quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O Apocalipse do Rodrigo



Um dia, depois dos crentes ditos evangélicos terem orado tanto pela “volta de Jesus” e o “arrebatamento da Igreja”, Deus resolveu atender este pedido conforme a Sua vontade soberana. Mandou que seus anjos Miguel e Gabriel fossem até à Terra pilotando um enorme disco voador e transportassem metade da população para outros planetas. E isto aconteceu numa ocasião inesperada, sem que fosse feriado ou dia “santo” de alguma religião.



Contudo, os evangélicos em sua maioria ficaram bem surpresos com o acontecimento. Quando foram instantaneamente arrebatados para a grande nave, não encontraram apenas pessoas do seu segmento confessional. Além dos católicos, estavam lá cristãos espíritas, gnósticos, homens desviados de igrejas e gente que nunca levantou a mão durante um apelo de conversão a Jesus nos cultos eclesiásticos. Também estavam reunidos muitos judeus, muçulmanos, budistas, hindus, taoístas, xintoístas e seguidores das mais diversas tradições religiosas do planeta. Até ateus poderiam ser encontrados dentre os que tinham sido “salvos”.



- “Não acredito que encontraria a senhora por aqui”, exclamou uma evangélica da Assembleia de Deus quando viu do seu lado uma vizinha umbandista.



Esta prontamente lhe retribuiu:



- “Mas por que, minha filha? Será que o teu Jesus seria tão injusto de me mandar queimar no inferno por toda a eternidade apenas porque não sigo o seu pastor? Sempre amei Jesus a quem chamo de Oxalá.”



Uma comissão de evangélicos e outra de espíritas foram até os anjos pedir explicações sobre o que estava ocorrendo:



- “Gabriel, eu sempre considerei que só os crentes fieis a Jesus seriam arrebatados. Será que vocês não andaram se confundindo ao cumprirem as ordens de Deus? Lembre-se do que Paulo escreveu nas epístolas ao tessalonicenses”, reclamou o representante dos evangélicos.



Porém, os espíritas argumentaram de uma maneira inversa:



- “Anjo, segundo o livro Os Exilados de Capela, vão ser as pessoas ruins que serão expulsas da Terra, não os bons. Como você me explica isto?”



Gabriel respondeu-lhes:



- “Meus amigos, aprouve a Deus fazer a coisa da maneira como está ocorrendo. Ele é o Rei do Universo e faz coisas que nem os anjos sabem o motivo. Agora tratem-se de se comportar. A nave é grande, mas o espaço ficou apertado para caber três bilhões e meio de pessoas e mais um bando de animais no andar de baixo. Aguardem que, em breve, chegaremos a um novo planeta.”



Nisto vieram os hindus afim de se informarem com Gabriel para qual planeta estariam indo:



- “Será que vamos até o planeta de Krishna ou iremos para a terra de algum outro Deus?”, indagaram eles, sendo que ficaram discutindo continuamente entre si a respeito de quando seria o fim da era de “Kali Yuga”.



Enquanto isto, na Terra, houve muita confusão entre os que ficaram. Pessoas queriam uma explicação e não achavam respostas satisfatórias. Houve uma série de atritos, acidentes com veículos, quedas de energia nas cidades, saques em supermercados, brigas e assaltos. Dentre os religiosos que restaram, a grande maioria foi se lamentar como fez um fanático neo-pentecostal:



- “Senhor, por que você me deixou para trás! Todos os dias eu estava na igreja te servindo, jamais atrasava o dízimo, procurava converter novos membros e ainda jejuava duas vezes na semana. Agora não estou mais afim de te servir! Vou aproveitar cada instante fazendo de tudo até você acabar com a Terra. Seu injusto!”



Gente em toda parte chorava. Uns expressavam culpa, saudades pelos familiares que partiram e outros até contentamento:



- “Que bom! Agora temos menos gente no mundo e eu ainda receberei a pensão deixada pela minha mulher. Terei bastante sossego porque meus dois vizinhos do lado também se foram. Vou ver se ganho algum dinheiro nesta crise e ocupo os terrenos deles que, tempos depois, poderei adquirir por usucapião”, pensou consigo mesmo um rapaz ambicioso.



Com o passar dos meses, a situação acomodou-se na Terra e a economia começou a crescer devido a um plano de recuperação proposto em conjunto pelos governos dos países. Só que este desenvolvimento veio acompanhado de mais miséria, desigualdade social, restrições na liberdade do indivíduo, falta de respeito para com o ser humano, degradação do meio ambiente, além de guerras para a indústria de armas ganhar mais dinheiro e novas doenças criadas em laboratório para as multinacionais farmacêuticas lucrarem bastante.



Afim de sufocar revoltas populares em diversos locais, até bombas atômicas foram usadas em cima de algumas cidades e povoados, com transmissão ao vivo pelos noticiários da TV afim de amedrontarem as massas. Se um protesto qualquer fosse organizado, a polícia tinha autorização para meter bala nos manifestantes, bem como prender, torturar e sequestrar. Foi criado um clima de terror psicológico intenso.



