quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O político que tentou virar honesto




Na brasileiríssima cidade de Corruptópolis, houve um vereador que resolveu se tornar um político honesto, Após uma grave crise existencial, eis que, durante uma madrugada de insônia, pegou a sua maleta cheia de dólares, tirou o carro da garagem e dirigiu direto à mansão do prefeito. Chegando lá, foi logo abordado pelo vigia da casa, o qual, embora devesse cumprir o seu plantão como policial militar, estava fazendo um servicinho extra ali:

Segurança: Pois não, vereador? O que deseja?

Vereador: Quero falar com o prefeito já!

Segurança: Senhor, tenho ordens para não deixar ninguém entrar nesse horário.

Vereador: Meu assunto é urgente, rapaz! Diga ao prefeito que é algo do interesse dele.

Segurança: Só um momento, vereador.

Após telefonar da portaria até à residência, o vigia obteve autorização para deixar o vereador passar uns cinco minutos depois. De pijama, o prefeito pôs-se de pé para receber o seu edil:

Prefeito: Em que posso ajudá-lo, vereador? Espero que tenha um motivo bem relevante para me tirar da cama a essa hora da noite. Venha até o meu escritório.

Saltando do carro, o vereador entrou na casa do prefeito onde resolveu logo abrir a mala com meio milhão de dólares e esparramar todo o dinheiro no chão.

Prefeito: O que significa isso, vereador?

Vereador: Estou devolvendo tudo quanto recebi de propina por todos os meses deste meu mandato. Risque meu nome da lista desse seu mensalão sujo!

Prefeito: Não estou entendendo, vereador. Comprei o seu apoio e você cumpriu direitinho o nosso acordo por todo esse tempo, aprovando meus projetos, votando o orçamento e acompanhando o líder do governo nos seus posicionamentos. A grana é sua e trate de guardá-la imediatamente num lugar seguro para não sujar pra ninguém.

Vereador: O dinheiro não é meu e nem seu. Pertence ao povo!

Prefeito: Onde você quer chegar? Diga logo aquilo que pretende porque eu quero dormir. Se estiver insatisfeito com o valor, posso estudar um aumento para você ou conseguir colocar mais gente sua num dos programas do governo, caso desenrole uns dois projetos pra mim lá na Câmara. Só que isso não é assunto para falarmos agora e...

Vereador: Não quero mais participar do seu jogo sujo! Daqui por diante, só vou defender o povo e estarei na oposição. Mas pode ficar tranquilo que não denunciarei nada sobre a sua compra de votos na Câmara.

Prefeito: Não enche o meu saco, vereador! Olha que eu exonero aquelas vinte pessoas indicadas por você e que foram contratadas temporariamente pela Prefeitura. Inclusive o seu cunhado e as duas sobrinhas que estão lá na Secretaria de Inclusão Social.

Vereador: Faça como bem entender. Está aqui o dinheiro!

Prefeito: Tudo bem. Só que não terá devolução pela perda de sono que está me causando. Lembre-se que vai precisar de grana para a sua campanha. Tem certeza do que está querendo fazer?

Vereador: Absoluta! E pouco importa se vou ser reeleito ou não. Quero usar o tempo que resta do meu mandato para concretizar alguma coisa útil em benefício do povo. Tenha uma boa noite, prefeito.

Saindo dali, o vereador passou em frente ao hospital da cidade, viu já naquele horário uma fila enorme de pessoas aguardando pelo atendimento de saúde e resolveu conversar com os eleitores. Foi então que uma senhora o reconheceu.

Eleitora: Meu vereador! O senhor por aqui? 

Vereador: Olá, minha senhora. Enorme essa fila, não? Não deu nem quatro horas da madrugada e já está desse jeito.

Eleitora: É a fila da marcação de consulta com o cardiologista, vereador. Toda primeira terça-feira do mês abre a agenda dele para atender apenas cinco pacientes por semana durante todo o mês.

Vereador: Caramba! Eu não imaginava essa. Achei que até sobrassem vagas porque a secretária de saúde sempre atendia aos meus pedidos para encaixar novos pacientes.

Eleitora: Puxa! Se eu soubesse disso, teria procurado o seu gabinete para não ficar aguardando aqui. Olha! Lá em casa moram oito pessoas e...

Vereador: Mas agora não adianta mais porque acabei de brigar com o prefeito. Se quiser contar comigo, me ajude a fazer um abaixo-assinado que entrego o quanto antes no promotor.

Eleitora: A Câmara não pode fazer nada? Vocês não têm lá uma comissão sobre a saúde com poderes para fiscalizar a Prefeitura?

Vereador: Até pode. Só que ninguém quer brigar. Sou apenas um vereador no meio de mais doze. De qualquer modo, posso falar sobre isso quando for usar a tribuna na sessão de hoje à tarde. Aparece para me dar uma força.

Eleitora: Preferiria que o senhor arrumasse uns refrigerantes para a festa que vai ter na minha rua e conseguisse aquele emprego para o meu neto que havia prometido durante a última campanha. Já estou acostumada a chegar aqui bem cedo. 

