domingo, 16 de maio de 2010

A “GRANDE MÃE” NO INCONSCIENTE JUDAICO-CRISTÃO


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  1. O ARQUÉTIPO MATRIARCAL “A DEUSA MÃE”
O simbolismo da Deusa (ARQUÉTIPO MATRIARCAL) implica na aceitação da materialidade e da corporeidade da vida como sagradas, como salienta o judeu R. Pollack em seu livro, O Corpo da Deusa: “encontramos o corpo da Deusa no nascimento, na menstruação e na alegria do sexo, mas o encontramos também na morte e na doença, uma vez que estas não são vistas como erros ou punições, mas como parte da existência”. De fato, aceitar o corpo como sagrado implica em lidar de outra maneira com a nossa própria corporeidade.
Relegada às profundezas abissais da psique humana, essa Toda Poderosa Divindade Primordial perdura, mas, tendo sido vilipendiada, mostra-nos sua face terrível, atemorizando aqueles que traíram suas leis. Antes era adorada e reverenciada sobre a Terra. Estigmatizada, passou a ser no inconsciente judaico-cristão a Senhora absoluta das trevas.

Jacques Le Golf, sobre o mito de Eva (a primeira mãe), considera que a sua maternidade foi um castigo pelo pecado de sua extrema libido (orgasmos múltiplos), tendo como conseqüência o sofrimento e as dores do parto.
Mas é através do castigo de Eva que vem a honra à Maria (miticamente assexuada) e a remissão não só a humanidade como a todas as mulheres.

2. A DEUSA RAINHA DA ANTIGA BABILÔNIA:
SEMÍRAMIS foi transformada em uma deusa, tal como BAALTI (A MADONA), RAINHA DO CÉU: “...Mas desde que cessamos de queimar incenso à rainha dos céus, e de lhe oferecer libações, tivemos falta de tudo, e fomos consumidos pela espada e pela fome” (Jeremias 44:18). Eis aí personificada a culpa da primeira transgressão, tipificada pela tentadora mulher (Eva) a “Rainha dos prazeres pecaminosos”.
Na Babilônia, a Mediatriz, e Mãe da humanidade era Astarte. Com o passar dos tempos, monumentos a esta deusa e seu filho apareceram em muitas nações, quando o povo da Babilônia foi espalhado pelas várias partes da terra, levou com ele a adoração da divina mãe e filho.

3. O ARQUÉTIPO DA “GRANDE MÃE” NO EVANGELHO DE LUCAS
O relato de Lucas centra-se em Maria, o de Mateus em José. O Evangelho de Lucas é importantíssimo como fundamento escriturístico para a doutrina acerca da Santíssima Virgem Maria e também para a devoção pessoal e popular à mãe do Salvador sendo também fonte inspiradora de boa parte da arte cristã a esse respeito.
Lucas é chamado por Eusébio de Cesaréia (séc. IV) o "pintor de Maria". Nenhum personagem da história evangélica, exceto naturalmente Jesus, é descrito com tantos pormenores, amor, admiração quanto Maria Santíssima. No Evangelho da Infância, deixa-se o mais belo retrato da Mãe de Jesus: A Virgem cheia de graça, o encantador modelo de fé, humildade, obediência, simplicidade e pureza, disponibilidade e espírito contemplativo.

Nenhuma criatura humana recebeu graças tão altas e singulares como Maria: ela é a "cheia de graça", o Senhor está com ela (1,28), obteve graça junto a Deus (1,30), concebeu por obra e graça do Espírito Santo e foi Mãe de Jesus (2,7) sem deixar de ser Virgem (1,34), intimamente unida ao mistério redentor da cruz.(2,35), será proclamada bem aventurada por todas as gerações, pois o Todo-Poderoso operou nela grandes coisas (1,49). Com razão uma mulher do povo louvou entusiasmada e de forma muito expressiva a Mãe de Jesus (11,27).

