quarta-feira, 17 de junho de 2015

Sociedade e governo justos



"Eis aí está que reinará um rei com justiça, e em retidão governarão príncipes. Cada um servirá de esconderijo contra o vento, de refúgio [abrigo ou cobertura] contra a tempestade, de torrentes de águas em lugares secos e de sombra de grande rocha em terra sedenta. Os olhos dos que vêem não se ofuscarão, e os ouvidos dos que ouvem estarão atentos. O coração dos temerários [precipitados] saberá compreender, e a língua dos gagos falará pronta e distintamente." (Is 32:1-4; ARA)

Na passagem bíblica acima reproduzida, Isaías fala sobre o governo de um justo monarca que, num contexto imediato da época do autor, poderia ser o rei Ezequias, sendo que muitos cristãos logo identificam esse trecho das Sagradas Escrituras como uma das referências proféticas do Antigo Testamento a Jesus de Nazaré (antes de seu nascimento). No entanto, pode-se considerar também que a citação em tela corresponde a um anseio das pessoas íntegras em todos os tempos e lugares, expressando tudo aquilo que desejamos em relação ao nosso querido país.

Talvez alguém venha a dizer que esse trecho do livro de Isaías esteja alimentando a crença num messianismo infantil configurado na vinda de um "salvador da pátria", no sentido de que algum dia teríamos um governante capaz de resolver todos os nossos problemas. Porém, não interpreto a mensagem por este ângulo pois o texto fala de um ministério de homens retos (os "príncipes") e da solidariedade assistencial entre as pessoas. Ou seja, o "rei", que hoje seriam os nossos prefeitos, governadores e a presidenta, não agirá sozinho na promoção da justiça social.

Muitas vezes o povo culpa os governantes pelo fracasso dos projetos coletivos, mas há um esquecimento de que todos têm uma parcela de responsabilidade pelos resultados em maior ou menor grau. E, numa democracia participativa, na qual somos chamados para contribuir com propostas e opiniões, tornamo-nos ainda mais responsáveis! Até mesmo porque hoje em dia é a população quem elege os seus legisladores e gestores diferentemente de uma monarquia absolutista da Antiguidade, valendo afirmar que o cidadão frequentemente se corrompe a ponto de trocar o seu apoio político por benefícios individuais tais como o recebimento de dinheiro, a nomeação para cargos públicos, a obtenção de emprego para algum parente, a solução de um problema pendente da prática de atos oficiais, o favorecimento em negócios institucionais, etc...

É compreensível que um ser humano vivendo em estado de necessidade, debaixo de um condicionamento escravizador, encontre dificuldades de pensar no bem estar do seu próximo quando o mesmo precisa salvar primeiramente a sua pele. Contudo, a partir do momento em que uma sociedade se direciona por interesses egoístas, ou sucumbe ao comodismo paralisante dos prazeres, ocorre um adoecimento coletivo capaz de criar um ambiente generalizado de injustiças. É o que estamos vivendo hoje neste país em que, apesar de algumas exceções, cada qual quer cuidar mais de seus próprios negócios.

Na profecia de Isaías, embora as adversidades naturais não cessem, eis que o reinado justo vem corresponder à atitude amorosa entre as pessoas de uma sociedade, o que permite ao povo superar os desafios que se apresentam fortalecendo a unidade nacional. Por isso o enfrentamento de enchentes, secas, terremotos, guerras, carestias e de enfermidades abranda-se quando ocorre uma cooperação mútua com os mais fortes socorrendo os fracos na medida de suas possibilidades. Já num país corrompido, as catástrofes e a miséria alheia chegam a ser vistas como oportunidades para os espertos se darem bem em cima de cada necessidade.

Nessas horas, uma sociedade e um governo justos têm olhos para ver e ouvidos para ouvir. Em outras palavras, os anseios dos mais carentes não ficam ignorados. Antes há uma atenção humanitária quanto ao sofrimento do próximo fazendo com que tanto as políticas públicas como a liberalidade assistencial tornem-se ações eficientes para a satisfação das demandas sociais básicas.

Para que tudo isso seja alcançado é preciso ter um espírito compreensivo (verso 4). O "coração", segundo a concepção bíblica hebraica, seria o interior do homem que governa a prática de seus atos externos. Tem a ver com os nossos pensamentos, motivações, intenções, os sentimentos mais íntimos e, principalmente, com a base do caráter, incluindo-se aí a nossa vontade. Logo, se desejamos viver num mundo onde reine a justiça, torna-se indispensável o exercício da compreensão. Em outras palavras, devemos despertar o amor e a bondade existentes dentro da gente procurando nos colocar no lugar do outro que está sofrendo. Só assim é que realmente vamos caminhar rumo a um futuro glorioso construindo um patrimônio ético para as futuras gerações. Do contrário, será tudo enganação política e religiosa.

Um ótimo dia para todos!


OBS: Ilustração acima extraída de http://www.mda.gov.br/sitemda/sites/sitemda/files/imagem_destaque/15840791.jpeg
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