terça-feira, 7 de junho de 2011

Liberte-se do auto-engano!


“e conhecereis a verdade,
e a verdade vos libertará”.

(Evangelho de João 8.32; ARA e BJ)

Uma das citações bíblicas que muito me entusiasma é esta passagem do 4º Evangelho onde supostamente Jesus teria dialogado com os judeus que aceitaram a sua mensagem somente no plano intelectual. Embora eu entenda que não se trate aqui de um dito original do judeu Iehoshúa ben Iossêf, que viveu nas primeiras décadas da era comum, concordo com a afirmação da frase cuja autoria atribuo a escritores gregos anônimos do século II E.C. Claro que de um ponto de vista bem mais amplo.

Se interpretada restritivamente em seu contexto, a célebre citação evangélica vai depender da leitura do verso anterior onde os ouvintes são exortados a “permanecerem” nas palavras do Cristo helenizado, significando a aceitação obediente do ensinamento transmitido pela Igreja. Então, como consequência de uma atitude de acolhimento e prática da orientação dos padres, o devoto conseguiria experimentar a tão sonhada liberdade, a qual, segundo a visão bitolada do cristianismo, tem sido deturpada e mal usada como estímulo ao proselitismo ao se interpretar equivocadamente este verso: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo 8.36).

Confesso que não encontro no contexto anti-semita do 4º Evangelho uma resposta suficiente e satisfatória capaz de permitir desenvolver melhor o sentido da frase sem criar mais uma variante doutrinária do cristianismo. Dos comentários bíblicos que examinei, o que melhor comunicou-se comigo foi uma nota da Bíblia de Jerusalém, mas mesmo assim a explicação não foi elucidativa, o que me levou a afastar-me da exegese bíblica afim de tentar refletir de uma maneira mais ampla usando os próprios neurônios. Só que, ainda assim, quero compartilhar um pouco do que cheguei a pesquisar:


“A verdade é a expressão da vontade de Deus a respeito do homem, tal qual nos foi transmitida por Cristo (8,40.45; 17,17). Nós a 'conhecemos' no sentido (semítico) que ela habita em nós (2Jo 1-2), como um princípio de vida moral: 'caminhamos' (= vivemos) segundo suas diretivas (3Jo 3-4; Sl 86,11), 'fazemos a verdade' (3,21; 1Jo 1,6; cf. Tb 4,6), i.é, agimos em conformidade com aquilo que ela exige de nós. Ela se opõe portanto ao 'mundo' (1,9+) como uma espécie de meio ético: aqueles que pertencem ao 'mundo' só podem odiá-la (15,19; 17,14-16), aqueles que são 'da verdade' obedecem à mensagem de amor que Cristo nos transmitiu da parte de Deus (18,37; 1Jo 3,18-19). Eles são santificados pela verdade como também pela palavra de Cristo (17,17; 15,3). Uma vez que essa verdade nos é dada por Cristo, este pode afirmar que ele é a Verdade que nos conduz ao Pai (14,6+), assim como, depois de sua volta para junto do Pai, é o Espírito que, conduzindo-nos em toda a verdade (16,13), será a Verdade (1Jo 5,6), ou o Espírito da verdade (14,17+).” (Comentários extraídos da BJ)


Como é possível observar, a teologia cristã deixa a desejar sobre a operação do poder libertador da verdade. E, fazendo uma proposital desconstrução doutrinária, busco então pelo método indutivo meditar pessoalmente no assunto, coisa que tem me levado a promover o despertamento das pessoas. Não focando num mero esclarecimento informativo, mas sim na aceitação da realidade, o que nos leva a romper com o auto-engano mental. Logo, basta pensarmos em exemplos do que pode significar o “desconhecimento” da verdade.

Além do fanático religioso que ilude a si mesmo ao permitir que um sacerdote decida por ele sobre suas escolhas existenciais, penso também no correligionário político, no alcoólatra que recusa a admitir a impossibilidade de tomar o primeiro gole ou na esposa traída que se recusa a pedir a separação do marido alimentando expectativas de que um dia ele retorne para casa. E, neste sentido, não podemos nos esquecer que as instituições religiosas contribuem nocivamente para que o devoto , em algumas hipóteses, permaneça debaixo do engano.

