segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Eu Não Consigo Ser Ateu

por Matheus De Cesaro

“Diz o Insensato em seu coração: Não há Deus”

Salmos 14:1

O “Não Consigo Ser Ateu", surge de uma busca frustrada em se tornar um descrente. Uma busca norteada pelos mais variados conceitos filosóficos e teológicos que em um período de 15 anos fizeram parte de minha existência. Eu nasci e cresci em meio a uma família um pouco distante do conceito mais apropriado de “família”. Logo no inicio da minha pré-adolescência, perdi de maneira súbita meu pai, um homem que fora castigado pelas suas más escolhas, e nos deixará por herança as consequências do que havia feito de sua vida. Meu pai, nunca fora um homem mau, desprovido de decência, honestidade ou consciência, mas infelizmente, sua razão, havia se perdido em seus desejos e sentimentos confusos e complexos. Pouco tempo após sua morte, tomado de um sentimento de derrota, fracasso e desespero, fui me tornando um adolescente revoltado, sem expectativas e esperanças na vida. Tinha todos os motivos naquele momento para não crer em um Deus bondoso e rico em amor, como mencionavam algumas pessoas, tentando acender em mim uma chama de esperança, até então inexistente. Já aos 13 anos, as drogas começaram a fazer parte do meu cotidiano de maneira muito acelerada, o que resultou na dependência química. Aos 14 anos, sem ter outra saída, fui levado a cidade de Três Coroas no Rio Grande do Sul, na finalidade de realizar um tratamento, foi a primeira de muitas internações, na busca de vencer a dependência. Mas o que importa neste momento, não é a trajetória de minha luta contra a adicção, e sim o meu primeiro contato com uma experiência espiritual, religiosa, mística e porque não dizer com Deus. Foi ali, em um Centro de Reabilitação para Dependentes Químicos que pela primeira vez ouvi um conceito acerca do que era Deus, do que era o cosmos e do que representávamos no universo. É óbvio, que se tratava de uma fundamentação cristã, e sendo assim, tudo me direcionava a bíblia e ao cristianismo, e o que ela dizia. 



Durante os três meses que fiquei neste CT acabei por tomar gosto pela leitura, e me tornei um leitor compulsivo, curioso e questionador. Comecei a perceber, que o mundo, estava rodeado de fatores que estavam acima de minha visão limitada e egoísta de bem estar. Comecei a perceber situações, momentos, atitudes e acontecimentos de forma menos tendenciosa e singular. E acabei me apaixonando pelos mistérios que envolvem nossa existência. O “Não Consigo Ser Ateu”, não é uma defesa de fé, e muito menos um desprezo ao ateísmo (até mesmo porque seria um ignorante se assim me portasse), muito pelo contrário, trata-se de uma argumentação reflexiva, uma argumentação teórica, onde busquei aliar “razão e fé” na compreensão deste milenar conflito que ultrapassa gerações.

Em meio a tudo que presenciamos em nosso cotidiano, não há possibilidade de negarmos que vivemos em um mundo em constantes conflitos no que diz respeito, a questões politicas, filosóficas, religiosas e cientificas. Não podemos fugir destas supostas certezas, e das reais incertezas. E entre estas questões há uma discussão que ultrapassa milênios, que percorre eras e mesmo em meio as mais diversas conceituações e as mais malucas definições não perde o seu mistério devido as incontáveis incertezas que surgem, e muito menos sua força e a intensidade com que se discute. Falamos acerca de "Deus", falamos daquele que alguns dizem ser o criador, como os criacionistas, falamos daquele que alguns dizem ser tudo, como os panteístas, falamos daquele que é tido como uma energia, falamos daquele que alguns como Friederich Nietzsche e Ludwig Feuerbach, dizem ser uma invenção, falamos de um ser que segundo Carl Jung é uma necessidade para amenizar os desprazeres da vida, falamos daquele que Sigmund Freud diz ser um delírio, uma ilusão, fruto da imaginação ou ainda uma carência, ou daquele que Mikhail Bakunin afirma ser uma prisão. Enfim, a discussão continua aberta, e realmente, talvez em vida, não consiga definir de forma concisa, clara e sem que haja duvidas uma definição absoluta sobre Deus. 

