terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Seu ateísmo não me ofende!




Por Hermes C. Fernandes*



"Se Deus não existe, tudo é permitido"
Dostoiévski 


O Rio de Janeiro é o estado com o maior número de ateus no Brasil. De acordo com dados do IBGE, 7,4% (cerca de 12,5 milhões) da população brasileira declararam-se "sem religião", podendo ser agnósticos, ateus ou deístas. O mundo tem experimentado uma espécie de reavivamento do ateísmo. Artistas engrossam o coro de intelectuais e cientistas que afirmam não acreditar na existência de Deus. O que antes era um fenômeno circunscrito a certas faixas etárias (acima dos 40), agora pode ser verificado até entre adolescentes. Talvez devido ao ateísmo professado atualmente por alguns ídolos teen como Daniel Radcliffe e Zac Efron, astros das franquias cinematográficas Harry Potter e High School Musical respectivamente.

Trata-se, portanto, de um ateísmo fashion, e não do clássico, fruto de uma decepção religiosa ou de uma reflexão filosófica.

Anteriormente, ateus preferiam identificar-se como agnósticos, para evitar o constrangimento causado pela ausência de fé. Hoje, porém, o número dos que se dizem ateístas é ligeiramente maior do que os que se apresentam como agnósticos. Pelo jeito, não há mais razão para sentir-se constrangido. Os primeiros indivíduos a identificarem-se como "ateus" surgiram no século XVIII. Hoje, porém, os ateus saíram de vez do armário.

Boa parte do crescimento do ateísmo atual se deve às incessantes campanhas patrocinadas por grupos ou celebridades ateístas. Entre essas iniciativas, está o livro intitulado em português de “Deus, um Delírio”, de autoria de Richard Dawkins. O livro apresenta a opinião de Dawkins de que a religião tem se tornado um dos males dos tempos modernos.

Existem vários graus e tipos de ateísmo, e cada um deles merece um exame à parte, e uma abordagem diferente por parte da igreja cristã.

Ateus filosóficos são os que se renderam à razão, e por não encontrarem nela qualquer evidência da existência de Deus, preferem simplesmente descrer. Entre eles, há os que não aceitam qualquer argumentação favorável a existência de Deus, fechando-se inteiramente à fé. Porém, há também os que se designam agnósticos, por não terem encontrado ainda um argumento racional que os convencesse, estando, entretanto, abertos a reconsiderarem seu posicionamento.

O caminho usado por muitos teólogos para abordar os ateus filosóficos é a teodiceia, um dos carros chefes da apologética cristã e que consiste no uso de argumentos racionais para confrontar o ceticismo. Pouco sucesso tem sido obtido com esta abordagem, pois os que abraçam este tipo de ateísmo parecem hermeticamente blindados. Muitos ateístas nutrem profunda admiração por Jesus, considerando-o um grande mestre da ética, ou mesmo um revolucionário. Porém, estão longe de admitir sua divindade. Talvez devêssemos, como cristãos, abrir mão da presunção de termos sempre razão e buscar um caminho para os seus corações. Ainda que não deem o braço a torcer e creiam em Deus, ao menos, hão de crer no amor que intentamos expressar.

Em alguns casos, a incredulidade está atrelada à alegação de que acreditar em Deus é para mentes fracas, ignorantes, analfabetos. Ser ateu seria, portanto, uma questão de status. Este tipo de ateísmo não seria fruto de exercício intelectual somente, mas, sobretudo, fruto da vaidade.[1] Tal argumento, entretanto, carece de qualquer fundamento, visto que, em ambas as trincheiras haja gente esclarecida. Grandes vultos da ciência foram pessoas comprometidas com sua fé em Deus. Isaac Newton, pai da física moderna, Roger Bacon, precursor do método científico, Robert Boyle, fundador da química moderna, George Mendel, considerado “o pai da genética”, só para citar alguns nomes. Um dos casos atuais de cientistas teístas que mais chamam a atenção é o de Francis Collins, diretor do Projeto Genoma Humano, um dos responsáveis por um dos mais espetaculares feitos da ciência moderna: o mapeamento do DNA humano.[2] Quando começou a pesquisa, Collins era completamente cético acerca de Deus. Incrivelmente, ele veio a se converter durante o processo. Quanto mais mergulhava na complexidade da estrutura genética humana, maiores os questionamentos existenciais que enfrentava, gerando uma crise profunda que culminou com sua conversão à fé.

