silêncio e na mais perfeita calmaria e paz. Dormia um sono profundo. Profundo não, porque quem é que pode dormir bem numa poltrona que é desconfortável como as que são de um ônibus, ainda mais de que é convencional?

DE REPENTE: o impacto e o barulho da batida do ônibus no caminhão de boi... estilhaços de vidro voando no meu rosto (isso, porque estava sentado na poltrona 35, do meio para o final do ônibus)... uma gritaria e muito choro, misturados com vozes de crianças, jovens, adultos e idosos... e ainda por cima, a luz do ônibus que permaneceu apagada por eternos segundos: meu Deus o que está acontecendo?

Gritos de “para motorista, para o ônibus!” e de “quebra a janela gente!” e de “me ajuda eu quero sair daqui!”, junto com “gente, parece que tem gente morta aqui na frente”, meu Deus, o que será tudo isso afinal?

Quando a luz do ônibus finalmente é acessa; quando o ônibus finalmente para; continuo sem entender o que houve... porque todos estão de pé? Que confusão é esta?
E o ônibus, para ajudar, veio lotado. Das 45 (acho que é isso) vagas, 44 estavam sendo usados, por crianças, jovens, adultos e idosos.

O que não entendo meu Deus do céu é porque a galera do inicio do ônibus ao invés de descer pela porta da frente, estão todos vindo para o meio, na minha direção: o que houve com a porta? Será que o estilhaço foi da porta e não das janelas?

Um grupo de homens estão tentando abrir as janelas de emergência, e eu aqui, paralisado, sentido uma mistura de terror e pânico, com uma sensação de confusão e desorientação... mas também, como poderia ser diferente, se estava dormindo e sou acordado da pior maneira possível?

Gritos de uma mulher pedindo, melhor dizendo: pedindo não, implorando que “pelo amor de Deus me ajudem! Ai que dor! Socorro!” me deixam mais ainda em estado de profundo choque.

Finalmente a janela de emergência é aberta... todos querem descer de uma vez, mas não é possível, por causa dos bancos que atrapalham  descer. Pedidos de mães desesperadas, para que tirem suas crianças. No meio de tudo isso, alguém diz “pera ai gente, que o ônibus parou e não tem mais nada que ameace a gente” ao que outro retruca “precisamos sair logo, porque o ônibus não está com o pisca alerta ligado, vai que um caminhão ou carro vem e bate atrás do ônibus?”, foi o suficiente para começar a correria e gritaria de novo para descer.

Quanto a mim, fiquei tão em choque, que demorei para sair. E quando saí do ônibus, foi porque o que estava na minha frente era mais desesperador do que meu próprio choque: pessoas presas com uma lasca de madeira enorme do caminhão, nas pernas, gritando desesperadas e gemendo de dor.

Tentar ajudar a socorrer as vitimas? Mesmo se tivesse como, isso estava naquele momento de estado de choque, para além dos meus limites: tenho vergonha, mas não pude nem tentar ajudar do lado de dentro as vitimas. Alias: essa cena foi até mais forte do que minha própria paralisação e estupor, fazendo com que, conseguisse enfim, me mexer e sair do ônibus.

Lá fora, todos tentando entender o que aconteceu. Todos em estado de choque. A diferença entre um e outro é que enquanto uns ficavam paralisados em choque (eu), outros usavam esse choque, essa adrenalina para agir.

E agir como? Tentando tirar a lasca pesada e grande de madeira cravada na frente do ônibus e nas pernas das pessoas.
Foi ai que chegaram as primeiras das três viaturas de polícia, e duas ou três ambulâncias, mas, que, nada ainda do corpo de bombeiros.

Muita luz, muita sirene, muito corre corre: o desespero ainda não acabou. Tem gente presa nas ferragens.

E para aumentar ainda mais a tensão e subir o nível de estresse, um bate-boca: de um lado (a maioria) não querendo esperar o corpo de bombeiros chegar, propunham agir o mais rápido possível; do outro, alguém diz para a turma que é preciso esperar justamente o corpo de bombeiros, pois eles são os técnicos responsáveis e mais capacitados para retirarem a lasca enorme de madeira, chegando ao ponto de argumentar, que se alguém mexesse e desse algo errado, seria responsabilizado pelo erro, ao que alguém já no seu limite responde com a ideia de ninguém mexer, mas se alguém por isso morrer, tal pessoa que levantou o argumento anterior, para que ninguém mexesse, seria responsabilizado.

