terça-feira, 19 de outubro de 2010

QUANDO NOS TORNAMOS INVISÍVEIS




Um grande amigo enviou-me, recentemente, um interessante slide animado, via internet. Nele, uma velhinha demonstra de modo bastante sentimental, como se tornou um “estorvo” no meio da família.
No dizer da vovó do “slide”, seus filhos e netos já não lhe davam mais afagos. Sentia-se rejeitada, ao ver que no seu dia-a-dia eles não mais a valorizavam. Sua vida, ultimamente, vinha sendo passada despercebida por todos, e isto lhe causava muita tristeza. Por não mais a olharem como antigamente, ela concluía que eles não estavam mais notando a sua presença naquele ambiente, como se ela mesma, tivesse sido transformada em um ser invisível.
Após narrar toda sua odisséia repleta de ressentimentos, sublinhando a ingratidão que estava sofrendo por parte da família, ela, no final, ao que parece, teve aquilo que na psicanálise se denomina “insight”, ao dar uma abrupta olhada reflexiva para dentro de si. Fez então uma conclusão emblemática que me chamou muito a atenção. Assisti ao slide por mais de uma vez, concentrando-me mais no desfecho da história em que a vovó fez a sua assertiva carregada de significação. Em forma de pergunta, revelou toda a verdade cristalina e insofismável de seu próprio ser: “QUE CULPA ELES TÊM DE EU TER ME TORNADA INVISÍVEL?”. Em outras palavras, a velhinha quis dizer: “Se eles não me vêem, é porque me tornei invisível”. Graças! ─ Ela chegara à verdadeira e sábia conclusão de que o problema não estava nos filhos e nos netos, mas sim nela mesma. Entendeu que os filhos, agora crescidos, não podiam enxergá-la, porque ela mesma, com o passar dos anos, é que tinha ficado INVISÍVEL para eles.
Viajei na imaginação, após o desfecho da história da velhinha, o que me levou a concluir que, realmente, o que é visível para nós, é aquilo que vemos pelos olhos físicos. Por esses olhos, avistamos apenas o exterior do objeto que está em nosso campo visual; vemos simplesmente a casca do fruto; é o revestimento externo, aquilo que enxergamos. Quando passamos a viver unicamente em função daquilo que é visível, ao tentarmos enfrentar os "reveses da vida", somos dominados pela sensação de que estamos sendo injustiçados e incompreendidos.
O psicanalista Jung foi quem mais estudou os arquétipos de nossa psique. Ele encontrou na criatura humana, uma face que todos nós temos, e às vezes não sabemos que temos, ou resistimos em admiti-la, que ele denominou “Persona”. É a máscara social, é o papel de padrões de conduta que desempenhamos socialmente. No dizer de Jung,“todos nós vivemos papéis o tempo todo. O risco é nos identificarmos demais com os nossos papéis, e nos distanciarmos da nossa natureza e da nossa integridade”. Ao realizar o nosso papel, o nosso ideal de ser vivente, necessitamos da presença do outro. No entanto, o que devemos ter em mente é que não podemos fazer do nosso semelhante, um “objeto” dos nossos desejos, um ISSO ou AQUILO para nossa “ascensão egóica”. Quando assim o fazemos, nos surpreendemos ao constatar que esse outro, tem suas individualidades e particularidades próprias, que os nossos olhos comuns não podem enxergar. Entre nós e os outros existe sempre um vazio, sempre uma incógnita, pois, como bem disse Pascal: “o coração tem razões que a nossa própria razão desconhece”.
Quando o outro com quem convivemos, em um determinado momento, deixa de corresponder àquilo que desejamos, ficamos então acabrunhados e decepcionados. Isto, porque nos acostumamos a fazer dele, apenas um receptáculo, um vaso para deposição dos nossos anseios. O que acontece quando o outro não nos corresponde? Passamos a racionalizar que ele não está mais nos vendo. Não está mais nos considerando. Ficamos solitários, nus, invisíveis, quando o outro deixa de ser objeto em nosso proveito. Porém, em tudo isso, há um lado positivo que pode amenizar a solidão de nossa invisibilidade, é que este estado de coisas nos estimula a um olhar mais profundo para dentro de nós. Aí então, é quando a nossa mente se abre para entender que não é o outro que não nos vê; nós é que nos tornamos invisíveis para ele.
O grande perigo é que a queixa lamuriosa dos pais com relação aos filhos, ou de um amigo com relação ao outro, pode se transformar em ressentimento, o que significa atribuir ao outro a responsabilidade pelo que lhe faz sofrer. Esse sentimento surge, por exemplo, quando fazemos do outro um trampolim ou um investimento, para obter benefícios. Há pais que confundindo amor com apego, dizem, que investem nos filhos por amor. Obviamente, nada há de amor que justifique esse procedimento, porque o amor não busca seus próprios interesses.
Se chegarmos à velhice, sem os queixumes de que nos tornamos INVISÍVEIS para os outros, partiremos desta vida mais aliviados e em paz conosco mesmos. Para isso, resta tão somente, não culpar os outros pelas nossas frustrações, até mesmo, porque cada um vai dar conta de si mesmo a Deus (grande metáfora bíblica). São inerentes a nossa existência, as situações difíceis do nosso caminhar, carregadas de obstáculos aparentemente intransponíveis. Cabe a cada um de nós, a responsabilidade de, sem apontar alguém como culpado, tomar a “cruz” e seguir em frente.

Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, 30 de março de 2008


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