Não é raro encontrar quem afirme que seu deus seja o dinheiro, e que Deus seria uma peça desnecessária, e, portanto, absolutamente dispensável. Todos igualmente corremos o risco de em algum momento, elegermos o vil metal como um ídolo, projetando nele nossas esperanças. Por isso, o escritor sagrado nos brinda com uma das mais belas orações registradas nas Escrituras: “Duas coisas te pedi; não mas negues, antes que morra: Afasta de mim a vaidade e a palavra mentirosa; não me dês nem a pobreza nem a riqueza; mantém-me do pão da minha porção de costume; Para que, porventura, estando farto não te negue, e venha a dizer: Quem é o SENHOR? ou que, empobrecendo, não venha a furtar, e tome o nome de Deus em vão.”[3] Bom seria se os pregadores da teologia da prosperidade redescobrissem esta passagem e revissem seu discurso. O fato é que este tipo de ateísmo raso produz pessoas ocas, comprometidas com o relativismo ético, apáticas ao sofrimento alheio, arrogantes e extremamente egoístas.

Há também um tipo de ateísmo ideológico, como o de um amigo sociólogo, militante num partido de orientação marxista. A seu ver, seu ateísmo era uma questão de integridade intelectual e de coerência. Qual foi sua surpresa ao deparar-se com o fato de que seu idealismo convergia com a mensagem subversiva do reino de Deus. Eventualmente, tornou-se num fervoroso cristão.

Uma das primeiras acusações que pesaram sobre os cristãos primitivos era o de serem ateus, razão alegada pelos romanos para persegui-los. Era inconcebível uma religião que não tivesse templos, rituais litúrgicos, sacrifícios. Num certo sentido, todos somos ateus em se tratando de deuses que não cultuamos. Eu poderia dizer que sou ateu de 99,99% dos deuses. Posso até respeitar a qualquer devoção, mas isso não implica acreditar nas mesmas coisas. O único Deus a quem adoro é o que se revelou aos homens na pessoa de seu Filho Jesus Cristo.

Também sou ateu de qualquer divindade fruto da ganância humana, ainda que se apresente aos homens como “Jesus Cristo”. Não foi em vão que Paulo nos admoestou a não receber outro Jesus que não fosse o apresentado pelo genuíno evangelho.[4] Definitivamente, sou ateu de um Cristo genérico, garoto-propaganda de ideologias, vendedor de ilusões no famigerado mercado religioso.

Se há um ateísmo absurdamente nocivo ao ser é o ateísmo prático ou pragmático. Neste tipo de ateísmo, também conhecido como apateísmo, os indivíduos afirmam crer numa divindade, entretanto, vivem como se não ela não existisse. São crentes na teoria, ateus na prática. O apóstolo Paulo os denuncia como os que “confessam conhecer a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a boa obra.”[5] Esta postura revela a falta de caráter de muitos que se apresentam como pessoas de fé, e acabam por torná-las verdadeiras vacinas anti-evangelho.

Em contrapartida, encontramos entre os que se dizem ateus homens e mulheres de caráter ilibado. Gente da envergadura ética da premiada atriz Angelina Jolie que usa sua fama para chamar a atenção do mundo para a situação em que vivem milhares de refugiados de guerra.  É dela a frase: “O mundo precisa de atitudes, não de opiniões. Opinião nenhuma mata fome ou cura doença.

