domingo, 27 de fevereiro de 2011

Metamorfose... A morte das formas como meta para a vida!







Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo 


Raul Seixas


Houve um tempo em que eu era critico feroz das músicas do Raul Seixas, e ainda continuo, mas agora vejo no conteúdo revelações sobre uma “antropologia existencial”. Acho que no processo de viver, também me reconheço como uma “metamorfose ambulante”, visto que a vida do ser humano consiste em constantes “mortes de formas” no caminhar da existência. 

Se não fosse esse dinamismo de “morrer as formas”, extinguiria a raça, a beleza da humanidade está em que na “morte das formas”, preserva-se a vida. È nisso que persiste a existência humana, uma verdadeira “meta-morfose”, uma forma que está para além dele mesmo, está sempre em construção o que contraria praticamente o pensamento ocidental que tem sua gênese na filosofia “socrático-platonica-Aristotélica”.

O conteúdo da letra dessa música mostra que a cristalização do pensamento da chamada “verdade meta-física”, o “ideal” platônico, é arqui-“inimiga” da vida, pois essa, é uma “construção em movimento”, é a partir do trágico, que a vida ganha impulso, o desamparo do homem diante a imensidão do universo, empurra-o na busca de uma “segurança”.

Da insignificância nasce o desejo de “Transcendência” que imerge como uma necessidade de continuidade da existência! Esse desejo anseia por uma verdade “formada”, mas essa nas contingências da vida precisa perder a “forma”, é preciso então ter coragem para re-ver as opiniões que se tinha ontem, aceitar a contra-“adição”, o paradoxo da vida, afinal a lógica não vem da vida, mas da imposição da razão sobre o livre curso da natureza.

A razão não é natural, é uma imposição, uma forma de manter a existência dentro de limites, pois esses impedem do homem se diluir, mas essa razão que impões limites para preservação da vida, deve perceber que há tempo de “perder a razão”, a cristalização da razão congelada, elimina a riqueza do devir [1]. 

Dai Heráclito dizer:

“O mesmo homem não pode atravessar o mesmo rio, porque o homem de ontem não é o mesmo homem, nem o rio de ontem é o mesmo do hoje".

Acho que Nietsche tinha razão: Toda vida se alimenta de outra vida”. Para se manter viva, a vida alimenta-se de outra vida, e dela própria, pois viver implica em constantemente morrer, a morte é o alimento da vida. 

Interessante... “A ceia do cristão é alimentar-se do corpo de quem morreu”, pela morte do corpo, a vida torna-se alimento para os que vivem... 
______________________________________________
[1] Devir é um conceito filosófico que qualifica a mudança constante, a perenidade de algo ou alguém.




J.Lima


Publicado originalmente em  http://jl-reflexoes.blogspot.com/2009/12/metamorfose-morte-das-formas-como-meta_26.html

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Patético. Profundo-Patético


Isaias Medeiros

Muitos crescem a infância atrás das cercas invisíveis que os separam do mundo exterior.

Outros perdem a juventude confinados pelas muralhas do vício (ou) da religião.

A maioria desgasta sua maturidade nos empregos cujos salários só garantem a ração diária e um teto de senzala para se abrigarem.

Uns tantos morrem suas velhices presos pelas cadeias do desprezo e da solidão.

Num dia, a criança inveja a suposta liberdade do adulto; num outro, a antiga criança ressente-se de sua verdadeira liberdade perdida.

Num momento, o indivíduo não compreende nada do mundo onde acabou de chegar e ninguém o pode entender; num outro, ele conhece muito do mundo que está prestes a deixar, mas já não há quem deseje ouví-lo.

Numa hora, o jovem zomba do adulto pela sua falta de ambição; numa outra, o adulto ri do jovem pelos seus sonhos que jamais se realizarão.

Os maus estão sempre no poder, e por trás de toda ação que pareça boa, há pelo menos outra que vise causar um mal ainda maior.

A religião é alienante e não fornece nenhuma certeza, mas a sua simples ausência também não costuma oferecer maior alívio.

A criança não é boa, apenas não possui os meios de usar toda a maldade que lhe é intrínseca. O adulto também não é bom, mas já aprendeu que ser mau pode lhe trazer muitos incômodos.