Proporcionalmente aos governantes, a crueldade do povo também aumentou. Para divertir a população, lutas mortais foram liberadas e começaram a ser transmitidas pela televisão e internet, lembrando os antigos tempos dos gladiadores do circo romano. Prisioneiros passaram a ser usados em trabalhos forçados e nas experiências científicas, com a possibilidade de serem mortos quando ficassem velhos ou imprestáveis. E qualquer cidadão pobre e considerado inútil estava sujeito a ser eliminado pela polícia, se fosse pego nas vias públicas.



Nas ruas a degradação ética tornou-se patente. Numa fila de banco, dois conhecidos de meia idade encontraram-se e foram conversar enquanto aguardavam a agência abrir:



- “E aí, cara. Como vão as coisas? Teu pai já morreu?”



- “Infelizmente, não. Aquela coisa não morre tão cedo e só me dá trabalho. Não vejo a hora de encontrar o velho durinho no sofá! Desejo isto todas as noites pensando que, quando finalmente a morte dele acontecer, volto aqui e saco tudo o que ele tem na poupança para pagar as dívidas e vou receber os alugueres de cada imóvel.”



- “Cara, sabia que você já pode pedir ao governo para recolhê-lo e aplicar aquela injeçãozinha do adeus Totó lá do centro de zoonoses? Consegui fazer isto no mês passado com a vaca da mamãe e foi super fácil quanto à documentação. Só tive que pagar uma funerária para livrar-me do corpo fedorento dela e também desembolsei uma taxa simbólica recolhida pelo governo já que eles cobram da família pela visita do médico e do psicólogo que fazem a aplicação no veneno na veia do velhinho. Tente agendar uma hora com a assistente social. Vou te passar um email sobre isto ainda hoje.”



- “Amigo, eu já andei pesquisando na internet acerca do assunto. No caso do trapo do meu pai, o governo não autoriza e até pode me punir tomando todos os bens da herança, se eu fizer por minha conta clandestinamente. É que papai tem a propriedade de alguns imóveis e, neste caso, ele é considerado um cidadão útil porque mesmo não saindo de casa consome medicamentos das empresas.”



- “Pô! Que chato! Eu se fosse você procurava ver um daqueles discretos anúncios nas páginas dos classificados sobre matadores profissionais. Fica bem na seção de serviços sem especificar do que se trata. Você liga para o telefone e apenas pergunta o preço e onde encontra o sujeito sem dizer do que se trata para a ligação não ser interceptada. Aí eles vão forjar um assalto na sua residência e se livram do seu pai. Tem muito policial que trabalha com isto nas horas vagas e eles sabem muito bem como fazer a coisa e conseguem por panos quentes na investigação sem que você seja descoberto”.



- “Muito obrigado, amigo. Isto vai me ajudar bastante. Já não suporto mais sentir o cheiro de urina daquele velho dentro de casa e ainda ouvi-lo a todo hora me pedindo água. Pior é que ele faz isto justo quando estou no computador fazendo sexo virtual.”



Nesta hora, passou uma menina por ali e colou no poste o cartaz de publicidade de uma clínica de aborto informando preços promocionais e que assim dizia sugestionando: “Não desperdice sua vida com um bebê te enchendo o saco e tome a decisão certa. Venha nos procurar”. Em seguida, veio um carro de som pela rua fazendo propaganda de uma boate:



- “Esta noite a Strip City vai bombar! Leilão de virgens a partir de quinze mil reais. Teremos a estreia de Samanta. Loira, 12 aninhos, bem no início da puberdade. Venha conferir! Entrada a partir das 23 horas. Clientes vip ganham dez gramas de cocaína grátis! Não percam e tragam seus amigos!”



Enquanto isto, na imensidão do Universo, o disco voador chegou a um planeta selvagem.



- “Será aqui a nossa nova casa, anjo?”, perguntou um rabito ortodoxo a Miguel.



- “Não senhor. Neste planeta ficarão só os índios mais alguns ecologistas e hippies que gostam de viver nus. O restante dos terráqueos povoarão uma planetinha desértico que fica no sistema solar daquela estrela lá. Judeus e árabes não terão muita dificuldade para se adaptar.”



- “E não tem nada para comer e beber nesse outro planeta?”, indagou um mestre budista.



O anjo esclareceu:



- “O outro planeta para o qual a maioria de vocês está destinado a ir nada mais é do que um lugar como ficará a Terra num futuro breve depois que seus moradores se autodestruírem por causa da ganância desenfreada e da quebra de valores éticos. Infelizmente, não deverá sobrar ninguém para contar história pra outra geração”.