E eu, lá, parado, flutuando no meu estupor e no meu estado de choque, pensando como seria mil vezes mais terrível, se tivesse como meus dois filhos (um de 4 anos, e outro, de 10 anos), quando alguém no meio dos passageiros me reconheceu: um rapaz que trabalha na Promotoria de Mucurici-ES, aonde, por causa do meu trabalho no CREAS, que só trabalha com direitos violados e por isso, diretamente com promotor e juiz, me reconheceu e começou a falar alto “gente, ele é psicólogo, ele pode ajudar”.

Pera ai: como assim eu sou psicólogo e posso ajudar? Eu é que quero saber quem é que vai me ajudar e me socorrer desse estado de choque... imagina então eu nesse momento conseguir ajudar alguém.

Mas quando estava terminando de pensar esse pensamento, alguém chega pra mim e pergunta se sou mesmo psicólogo. Minha vontade era de negar, de cavar um buraco na terra e me esconder, mas naquele momento, começou a agir em mim, outras forças, que não apenas a paralisia, eram: o dever, a consciência e a ética de ajudar, minimamente é verdade, mas que nem por isso deixaria de ser algum tipo de ajuda, de algo pequeno para aquele momento, que eu poderia ofertar a quem estava, assim como eu, muito angustiado e meio atônito.

Só ai e que comecei a usar a adrenalina que tinha se espelhado no meu corpo, por causa do choque emocional do acidente, para ir até as pessoas que queriam e sentiam necessidade de um atendimento emergencial psicológico.

E que bom foi para algumas pessoas e para mim: ao ajudar elas, estava, sem ainda, naquele momento, me dar conta, de que estava me ajudando a sair um pouco de mim mesmo, dos meus sentimentos, sensações e pensamentos, para ajudar quem precisava muito de mim.

Depois de umas duas horas, tudo estava resolvido (a ambulância levou os mais gravemente feridos a um hospital perto do acidente; a polícia prendeu em fragrante o motorista completamente alcoolizado que deixou o caminhão de carregar boi, entre o encostamento e a pista, parado; e nós embarcávamos em outro ônibus (executivo) disponibilizado pela Águia Branca)... quer dizer: nem tudo, já que as marcas do acidente, se em algumas foram mais graves fisicamente, em outras (como eu) ficaram como profundas marcas psicológicas.

Marcio Alves

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Eu e o acidente de ônibus: livramento de Deus?

*Foto do ônibus não é ilustrativa: é real. Foi o acidente que eu escapei.

Acabei de escapar ileso de um acidente: estava dentro do ônibus da viação Águia Branca, que voltava as 23h30, de Vitória à Ponto Belo, Espírito Santo, que bateu em um caminhão de boi, ferindo sete pessoas, três em estado grave, entre Colatina e São Domingos, por volta das três horas da madrugada de hoje.

A frase mais ouvida por mim foi a de que “Deus me livrou”. Mas hipótese que já descartei, com o seguinte (corajoso) questionamento: o que tinha em mim de diferente dessas sete vitimas, que fez Deus me livrar e a elas não?

Minha solidariedade e humanidade me faz posicionar ao lado das vitimas: não consigo conceber um Deus justo e bom, que em um mesmo acidente, livra alguns (eu) para deixar outros (sete) a mercê de seu próprio destino, ou, (o que é terrivelmente pior): determina quais se salvarão e quais se acidentarão.  

Sou muito humano para aceitar tal ideia (popular) de Deus (que faz distinção para livrar) e um pouco inteligente para aceitar tal explicação “milagrosa” do meu livramento. 

Prefiro tatear explicações mais, digamos, humanas e corajosas: por causa de alguns fatores controláveis e planejáveis, e outros, por mera “sorte”, escapei ileso.

