sábado, 30 de outubro de 2010

Deus gosta de poesia ou A matemática sinfônica da criação no texto bíblico.




Um erro comum que tanto céticos e ateus quanto crentes e teístas cometem é considerar o primeiro capítulo do livro de Gênesis como ciência e não como de fato ele é: poesia.


Muitos apologistas cristãos modernos tentaram encaixar no relato bíblico a visão moderna da ciência como a teoria do Big Bang desconsiderando que jamais o autor do texto tivesse a pretensão de discorrer sobre uma teoria que só iria aparecer milênios depois.  Por outro lado, da mesma forma, os céticos costumam menosprezar exatamente o texto de Gênesis por acreditarem que ali o que se faz é ciência e não poesia.  


Os antigos hebreus  não eram muito afeitos a discutirem sobre o mundo natural, pois estavam mais interessados em apresentar a sua fé no seu Deus através da poesia e da celebração da criação feita por este Deus. Logo, Gênesis não fala como de fato Deus criou o universo e sim, celebra a existência da criação e do Deus que cria para um propósito. Podemos considerar que Gênesis 1 é o prólogo para um mito  etiológico. 


O texto da criação bíblica proclama a queda das divindades cananeias.  Sol, lua e estrelas não eram divindades. Não eram os deuses da fertilidade que faziam brotar a vegetação. Todo o poema da criação é uma sinfonia cadenciada pelo número sete. Vejamos:


O primeiro versículo em hebraico conta com sete palavras:

Beréshit barra Elohîms ét hashamaîms veét haarès. 

Uma tradução mais literal seria:

No princípio Elohîms criava os céus e a terra.


O versículo segundo possui 14 palavras (7 x 2). O relato da criação conta 7 x 8 = 56 versículos. Os 7 dias da criação constituem um quiasmo* que se articula a partir da criação dos astros em 2 grupos de 3 dias que desembocam, no sétimo dia de repouso de Elohîms.  


As correspondências são perfeitas entre a luz (primeiro dia) e o repouso de Elohîms (sétimo dia); entre os céus e as águas (segundo dia) e a criação dos peixes e das aves (quinto dia); entre a criação da terra e da vida orgânica (terceiro dia) e a dos animais e dos humanos (sexto dia). No centro se erguem os astros, a meio caminho entre os céus, habitados por Elohîms, e a terra, morada dos humanos, enquanto a correspondência quiasmática é perfeita entre os três primeiros e os três últimos dias da criação.


A importância dada aos números (e aqui ao algarismo 7), geralmente é ignorada pela crítica porque é estranha à psicologia moderna, mas é característica do estilo bíblico. Os números são em hebraicos letras que veiculam a palavra que Elohîms utiliza para criar o universo. Os cabalistas verão nas 22 letras do alfabeto hebraico os instrumentos com os quais Elohîms cria o mundo, suas matrizes. Daí a utilização  de algum modo encantada de números privilegiados nas estruturas íntimas do texto hebraico. Vejamos alguns exemplos:


Há 10 gerações entre Adâm (Adão) e Noah (Noé), mais 10 gerações entre Noah e Abrahâm (Abrãao), cujas vidas são marcadas pelo selo de números constantemente simbólicos. O algarismo 7 tem um papel preponderante, até no menor detalhe da composição: o nome de Elohîms retorna 7 x 5  = 35 vezes; os céus (shamaîm e ragia’), 7 x 3 = 21 vezes; tob, “o bem”, 7 vezes; o sétimo parágrafo do texto hebreu corresponde ao sétimo dia, etc. O relato do Éden está repleto das mesmas harmonias (Gn 2,4; 3,24), os nomes do homem , ish, e do humano adâm, são repetidos 7 x 4 = 28 vezes; a mulher, isha, ‘ézèr ou séla, 7 x 3  = 21 vezes; as palavras da raiz akhal, “comer”, 7 x 3 = 21 vezes, as da raiz laqah, “tomar”, 7 vezes, como Qèdem, “o levante”, e “Éden”; a seção conta também em hebreu, 7 parágrafos.


No capítulo 14 a palavra-chave, mèlèkh, “rei”, retorna 7 x 3 = 21 vezes na primeira parte da narrativa (Gn 14.1-12) e 7 vezes na segunda parte (Gn 14.13-24). A história de Iosseph (José) conta 7 x 64 = 448 versículo e o volume inteiro 7 x 7 = 50 capítulos. A análise pode ser levada até os mais íntimos detalhes da obra: se de fato a teoria das três fontes for verdadeira, deve-se constatar que o último redator desta obra-prima a reestruturou até dar-lhe uma irrecusável unidade. 


Concluindo:  por favor crentes, não busquem nesses textos teorias científicas atuais pois isto é anacronismo; por favor ateus e céticos, não critiquem o texto  por ele querer explicar a criação pois não é esse o seu enfoque. O texto hebreu é poesia e sinfonia matemática. Talvez somente nisso ele se pareça com o universo que também é sinfônico e pode ser expresso em equações.


* * * * * 

Obras de referência:
Peter J. Cousins, Ciência e Fé, novas perspectivas, Ed ABU
André Chouraqui, A Bíblia , No princípio, Ed. Imago.

Figura: Letra Alef do alfabeto hebraico (http://www.bia-sion.com/blog/wp-content/aleph1.jpg )


Quiasmo. É a figura de estilo pela qual se repetem palavras com inversão da ordem. É o que vemos logo no início do famoso poema de Carlos Drummond de Andrade "No meio do caminho": "No meio do caminho tinha uma pedra/tinha uma pedra no meio do caminho".
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