sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Não importa o que fizeram de mim...


Era uma família humilde.

Sua mãe quase não conversava ou saía à rua.

Seu pai era apenas um homem comum.

Ele por sua vez não se limitava às rotinas diárias e "mundanas".

Não se preocupava com compromissos sem sentido e que apenas o mantinham vivo.

Comia apenas o necessário para mais um dia de vida.

Não concordava com a obsessão por esta vida que não lhe trazia o principal.

Esperanças iam se desfazendo ao seu redor, ele via isto nos rostos dos amigos e familiares.

Liberdade não mais se esperava.

Certo dia se enche de tudo e propõe uma alternativa: "Deixemos de nos preocupar com nossos umbigos e passemos a nos preocupar com a comunidade". Ouvira falar de Confúcio de Sócrates, alguns pensadores de  outras culturas. Ouvira sobre a mitologia e não entendia porque o medo do Hades.

Ele não acreditava em uma vida pós morte, apenas tentava transformar esta crença em algo bom para o hoje.

Ele trabalhou no consciente de seu povo para tentar transformá-los de "guerreiros por uma vida melhor" em 

"cidadãos para uma vida melhor".

Tudo ia bem, as pessoas gostavam de ouvir suas belas frases e ensinamentos.

Até que os líderes do pedaço resolveram dar um fim em suas idéias.

Ele foi morto, mas não negou seus ideais, assim como ouvira falar de um tal de Sócrates.

Seus seguidores não aceitaram tal fato.

Sobraram meia dúzia deles entre homens e mulheres.

Eles se reuniram e decidiram transformar seu líder em um mito.

Primeiro decidiram sobre a ressurreição, discutiam entre si: 
"Não dizem os egípcios que Hórus ressuscitou?"
"Não dizem os persas que Mitra ressuscitou?"
"Muitos acreditam nestes mitos, então porque não anunciarmos que ele ressuscitou?"
"Podemos pegar um fato de cada um destes deuses e dizermos que ele também os fez."
"O que vocês acham? Baco, o deus do vinho fora venerado pelas festas, podemos dizer que nas festas que ele ia até a água era transformada em vinho, ele será um tanto superior a Baco."
"Hórus foi tentado no deserto, ele também fora."
"Eu não posso acreditar que dedicamos tudo a ele e de fato tenhamos ficado na mão."

E assim foi, começaram a espalhar pela cidade o fato da ressurreição, fato este que passou a ser crido por muitos.

A cada encontro, a cada reunião, aqueles poucos homens que começaram isto tudo contavam como fora "milagrosa" a presença daquele que foram morto.

Diziam coisas lindas, belas e incríveis que nunca aconteceram.

E assim, os olhos daqueles que esperavam pelo messias brilhavam de tal forma que dariam suas vidas por um pouco deste paraíso.

A trama estava montada, restava um tempo de sobra para registrar o que fora divulgado no meio daquele povo.

E assim os registros foram feitos não em cima de uma história real, mas em cima das histórias que foram sendo construídas sobre sua personagem.

Qual a culpa dele nisto tudo? Nenhuma. Tudo aconteceu quando ele já estava morto.

O que ele poderia dizer hoje se estivesse vivo? 

"Não importa o que fizeram de mim, o que importa é o que eu faço com o que fizeram de mim" (Sartre)

Evaldo Wolkers.

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