Primeiro: toda vez que viajo, sempre prefiro poltronas que ficam do meio para o fim do ônibus: sempre me ocorreu a possibilidade de um acidente onde os primeiros da frente serão (obviamente) os primeiros atingidos, caso o ônibus bata de “frente”; e, sentar antes do final, para se caso baterem na traseira do ônibus, não ser o primeiro dos últimos a ser atingido.

Segundo: sempre uso cinto de segurança, pois isso se não ajudar na hora de um acidente mais grave, mal não vai fazer, além de muitas estatísticas mostrarem que o cinto pode literalmente salvar uma vida em acidentes.

Terceiro: contar com a sorte mesmo. Eu não escrevi errado. Escrevi sorte, porque quero dizer sorte mesmo. Se existe acidente para o mal, no caso do azar, do famoso estar na hora e lugar errado, existe também, o acidente para o bem: de não estar na hora e lugar errado.

O que quero dizer é que graças a fatores controláveis, como os que citei, e os que não estão em nosso controle (você estar dentro de um avião, por exemplo, que cai e mata todo mundo), é que podemos falar sempre em probabilidades e possibilidades, mas nunca de certezas.

O que significa dizer que o que aprendi é o que já sei, mas que foi reforçado: tome todos os cuidados necessários que estejam em seu alcance, mas saiba que a vida é como uma roleta russa: a qualquer momento podemos não escapar de um acidente.

Mas enquanto isso não chega, sou grato a Deus só pelo fato dEle não intervir nos acidentes, seja para bem, seja para o mal, porque afinal, um Deus universal, que não livra, mas que também não "permite" (leia-se "provoca") acidentes, é muito mais humano e justo, do que um Deus que livra "pela metade" (incompetência?) ou em "partes" (o famoso Deus me livrou de morrer, mas não me livrou de sofrer um acidente grave e parar num hospital).

Marcio Alves

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

CARTA DOS BISPOS DO VELHO CHICO: SALVAR O RiO: CARTA DA LAPA

Achei bem interessante essa mensagem que encontrei no blogue do teólogo e ex-frei Leonardo Boff que passo a compartilhar a seguir:




CARTA DOS BISPOS DO VELHO CHICO

CARTA DA LAPA


Primeiro Encontro dos bispos da Bacia do Rio São Francisco

À luz do Evangelho, em comunhão com o Papa Francisco e inspirados pela carta encíclica “Laudato Sí”, nós, bispos da bacia do Rio São Francisco, representando onze das dezesseis dioceses, diante do processo de morte em que este Rio se encontra e das consequências que isto representa para a população que dele depende, assumimos de forma colegiada a defesa do Velho Chico, de seus afluentes e do povo que habita sua bacia. Como pastores a serviço do rebanho que nos foi confiado, constatamos, com profunda dor:

(a) o sumiço de inúmeras nascentes de pequenos subafluentes e, em consequência, o enfraquecimento dos afluentes que alimentam o São Francisco;

(b) o aumento da demanda da água para a irrigação, indústria, consumo humano e outros usos econômicos, sem levar em conta a capacidade real dos rios de ceder água;

(c) a destruição gradativa das matas ciliares expondo os rios ao assoreamento cada vez maior;

(d) a decadência visual dos rios e da biodiversidade;

(e) o aumento visível dos conflitos na disputa pela água em toda a região;

(f) empresas sempre fazem prevalecer seus interesses e o Estado acaba por ser legitimador de um modelo predatório de desenvolvimento.

Tudo isso vem gerando a destruição lenta e cruel da biodiversidade do Velho Chico e, consequentemente, sua morte gradativa. Diante dessa triste realidade, enquanto bispos da bacia do Rio São Francisco e pastores do rebanho que nos foi confiado, propomos:

1. Sermos uma “Igreja em Saída”: Ir ao encontro do povo e, como pastores, convocar os cristãos e as pessoas sensíveis à causa, para juntos assumirmos o grande desafio de salvar o rio da morte e garantir a vida humana, da fauna e da flora que dele dependem;

2. Sermos uma “Igreja Missionária”: Realizar visitas às nossas comunidades, missões, peregrinações, romarias e estabelecer um diálogo aberto com as pessoas para que entendam e assumam, à luz da fé, o cuidado com a “Casa Comum”, particularmente, a defesa do nosso Rio;

