domingo, 12 de dezembro de 2010

UM DIÁLOGO INUSITADO


Por Levi B. Santos

Os homens acalorados, emotivos, violentos, sensíveis estão em cena. Esse espetáculo ou peça vem sendo repetida, diariamente, no palco da vida, desde os mais remotos tempos.
O ator, como um observador contínuo das sensações dos componentes que formam a plateia, sobe ao palco já sabendo que ele não é ele quando representa. Às vezes, ele cede, e as lágrimas que escapam dos seus olhos são verdadeiras...
O ator:
Caro espectador, quero que saibas que o que irás ver e enxergar em minha apresentação, é o que estou perseguindo encontrar.

O espectador:
De onde vêm essa tua inspiração e esse teu desempenho perfeito que me fazem delirar de entusiasmo?

O ator:
Sou um estudioso dos grandes modelos humanos. Conheço bem o que faz ri e o que faz chorar. Aqui em meu templo posso até injuriar alguém sem temer a sua vingança. Aqui o espectador se vê refletido na minha experiência e, através do meu papel, se torna consciente de algum aspecto dele mesmo, do qual não tinha consciência ou não tinha sido informado antes.

O espectador:
Não te perturbam aqueles que te criticam ferinamente?

O ator:
Nada disso incomoda-me. Não sou acusado pelo que sou nem pelo que tenho, mas pelo que apresento como inerente a cada indivíduo que me assiste.

O espectador:
Quer dizer que és imune à opinião alheia?

O ator:
A única maneira de superar essa tolice é rir do absurdo de sua ingenuidade. Quando representamos não somos o que realmente somos, na verdade, nos tornamos uma caracterização da pessoa que deveríamos ser.

O espectador:
Não entendo como vives incansavelmente por meses a fio a repetir as mesmas emoções, com o mesmo calor e obtendo o mesmo sucesso?

O ator:
Vejo a plateia como vejo o mundo. Tudo que se passa nesse palco são expressões da alma de todos que me assistem. Como imitador autêntico jamais enfraqueci em minhas apresentações, pois, sinto pelas janelas da alma, que são os vossos olhos, a recepção carente de vossos corações. É preciso ter discernimento e tranqüilidade para captar a sensibilidade da platéia, e poder assim, reverberar o que ela deseja inconscientemente, para realização do seu gozo imaginário.

O espectador:
Em que diferirias dos poetas que nos enlevam com seus versos?

O ator:
Por acaso, não seriam os dramáticos poetas, espectadores assíduos do que se passa em torno deles, no mundo físico e metafísico?

O espectador:
Mas o ator envelhece, e aí, continua o mesmo?

O ator:
O ator só se torna ridículo quando as forças o abandonam completamente. Mesmo passado longos anos, o velho ator quando sobe ao palco, a primeira juventude reaparece.

O espectador:
Mas como o ator, mesmo usando infinitas máscaras, tem o poder de atrair tantos?

O ator:
Ora, a platéia vive disso. Camuflamos as partes desejadas e indesejadas de cada espectador, que ri ou chora, ao ver expostas no palco as suas próprias vísceras encobertas. No teatro ele não sente tanta necessidade de se esconder de si. O nosso talento advém do uso perfeito que fazemos de suas fraquezas e ambigüidades. Nos aplausos, o espectador está dizendo: “esse é quem sou”

O espectador:
O que você quer dizer é que o espectador ao assistir a peça, deixa ali todos os seus vícios?

O ator:
Ali no palco e na platéia todos são iguais, o santo e o pecador, o bom pai e mau pai, o amigo e o desonesto. Lá dentro, cada um é imparcial, pois todos se encontram cansados dos seus ofícios. Às vezes, acontece que naquilo que parece ser falso surge o verdadeiro. Entretanto, quando tudo está corrompido, é que o espetáculo se torna mais depurado e agradável.

O espectador:
É estranho!. Saímos de nossos lares, compramos ingressos, enfrentamos filas, para entre quatro paredes rirmos e chorarmos do nosso lado sombrio, reprimido e repudiado por nós mesmos. É lá que retiramos o lacre desse lado de nossa psique, que no dia a dia julgamos excessivamente doloroso e desagradável de aceitar?!

O ator:
Em atenção ao que disseste, eu tiro minha máscara, e em tua homenagem declaro: “adquiriste o requisito principal para ser um bom ator”. Creio que compreendeste que temos de olhar para dentro de nós, a fim de examinarmos os fundamentos de nossa vida, e reconhecermos a nossa SOMBRA, para, enfim, poder conviver com ela, sem culpar ninguém, nem mesmo Deus.
Se quiseres te enfronhar nessa arte, levas contigo esse conselho: “Correrás grande perigo, se te identificares demais com o teu papel”.

CAI O PANO...
Guarabira, 12 de dezembro de 2010
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