A felicidade é a nossa mais forte moeda de troca: vivemos trocando-a por um punhado de segurança ou por um pouco menos de peso na consciência.

Ter histórias incríveis para contar aos netos é bom, mas o estilo de vida de quem vive estas aventuras nem sempre lhes permite sobreviver para conhecer seus descendentes.

Escrever é louvável, filosofar também, mas, no fim isto não enche a barriga, não tapa o vazio existencial e não cobre o rombo na conta bancária de quase ninguém!

Patético. Profundo-Patético.

-----------------------------------------------

Apesar de eu haver pensando em postar um texto antigo, resolvi não fazê-lo. Preferi publicar mais esta sincera reflexão que diz respeito a todos nós que nos chamamos de “seres humanos”, com todas as nossas contradições, nossos anseios e o mar de dúvidas que caracteriza a nossa existência. Estou sem internet em casa, portanto, as respostas aos comentários poderão demorar um pouco. Espero que não vejam este modesto ensaio como um pouco caso da minha parte a alguém, e sim como simplesmente uma demonstração “patética” da minha visão da vida. Abraços.
 
Imagem: acervo pessoal (fonte não encontrada)

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Para Uma Reflexão

Enquanto se aguarda pacientemente a próxima postagem, resolvi por conta própria, postar esse vídeo, para nós da C.P.F.G (de espíritos desarmados) realizarmos uma sincera reflexão. Tem até uma música bastante relaxante. VAMOS LÁ...

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Obrigado!


Se não fossem os acontecimentos ruins que presencio, ou experimento, possivelmente eu jamais reconheceria a minha ingratidão em relação à vida.

Na tarde desta quinta-feira (10/02/2011), estive com um senhor que, após sua cirurgia de próstata em Teresópolis, ficou meses usando uma incômoda sonda e até hoje ainda necessita usar fraldas para conter a urina. Ao nos encontrarmos na avenida principal da cidade, a primeira coisa que ele veio contar foi a bênção de ter voltado a urinar que para ele tornou-se algo de grande significado.

Sua experiência lembrou-me o sufoco pelo qual passou a minha avó materna no ano passado em que, após quebrar o fêmur em abril, ter ficado internada no Hospital do Andaraí e passado por uma delicada cirurgia de prótese, ainda demorou bastante para livrar-se da tal da sonda, visto que ela contraiu infecção urinária. Então, de tempos em tempos, minha mãe pagava uma profissional de saúde que ia até a casa delas fazer a troca da sonda. E isto alongou-se por alguns meses também.

É impressionante como que uma função fisiológica do organismo, a qual muitas pessoas e animais desempenham normalmente, pode tornar-se um imensurável tormento para quem sofre de algum problema específico capaz de afetar a excreção urinária. Porém, quando uma pessoa está bem, nem sempre ela consegue parar pra pensar nestas cosias e agradecer a Deus, sendo que, não raras vezes, ainda vemos jovens desperdiçando a saúde com drogas, bebidas, anabolizantes, brigas de futebol, pegas de carro e tantas atividades perigosas. Aliás, muita gente chega a cometer suicídio diante de coisas bem banais.

O surpreendente disto tudo é que nem sempre as pessoas que já não gozam mais de tanto vigor físico são revoltadas com a vida. Pois esse senhor que operou a próstata no ano passado compartilhou ter aprendido bastante com sua experiência. Em seu relato, pareceu-me que Deus houvesse feito também uma cirurgia em seu interior. Era como se o doloroso sofrimento tivesse servido para acrisolar seu caráter e personalidade.

Devido às fortes chuvas que ocorreram em janeiro deste ano aqui na Região Serrana do Rio de Janeiro, mais de 5.500 famílias em minha cidade foram desalojadas de suas residências. Muitas perderam suas casas e agora estão vivendo em abrigos improvisados pelo governo, tendo que dormir em colchonetes espalhadas pelo chão, sem a privacidade do lar junto com desconhecidos, alimentando-se de doações, precisando observar horários específicos para deitar, fazer refeições, tomar banho, etc. Nas semanas que seguiram à tragédia, um grupo de minha igreja e mais uns jovens voluntários que vieram de uma área pobre Rio de Janeiro, vem visitando alguns destes locais onde estão morando os desabrigados, tendo o nosso pastor compartilhado que:

“Quero agradecer a cada oração e contribuição dada a cada pessoa da nossa cidade, pois precisamos deste acolhimento para manter nossas forças e motivações saudáveis. Nosso trabalho está baseado em atender pessoas diariamente em nosso espaço que precisam de mantimentos (...) Elaboramos uma rotina de cadastramento, visitas aos abrigos e comunidades, localização dos abrigos informais e grupos de famílias que ainda permanecem em locais de risco. Agora temos que trabalhar com a pressão administrativa de esvaziar as escolas que servem de abrigos para iniciar o cronograma educacional, contudo não dá para pensar neste assunto apenas pelo lado burocrático e administrativo, uma vez que estamos diante de culturas sociais específicas (...) A rotina de vida quer seguir seu curso humano e que deve ser mais justo, pois o QUE JESUS FARIA NUMA SITUAÇÃO DESSAS? Estamos olhando para as pessoas e procurando ouvi-las e através dos valores do Reino orientá-las nas decisões que são necessárias, já que a igreja não está e não deve estar no lugar do saber, mas ouvir, reconhecer e participar da vida comunitária, afinal o que significa “CAIR NA GRAÇA DO POVO”? A realidade que a gente vive de poder fazer as coisas, comprar, trabalhar, ter a nossa casa, levar nossos filhos para a escola, convidar nossos amigos para nos visitar, tomar um banho, almoçar assistindo TV e coisas do gênero, muitos não podem, pois agora vivem em abrigos improvisados e estruturados para atender o mínimo e necessário, todavia eles querem ser vistos e assistidos com mais dignidade e humanidade. O pão nosso de cada dia é muito mais que o curso de uma rotina de vida é estar diante de Deus no cotidiano difícil para reconstruir sonhos e projetos de vida e refletir sobre o que a água e a lama não levaram.” (extraído do texto "VIDA DIÁRIA E O PÃO NOSSO DE CADA DIA", de Robson Rodrigues, em http://novafriburgourgente.blogspot.com/2011/02/vida-diaria-e-o-pao-nosso-de-cada-dia.html) - o destaque em negrito é meu
  
Não podemos permitir que os pequenos problemas do cotidiano ou as insatisfações pessoais ofusquem a nossa visão a respeito da vida, levando-nos a murmurar, cultivar frustrações ou nos levar a pensar que somos vítimas das situações. Digo que um comportamento desses pode vir a se tornar um dos piores adoecimentos do ser humano porque rouba a alegria, a esperança, o ânimo, os sonhos e a fé. Logo, trata-se de um dos piores tipos de desamor.

Ainda assim, é nos momentos mais críticos da existência humana que muitos fazem as pazes com a vida, curam-se de seus traumas e encontram a fé. Nestas horas, as pessoas ficam sem chão e são confrontadas consigo mesmas. Seus ídolos mudos se quebram e as ilusões caem por terra, pelo que elas se deparam com a mais dura realidade que jamais se deram conta e se torna mais fácil encontrarem-se com a Verdade.

Para melhor ilustrar as palavras de minha escrita, quero compartilhar aqui a história de Vitória Martins, uma menina de Santa Catarina que é portadora de uma grave doença incomum mas que, mesmo com tamanha dificuldade, ela tem recebido força para transmitir mensagens bem significativas para as pessoas, como se pode assistir neste vídeo que já teve mais de 154 mil acessos no Youtube:



Que possamos sempre agradecer a Deus! Reconhecer que temos uma casa para morar, lembrarmos do que a saúde nos permite fazer, contemplar o por do sol, admirar a natureza e dizer “muito obrigado”.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Você já jogou pedra na Geni?











Geni E O Zepelim


De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada.
O seu corpo é dos errantes,
Dos cegos, dos retirantes;
É de quem não tem mais nada.
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina,
Atrás do tanque, no mato.
É a rainha dos detentos,
Das loucas, dos lazarentos,
Dos moleques do internato.
E também vai amiúde
Co'os os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir.
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir:
"Joga pedra na Geni!
Joga pedra na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!"