3. Sermos uma “Igreja Profética”: Elaborar subsídios educativos sobre meio-ambiente e o modo de preservá-lo. Utilizar os meios de comunicação, rádios, periódicos diocesanos para levar ao maior número de pessoas a boa nova da preservação da vida;

4. Sermos uma “Igreja Solidária”: Reforçar as iniciativas populares de recomposição florestal, recuperação de nascentes, revitalização de afluentes; incentivar a ética da responsabilidade socioambiental capaz de gerar um modo de vida sustentável de convivência com a caatinga, o cerrado e a mata atlântica; defender políticas públicas para implementação do saneamento básico, apoio à agricultura familiar, manutenção de áreas preservadas, a exemplo dos territórios das comunidades tradicionais de fundo e fecho de pasto, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pescadores, etc.

5. Finalmente, declaramos nossa posição em defesa do “Repouso Sabático” para os nossos biomas a fim de que possam se reconstituir. Particularmente, uma moratória para o Cerrado, por um período de dez anos. Durante esse período não seria permitido nenhum projeto que desmate mais ainda o Cerrado, a Caatinga e a Mata Atlântica, biomas que alimentam o Rio São Francisco e dele também se alimentam.

6. Nesse sentido chamamos as autoridades federais, os governadores, prefeitos, deputados, senadores, o Ministério Público, para que assumam sua responsabilidade constitucional na defesa do Velho Chico e do seu povo.

Que São Francisco, padroeiro da Ecologia e do Rio que traz o seu nome, nos inspire a cuidar da Criação. Que o Bom Jesus da Lapa, de cujo Santuário provém a água da torrente, abençoe e dê vida ao nosso Velho Chico e ao povo do qual ele é pai e mãe. Bom Jesus da Lapa, 1º Domingo do Advento de 2017.


Bispos Participantes

Dom José Moreira da Silva – Bispo de Januária (MG) Dom José Roberto Silva Carvalho – Bispo de Caetité (BA) Dom João Santos Cardoso – Bispo de Bom Jesus da Lapa (BA) Dom Josafá Menezes da Silva – Bispo de Barreiras (BA) Dom Luiz Flávio Cappio, OFM – Bispo de Barra (BA) Dom Tommaso Cascianelli, CP – Bispo de Irecê (BA) Dom Carlos Alberto Breis Pereira, OFM – Bispo de Juazeiro (BA) Monsenhor Malan Carvalho – Administrador Diocesano de Petrolina (PE) Dom Gabriele Marchesi – Bispo de Floresta (PE) Dom Guido Zendron – Bispo de Paulo Afonso (BA)


OBS: Imagem acima dos arquivos do IBAMA sendo o conteúdo extraído do blogue do teólogo Dr. Leonardo Boff em https://leonardoboff.wordpress.com/2017/12/05/carta-dos-bispos-do-velho-chico-salvar-o-rio-carta-da-lapa

domingo, 26 de novembro de 2017

Churrasco dos amigos da confraria no Rio



Neste último sábado (25/11), houve mais um encontro dos fora da gaiola e que ocorreu no Rio de Janeiro. Mais precisamente na cidade de Visconde de Itaboraí, no Bairro Manilha, onde fica a casa da confrade Aline Cleo Vieira (ver foto abaixo).


Tivemos a oportunidade de estar pessoalmente com alguns amigos que, em anos anteriores, chegaram na escrever neste blogue, como os confrades Eduardo Medeiros, Edson Moura Santos (Noreda), Elidia Rosa, Mariani Lima e Donizete Vieira, o qual veio acompanhado da esposa Marta.

Compareceram também outros colegas que conhecemos mais tarde, sendo uns pelo Facebook e outros apresentados no WhatsApp, como a irmã do Edu, Shirlene Medeiros e o marido Márcio, mais o Edson Viana Pinto com a esposa Cristiane, a Elaine Rodrigues (que veio ao churrasco junto com a mãe) e a própria anfitriã Aline. Também vieram algumas crianças.

Almoçamos um delicioso churrasco feito pelo nosso amigo Edinho Viana. Estava uma delícia! Eu mesmo que procuro evitar o consumo excessivo de carne não resisti e caí de boca (no frango e no filé bovino). E bebi bastante mate para ajudar na digestão.





