sábado, 20 de janeiro de 2018

Saudade e gratidão



Por Marina Silva*

Aprendi com meu pai e com minha Vó Julia a gostar das palavras e recorrer a elas quando preciso aceitar grandes perdas (ou ganhos) e contornar grandes dificuldades, talvez porque me recuso ainda a deixar o conforto e a intimidade de sua presença e do diálogo incessante que sempre tivemos, talvez porque sinta que preciso gravar em letras os sentimentos tantas vezes compartilhados e dizer mais umas tantas vezes, obrigada.

Sou grata a Deus pela forma de meu pai ensinar e educar, de forma tão peculiar, a todos e a cada um de nós. E olha que nem preciso contar o mundo de amigos, só em casa éramos muitos: eu, minhas seis irmãs – Deuzimar, a primogênita, Lucia, a Mita, que consideramos nossa matriarca, Dóia, Zete, Socorro – e nosso único irmão, Arleir, nora e genros, com um batalhão de netos, bisnetos e tataranetos, todos alunos dele.

Aprendendo a amar com o amor com que amou.

A respeitar com o respeito que em sua vida praticou.

A valorizar a diferença sendo diferentes e a igualdade sendo iguais, como ele sempre foi.

Em meio a tanto preconceito e desrespeito com as mulheres, meu pai fazia questão de considerar, publicamente, a opinião de nossa mãe. Numa cultura em que ter “fias femes” era quase castigo, ele festejava o nascimento de cada filha, ao todo nove, já que as menores morreram, seis meses antes da perda de nossa mãe – sem deixar é claro, de igualmente se regozijar em ter, entre essa mulherada toda, seu amado requerido filho, já que o segundo havia sido ceifado poucos dias após seu nascimento, a quem  ele fez questão de dar o nome de Antônio Arleir da Silva em homenagem a seu amigo primo que havia ficado em sua distante Mecejana, no Ceará.

Agradeço também por sua inteligente estratégia de nos mostrar os caminhos da justiça. Fazendo contas, ajudando para que marreteiros e patrões não roubassem seus amigos seringueiros “no preço e na conta”, sabendo o risco que corria com essa atitude, ensinando na prática o significado das palavras verdade e justiça .

A conta certa, pudemos aprender, não é muito e não é pouco. É o valor real, é o que tem importância muito além da aparência. Ajudar e defender uns aos outros não é favor nem obrigação, é simplesmente ser gente, irmão de quem come do mesmo pão e respira do mesmo ar, veio do pó do mesmo chão.

Agradeço por ele ter nos ensinado o alfabeto da floresta e a conhecer o valor que ela tinha e tem para além de nossa pequena colocação de seringa.

Onde parecia ter uma mata homogênea, o seringueiro e quase mateiro seu Pedro, via a riqueza de uma magistral diversidade, materializada em tantas árvores, bichos, insetos, fungos, cada um com seu nome e sua serventia. No imenso cipoal de tantas espécies, das venenosas às inofensivas, de ambé, timbó, tracuá, cipó de fogo e de escada, tingui e tantos outros, ele distinguia o valor de cada fio da tessitura da vida. E nos espinhos duros e pontiagudos das tabocas encontrava e traduzia a lição da cautela, a necessidade de andar com cuidado e em tudo ter atenção, como consagra a sabedoria bíblica do livro de Provérbios quando nos insta a ter “a simplicidade das pombas e a sagacidade das serpentes”.

De seu Pedro recebemos no tempo certo, na dose certa, os estímulos e interdições do pai/mãe que soube ser no cuidado de sete filhas e um filho. Tivemos a benção do cuidador suficientemente bom.

Lembro-me de como ele nos ensinou a cortar seringa, partir cavaco, aquecer e defumar o leite cuidadosamente colhido no percurso de mais de sete quilômetros percorridos duas vezes ao dia, nos cinco dias da semana, já que o domingo era o dia de respeitar o descanso do Criador e o sábado era dedicado ao cultivo de arroz, milho, mandioca, jerimum, melancia e feijão, no período próprio de cada estação, em nosso pequeno roçado de subsistência, de acordo com o que era autorizado pelo patrão.

