sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Comentário de Eça de Queiroz em 1867




Lendo a edição de hoje do Ex-Blog do César Maia (clique aqui para acessar), deparei-me com essa interessante citação do escritor português José Maria de Eça de Queiroz (1845 — 1900), datada de 1867, a qual foi extraída a partir de outro sítio na internet (Comunicar é preciso), sendo originada do jornal Distrito de Évora:

1. “Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois fatos que constituem o movimento político das nações. A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.
     
2. A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se.
   
3. Todos os desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva. À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (...) todos querem penetrar na arena, ambiciosos dos espetáculos cortesãos, ávidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos da vaidade.”

Ao refletir sobre esse escrito de quase 150 anos atrás, relativo à pátria irmã que nos gerou, encontro muitas semelhanças entre lá e cá . E, se Portugal avançou um pouco, menos pode ser dito a nosso respeito.

Para quem não sabe, Distrito de Évora foi um jornal de Portugal com publicação bissemanária, fundado pelo próprio Eça em dezembro de 1866 do qual era também o seu principal redator. Ali foram publicados vários textos críticos da orientação e atuação política da época, tendo sido a última edição de 1º de setembro de 1867.
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