O encontro terminou de noite. Tínhamos programado um amigo oculto que, originalmente, tinha por objetivo presentear o sorteado com algum livro de nossa biblioteca particular. Porém, acabamos compartilhando livremente as obras uns com os outros, sendo que eu havia levado para lá o Mestre dos mestres, de Augusto Cury, e trazido para casa 1968: O ano que não terminou, do jornalista Zuenir Ventura.



 

Finalmente cantamos parabéns para Marta, esposa do Donizete, que estava aniversariando. O bolo de chocolate estava nota 10. Bem do jeito que eu gosto.


Saí de lá de carona com o Márcio e acabei dormindo na residência do Edu, no bairro carioca de Campo Grande que é o lugar mais próximo daqui de Mangaratiba, município onde moro, pois já não encontraria ônibus em Itaguaí que me trouxesse até Muriqui devido ao avançar das horas. Por isso, tomei café da manhã lá com dois casais bem simpáticos.


Mas se vocês pensam que vim de muito longe para curtir esse encontro, estão enganados. Pois eis que os confrades Edson Moura, Donizete Vieira e Elidia Rosa viajaram de outros estados. Por exemplo, o Edson saiu de São Paulo, enquanto o Doni de Campinas. Já a Elidia veio de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul.

Hoje mesmo, Doni e a esposa estão retornando para Campinas depois de terem passeado brevemente pela Cidade Maravilhosa. Já a Elidia e o Edson (que veio também prestar concurso para o TRE do Rio neste domingo), voltam amanhã.


Espero que, por mais vezes, essa galera se reencontre. E, apesar de não ter sido a primeira ocasião em que as pessoas do grupo estiveram juntas, visto que a última foi na casa do Edinho Viana em Realengo, bairro do Rio (clique AQUI para ler), talvez esse churrasco de Itaboraí tenha sido umas das mais representativas oportunidades de nos vermos presencialmente.

Ótima semana para todos!

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Pico della Mirandola e a dignidade humana







A Renascença caracterizou-se por uma nova atitude diante do mundo. Um movimento que fazia "nascer de novo" toda a cultura clássica grega e latina que ficara esquecida durante a Idade Média. Uma das principais características da Renascença foi o Humanismo - atitude filosófica de que o homem possui uma dignidade própria, não mais vendo-o subordinado e dominado pela religião. O ser humano do Humanismo é um ser autônomo que possui liberdade. Assim como podemos definir o pensamento medieval como "teocêntrico", na Renascença é o pensamento antropocêntrico-naturalista que se estabelece, perspectiva esta que será a tônica da Modernidade. 

Dentre os vários pensadores que podemos citar nesse período, destaca-se Pico della Mirandola. Ele foi considerado a "fênix dos gênios" pela elevada cultura e erudição alcançada em sua breve vida de 31 anos. Sua obra principal foi Conclusões (ou Teses) onde em 900 teses abarcava várias áreas do saber, desde magia, cabala e filosofia. O ponto que se destaca nos escritos de Pico é a DIGNIDADE DO HOMEM. Em seu "DISCURSO SOBRE A DIGNIDADE DO HOMEM", que é considerado o "manifesto da Renascença" e serve de introdução às 900 teses, o humano é exaltado; ele possui algo que os outros animais não possui. Em Mirandola vemos clara essa noção de exaltação, veneração e dignidade que o ser humano possui. 


"
Cada um tem em si próprio dez punições: a ignorância, a tristeza, a inconstância, a avareza, a injustiça, a luxúria, inveja, traição a raiva e a malícia. "


Em que se fundamenta a dignidade humana? Em que o homem pode "construir a si mesmo" enquanto ser livre. Não existe no humano a rigidez predeterminada de ações de outros seres. O ser humano edifica a si próprio - o que pode ser visto como verdadeiro milagre. Nas palavras de Pico: 

Tenho lido, respeitabilíssimos senhores, nos livros antigos dos árabes, que Abdala, o Sarraceno, questionado a respeito de que coisa se lhe oferecia à vista como mais notável sobre o cenário deste mundo, respondeu nada haver de mais admirável do que o próprio homem. Com essa sentença concorda aquela exclamação de Hermes: Ó Asclépio, que portento de milagre é o homem.