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante,
Um enorme zepelim.
Pairou sobre os edifícios,
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim.
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia,
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo: "Mudei de idéia!
Quando vi nesta cidade
Tanto horror e iniqüidade,
Resolvi tudo explodir,
Mas posso evitar o drama
Se aquela formosa dama
Esta noite me servir".
Essa dama era Geni!
Mas não pode ser Geni!
Ela é feita pra apanhar;
Ela é boa de cuspir;
Ela dá pra qualquer um;
Maldita Geni!

Mas de fato, logo ela,
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro.
O guerreiro tão vistoso,
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro.
Acontece que a donzela
(E isso era segredo dela),
Também tinha seus caprichos
E ao deitar com homem tão nobre,
Tão cheirando a brilho e a cobre,
Preferia amar com os bichos.
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão:
O prefeito de joelhos,
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão.
Vai com ele, vai Geni!
Vai com ele, vai Geni!
Você pode nos salvar!
Você vai nos redimir!
Você dá pra qualquer um!
Bendita Geni!

Foram tantos os pedidos,
Tão sinceros, tão sentidos,
Que ela dominou seu asco.
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco.
Ele fez tanta sujeira,
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado.
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir,
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir:
"Joga pedra na Geni!
Joga bosta na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!

* * * * * * *** * * *

E se nós, nobres colegas, estivéssemos em meio à multidão, qual seria nosso grito? Qual seria nossa sentença? 

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O lado ou a parte


O lado ou a parte

Não ser parte” está longe de não ter lado. Tenho meu lado e sou parte de mim mesmo.
Não sou fundamentalista, não faço parte de torcidas, não entro em filas para receber e muito menos para pagar. Sou agnóstico, apartidário, não pertenço a nenhum tipo de manada e ninguém me apascenta. Não fui criado à imagem e semelhança de ninguém, nem ficarei ao lado direito ou esquerdo de alguém por ter sido eleito ovino ou caprino.Sou uma ínfima parte desta evolução continuada, descoberta por Darwin, onde todos os seres vivos tem a mesma ameba como origem.
Tenho simpatia natural por aqueles que preferem andar na contramão. Não tenho nada a defender e me envaideço da minha vida de pobre com liberdade. Há anos eu sou liso e livre à-toa.
Mentiria se dissesse que me orgulharia em desfilar de punho erguido ao som do Hino Nacional, não me sentiria satisfeito em acompanhar o Círio agarrado à corda nem seria ministro de qualquer seita ou dissidência. Muito menos ser, simplesmente, simpatizante de um partido que adotou todo o tipo de falcatrua como método de governo.
Não ter partido político ou religião é não ter lado? O risco de ter um lado para a democracia ou para a crença é maior do que não ter nenhum igualando desiguais. Onde está o elemento que aclama a inteligência e nos faz evoluir? Nas diferenças ou nas igualdades? Não se pode falar daquelas sem reconhecer estas, mas é perfeitamente possível evidenciar estas fazendo tábua rasa daquelas. Está aí uma das diferenças entre a inteligência e a estupidez.
Grande número de indivíduos que se julgam exemplares da raça humana formam grupos, ora políticos, ora religiosos, procurando igualdades no comportamento, no ideal e na filosofia tanto para o bem quanto para o mal. Se julgam os donos da verdade e alguns acham que herdarão um reino no céu, não aceitam divergências e normalmente tem líderes. Não descobriram que seus ganidos são ignorados pela natureza e continuam tentando provar o improvável .Não obstante existem aqueles que, apesar de viverem na mesma sociedade, não exercitam seu lado primata, tem filosofias únicas e raramente são maus. Mesmo sendo discriminados, perseguidos ou castigados dão contribuições substanciais através de suas experiências ponderáveis para várias ciências.
A raça humana continua incentivada a reproduzir párias em progressão geométrica e se organizam em bandos praticando infanticídios, assassinatos, seqüestros, estupros, assaltos e outras barbaridades que os Bonobos abominam. Odeio bandos, odeio manadas, odeio miríades e nem guilda eu freqüento por desconhecimento. Parte do meu intelecto teme o pluralismo de um lado só. Já os indivíduos na sua singularidade me interessam. Não sou anti-social mas minha confraria se resume em poucos dígitos.
Posso até ter um lado primata, mas a outra parte é conservadora. Pode?... Pois é.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...