quinta-feira, 28 de março de 2013

Euclides e Os Sertões






Por Eduardo Medeiros



Comecei a ler os clássicos da literatura brasileira no primeiro ano do antigo “segundo grau” por causa de um professor de português. Foi ele que me apresentou Machado de Assis e José de Alencar, meus dois clássicos preferidos. Ele era um ótimo professor. Procurava criar nos alunos o gosto pela leitura enfatizando a importância do ato de ler para a nossa formação pessoal e intelectual  e nos dava boas dicas de como ler os clássicos, como por exemplo, sempre fazer uso de dicionários. Acabei tomando tanto gosto pelos dicionários que fiz planos  para  ler um de capa a capa.  Ia lendo  e aprendendo novas palavras  e  anotava  em um caderno aquelas  que eu achava interessante.  Era o meu dicionário particular. Evidentemente, nunca consegui ler um dicionário do princípio ao fim!


Pois bem. Este ano voltei com tudo a ler literatura e resolvi ler “Os Sertões” de Euclides da Cunha. Já conhecia o conteúdo da obra, a história de Canudos e do seu herói, Antônio Conselheiro.  Já tinha lido muitas matérias sobre o livro, mas nunca tinha lido o livro. Puxei uma edição na estante  e comecei a ler.  cheguei à página 29 exausto! O que era aquilo, meu bom padroeiro dos leitores aflitos! Na primeira parte do livro, Euclides descreve a geografia do Planalto Central de tal forma tão detalhada e   numa  linguagem tão rebuscada que eu cansei por não ter entendido muita coisa (cadê o dicionário!!?).  Larguei o livro e fui ler outras coisas até que me deparo no livro “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil” de Leandro Narloch, algumas  considerações sobre Os Sertões.


O autor informa que Euclides morria de medo de que a obra fosse execrada pelos críticos mas aconteceu  o contrário: o livro foi bem aceito e ainda hoje é considerado um dos mais importantes do pensamento brasileiro. E por incrível que pareça, o motivo do sucesso foi exatamente por que o livro era difícil de ler. Assim escreve Narloch:


Escrevendo em tempos parnasianos, quando ainda não era ridículo esbanjar eruditismo, o autor abusou de termos científicos, palavras complicadas e construções labirínticas.  Tudo isso dentro de um estilo poético, epopeico. Para reproduzir teorias pseudocientíficas da época, como a inferioridade de raças que resultava na miscigenação dos brasileiros, criava rodeios incompreensíveis como este:


Abstraiamos de inúmeras causas perturbadoras, e consideremos os três elementos constituintes de nossa raça em si mesmos, intactas as capacidades que lhe são próprias. Vamos, de pronto, que, mesmo nesta hipótese favorável, deles não resulta o produto único imanente às combinações binárias, num  fusão imediata em que se justaponham ou se resumam os seus caracteres, unificados e convergentes num tipo intermediário. Ao contrário a combinação ternária inevitável determina, no caso mais simples, três outras, binárias. Os elementos iniciais não se resumem, não se unificam: desdobram-se; originam número igual de subformações – substituindo-se pelos derivados, sem redução alguma...


E por aí vai. Até mesmo intelectuais da época consideravam o livro sonolento, ainda que relevante. Um crítico da época, José Veríssimo, assim resenhou Os Sertões:


Pena que conhecendo a língua, como a conhece, esforçando-se evidentemente por escrevê-la bem, possuindo raras qualidades de escritor, força, energia, eloquência, nervo, colorido, elegância, tem o Sr Euclides da Cunha viciado o seu estilo, já pessoal e próprio, não obstante de um primeiro livro, sobrecarregando a sua linguagem de termos técnicos, de um boleio de frases como quer que seja arrevesado, de arcaísmos e sobretudo de neologismos, de expressões obsoletas e raras, abusando frequentemente contra a índole da língua e contra a gramática.


Tendo lido apenas 29 páginas eu devo dizer que concordo plenamente com o crítico! Não sei se vou voltar às páginas densas do livro de Euclides da Cunha; fico folheando e lendo aleatoriamente as páginas ,  capítulos,  para ver se a linguagem refresca um pouco lá pra frente , mas parece que não!  Creio que nesta minha nova aventura pelos clássicos,  Euclides vai ficar de fora. Pelo menos por enquanto.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Fumaça Preta―Branca―Preta...




                                                        Afresco ― Juízo Final ― Capela Sistina


Está tudo pronto para o início do conclave que escolherá o novo Papa. Ontem foram concluídos os reparos de instalação da chaminé no telhado da Capela Sistina ― famosa pelos afrescos que Michelangelo pintou na parte interna de sua abóbada, dizem, em posição muito incômoda.

Por sinal, foi a pouco mais de três meses que ocorreu o aniversário dos 500 anos dos deslumbrantes painéis desse fenomenal pintor que, diga-se de passagem, deu muito trabalho ao Papa Júlio II: o serviço muito penoso e lento de Michelangelo lhe renderam umas bordoadas do cajado papal. 

O irascível artista foi instado a destruir seu painel com da Origem da Criação, por causa de um Adão frontal completamente nu, com a genitália bem proeminente. Na ocasião, ele bateu o pé e disse: “Se não deixarem tudo como pintei, desisto em concluir a obra!”. Os cardeais, torcendo seus rostos, enfim, aquieceram. Conta-se que grande parte do cardinalato reagiu com rispidez, alegando a indignidade das pinturas, as quais continham anjos e apóstolos com partes pudendas vergonhosamente expostas. Fumaça preta para Michelangelo! (rsrs)

Todo o mundo estará de olho na chaminé da Capela Sistina a partir de terça-feira (dia 11), quando se inicia o conclave (que não deixa de ter suas escaramuças, disputas e guerras santas, etc) aguardando ansiosamente a saída da fumacinha preta ou branca.