Ao prestar a atenção nas conversas entre os anjos e as comissões de religiosos, um jovem naturista, coincidentemente chamado Jesus e que estava na fila do desembarque com os índios, resolveu intervir. Ele não era o Cristo e nem o ex-namorado da Madonna, mas foi corajoso em se manifestar no meio daquelas lideranças todas:



- “Miguel e Gabriel, quero que vocês me mandem de volta pra Terra antes que seja tarde. O céu pra mim não está em lugar nenhum. Ele encontra-se dentro de mim. Por isto, quero fazer a diferença no Universo e tentar amar meu próximo. Se formos para um novo planeta, quem garantirá que nós e nossos descendentes viverão lá em perfeição. Não demorará muito para que transformemos este paraíso num outro inferno. Então é melhor lutar para que o inferno vire céu. E, mesmo que não alcance o êxito desejado, pelo menos terei contribuído para que a consciência do outro seja despertada”.



Ouvindo as sábias palavras daquele jovem, que amava a Deus independente de doutrinas ou de instituições religiosas, todos ficaram admirados, inclusive os anjos. Foi aí que uma mulher propôs:



- “Gente, ainda dá tempo de salvarmos a Terra? O Miguel não poderia dar meia volta a fim de retornarmos o quanto antes?”



Todos apoiaram e os anjos foram falar com Deus. Minutos após, Gabriel convocou uma assembleia e anunciou a resposta divina:



- “Acabei de consultar o Onipotente e o Rei dos reis agradou-se da ideia de vocês retornarmos, ficando a critério de cada um decidir se voltam pra Terra ou se continuam na nave. Aviso, porém, que será preciso ter muita paciência, meus amados. Com a ausência dos justos, a impiedade tomou conta da sociedade mundial e eles constituíram uma nova ordem de governos perversos. É como se a humanidade tivesse retrocedido uns dois milênios na sua história evolutiva fazendo coisas da época de Nero.”



Um padre brasileiro exclamou:



- “Agora entendo o que Deus fez conosco! Ele permitiu que fôssemos arrebatados como Paulo dizia para despertarmos das nossas alienações religiosas. Afinal, foram quase dois mil anos em que a Igreja ficou alimentando expectativas erradas sobre céus, inferno e fim do mundo, deixando de fazer o seu papel na Terra. Mas de agora em diante vou ser um leitor do Leonardo Boff. Viva a Teologia da Libertação!”



Por unanimidade, os arrebatados decidiram retornar para a Terra, inclusive os índios que também compreendiam a importância de participarem da transformação espiritual do planeta. Miguel deu meia volta e foram em direção para a periferia da Via Lactea, rumo ao Sol.



Quando reapareceram na superfície terrestre, já tinham se passado sete anos e o mundo estava vivendo um caos incontrolável com gente se matando pelas ruas e os governantes sem nenhuma sabedoria para conduzir a política. Desde os chefes dos órgãos oficiais até os funcionários mais simples estavam totalmente corrompidos.



Assim, o retorno dos arrebatados acabou sendo uma grande bênção para o mundo. Não demorou muito para que os regimes dos governos caíssem e novas eleições fossem convocadas em todos os países. Os religiosos passaram então a adotar uma nova postura, buscando conscientizar o povo para que buscasse soluções pacíficas no presente e cada qual aprendesse a servir a Deus na sociedade espalhando o amor do Messias por toda a Terra. Ou, em outras palavras, buscando alcançar a consciência messiânica que se realiza na vida amorosa.




CONCLUSÃO



Esta é a mensagem que eu, Rodrigo Luz, dou hoje às religiões do mundo e, principalmente, às inúmeras igrejas do meu país. Estava em minha casa quando então veio-me esta inspiração bem natural. Não me encontrava em Patmos e muito menos fui levado aos céus. Apenas deixei os pensamentos correrem livremente a ponto de escrever este Apocalipse durante os dias de Carnaval, em pleno século 21, usando a imaginação para quem sabe despertar meus conservos sobre as coisas que precisamos fazer pelo planeta.



Digo a todos os leitores deste texto que: se alguém reproduzi-lo e o divulgar, mesmo fazendo modificações (não importa se acrescentando ou suprimindo), vou desejar que Deus abençoe esta pessoa. Afinal, no meu Apocalipse, não existem pragas, nem cálices de ira, anjos tocando trombetas e muito menos um lago de enxofre para queimar as pessoas. Pois quero é que tiremos de dentro dos nossos corações o inferno e vivamos o céu.



Que a graça divina manifestada no Cristo Universal acompanhe a vida de todos vocês!




OBS: A ilustração acima trata-se do quadro O Jardim do Éden do pintor norte-americano Thomas Cole (1801–1848) e foi extraída da Wikipédia. Preferi esta figura do Paraíso do que xolocar imagens sobre o Juízo Final ou coisas semelhantes que só servem para meter medo e coagir. Afinal, o meu Apocalipse é antes de mais nada um retorno às origens edênicas existentes no nosso interior.
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