Ninguém pode enumerar quantas vezes os cristãos, desde o inicio, ao longo dos séculos, em todo o mundo, têm rezado "Santa Maria, Mãe de Deus...".
Sobre os milagres em Santuários Marianos: La Virgem del Pilar, Guadalupe, Lourdes, etc., os luteranos reunidos recentemente em um Congresso, na Alemanha, reconheceram com sinceridade que seria culpável não reconhecer que Deus havia feito muitos milagres em Santuários Marianos. Concluíram eles: “Seria até tolice não reconhecê-los só porque foram feitos em ambiente católico e não entre nós, de outras confissões evangélicas”.

4. O ARQUÉTIPO MATERNAL NO CRISTIANISMO
A Doutrina Homoousiana (da tríplice relação consubstancial de Deus), surgiu como um anseio vindo das profundezas do inconsciente cristão primitivo. O conceito de Trindade do Concílio de Nicéia foi como uma confirmação da existência do arquétipo feminino cristão. Só, que a Trindade, modificou toda a relação entre Jesus e Deus Pai.
O Pai forte e poderoso tornou-se a mãe agasalhadora e protetora; o filho, outrora, sofredor e passivo, tornou-se criança pequena. Surge então a figura divina da Grande Mãe, e torna-se a figura dominante do cristianismo medieval. Tanto é assim, que a Igreja no século IV, no seu desenvolvimento histórico, torna-se a Grande Instituição Sagrada onde os fieis iam amamentar em seus poderosos seios.
Por volta do ano 430 D.C o culto à Maria (a deusa Diana dos cristãos) foi ganhando mais destaque, de beneficiária da graça ela passou a conceder a graça. A Igreja estruturada na imagem da Deusa Materna era àquela que oferecia seu seio para o Jesus menino símbolo das massas sofredoras. Na retratação de Maria feita pelos pintores da antiguidade, ela sempre aparece com o menino Jesus acolhido em seus braços, simbolizando a proteção do arquétipo maternal às pessoas sofredoras e oprimidas, representadas ali pelas figuras da mãe e do bebê embalado em seus braços.
A dominância do arquétipo maternal no inconsciente dos cristãos primitivos corroborou, sobremaneira, para impedir a revolta da classe oprimida contra as autoridades, deixando a sociedade medieval na dependência dos governantes.

A fome insaciável de amamentar nos seios da Grande Mãe intuiu a configuração mais poderosa que se encontra nos altos níveis da vida mental. O leite materno sacia o medo da fome psíquica de auto-afirmação, uma vez que o tormento da fome é a antecipação mental representativa dos castigos e punições advindas da autoridade paterna.
Não há como escapar da teia da ambivalência, que caracteriza o humano: Ao mesmo tempo em que o homem recorre à autoridade de um Deus, identificando-se com Ele na guerra pela sobrevivência, anseia pelo colo materno contra a opressão da autoridade que o priva de permanecer indefinidamente criança amamentando-se nos seios da sua bondosa mãe. A nostalgia, a saudade do útero materno são afetos que o acompanharão pela vida afora.

Ameaçadora para sua sobrevivência, a solidão, não largará mais esse homem saudoso de sua imaginária “deusa – mãe – mulher”. Na falta aconchegante do colo e da seiva doce dos peitos da mãe, ele agora enfrenta o seu mal de cada dia, sendo responsável por si mesmo, muito embora aqui ou acolá se surpreenda “roendo as unhas” , memória do desmame e interdição materna mediada pela autoridade paterna.
Foi esse “desejo vedado” de voltar ao colo da Mãe, que incutiu nas civilizações o vigor pela criação, pelas artes e ciências, testemunhos que são, da dádiva de amor femininamente incutida em nosso inconsciente.

