sexta-feira, 13 de maio de 2011

Ressonâncias do “Homo Religiosus”




Mircea Eliade, em seu livro — “O Sagrado e o Profano”, afirma que o “homo sapiens” é antes de tudo “homo religiosus”. Para ele, a religião existe até mesmo para aqueles que dizem não ter religião. Alguns antropólogos torcem o nariz para tal afirmação, uma vez que vêem, em sua concepção, uma sociedade ocidental caminhando para uma total dessacralização.
Segundo Silas Guerreiro, mestre em Antropologia e chefe do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da PUC/SP, Eliade vai mais fundo na sua argumentação: ele diz que, “na modernidade, o sagrado aparece camuflado em movimentos que se dizem laicos ou até anti-religiosos, como algumas organizações ambientalistas”.
Segundo Silas, há autores que vêem na instituição do mercado, um forte componente religioso. O mercado assume o valor de entidade absoluta, invisível, que tudo regula. Os investidores têm fé nessa força, senão ninguém arriscaria seus recursos em algo que o futuro trará benefícios. Os shopping centers — templos do “deus mercado" — vem desempenhando a função outrora atribuída às catedrais. Quase todo mundo a de convir que algumas missas (e cultos) viraram lazer e aeróbica. A propaganda vende não só a mercadoria que anuncia, mas um padrão de vida e, principalmente, um pouco de felicidade. Através do consumo, que assume o feitio de oração, nosso paraíso mítico pode ser alcançado agora, mesmo por instantes. Que o digam os pastores do evangelho da prosperidade
Freud, sempre considerou a religião uma espécie de retrocesso aos tempos da infantilidade humana. Em analogia ao que falou o fundador da psicanálise, eu diria que a religião, antropologicamente falando, é sim, um retorno a vida primitiva do homem, uma vez que a magia foi durante os primórdios a única forma de religião.
Para certos estudiosos do comportamento humano, os líderes das seitas pentecostais, à maneira dos antigos magos e feiticeiros, executam esse tipo de regressão e, designando-se como portadores de poderes sobrenaturais manipulam os doentes como se as suas enfermidades fossem forças espirituais maléficas do ar.
Levi Strauss, em seu livro “O feiticeiro e sua Magia”, afirma que “a base dessas técnicas ritualistas, está na “eficácia simbólica”. Não se trata de debater se os rituais têm realmente algum poder curativo, ou se o mundo dos espíritos de fato existe. Ocorre que os rituais são mesmos poderosos, pois os sujeitos trazem para sua experiência com a doença essas referências simbólicas, e elas interferem no tratamento”.
Para nossa mente centrada na ideologia científica fica difícil aceitar um campo de representação simbólica da doença. Mas não podemos negar que o recurso místico traspassa ainda a sociedade atual. É como aquele doente que sofre de depressão, e diz para seu médico: “estou tomando os comprimidos que o senhor recomendou para dormir melhor, mas me sinto mais dinâmico em minha saúde ao aliar a sua terapia aos meus rituais igrejeiros”.
Os antropólogos, em sua grande maioria, concordam em um ponto: O de que a ideologia científica ainda predominante não reconhece essa realidade oculta, insistindo em considerar como ingenuidade pueril, o complexo imaginário reinante no universo psíquico.
P.S.: Fazendo um retrospecto sobre os posts publicados até agora na C.P.F.G, notei que todos, sem exceção, descambam para o lado da religião. A postagem anterior (Alguns Rabiscos Sobre Vontade e Representação) do confrade Márcio, para mim, tinha tudo para sair do trivial, porém...
Dentro do espírito do texto que postei, quero fazer minha, nesse momento, a interpelação do confrade Bill, em seu primeiro comentário ao ensaio do Márcio:
“Mas por que diabos o assunto desandou pro mito cristão? Não era sobre Schopenhauer?”
Passo a bola para vocês... (rsrs)

Imagem: revistaaquiles.blogspot.com
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