Alguns destes ateus teóricos se revelam cristãos na prática. Só não creem em Deus por não encontrarem razão para isso. Muitos deles abraçaram o ateísmo por causa de uma decepção com a religião organizada. O problema não seria Deus em si, mas aqueles que se apresentam como seus procuradores.

Uns dizem crer, mas no fundo, são descrentes. Outros confessam sua incredulidade e num surto de lucidez e honestidade, afirmam invejar os que professam alguma fé. Um deles é o ator Jack Nicholson que eternizou o personagem Coringa no filme Batman (1989).

Lembro-me de ter assistido à última entrevista do professor Darcy Ribeiro no programa do Jô Soares. Já em seus dias derradeiros devido a um câncer, o antropólogo brasileiro que amava os índios e defendia aguerridamente a educação integral de nossas crianças, afirmou sem qualquer constrangimento que invejava quem era capaz de crer em Deus e na vida após a morte. Em sua sincera opinião, crer conferia uma morte mais digna ao ser humano.

Devo confessar minha admiração por aqueles que, mesmo sem crer, são capazes de viver em função do bem comum, pautando suas vidas na prática da justiça sem com isso esperar por qualquer recompensa após a morte.

Graças a Deus pelos ateus!

Como crente em Deus e em sua soberania, acredito que nada ocorra sem sua permissão. Tudo quanto há, serve a um propósito específico, até mesmo o ateísmo. Permita-me explicar: A crença em Deus estimula a produção científica partindo da dedução de que por trás das leis naturais deve haver um legislador. Porém, esta mesma crença pode inibir o avanço científico quando insiste em atribuir aos fenômenos naturais causas sobrenaturais. Recorre-se a “Deus” para preencher as lacunas existentes no limitado conhecimento humano. Porém, à medida que a ciência vai encontrando respostas, Deus vai sendo empurrado para as margens. Como sempre haverá perguntas cujas respostas nem sempre serão encontradas facilmente, sempre haverá lacunas a serem preenchida por Deus.

E se em vez de direcionarmos nossa crença num “deus tapa-buraco”, passássemos a direcioná-la a um Deus que não fosse ameaçado pelo avanço científico? Um Deus que não perdeu seu trono quando se comprovou que nosso sistema é heliocêntrico e não geocêntrico, também não se sentiria ameaçado por teorias científicas tais como a da evolução. Um Deus que “sobrevivesse” a qualquer descoberta, até mesmo a vida em outros planetas.

Enquanto insistirmos em nos entrincheirar contra a ciência, uma boa dose de ceticismo poderá ser benéfica a fim de que ela siga sua marcha, levando-nos a níveis de conhecimento jamais experimentados.

Tarefa hercúlea é tentar conciliar fé e ciência de maneira honesta. Tal equação só é possível quando compreendemos o lugar de cada esfera. Posicionar-nos radicalmente contra os postulados científicos é adotar uma postura anacrônica, expondo-nos a um vitupério desnecessário. Para evitar isso, basta deixarmos cada coisa em seu devido lugar.

As questões com que lida a ciência são distintas das questões com que lida a fé. A Ciência se preocupa em responder “onde”, “quando”, “como”. Enquanto a fé se preocupa em responder “por que”. Portanto, não cabe à fé especular sobre a maneira como as coisas acontecem, e sim com que propósito acontecem. 

Feito do barro, a Bíblia apresenta o homem poeticamente como um vaso em processo de modelagem. Não vejo razão para duvidar de que a roda usada pelo oleiro para modelar-nos ao longo das eras tenha sido a evolução. Isso não muda o fato de que fomos feitos para o louvor de sua glória.

Tal qual a sábia resposta de Jesus à Samaritana, podemos antever o dia em que fé e ciência caminharão de mãos dadas, deixando para trás os antigos conflitos, e reconhecendo sua dependência mútua. Onde a ciência se cala, a fé se pronuncia.

