quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Conceito de Expiação Posto em Cheque


Conceito de expiação posto em cheque

Carl G. Jung, em seu livro “Resposta a Jó”, alude duas teorias medievais em relação à expiação.  

Segundo Jung, o conceito tradicional da obra de redenção corresponde a um modo de pensar unilateral, quer o consideramos como puramente humano ou desejado por Deus. Existe um outro ponto de vista segundo o qual a obra da reconciliação não é o pagamento de uma dívida, mas a reparação de uma injustiça divina cometida contra o homem. Abelardo, teólogo cristão do século XI tinha pensamento parecido.

Esta concepção, prossegue Jung, parece-me corresponder melhor às verdadeiras desproporções. O cordeiro pode turvar a água de que serve o lobo, mas não pode causar nenhum outro dano a este último. Assim, a criatura pode decepcionar o criador, mas dificilmente será capaz de causar-lhe uma injustiça dolorosa. No entanto, está em poder do criador fazê-la contra sua criatura. Mas com isso não estamos cometendo uma injustiça contra a divindade.

Muito pior do que isso seria considerar que a única maneira possível de aplacar a ira do Pai tenha sido a de que este submetesse o Filho ao martírio da cruz até a morte. (modelo de expiação proposta por Anselmo, que mais tarde recebeu alguns retoques de Calvino e que passou a ser chamada de expiação pela substituição penal) Que Deus seria este que preferisse imolar o próprio filho a perdoar com magnanimidade as suas criaturas, mal aconselhadas e desencaminhadas por Satanás?

Que pretenderia demonstrar com este sacrifício cruel e arcaico do Filho? Porventura seu amor? Já que sabemos, que Javé tem a tendência de empregar meios, tais como a morte violenta do filho ou do primogênito, como teste, ou para impor sua vontade, embora sua onisciência e onipotência não tenham necessidade de procedimentos assim cruéis, além de dar, com isto, um péssimo exemplo aos poderosos.

Rubem Alves, outro crítico feroz ao modelo vigente, é ainda mais categórico quanto à sua insatisfação quando diz: A teologia cristã ortodoxa, católica e protestante, excetuada a dos místicos e hereges, é uma descrição dos complicados mecanismos inventados por Deus para salvar alguns do inferno, sendo o mais extraordinário desses mecanismos o ato de um Pai implacável que, incapaz de simplesmente perdoar gratuitamente (como todo pai humano que ama sabe fazer), mata o seu próprio Filho na cruz para satisfazer o equilíbrio de sua contabilidade cósmica. É claro que quem imaginou isso nunca foi pai. Na ordem do amor, são sempre os pais que morrem para que o filho viva.


Concluímos assim que, apesar de todo aparato com que a tradição construiu esse edifício soteriológico, existem lacunas que uma vez preenchidas podem revelar sua fragilidade e levá-lo a ruína. 

Donizete
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