 Em outro trecho, pode-se perceber qual a posição do homem em relação aos outros seres:

A mim que excogitava o significado de tais afirmativas, não me haviam persuadido as tantas razões aduzidas por muitos sobre a excelência da natureza humana, a saber, que o homem é o mensageiro da criação, o parente dos seres superiores, o rei das criaturas inferiores, o intérprete da natureza inteira pela agudeza dos sentidos, pela inquirição da mente e pela luz do intelecto; que é ainda o traço da ligação entre a eternidade imóvel e o tempo transitório; ou então, no dizer dos persas, a cúpula; ou melhor, o himeneu de todo o universo; enfim um pouco menor que os anjos...

A razão da admiração de Pico pelo homem: 

Isso acontece (admiração) em virtude da condição que lhe coube em meio a todo o universo, de sorte a tornar-se alvo de inveja não só para os seres inferiores como até para os astros e mesmo para as inteligências ultraterrestres. Esse fato incrível e estupendo (...). O homem, na verdade, é reconhecido e consagrado, com plenitude de direitos, por ser, efetivamente, um portentoso milagre. 





* * * * *

Renascimento: movimento de renovação cultural que ocorreu desde a segunda metade do século XIV até o início do XVII, na Europa, em vários campos dos conhecimento humano, que vão desde as artes, a literatura, a pintura, a escultura, a arquitetura até a seara filosófica. 

* * * * 

Obras de Pico:

- Discurso sobre a dignidade do homem (Oratio de hominis dignitate) - 1480
- Conclusões filosóficas cabalísticas e teológicas (Conclusiones philosophicae cabalisticae et theologicae) - 1486
- De ente et uno - 1480


_______________________________
obra de referência: História da filosofia
moderna. Fábio L. Ferreira, ed  Intersaberes



Texto publicado originalmente no blog   https://lectioquestio.blogspot.com.br/ 

terça-feira, 14 de novembro de 2017

"comecei com uma letra maiúscula e termino com o ponto final"



Por Núbia Mara Cilense


"Escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca idéias." (Pablo Neruda).

Mais uma vez estou sem inspiração.

Pedi ajuda ao Neruda, mas ele não foi muito claro. De pouco me adiantou.

Nesses dias, parece tudo nebuloso, sendo uma neblina de cortar a faca. Daí eu rodo, rodo, rodo e nada sai.

Decido escrever sobre o vácuo. Não sei o que tem lá. Talvez o nada.

Mergulho nesse nada e descubro que ele é profundo, escuro e frio. Um frio que parece nevar. Não se enxerga um palmo a frente do nariz.

Não sei aonde essa viagem vai dar. Isto é, a viagem ao nada. Sei apenas que comecei com uma letra maiúscula e termino com o ponto final.


OBS: Extraído do blogue Cantinho da Núbia  em https://cantinhodanubia.wordpress.com/2017/11/14/decimo-dia/

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Inseguranças na calada da noite – Confissões do Ex Endemoninhado Gadareno ao seu amor Annabelle


Agora são 02h05min da manhã e não me surpreendo de estar acordado.

Se fosse assim há um ano eu não teria sido surpreendido por minhas ações. Apanhado desprevenido, ou até mesmo envergonhado de mim mesmo. Eu não ligava pelo o que pensavam ou falavam de nós... Mesmo que prendessem meus pés e minhas mãos, eu arrebentaria, quebraria, me livraria, para estar ao seu lado.

Meus demônios eram a céu aberto. Nos sepulcros. Sem mascaras, sem roupas e sem casa. Para que todos pudessem ver. Eu tinha vergonha, sentia ciúmes e era pegajoso. E tudo isso era por causa de você, cuja única esperança de tê-la eternamente era controlando os seus atos, suas ações, sua vida.

Eu estava inseguro. Em algum ponto da nossa relação, de alguma maneira eu não controlava as emoções e isso me machucava. Sabia que eu nunca seria forte o suficiente para ir embora da sua vida. Não era simples me livrar de você, tentei várias vezes e depois de numerosas tentativas falhadas, descobri que o mundo desmoronou em mim.

Incrível é..., como você resistia...