O exemplo da mulher chifrada seria um dos mais comuns que lota os confessionários e gabinetes pastorais, sendo que raramente um ministro eclesiástico incentiva que a esposa em tal situação valorize a sua dignidade feminina separando-se de vez do cafajeste afim de partir para um novo relacionamento. Na prática, vários pastores charlatões usam situações deste tipo como iscas e chegam a dar conselhos ridículos como? “minha filha, você precisa orar mais a Deus para trazer de volta o seu marido. Faça a corrente da libertação e comece a campanha dos doze apóstolos que Jesus vai te abençoar”.

Igualmente um pai de santo apresenta como sugestão a pessoa fazer um “trabalho” para que o marido seja afastado da amante. Trata-se de um tipo de solução mágica e de grande aceitação na cultura popular brasileira, em que a vítima, deixando de intervir no mundo real, busca um auxílio da metafísica afim de que os orixás briguem em seu favor.

Contudo, há outros tipos de engano como a repressão moral que tanto a religião como a sociedade impõem. Seria a hipótese de um padre mais esclarecido, ao invés de recomendar rezas para Santa Rita (a padroeira das causas impossíveis), incentivar a esposa traída a tomar uma atitude refletida debaixo de falsos dilemas. Apelando para uma ideia falsa de santidade, o sacerdote orienta a mulher que suporte a situação, privando-se de um outro relacionamento e de prazeres sexuais, apontando como justificativa não só que o divórcio seria pecado como também enaltecendo a virtude de que a mãe proteja a família: “Seja corajosa como foi Maria, minha filha. Se você separar-se de seu marido, os filhos podem sofrer abalos psicológicos com a ausência do pai e a dor da separação...”

Acontece que induzindo a devota a viver com uma mentira, as igrejas cristãs têm contribuído para perpetuar milênios de desigualdade sexual e de patriarcalismo. Isto porque o contrário (a mulher trair o homem) não é conduta tolerada dentro da nossa sociedade latino-americana machista e cheia de preconceitos. Porém, não podemos esquecer que o sacerdote enganador também é enganado.

É claro que em matéria de manipulação religiosa existem falácias ainda melhor elaboradas. Porém, no jogo do poder pela consciência dos crentes, o engano é cometido até dentro das cúpulas das igrejas onde os ministros eclesiásticos sabem muito bem que possuem necessidades e carências como todo homem neste mundo embora vistam máscaras de santos.

Mesmo que os “jogadores” possam estar cientes de que estão sentados em volta de uma mesa de pôquer, no fundo todos estão vivendo com uma mentira e achando que poderão extrair vantagens através daquele sistema de demagogias. Pois, ao invés de se levantarem da “mesa” e fazer um trabalho realmente revolucionário e libertador, onde até o pastor possa ser pastoreado pelas ovelhas, o líder enganador prefere continuar preso na armadilha das dissimulações “blefando” aqui e ali.

Ora, nada melhor do que a realidade para nos tirar do encantado país de Alice. A derrota, a traição dos líderes, as crises econômicas e a própria morte são ferramentas utilizadas pela existência afim de que acordemos das ilusões cultivadas por nós mesmos. E aí percebemos que os ídolos mudos perante os quais nos prostramos não são nada. Inclusive as ideias construídas pela nossa mente acerca da Divindade.

Conhecer a verdade não nos impede de sofrer, angustiar, decepcionar ou morrer. Continuamos a princípio vivendo na mesma situação só que sem alimentarmos o auto-engano. Então, a partir daí, podemos começar a fazer escolhas que nos conduzem rumo a um agir conforme a reflexão da consciência, enfrentando as dificuldades e não mais fugindo dos problemas.


OBS: A ilustração acima refere-se à alegoria do Platão sobre o Mito da Caverna. É datado de 10 de março de 2005 e a sua autoria é atribuída a Mats Halldin, conforme a Wikipédia.
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