Eram divertidos os dias de plantar. Nosso pai na frente e uma embiricica de filhas seguindo, deitando cuidadosamente as sementes nas covas, sob a supervisão rigorosa de nossa mãe, que nunca baixava a guarda para erros que podiam ser evitados durante o serviço.

Em tudo, em todos os momentos, brotam na minha memória os exemplos de cuidado, carinho, dedicação além dos limites. Só posso sentir meu coração transbordar com eterna gratidão quando lembro de seus esforços para salvar minha vida, para me dar condições de vivê-la com saúde. Imagino-o caminhando no varadouro cheio de lama, pisando nos atoleiros deixados pelos comboios de burros usados no transporte da borracha, subindo e descendo ladeiras íngremes para buscar remédio contra leishmaniose. Naquela madrugada a fora e noite a dentro, o jovem seringueiro Pedro Augusto da Silva, caminhou vinte e duas horas em jornada contínua, onze horas de ida e onze de vinda e graças a esse esforço minha vida foi salva. A ferida que poderia ter tirado minha vida ou mutilado meu rosto tornou-se apenas uma pintinha, até charmosa, bem na ponta de meu nariz. Um sinal de amor.

Agradeço pelas palavras. Agradeço até pela palavra gratidão, que, como todas as outras, aprendi de meu pai, da minha mãe e de minha vó Júlia. Pessoas muito simples que de forma sofisticadamente simples, me ensinaram a cultivar a beleza e poder da palavra dita ou escrita e, mais ainda, a palavra vivida.

Decifrando a dureza e a beleza do dia-a-dia, quer no sagrado chão dos ensinamentos bíblicos, quer na simplicidade lúdica da literatura de cordel, pelo som do verso ou pela letra da prosa compreendi o que significa dizer “nem só de pão viverá o homem””.

Marcou-me para sempre a abertura do cordel da peleja em cantoria entre Romano, letrado em ciência, e o caboclo Inácio, letrado em natureza na vida sertaneja da caatinga:

“Hoje aqui tem que se ver,
Relâmpago de caracol,
O nevoeiro parar,
Dar eclipse no sol,
A água do mar secar,
E pescar baleia de anzol”.

Era um trailer da cantoria que tanto meu pai como a minha avó repetiam para despertar e estimular minha busca por uma palavra sempre nova, uma rima certa e um reconhecimento justo do saber que cada um recebe na vida que lhe coube viver.

Era um trailer da minha vida, em que tenho visto tantos prodígios e tragédias e ouvido a mensagem de tanta gente em tantos lugares para descobrir e reconhecer sempre, a cada volta da estrada, que o ABC de todas as línguas e a chave para entender os eventos deste mundo recebi naquela casinha feita com paxiúba de açaí e palha de jaci no meio da floresta.

Agora o seu Pedro, o seu Pedrinho, como carinhosamente era chamado por seu querido amigo cearense Jaiminho, que igualmente nos deixou um dia após sua morte, repousa em paz, no lugar preparado pelo eterno e amoroso Pai. Eu sigo na lida terrena, pelo tempo que me for determinado, guardando com gratidão tudo o que me legou. E recorrendo sempre, como o faço agora no doloroso momento dessa despedida, à fé que ficou para meu suporte, depositada em um coração de criança. E a esse amor, que é eterno, pois como diz o livro de Cânticos, ”As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam.


(*) Maria Osmarina Marina Silva Vaz de Lima, mais conhecida como Marina Silva, é historiadora, professora, psicopedagoga, ambientalista e política brasileira filiada à Rede Sustentabilidade

OBS: Texto e foto extraídos do blogue da autora onde há uma postagem mais completa com mais imagens e o depoimento de outros membros da família -> http://marinasilva.org.br/saudade-e-gratidao/
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