Já estudei e li definições que se sustentam somente por fé, outras que aliam a razão a fé, como Anselmo em seu conceito antológico, já pesquisei o suficiente para perceber que não há como  crer na existência de Deus sem recorrer a expressão das caricaturas. Pois se este Ser que aqui estamos denominando como Deus devido a cultura que recebemos, existe, Ele possui características, e estas por sua vez são idealizadas por caricaturas, algumas exageradas, algumas sem sentidos e noção, outras equivocadas, enfim, tudo o que o homem supõe saber, sendo Deus pessoa ou não, se da pelas caricaturas que desenvolvemos. O contrario destas ideias ao meu ver caracterizam a sua inexistência, e mesmo que venhamos recorrer a filosofia, a teologia natural ou até mesmo nossa consciência interna e particular, acabaríamos nos submetendo a uma espécie de caricatura para então pela caricatura chegar ao Ser. Logo, entendo que se Deus realmente for um Ser que não se pode ser estudado e caracterizado, logo, ele não existe. Mas a lógica Anselmiana descarta essa hipótese, pois equilibrando fé e razão ele desenvolve seu argumento, tendo a imagem do Ser no intelecto, o que nos permite estuda-lo e pesquisa-lo. Mas, mesmo que utilizássemos somente a fé para defendermos sua existência e pessoalidade, teríamos que criar uma caricatura, pois a fé é um elemento que necessita de outro elemento para se caracterizar, e se Deus no caso é esse elemento, logo ele deve ter atributos e características que lhe definam. Enfim, parece que em qualquer crença ou idéia que defendamos, somos como que reféns das caricaturas e imagens que criamos do Ser, a não ser que venhamos defender a sua inexistência.

Durante um período da minha vida, tentei com todas as forças aderir ao ateísmo. Pesquisei, analisei, comparei e me debrucei sobre as mais variadas teorias existentes, como o darwinismo, o niilismo, o agnosticismo, o existencialismo ateísta, e também acabei por perder um pouco do meu tempo analisando o neo-ateísmo que surge em nosso tempo de forma tão crescente, e avassaladora.

Talvez meu nível de preguiça não me permita ser ateísta, e simplesmente creditar ao nada, e ao acaso, o cosmos, o homem e tudo que possa existir. Não sei se esta comodidade, sustentada por este pensamento se encaixa com o que penso. É claro, que posso estar completamente errado, mas enquanto não encontrar nada que me convença, continuo de forma convicta, crendo em um Ser Inteligente, Criador, e que nada maior minha mente pode conceber como supôs Anselmo, ou ainda a Força Inicial Motora como nos definiu Tomas de Aquino.

Meditando em alguns textos sobre "argumentação ontológica", e algo me chamou a atenção em relação ao que o Felipe Pondé afirma no Guia Politicamente Incorreto da Filosofia sobre o ateísmo e o neo-ateísmo. E, fui obrigado a concordar com ele, quando diz ser o ateísmo, entre todas as hipóteses sobre o universo, a mais fácil e simples, sendo até cômodo demais ser ateísta. Ironicamente, ele diz que até um "golfinho" pode ser ateísta. E de fato, é muito mais cômodo pensar que tudo surge do acaso, do que crer em uma Força Inteligente e buscar compreende-la.

Observe o que dizia Santo Anselmo ainda no século XII:

"Ainda não apenas tudo o que é bom e grande é assim em virtude de uma única e mesma coisa, mas parece também que tudo o que existe, exista devido a uma e mesma coisa. Com efeito, tudo o que existe ou provém de algo ou deriva do nada. Mas o nada não pode gerar nada e sequer é possível pensar que algo não seja gerado senão por algo. Portanto, tudo o que existe só pode existir (gerado) por algo. Assim sendo, tudo o que existe é gerado ou por uma causa só ou por muitas. Se por muitas, elas, ou convergem num principio único pelo qual todas as coisas existem, ou existem por si, ou criaram-se mutuamente. Mas se muitas coisas procedem do mesmo principio já não tem origem múltipla e sim, única, e se existe cada uma por si mesma, deve-se supor, então, a existência de uma força, ou natureza, que possui propriedade de existir por si, da qual as coisas tiraram a propriedade de existir por si. Neste caso, porém, não resta dúvida de que são aquilo que são devido aquela causa pela qual possuem a propriedade de existir por si mesmas. Portanto, é mais acertado dizer que existem todas por um principio do que por vários, pois sem ele, não poderiam subsistir."


É complicado, analisar a complexidade do universo partindo da ideia do acaso. É muito simples, contemplar toda esta engrenagem, milimetricamente calculada, e negar que haja uma força no controle e na sustentação do cosmos. Crer que tudo isso se da simplesmente por meio de um “bum”, não combina em nada com o que esta diante dos nossos olhos...

Fragmentos da Introdução de "Eu Não Consigo ser Ateu" , de própria autoria
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