Mas aqui pra nós: de onde os cardeais retiraram esse negócio de fumaça da discórdia e fumaça da concórdia, ou, sabe-se lá, do Cão e de Deus?!

Pedi auxílio ao Google sobre a simbologia da fumaça, mas só encontrei isso: “Fumaça negra ― significa que a igreja continua sem Papa; fumaça branca ― significa que existe Papa.”

Mas isso é muito pouco, e não aplaca a minha sede de curiosidade. Deve existir mais significado. Hoje é domingo, a revista Veja atrasou. Estou sem fazer nada, vou escarafunchar mais.

Viva!!! O bispo da diocese de Montenegro deu uma versão plausível para a fumaça, que não tem nada a ver com Mitologia, Escatologia ou Teologia. Diz ele:

“Séculos atrás a comunicação era muito precária. E como havia a necessidade de informar o andamento das votações no conclave, foi criada o sistema da fumaça preta e da fumaça branca. Os cardeais colocavam seus votos para serem queimados e davam um jeito de a fumaça sair preta (grifo meu ― pixe?), indicando dessa maneira a falta de consenso. E quando a escolha acontece, os votos são queimados, e com um processo próprio a fumaça se torna branca”.

Não me contento. Parodiando Shakespeare: há mais coisas escondidas entre o processo “fumaçal” e as quatro paredes da Capela que as minhas vãs palavras escritas nesse ensaio.

Deixo o Google pra lá, e pego meu dicionário de expressões e ditados populares. Finalmente, encontro uma expressão que me alivia e, cai, como uma luva, para explicar a tal da fumaça preta: “A Coisa Tá Pretaato denegrível, sujou, tá num beco sem saída, tá na sinuca de bico, situação insustentável” ― enfim, tudo que o antecessor, Bento XVI já cansou de falar aos quatro cantos da terra sobre a Igreja nos últimos dias. O nó é que mesmo com “a brancura final” da fumaça, o “fantasma de cor negra” vai continuar rondando o Vaticano por, sei lá quanto tempo.

Não foi à toa, que o sarcástico e inteligente Michelangelo, dedicou a maior parte de seu tempo a pintar o maior painel da abóbada da capela Sistina ― cuja foto está no topo desse ensaio ―, representação do JUÍZO FINAL ―, pairando como uma ameaçadora nuvem sobre as cabeças dos que irão escolher o novo Comandante espiritual e Senhor das finanças, esperanças e heranças do riquíssimo império do Vaticano.


Site da Imagem: sabercultural.com

sexta-feira, 1 de março de 2013

O Animal Político




Eduardo Medeiros

As virtudes podem ser ensinadas ou elas são inatas? Na sua obra Protágoras, Platão conta o mito da criação do homem e como as criaturas vieram a ter competências e qualidades. Para Platão, as virtudes podiam ser ensinadas, para Sócrates, elas eram inatas. Quem conta o mito é o filósofo Protágoras:
 No tempo da criação de homens e animais, os deuses deram aos irmãos Epimeteu e Prometeu a incumbência de determinar e distribuir qualidades e competência às espécies. Epimeteu ficaria com esse encargo e Prometeu ficaria responsável de conferir o trabalho. Epimeteu então vai distribuindo as qualidades aos animais de modo que apesar de suas diferenças, tivessem a mesma possibilidade de sobrevivência. Força e velocidade, peles ou carapaças, serviram para o bom equilíbrio da natureza. Depois de terminar sua atribuição, Epimeteu se deu conta que tinha se esquecido de dar qualidades ao homem! Ele ficaria sem competência para sobreviver ao frio e a chuva, pois tinha nascido pelado! Prometeu chega e vê seu irmão desolado. O que fazer agora? 

Prometeu, ousadamente, foi até o Olimpo e “tomou emprestado” de Hefesto os atributos do fogo e de Atena, a sabedoria das demais artes técnicas e a capacidade de criar os seus próprios meios de sobrevivência. Então os homens conseguiram construir casas, roupas, plantar; o homem passaria a interferir na natureza.

Mas com o passar do tempo os homens se viram incapazes de encontrar um meio de convivência harmônica, não tinham tal atributo da harmonização. Os homens ignoravam a arte política que, vejam só, era um atributo do próprio Zeus! Mas ainda bem que Zeus compadeceu-se dos homens que  jazia em guerra uns com os outros. Zeus ponderou que a própria sobrevivência da humanidade estava em jogo. Então ele enviou seu mensageiro pessoal – Hermes – e o mandou atribuir aos seres humanos sentimentos de justiça (dikê) e de dignidade pessoal (aidos). Segundo Kraichete, “a maior força moral que o homem conhecia não era o temor aos deuses, mas o respeito pela opinião pública – aidéomei”. Se o homem não tiver “aidos”, não se ocupará de como seus atos serão julgados e qualificados pelo coletivo. Zeus determinou que todos os homens deveriam possuir a arte política, pois se só alguns  a tivessem, não haveria harmonia social. Era obrigação dos homens serem “políticos”. E a essência da virtude política são a justiça e o respeito ao próximo.

Precisamos mais do que nunca, pedir outra vez a Zeus que nos mande mais um pouco de diké e aidos; nossos políticos em Brasília, principalmente,  estão faltosos de tais virtudes.

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