terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Elite agora é palavrão

Um texto da saudosa autora de Memorial de Maria Moura, Raquel de Queiroz, 
escrito no Rio, em 29/09/89






Há palavras que, com o uso, sofrem uma deterioração singular. Perdem o seu legítimo significado original e passam a ter sentido pejorativo ou pior. Uma das vítimas da deformação do uso é a palavra ELITE. Vem da língua francesa onde, segundo o Petit Larousse, quer dizer: "o que há de melhor, de mais notável. Ex: elite da sociedade, tropa de elite". Adaptada ao português, eis o que dela diz o Aurélio: "O que há de melhor em uma sociedade ou num grupo; nata, fina flor; (sociol:) Minoria prestigiada e dominante no grupo, constituída de indivíduos mais aptos e/ou mais poderosos".

Mas hoje, para o jovem sociologismo tupiniquim, a palavra elite virou palavrão. Principalmente os seus derivados: elitismo, elitista. Quando na imprensa se quer elogiar um líder operário ou camponês, explica-se que ele não é elitista. Ou se diz que votar em Antônio Ermínio é elitismo, porque o homem é rico...A verdade, no entanto, é que, se há um elemento essencial para a composição e progresso de uma sociedade, são as suas elites. Ser "de elite" não quer dizer ser um privilegiado, mas ser o melhor. O Lula pode xingar as elites, mas ele próprio é um elemento da elite na sua classe - o que se distinguiu pela inteligência e pelos dotes de liderança. Por isso o PT o fez candidato à Presidência. Quando você fala em "tropa de elite" não se refere a soldados oriundos das classes ricas, mas a homens da alta classe profissional, exaustivamente treinados, capazes de enfrentar situações difíceis com competência e técnica. 

Socialmente falando, a elite ou as elites não são os figurantes das colunas sociais, são a flor, os melhores, os indivíduos que se distinguem particularmente dentro do seu grupo. O ITA, em São José dos Campos, é uma escola de elite não pelo volume de riqueza de seus alunos, mas graças ao alto nível de preparo exigido, e obtido, desses alunos. (...) Justamente o que está faltando no Brasil é uma atuação organizada das nossas elites que acuda ao país desarvorado. Ou que surjam novas elites dentro dessa grande onda democrática que nos empolga, propiciada pelas eleições para presidente  em novembro. Que venham ocupar o lugar deixado vago por omissão e fadiga das velhas elites nacionais, desprestigiadas pela politicagem, pela cumplicidade com os abusos. Ou banidas pela desesperança do povo. Está na hora crucial de uma nova geração, de elite autêntica, tomar o timão do barco e o levar a bom porto. E que os anjos digam amém. 
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