quarta-feira, 27 de abril de 2016

Não se pode negar a heterofobia!




Desde que surgiu esse neologismo no final do século XX, muitos ativistas LGBT passaram a defender a inexistência da heterofobia.

Quem primeiramente teria feito uso do termo foi a conservadora norte-americana Judith Ann Reisman ao publicar o livro Kinsey, Sex and Fraud no começo da década de 90, numa parceria com Edward Eichel, Gordon Muir e John Hugh Court, a fim de descrever a atitude de negatividade em relação à heterossexualidade. Oito anos após, em 1998, foi editada a obra Heterophobia: Sexual Harassment and the Future of Feminism, de autoria de Daphne Patai (por coincidência uma brilhante PhD em literatura brasileira), em que é abordada a atitude de anti-masculinidade e de anti-heterossexualidade do movimento feminista contemporâneo. E, curiosamente, em 2003, o ativista LGBT Peter Gary Tatchell criticou como heterofóbico determinadas pautas do próprio segmento do qual faz parte. Segundo ele, seriam posições discriminatórias em relação aos casais heterossexuais (clique AQUI para ler a matéria da BBC NEWS).

Apesar de tudo, as organizações LGBT insistem em negar comportamentos de discriminação contra heterossexuais. Não faz muito tempo, alguém na USP escreveu o artigo Heterofobia e ditadura gay não existem, de autoria atribuída a Quéfren de Moura. Em seu texto, ele argumenta ser "difícil falar em 'heterofobia' ou em preconceito inverso", justificando que

"Se a sexualidade hétero não fosse tomada como norma dentro de uma sociedade e, por qualquer razão, se tornasse alvo de desprezo, hostilidade, violência, discriminação e ódio ao longo da história, isso seria possível. Se o seu modo de ser fosse perseguido, condenado e ainda hoje isso reverberasse na nossa sociedade de formas múltiplas, então poderíamos falar em heterofobia. Mas isso não acontece. Um heterossexual, por causa da sua orientação, não será oprimido pelo sistema excludente que levou os homossexuais e outros grupos minoritários a uma história de luta contra o preconceito e em favor de seus direitos" (confira AQUI a íntegra do artigo)

Com toda sinceridade, tenho muita preocupação quanto a posicionamentos assim em que grupos atualmente minoritários na sociedade, ao invés de se auto-analisarem, deixam de refletir sobre os comportamentos que repetem em relação ao grupo hegemônico. Pois, se bem lembrarmos da História do cristianismo, após ter sido a Igreja duramente perseguida por Roma até o início do século IV, tornou-se então a religião oficial do Império com o monarca Constantino, passando a combater pagãos, hereges e judeus. Os que antes costumavam fazer prosélitos pela via do convencimento voluntário, decidiram impor um novo padrão cultural a todos, proibindo outros cultos.

Assim como as raízes da intolerância estiveram presentes no cristianismo desde os seus primeiros anos (basta que se leia o Novo Testamento com uma visão crítica) e não foram corrigidas, a ponto da apologética tornar-se depois um patrulhamento ideológico contra quem se opusesse à "verdade doutrinária, quem garante que o mesmo não pode acontecer com o movimento LGBT perto do ano 2100?! 

Entendo que a preferência por criminalizar radicalmente as condutas consideradas homofóbicas tem o grande potencial para criar conflitos na sociedade. E não foi por menos que, para fazer um contraponto às extrapolações do movimento LGBT, o deputado peemedebista Eduardo Cunha apresentou o Projeto de Lei n.º 7382/2010, atualmente tramitando na Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara Federal. Em sua proposição legislativa, o parlamentar defende a penalização de condutas discriminatórias contra clientes héteros dentro dos estabelecimentos comerciais, como se não bastasse a aplicação das normas de alcance total já existentes no Código de Defesa do Consumidor. Porém, expõe a seguinte justificativa que considero plausível:

"(..) há de perceber claramente que a preocupação com grupos considerados minoritários tem escondido o fato de que a condição heterossexual também pode ser objeto de discriminação, a ponto de que se venha tornando comum a noção de heterofobia. O ocultamento dessa possibilidade em nada beneficia o rigor na abordagem da discriminação em nossa sociedade, pois limita o campo de observação dos analistas e a efetividade das políticas públicas (...)"

Consigo claramente compreender a necessidade dos ativistas sociais em promover esclarecimentos quanto ao processo histórico de subalternização e de hierarquização de privilégios quanto ao que sempre foi hegemonicamente aceito. Concordo que negros, índios, minorias religiosas, mulheres e gays têm esse direito, porém a minha preferência será sempre pela abordagem pedagógica a fim de que o opressor, voluntariamente, torne-se capaz de repensar a sua conduta discriminatória irracional e decida corrigi-la.

Justamente para que o injustificável cuspe da sessão do impeachment amanhã não se torne uma punição injusta contra o opositor, sugiro aos representantes da causa gay a adoção de atitudes menos radicais. Por enquanto, podemos não ouvir falar ainda de casos sobre pessoas heterossexuais agredidas fisicamente por conta de sua orientação sexual, mas, no futuro, quando a proporção se homossexuais se tornar maior na sociedade (e tudo indica que sim), algo às avessas estará sujeito a ocorrer. Logo, são as ideias de respeito à diversidade e o reconhecimento quanto à nossa dificuldade de lidar com o diferente que devem nortear todos os grupos, quer sejam hegemônicos ou minoritários. Do contrário, a nossa luta pelos direitos humanos acabará sendo um naufrágio.
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