quinta-feira, 29 de julho de 2010

Uma União “Divinamente” Proibida


...............[Duas crianças: uma árabe e outra judia, de braços]





Sobre a raiz do ciúme no convívio entre dois irmãos, a psicologia profunda diz que o primogênito favorito dos pais , vê no irmão mais novo um “intruso”, com quem tem de passar o resto de sua vida dividindo suas coisas. O menor se sente inferiorizado com as sobras que já foram do irmão mais velho.
O estranho é constatar que esse complexo familiar de natureza infantil, ao invés de ser superado com a maturidade, tenha sido assimilado pela religião, fermentando um espírito de competição entre Judeus e Árabes pela preferência de um “Pai espiritual”, que ainda se nutre da rivalidade religiosa e política entre dois povos irmãos. Na história bíblica Abraâmica, fica claro, que o filho “intruso” da tese psicanalítica é representado pelo “ilegítimo” Ismael.
Ecos desse emblemático conflito entre os dois filhos de Abraão (Ismael e Isaque), relatado em minúcias no Livro de Gênesis, vieram à tona esta semana em uma reportagem veiculada pela revista VEJA (Edição 2175), na pele de um árabe e uma israelita, residentes em Israel.
Como se sabe, de Ismael (rejeitado por Sara, esposa de Abraão) vieram os Árabes, e do “filho da promessa”, Isaque, vieram os Judeus. O inusitado ocorrido há dois anos, trouxe ressonâncias dessa milenar rivalidade histórica e religiosa. Tudo começou, quando a intensa paixão que não deveria ter nem cor nem raça, levou o árabe Sabbar Kashur e uma mulher Judia ao “delírio carnal” num quarto de hotel das redondezas de Israel.
Para conseguir a aprovação de sua amada, o moço árabe, Sabbar, se identificou como Daniel (um judeu), talvez querendo se respaldar no relato bíblico em que Jacó astuciosamente enganou o pai (Isaque) ao se passar por seu irmão Esaú, para se apossar das bênçãos que seriam de direito do primogênito.
A recente história da lua de mel do casal retratado na revista Veja desta semana, não teve um final feliz, pois, a judia, depois de saber a origem do rapaz, foi à justiça de Israel denunciar que tinha sido seduzida por ele. No seu dizer, o consentimento em fazer sexo, tinha sido por amor a um judeu, e não a um árabe. Em suma, aquilo que ela tinha consumado com muito amor e paixão, foi de uma hora para outra, revertido em estupro, pois segundo o parecer da Justiça, a “santidade do corpo e da alma” da judia tinha sido violada, através de uma mentira. Pasmem...

Final da história: o árabe de corpo e judeu na “alma” foi condenado a dezoito meses de prisão, sem dó nem piedade.

Em todo esse imbróglio, o que nos deixou perplexos, foi o fato da própria corte suprema de Israel, ter se tornado o principal veículo na consolidação de uma intolerância religiosa entre dois povos irmãos, que já dura quase quatro mil anos. O que a corte fez na resolução desse caso foi, simplesmente, referendar a literalidade de um conflito mitologizado que mostra a inconciliabilidade entre uma geração proveniente de um filho predileto, e uma geração que veio de um filho rejeitado. O Tribunal Israelense pode ter reeditado dessa forma, uma espécie de volta “inconsciente” ao conflito mítico semeado por Sara (esposa de Abraão) entre seus dois filhos (Ismael e Isaque).

Com esse veredicto a corte máxima de justiça de Israel, ao que parece, revitalizou o axioma Vétero Testamentário que subjuga um povo inferior (rejeitado) a um povo superior (escolhido por Deus), mesmo sendo eles descendentes de um mesmo pai.

Numa época em que o governo israelense desencoraja os judeus a se casarem com pessoas de outras religiões, nunca é demais lembrar o francês Roger Garaudy, escritor radicado nos EUA, que se debruçou de corpo e alma sobre as particularidades da guerra santa entre árabes e judeus, e assim escreveu em seu livro “Rumo a Uma Guerra Santa?”: “Afinal, o que salvará o século XXI não será nem o judaísmo, nem o islamismo, nem o cristianismo. Nem a religião dominante dos dominantes, nem a religião dominada dos dominados. Porque a história só começará com a morte das dominações”

Até quando as tradições espirituais das grandes religiões permanecerão mudas ante o flagelo mundial que semeia o ódio entre os povos? Quando as religiões encontrarão, afinal, os princípios de libertação e superação das divisões humanas, que deviam norteá-las?

Por Levi B. Santos



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