domingo, 12 de janeiro de 2014

A Volta de Monteiro Lobato




Monteiro Lobato ficou petrificado quando São Pedro afirmou, veementemente, que se ele descesse à “Terra Brasilis”, seria escorraçado. Mas depois de tanto insistir, o escritor renomado recebeu o aval do Santo Porteiro do Céu para retornar a sua velha terra.

Monteiro Lobato (1882 ― 1948) estava bem lembrado de que em nenhum lugar fora do Brasil tinha recebido tão grande acolhida. Lembrou-se, que certa feita, São Pedro havia lhe contado do enorme sucesso que fizera o seu “Sítio do Pica Pau Amarelo” na Televisão.  

Afinal, seus livros estavam registrados no Canon Sagrado das escolas brasileiras. Por que seria então mal recebido entre os seus pares, agora? ― perguntava a si mesmo.

Na sua longa caminhada sonhou que suas obras estavam sendo proibidas nas escolas primárias e secundárias, após discussões até certo ponto acirradas. Em sonho, via os filhos daqueles que antes o aplaudiam. gritando de punhos erguidos: Pre-conceituoso! Racista! Reacionário! Coxinha!, e outros termos afins.

Foi recebido em Brasília num clima fúnebre. Apenas uns cinco ou seis gatos pingados do grupo taxado de “politicamente incorreto” foram se solidarizar com o velho contador de histórias que tanto embalou os sonhos da “velhite” atual, nos tempos em que eram meninos imberbes.

Lobato quase caiu duro ao não encontrar mais nas prateleiras das bibliotecas oficiais nenhuma obra sua. Tomou um anti-hipertensivo antes de receber a notícia de que seu livro, “Caçadas de Pedrinho”, o tinha levado ao STF, ― segundo o MEC, em defesa dos direitos humanos. Lobato ouviu, abismado, a troupe governamental do Conselho Nacional de Educação da Presidência da República dizer que houve crime de racismo pelo que desrespeitosamente escreveu oitenta anos atrás (1933): “Tia Anastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão. Não é à-toa que macacos se parecem tanto com homens”.

 Monteiro Lobato, que dedicou toda a sua vida a escrever histórias infantis, jamais imaginou que esse trecho por ele escrito seria a gota d’água para, moralistas que vêem o mundo de ontem com os olhos de hoje, taxá-lo de racista. A mediocridade do hipócrita social que não enxerga seus monstros interiores, chegou ao ponto de instaurar um processo para macular o autor depois de morto, e censurar a leitura de sua obra nas escolas do país.

Monteiro Lobato, perplexo com a pecha de racista, termo nunca aventado em sua época, foi enfim convocado pelo CNE a depor sobre o racismo presente em suas obras. O ministro da Cultura do Governo exigiu que ele fizesse uma reedição de partes de suas obras, eliminando frases jocosas e politicamente incorretas para o momento atual.

De nada adiantaram os argumentos proferidos por Lobato, como o de que não seria recebido no Céu se usasse da hipocrisia, ao desdizer o que com sinceridade pintou sobre a Tia Anastácia em épocas passadas, quando não havia certos ativismos.  A polêmica piorou quando Monteiro Lobato tentou explicar que na época em que escreveu suas obras infantis, a sociedade se comportava diferentemente, isto é, sem as nuances de hipocrisias que reinam hoje.

A pressão ideológica do grupo “vocacionados para a perfeição” e que não admite a contradição moral, foi tão intensa, que o suposto caso de racismo do autor do “Sítio do Pica Pau Amarelo” foi levado ao STF. E o pior é que não houve acordo entre as partes, para tristeza de Lobato.

“Quando o patrulhamento ideológico chega a interferir em obras literárias do passado de um povo, é sinal de que o Apocalipse da humanidade está próximo” ― disse São Pedro, pousando uma de suas mãos no ombro direito de um Lobato inteiramente desapontado com o nível de hipocrisia de um “povo” maníaco pelo “politicamente correto”.

Andando pelas alamedas celestiais, São Pedro encontra Machado de Assis, e lhe faz uma advertência: “Cuidado, você será o próximo a ser censurado!”.  Machado conjecturou em silêncio: “só pode ser sobre meu livro, Memórias Póstumas de Brás Cubas!”. É que em certo ponto de seu romance, esse venerável escritor descreve o desregramento do “menino diabo”. “O menino se aproveitava do fato de seu apelido de infância ter sido aprovado pelo pai (Brás Cuba) e, divertidamente, quebra a cabeça de uma escrava que lhe negara um doce, além de fazer do pequeno escravo, Prudêncio, o seu cavalo ou montaria.”

“Sou mole mesmo, só eu é que estou pagando o pato por ter dito o que todo mundo gostava de ouvir!” ― desabafou Monteiro, profundamente irritado.


Por Levi B. Santos

Guarabira, 12 de janeiro de 2014


Site da Imagem: Blogdacompanhia. com
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