sábado, 7 de janeiro de 2012

O silêncio das inocentes








Existe um lado do genocídio dos judeus na Segunda Guerra Mundial que é muito pouco abordado. Eu mesmo tomei ciência da questão ao ler uma entrevista de Rochelle Saidei, autora do livro Sexual violence against Jewish during the holocaust (Violência sexual contra mulheres judias durante o holocausto) onde a autora aborda a violência sexual contra as mulheres judias durante a Guerra.


A principal razão para que se saiba tão pouco dessa drama é que a maioria das vítimas foram assassinadas. Na Alemanha nazista, um ariano não poderia se relacionar com uma judia, pois havia uma lei que proibia tais relações. Mas os soldados  alemães davam um jeitinho: estupravam uma mulher judia e a matava, para não ter problemas com a lei. As que sobreviveram por algum acaso do destino, tinham um sentimento tão grande de vergonha que não falavam do assunto. Elas se calavam pois achavam que isso impediria que se casassem, não queriam que seus maridos soubessem. Em alguns campos de concentração, a humilhação era ainda maior, já que os homens usavam seu poder para dar às prisioneiras algo que lhes garantisse a sobrevivência. Eles trocavam sexo por um pedaço de pão.

Curiosamente, os pesquisadores do holocausto fecharam os olhos para essa questão. Diz a autora que talvez não quisessem ver que as mulheres foram violentadas, que eles não
conseguiram protegê-las e que para alguns estudiosos, retratar o sofrimento das mulheres tirava o foco de que o holocausto era, no fundo, o extermínio de judeus.


Mas não foi somente nos campos de concentração que as mulheres sofreram mas também nos guetos onde havia os conselhos judeus que eram responsáveis por organizar a vida diária. Estes conselhos não tinham o poder que estava nas mãos dos nazistas. Mas acontecia muitas vezes dos nazistas mandar o conselho lhes enviar um número de jovens para serem seus objetos de prazer, e assim, não perturbar o gueto. O conselho, então, tinha que decidir se mandava as meninas ou se todos morriam. E eles as enviavam.


Mas a violência sexual contra mulheres nas guerras é praticamente a regra. Relatos bíblicos comprovam a antiguidade da prática de tomar a mulher do derrotado:


"Quando, na guerra contra os inimigos(...)e tu os fizeres cativos, se vires uma mulher bonita, da qual te enamorares, e a queira tomar por esposa, tu introduzirás em tua casa" (Dt 21).

Mas a questão é que na guerra, o desejo sexual pouco tem a ver com a prática. A violência sexual numa região de conflito, é um ato de poder, uma arma de guerra, covarde, mas eficaz em golpear a moral do inimigo. Joeyta Bose, coordenadora em Londres da ONG Women for Women, diz que o estupro "traz danos de longo prazo, por isso é tão usada por exércitos e milícias. O estupro desumaniza as vítimas e quebra a comunidade".


Infelizmente, a justiça internacional pouco avançou na punição da violência sexual contra mulheres em coflitos. E com certeza, um dos maiores desafios é quebrar o silêncio das inocentes. Isso ocorreu a pouco tempo, antes da gueda do Kadafi na Líbia, conforme reportagem da revista Veja.



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Referência: Revista Época de 18/6/2011
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