O catolicismo significou a volta disfarçada da Grande Mãe, que havia sido derrotada por Jeová. O espírito da Grande Mãe é representado pela terceira pessoa da santíssima trindade, cujo símbolo é uma “Pomba” que desce sobre o homem para saciá-lo da fome do leite materno. A missão desse arquétipo feminino sob a forma de “Igreja”, é a de imprimir o anseio de retorno ao colo da mãe primeva.
O Protestantismo negando “Maria Santíssima” como a figura feminina do sagrado (um dos arquétipos estruturantes do inconsciente), voltou-se inteiramente para o Deus Pai, sendo que, para obter o Seu perdão, o fiel Protestante fica dependente da aceitação do sofrimento, à custa da negação ou repressão de sua própria “sombra”.
No catolicismo, o fiel voltou a ser aquela criança eternamente abrigada nos braços da mãe. Para ele conseguir a verdadeira felicidade, não resta outro remédio que recordar aquelas belas intenções que tinha quando era pequeno, antes que o Ego tivesse a oportunidade de se manifestar, antes que a personalidade se tivesse formado, quando ainda dava os primeiros passos.

5. O FEMININO EM FREUD E JUNG
Freud chama a atenção para a imensa ambivalência da união Mãe filho. Essa união dual inteiramente imaginária, fusiona-se numa mônada, sem abertura para a alteridade. Além do mais, nela, o amor infantil é um amor sem medida que não se satisfaz com fragmentos, estando fadado à decepção. Daí, segundo Freud, a lei do Pai ao proibir a posse da mãe, primeiro objeto de desejo, é responsável pela função primordial fundadora de nossa cultura paternalista autoritária. A ordem materna no sentido freudiano remete à religião do filho, e, portanto, ao cristianismo, e a ordem paterna à religião do pai, isto é ao judaísmo.

Jung, diferentemente de Freud, valeu-se de uma rica simbologia mítica para definir o complexo feminino do inconsciente pessoal, denominando-o de “ANIMA” representado pela figura materna específica. “Anima” se expressa universalmente como mãe natureza, ventre materno, deusa de fertilidade, provedora de alimento; enquanto “ANIMUS, o complexo masculino”, como arquétipo de pai, se personifica em mitos e sonhos como dirigente, ancião, rei. Como legislador fala com a voz da autoridade coletiva e constitui a personificação do princípio do logos: sua palavra é a lei. Como Pai nos céus, simboliza as aspirações espirituais do princípio masculino, ditando sentenças, recompensando com bem-aventuranças e castigando com trovões e raios.
A abordagem de Jung, em que a face do divino é “Deus-Pai” e “Deusa-Mãe”, deixa transparecer que é nessa relação de completude entre os sexos, de respeito mútuo, interdependência e cooperação, onde reside a alteridade tão almejada que conhecemos através dos estudos da psicologia.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A estruturação feminina que herdamos em nossa gênese edênica continua latente em nosso inconsciente. É das profundezas dessa instância, que o lado feminino se revela com toda sua sublimidade peculiar, a infundir em nós, essa vontade, esse amor de estarmos aqui, todos juntos numa Confraria virtual, como irmãos e filhos desejantes da “Grande Mãe simbólica”, a lutar contra a “castração” do “é proibido pensar para não pecar e ser punido” imposto pela autoridade paterna dos primórdios de nossa formação psíquica. O autoritarismo do homem religioso é fruto do não reconhecimento de sua deusa interior. Ao ver refletida a sua “Senhora dos Prazeres” na pele do outro, ele a exorciza e a reprova, sem saber que está psicologicamente mutilando a sua própria carne.

Por Levi B. Santos
Guarabira, 16 de maio de 2009
OBRAS CONSULTADAS:
1. O Corpo da Deusa - de R. Polack – Editora Rosa dos Ventos
2. Mulheres, Sexualidade e a Igreja Católica – de Uta R. Heinemann – Editora Rosa dos Ventos
3. A Civilização do Ocidente Medieval - de Jacques Le Golf – Editora EDUSP
4. Bíblia Sagrada (Livro de Jeremias e Evangelho de Lucas)
5. Dogma Cristão - de Erich Fromm – Editora Zahar
6. O Mito do Significado – de Aniela Jaffé – Editora Cutrix
7. A Família em Desordem – de Elisabeth Roudinesco – Editora Zahar
8. Psicologia e Religião – de C. G. Jung – Editora Vozes.
9. Freud e a Sociedade – de Yannis Gabriel – Editora Imago


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