sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Lamentos de um tempo perdido




No princípio
eu e Deus.
Caminhávamos juntos ao entardecer
e conversávamos sobre flores e animais.
Banhávamos no rio límpido que cortava o jardim e apostávamos corrida
com tigres e leões e nos regalávamos na cachoeira.
Estar juntos era a alegria que movia nossas vidas.
Tudo era muito simples.
Tudo tinha sentido.
Mas veio a noite escura que nunca antes conhecêramos.
De repente, tudo ficou turvo, já não se podia vislumbrar o sol
E então não o vi mais...
Deus perdeu-se na fumaça do fogo que consumia o jardim.
Fumaça envolvente, irritante, intrusa.
Depois do grande incêndio tudo virou deserto.
O vazio do deserto.
E eu me vi só. Onde fostes? Podes me ver? Gritei.
Não havia mais nós, apenas eu.
Não sei por que ele não apareceu mais, não sei para onde ele foi.
Talvez a relva queimada e os animais mortos o tocaram profundamente
E ele retirou-se para chorar...


Fiz de tudo para encontrá-lo de novo mas  em vão.
Tudo o que eu tinha agora era o sentimento.
Isto bastaria?
Não podendo suportar sua ausência,
tentei pintar sua imagem na parede da caverna mas também foi em vão.
A lembrança da sua imagem tinha-se esvaído...
Longos anos se passaram...
Girou o mundo girou o tempo
Gira mundo sem tempo...
Resolvi: escreveria um tratado sobre ele.
A filosofia seria minha amiga na empreitada.
Compus várias teses
para resolver o porquê da sua ausência.
Tudo que escrevi parecia tão irreal,
tão vazio de significados.
Faltava vida
Faltava aconchego e  acalanto,  
Poesia e magia dos tempos imemorias.
Concluí que não o acharia nas palavras...


A alquimia deveria ser feita.
A metamorfose então se fez em mim.
A palavra tornou-se carne e sentimento e vida.
O que se quer mais quando se tem a vida?


No princípio eu tomava banho de cachoeira com Deus e isso era  tudo.
Devido à escuridão que se abateu sobre nós,
Ele retirou-se para chorar
Para que então
eu pudesse de novo, 
sorrir.

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