Vai chegar a hora, e já chegou, em que o mais importante não será se o homem foi feito diretamente do pó da terra, ou se foi fruto de um longo processo evolutivo, mas o propósito para o qual veio a existir.  Vai chegar a hora, e já chegou, em que teólogos e cientistas deixarão suas trincheiras, e unirão esforços para atenuar o sofrimento humano, e prover-lhe esperança de dias melhores.

Sem pretender trazer o assunto para o campo apologético, exponho abaixo uma estorinha cheia de poesia que corre pelas redes sociais e é atribuída a um escritor húngaro cujo nome mantém-se desconhecido.

No ventre de uma mãe haviam dois bebês.

Um perguntou ao outro:

― Você acredita em vida após o parto?

O outro respondeu:

― É claro. Tem que haver algo após o parto. Talvez nós estejamos aqui para nos preparar para o que virá mais tarde.

― Bobagem ― disse o primeiro. ― Não há vida após o parto. Que tipo de vida seria essa?

O segundo disse:

― Eu não sei, mas haverá mais luz do que aqui. Talvez vamos poder andar com as nossas pernas e comer com nossas bocas. Talvez teremos outros sentidos que não podemos entender agora.

O primeiro respondeu:

― Isso é um absurdo. Andar é impossível. E comer com a boca? Ridículo! O cordão umbilical nos fornece nutrição e tudo o que precisamos. Mas o cordão umbilical é muito curto. A vida após o parto logicamente está fora de questão.

O segundo insistiu:

― Bem, eu acho que há alguma coisa, e talvez seja diferente do que é aqui. Talvez a gente não vai precisar mais deste tubo físico.

O respondeu:

― Bobagem. E além disso, se há mesmo vida após o parto, então por que ninguém jamais voltou de lá? O parto é o fim da vida, e no pós-parto não há nada além de escuridão e silêncio e esquecimento. Ele não nos leva a lugar nenhum.

― Bem, eu não sei ― disse o segundo. ― Mas certamente vamos encontrar a Mãe e ela vai cuidar de nós.

O primeiro respondeu:

― Mãe? Você realmente acredita em Mãe? Isso é ridículo. Se a Mãe existe, então onde ela está agora?

O segundo disse:

― Ela está ao nosso redor. Estamos cercados por ela. Nós somos dela. É nela que vivemos. Sem ela este mundo não seria e não poderia existir.

Disse o primeiro:

― Bem, eu não posso vê-la, então é lógico que ela não existe.

Ao que o segundo respondeu:

― Às vezes, quando você está em silêncio, se você se concentrar e realmente ouvir, você pode perceber a presença dela, e pode ouvir sua voz amorosa, lá de cima.

Óbvio que não creio que esta analogia seja capaz de convencer alguém sobre a existência de Deus, a menos que haja tal predisposição. Porém, creio que seja mais fácil alcançar um cético pela via da poesia do que pela via da apologética. Esta estorinha pode até não convencê-lo, mas ao menos, poderá fazê-lo considerar a possibilidade, driblando seus argumentos racionais.


[1] Salmos 10:4  - “Por causa do seu orgulho, o ímpio não o busca; todos os seus pensamentos são: Não há Deus.”
[2] COLLINS, Francis S. A Linguagem de Deus: um cientista apresenta evidência de que Ele existe.  São Paulo: Editora Gente, 2007.
[3] Provérbios 30:7-9
[4] 2 Coríntios 11:4;  Gálatas 1:6-8
[5] Tito 1:16


(*) Hermes Carvalho Fernandes é um pensador, ativista, conferencista, autor de livros, fundador da REINA (Rede Internacional de Amigos) e bispo consagrado pela International Christian Communion (comunhão que reúne bispos de tradição anglicana/episcopal dos cinco continentes)

OBS: Este texto faz parte do livro "Intolerância Zero", tendo sido o artigo e a imagem extraídos do blogue do autor. Clique AQUI para acessar a página e procure na aba "Livros" como adquirir a obra. 
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