Você veio. E mesmo eu, no controle da situação, achei mais fácil mascarar o medo do abandono, o medo da rejeição e o medo de não ser bom o bastante para você.

Como eu poderia deixar você saber que eu estava machucado? Que meu coração estava tão desmantelado, antes de me conhecer ou do frio na barriga que sentia por você, que era tão estranho para mim. Nós meses anteriores, não te conhecia, na verdade, eu nem reconhecia o meu próprio sorriso. E agora tudo está reconhecível e mesmo assim os demônios permanecem comigo.

Eu escondia meus demônios de você. Para você, eu ainda valia alguma coisa. Era bonito, e não um gordinho desprevenido. Sincero, e não um mentiroso pederasta. Encantador, e não um antipático arrogante. Eu estava feliz, talvez um pouco louco, pois oscilava ligeiramente o meu temperamento, mas eu estava apaixonado.

Não é dramático...

Mesmo os momentos em que mal pronunciava alguma coisa, se transformavam em momentos íntimos memoráveis em que eu me esforçava em ser adorável e não tão estúpido. E mesmo sabendo do problema geográfico entre nós, em eu querer ser seu mundo e você apenas querer me abraçar... Eu era freqüentemente atormentado pelos demônios interiores.

Neste dia, ou noite, não sei... Já são 03h37, eu continuo com os olhos abertos. Tudo isso porque o meu amor por ti ainda está além da minha compreensão.


Este ano... Meus demônios ficaram entorpecidos. Sem o meu conhecimento, eles vinham se fortalecendo, e eu sentia isso o tempo todo. Como eu poderia ter sabido que você tentava fazer-me sentir como o garoto mais sortudo do mundo, tão especial e feliz... Eu era cego, e aqui bem no fundo ainda me sentia inseguro.

Eu não gosto de relacionamentos que durem momentos, pelo menos não é do tipo que me dá certa segurança. E por falta de segurança, os demônios invadiram, se apropriaram, subjugaram, dominaram, escravizaram, controlaram, aprisionaram a minha mente e o meu corpo, fazendo com que eu perdesse a capacidade, cognitiva, emotiva, sensitiva, perceptiva e psicomotora.

Nada estava normal, percebia que a cada dia que passava eu sentia mais a sua falta e menos daquelas pessoas que diziam: “Oh, agora dói, porem passando um mês você não vai nem sentir." ou "você vai encontrar alguém novo, em algum momento da vida".

Eles deveriam saber que você é a única que posso contar de verdade. E a verdade é que não esta sendo fácil ver você entre as suas amigas. Não são as reuniões entre vocês, que além de afastar-me de ti, me deixa inseguro. Mas o que me deixa inseguro é esses rapazes que transformam em formigas para querer medir o nível de açúcar que está em seu corpo. Todos querem ter você por perto. E agora, como você quer que eu me considere... Apenas um amigo! Não poderei fazer nada mais do que sentar, e manter-se tranqüilo e torcer para que eles não sejam mais encantadores do que eu.

Recentemente, a minha inveja veio à tona. Mais forte do que antes, eu não consegui controlar a emoção. É atacou-me várias vezes, atravessando as linhas do fuso apaixonante e transpassando os limites da psique. Mesmo assim, você me achava atraente, deixando o meu ego possessivo injustificado.

Conforme os dias passavam, minhas inseguranças e auto dúvida continuavam a expor-se sob a forma de pesados suspiros, agarrando-me e deixando-me sem controle sobre meus pensamentos, palavras ou lágrimas.

Ontem, de manhã, já era de se esperar, cheguei ao mais baixo nível.

Quanta avaria sentia o meu coração. Travou o funcionamento interno da minha mente confusa. Eu chorei um monte. E agora decidi revelar todas as minhas inseguranças, os meus medos, os demônios. Simplesmente aconteceram, todos os meus sentimentos afloraram. Eu tentei manter escondido de você por muito tempo, mas agora escapou, na sua frente foi em forma de choro silencioso, por traz de você foi manifestado em revolta.

Tão revoltado fiquei, que andei nos sepulcros, noite e dia, cortando-me com as pedras que via no chão. Nem as melodias da harpa de Davi eram capazes de acalmar os meus demônios, fiquei violento de tal maneira que ninguém conseguia me segurar. Você viu tudo, eu não queria e você sabia disso. Mas eu não poderia enganar você.

