sábado, 18 de janeiro de 2014

O perfil psicológico de Joana D'Arc






Joana d’Arc. A visionária. A vidente. A Mística. A Guerreira. O Mito. Muitas tentativas foram feitas para traçar seu perfil psicológico.  Muitos médicos,  psicólogos e psiquiatras tentaram desvendar a origem das “Vozes” que a acompanharam até a morte trágica na fogueira. Seriam as vozes de origem sobrenatural ou alucinatória? Pode as alucinações coexistir com uma personalidade normal ou sempre devem ser consideradas sinais de doença?

Alucinação é uma percepção experimentada na ausência de estímulo externo. Pode ser interpretada como sintoma de um fenômeno patológico subjacente, sendo diagnosticada, por exemplo, como esquizofrenia. Em muitos casos o maior problema não são as vozes, e sim, a incapacidade de lidar com elas. Embora no século XV não faltassem profetizas, todos os que conheceram Joana a definiram como forte e equilibrada. Seus inimigos a chamaram de “feiticeira” mas não, de “louca”.

É importante notar que as alucinações não são exclusivamente sintomas de transtornos mentais, mas, às vezes, consequência de forte tensão ou de trauma psicológico, como os causados por guerras e violências.  As testemunhas no seu processo de revisão da condenação, apontaram Joana como uma jovem extremamente devota e angustiada com as guerras que assolavam a França naquele período. 

A interpretação não patológica para as vozes que Joana ouvia, adapta-se bem ao seu caso. A época em que viveu foi descrita pelo historiador holandês Johan Huizinga como “selvagem e exuberante”; a vida religiosa se desenrolava numa atmosfera de extrema exaltação, e o pensamento tendia a assumir a forma de imagens. Baseado nesse contexto, seria arriscado definir Joana como alienada baseado somente em suas visões e convicções.

Bernard Shaw escreveu que “se Joana era louca, então toda a cristandade o era, já que as pessoas  que acreditam com devoção na existência de entes celestiais são, nesse sentido, tão loucas quanto as que pensam vê-los. Joana deve ser considerada uma mulher de mente sã, apesar das vozes, pois estas não lhe deram nenhum conselho  que não pudesse ter sido dado por sua mãe”.

Em meados do século XIX, Joana não era considerada doente, segundo o psiquiatra Alexandre Brierre de Boismont, professor de medicina da Universidade de Paris. O psiquiatra cita alguns casos clínicos, demonstrando que os estados alucinatórios não eram causados apenas por transtornos mentais, mas também por condições psicológicas, como a intensa concentração ou a desmedida excitação de uma mente inclinada a fantasiar.

Em obra sobre o papel e a personalidade de Joana D’Arc publicada em 1948, Jacques Cordier afirma que as alucinações da heroína poderiam ser facilmente integradas a um quadro em que “para Joana, como para a imensa maioria de seus contemporâneos, o milagre não era um fenômeno acidental, mas normal”.  Para Cordier, Joana experimentou uma progressiva organização das sensações auditivas e visuais, no começo confusas, que em seguida se diversificaram, tornando-se mais precisas e fixas. A análise psicológica das vozes mostra que “suas exortações, conselhos, encorajamentos e promessas eram pulsões, desejos, intenções, esperanças e anseios de Joana, expressos inconscientemente de forma alegórica e próprios de uma mentalidade coletiva saturada de representações religiosas”.

Em 1984, o médico americano Fred O. Henker confirmou ser impossível inserir Joana num contexto psiquiátrico. Ele afirmou que não há elementos suficientes para concluir que Joana fosse esquizofrênica, maníaca ou que mostrasse sintomas de algum transtorno de personalidade. Ela era frequentemente descrita como segura de si, otimista, satisfeita e bem adaptada; não era excêntrica, mas sociável, e inspirava lealdade.

Segundo dois pesquisadores holandeses que investigaram pessoas que ouviam vozes, consideraram que a vantagem de enfrentar positivamente tal experiência está na força possível de extrair das vozes caso estas sejam interpretadas como apoio e não ameaça. Em outras palavras, a alucinação auditiva não é apenas um fenômeno psicológico, mas também social, refletindo a natureza da relação do indivíduo com seu meio.

Apesar de Joana em pleno século XV fosse identificada com a ortodoxia católica, o fato dela dizer que as vozes que ouvia vinham de Deus, não a impediu de ser condenada como herética, já que Deus lhe falava sem a intermediação da Igreja e seus representantes – algo inaceitável, portanto, herético.


Aos 13 anos, Joana assustou-se ao ouvir uma voz quando estava sozinha no jardim de sua casa. Depois, identificou suas percepções com três santos que lhe eram familiares. Enfim, após três anos, decidiu seguir os conselhos da voz e partir, sem que seus pais soubessem, para encontrar o capitão Robert de Baudricourt e ser levada a Carlos de Valois, no castelo de Chinon, a fim de convencê-lo a coroar-se rei da França em Reims e libertar a cidade de Orléams, então assediada pelos ingleses.


Eduardo Medeiros


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Este texto é um resumo de uma 
matéria publicada na revista
Viver Mente e Cérebro de abril 2005

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Filme de 1948 sobre Joana D'Arc com 
Ingrid Bergman no papel princpal
http://www.youtube.com/watch?v=ExsUvbm5PuU

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