terça-feira, 9 de julho de 2013

Memórias em guerra



O texto ficou um pouco extenso, mas vale muito a pena a leitura. 

Eduardo Medeiros.


A tensão pairou no ar anos atrás durante uma palestra do historiador Helmut Schnatz. Na plateia, pessoas que viveram o ataque devastador à cidade alemã de Dresden (fevereiro de 1945), relataram que, após os bombardeios, aviões britânicos em voos rasantes teriam perseguido os fugitivos que buscavam refúgio das chamas nos campos à margem do rio Elba ou no Grosser Garten - o grande parque no centro da cidade.


Mas o problema é que os fatos, contradiziam as lembranças. Os bombardeios levantou uma tempestade de fogo e fumaça tão violenta que seria impossível aos pilotos voar tão baixo sobre a cidade a fim de atirar em pessoas em fuga. A análise dos planos de ação da aviação britânica e de diários de bordo não oferecia nenhuma prova de uma caçada humana como as pessoas recordavam de forma tão vívida. Schnatz considerou aqueles voos rasantes um mito - mas um mito que permanece na lembrança de muitos habitantes de Dreden. 


A verdade é que as lembranças de um fato podem ser complexas e contraditórias. Outro caso curioso: durante a campanha eleitoral de 1980 para a presidência dos Estados Unidos, o então candidato Ronald Reagan, com lágrimas nos olhos, contou sua experiência como pára-quedista na Segunda Guerra: o piloto de seu bombardeio teria convocado a tripulação a saltar, depois de o avião ter sido atingido. Contudo, um artilheiro apresentava ferimentos tão graves que não tinha como deixar o avião. O heroico capitão lhe disse: "Não tem importância, filho. Se é assim, levamos juntos este caixote lá pra baixo".


O problema na narrativa do ex-presidente americano é que sua lembrança não era algo que ele próprio tinha vivido, mas era a cena do filme Uma asa e uma prece, de 1944. Mas Reagan tinha plena convicção de estar dizendo a verdade. O mesmo acontece com as testemunhas oculares do bombardeio a Dresden: embora equivocadas, suas lembranças têm forte conteúdo emocional. São memórias tão importantes que aqueles que vivenciaram os fatos não admitem perdê-las, tampouco os sentimentos a elas vinculados.


Paradoxal é, no entanto, a probabilidade de que esse seja também o motivo das múltiplas reformulações pelas quais passa aquilo que se viveu. Cada evocação de uma lembrança tem por consequência seu novo armazenamento. E é arquivado também o contexto de cada situação rememorativa, o que faz com que a lembrança original seja enriquecida de novas nuances, corrigida ou centrada em determinados aspectos, podendo mesmo ser reescrita.


Então, todo aquele que conversa sobre certas experiências com outros participantes desses mesmos acontecimentos terá sua visão retrospectiva fortemente influenciada por seus interlocutores. Em vivências tão drásticas como uma guerra, um fenômeno tem sido observado pelos pesquisadores sociais que é a padronização das lembranças, que assumem um formato comum, rememorado por todos. É a conclusão que chega a historiadora Joanna Bourke, do Birkbeck College, de Londres. É quase como se numa determinada fase de um guerra, todos os participantes vivessem a mesma coisa.


Geralmente são fatos extraordinários que geram as falsas lembranças. Membros de uma mesma base militar bombardeada, por exemplo, formam uma comunidade de lembranças que são trocadas, modificadas e reconfiguradas até que todos disponham de uma base semelhantes de histórias. Embora repousem sobre um fundo de experiência similares, são muitas vezes falseadas, reinterpretadas e geradas no processo comunicativo - assim conclui a historiadora.


Ao narrar sua história, no cérebro dos soldados ou das vítimas das bombas há mecanismos em ação que neurobiólogos e psicólogos apenas começam a entender. Sabe-se hoje que informações, episódios isolados e mesmo todo o desenrolar de acontecimentos podem ser integrados a conteúdos preexistentes  da memória. As "falsas lembranças" podem se alimentar das fontes mais diversas, para além daquilo que efetivamente se viveu: histórias de outras pessoas, romances, documentários ou filmes e mesmo aquilo que se sonhou ou fantasiou. Esse fenômeno se chama "amnésia da fonte". Com o avanço da idade, intensifica-se essa propensão do cérebro a lembrar-se das experiências de outros como parte da própria biografia.


O intrigante nessas lembranças "adquiridas" é que elas se apresentam "bastante vívidas aos olhos, como se tudo tivesse acontecido ontem" - como é o caso das testemunhas do bombardeio a Dresden, no final da Segunda Guerra. A representação visual de acontecimentos passados possui enorme força subjetiva de persuasão.  


E importante: acontecimentos deixam-se incorporar em nossa própria história tanto mais facilmente quanto melhor se encaixam no panorama da nossa disposição psíquica. Outra questão: as pessoas não se lembram das coisas da mesma forma, qualquer que seja sua idade. A memória autobiográfica demanda de início um longo período de desenvolvimento: ela surge apenas aos 3 anos - tudo que foi vivido antes sucumbe à chamada amnésia infantil. A memória autobiográfica só se desenvolve por completo no final da adolescência.


Pode haver uma explicação simples para o fato de testemunhas de uma época por vezes lembrarem-se do que viveram de modo bem diferente do que comprovam os fatos históricos. Essas pessoas talvez não estejam negando ou "recalcando" o passado. Antes, têm dele uma ideia de forte coloração emocional, que não se deixa alterar por aquilo que vieram a aprender depois - ou admite modificações apenas em pequenas medida.


Por fim, tudo isso nos mostra que história e memória são duas esferas fundamentalmente distintas. Enquanto a escrita da história busca uma verdade o mais objetiva possível - tendo para tanto desenvolvido técnicas de interpretação das suas fontes -, a memória relaciona-se sempre à identidade daquele que lembra. E recorda-se o que é importante para si mesmo e sobretudo para o próprio presente.


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postagem condensada de um artigo publicado na revista Viver Mente e Cérebro de janeiro de 2006

Ilustração: Desenho original do caderno Visões de guerra 1940-43, aquarela e grafite sobre papel de Lasar Segall(1891-1957)
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