Certo Mestre veio em minha direção e ordenou para que meus demônios saíssem. Mais eles resistiam, voltavam e se apoderavam novamente de mim. Foi quando um dos meus demônios disse: “Que queres comigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Rogo-te por Deus que não me atormentes! Será que eu estava tão ligado assim... pior que eu estava, pois eram Legiões. O Mestre olhando os meus demônios decidiu que não iriam mandar eles para o abismo e sim para uma manada, ao irem, eu me senti liberto e a manada se atirou do precipício.

Ao ser liberto, eu não conseguia parar de chorar. As lágrimas continuaram simplesmente a correr e quando eu disse “obrigado”, elas jorravam como cachoeiras deslizando pelo meu rosto. Nem 10 minutos se passaram... Para me sentir bem. Senti o vento tocar as gotas do meu rosto, o cheiro de mar e de terra molhada. Admirei o azul do céu, o verde das árvores, o colorido das flores e você. Fui vestido, sentei-me e decidi vomitar as palavras no Mestre... Joguei para fora todas as minhas inseguranças. Você me viu ao longe e talvez pensasse que eu só estaria um pouco louco. Mas compreendeu que eu fazendo dessa forma as dores que sentia iriam sumir gradativamente.

O mestre atentamente me escutou, eu expressei o meu desejo de segui-lo, mais ele falou que seria melhor eu ficar com a minha família e relatar o livramento dos meus demônios ao povo de Decápolis. Foi o que eu fiz, e todos se maravilharam. Mais algo estava errado, mais uma vez, eu estou sentido medo de ti perder, é sinto me consumindo por dentro. Concluo neste exato momento, que eles não desaparecem assim tão facilmente, e eu não sou mais ingênuo o suficiente para acreditar que eles podem desaparecer por completo. Mas quando olho para você, definitivamente me sinto um pouco mais normal do que talvez eu realmente seja...

No ano passado nós amamos e rimos, cantamos músicas bobas e falamos da época de criança. Choramos e gritamos. Dissemos algumas coisas dolorosas um ao outro. Eu fui teimoso, às vezes. Você foi egoísta de tal forma altruísta, fomos completos idiotas em alguns momentos. Confessávamos das perseguições, dos tempos ruins, das reincidências e sentenças, entre muitos outros obstáculos e segredos insanos.

Você esteve lá, do meu lado, para me ajudar em muitos aspectos e só espero ter retribuído esse carinho a altura. O ano passado tivemos ocasiões altas e baixas, mas ainda estávamos juntos, e de alguma forma conseguíamos formar uma amizade honesta, verdadeira e respeitosa para com o outro. Você se tornou minha melhor amiga, minha amante, a mulher dos meus sonhos.

Enquanto minhas inseguranças aparecem por dentro de mim mantendo-me por certo tempo acordado até a madrugada chegar, às vezes elas deixam-me sentindo acusado ou agravado parecendo que os demônios surgirão com mais força. Só sei que a cada “abraço” seu, me sinto confortável e me torno normal, pois seu coração bate no mesmo ritmo do meu♥.

4h25min.

O Gadareno (Sem nome, sem uma origem familiar definida)

(Uma História de Ficção)
Referencia: Mt 8.28-34; Mc 5.1-20; Lc 8.26-39; 26 Navegaram para a região dos gerasenos, que fica do outro lado do lago, frente à Galiléia. 27 Quando Jesus pisou em terra, foi ao encontro dele um endemoninhado daquela cidade. Fazia muito tempo que aquele homem não usava roupas, nem vivia em casa alguma, mas nos sepulcros. 28 Quando viu Jesus, gritou, prostrou-se aos seus pés e disse em alta voz: “Que queres comigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Rogo-te que não me atormentes!” 29 Pois Jesus havia ordenado que o espírito imundo saísse daquele homem. Muitas vezes ele tinha se apoderado dele. Mesmo com os pés e as mãos acorrentados e entregue aos cuidados de guardas, quebrava as correntes, e era levado pelo demônio a lugares solitários...
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