Vereador: E a senhora está na fila desde que horas?

Eleitora: Meia noite. Já se encontravam na minha frente aquelas duas moças. Elas vendem o lugar na fila por quarenta reais. Uma é minha vizinha na comunidade, está desempregada e passou a fazer bicos por aqui quase todos os dias. Se puder, dá uma moral pra ela porque a companhia de eletricidade já veio cortar a luz da casa onde ela mora mas acabou lacrando o relógio de um outro barraco que tinha o mesmo número.

Vereador: Não posso fazer isso! Essa madrugada disse para mim mesmo que serei honesto daqui para frente. O meu papel a partir de agora será fiscalizar a Prefeitura e fazer as leis da cidade serem cumpridas. Desculpe se prometi emprego para o seu neto e não poder arrumar os refrigerantes. É que o trabalho do vereador não é esse. Ainda assim, pode deixar que tomarei providências sobre a quantidade de consultas com o cardiologista e a necessidade do paciente entrar na fila só para marcar. Agora deixa eu ver como anda a emergência do hospital. Boa noite.

Ao ingressar na unidade de saúde, os enfermeiros estavam todos dormindo e não foi encontrado quem pudesse responder pelo setor porque o plantonista havia faltado. Também não tinha anestesista e havia apenas a recepcionista acessando o Facebook pelo computador da instituição. Esta nem se deu ao trabalho de minimizar a tela ao ver o nosso edil entrando.

Funcionária: Como vai, vereador? Infelizmente estamos mais uma vez sem médico. Se estiver precisando de atendimento pra algum eleitor, o senhor vai ter que levar a pessoa em outro hospital.

Vereador: Filha, vim aqui saber como anda a emergência.

Funcionária: Por favor, não fale para ninguém o que vou contar. Hoje o médico faltou porque precisou fazer plantão em outro lugar que é uma clínica particular da cidade vizinha da qual ele é sócio. Além disso, todos estão evitando trabalhar aqui, inclusive aquele seu colega da Câmara que é médico, o doutor Joaquim. O raio-X está novamente quebrado, não tem todos os medicamentos, nem esparadrapo e até o papel higiênico dos banheiros acabou. Estamos sem dipirona desde o mês passado e o benzetacil só pode ser aplicado se o paciente comprar a ampola na farmácia. Ontem uma criança nasceu bem ali no corredor porque a médica achou que ainda não era a hora do parto e pela terceira vez tinha mandado a mulher de volta para casa com quarenta e duas semanas de gestação. O senhor é o relator da comissão de saúde, não?

Vereador: Ainda sou e prometo levar esses problemas para serem debatidos na sessão de hoje.

Funcionária: Que bom, vereador! Só peço que não fale no meu nome porque sou contratada por indicação do vereador Ricardo do Poste e preciso do emprego. A propósito, sabe informar quando é que vai ter concurso público para a saúde?

Vereador: O prefeito havia dito pra mim uns dias atrás que, se dependesse dele, nunca. E, nesse ano, como nós vamos ter eleições, fica impossível sair o edital.

Funcionária: Uma pena!

Vereador: Pena você não querer testemunhar essas coisas.

Funcionária: Infelizmente, não posso. Tenho dois filhos para criar e o meu marido é também contratado pela Prefeitura. Trabalha no colégio municipal lá perto da rodoviária.

Vereador: E como vai a escola?

Funcionária: Está sem merenda há duas semanas e os professores estão organizando uma paralisação para amanhã. Ou melhor, pra hoje. Ontem, as aulas precisaram ser suspensas por causa da falta d'água.

Vereador: Que horror! Nunca imaginava que fosse assim. Vou denunciar isso também e, se o seu esposo tiver um tempinho, pede pra ele passar lá no meu gabinete.

Tendo o vereador voltado para a casa, tentou descansar por duas horas e depois se arrumou para estar na Câmara. Chegou bem cedo a ponto de surpreender a todos os servidores da casa já que não era costume dele trabalhar pela manhã.

Porteiro: Bom dia, vereador? O que foi? Madrugou hoje? Não tem nenhuma sessão extraordinária a essa hora.

Vereador: De agora em diante, vou chegar cedo todos os dias e não faltarei mais às sessões.

Porteiro: E esse atestado médico que a secretária do seu médico deixou comigo para justificar a falta que o senhor teve na sessão passada?

Vereador: Por favor, rasgue isso. Vou assumir a falta e aceitar o desconto de quase mil reais no meu pagamento.

Entrando o vereador no gabinete, o seu assessor já estava na sala fazendo umas ligações sobre negócios particulares usando o telefone da Câmara.

Assessor: Patrão, como o pagamento do mês atrasou, só pude vir hoje tomar um café contigo. Eis aí a metade do meu salário, conforme o nosso combinado. Cheguei cedo na casa porque tenho um montão de coisas para resolver lá na loja, preciso fazer uns telefonemas pro exterior e...

Vereador: Pode ficar com o dinheiro todo. Aliás, o salário é seu. Só quero que permaneça aqui e me ajude a elaborar uns requerimentos.

Assessor: Puxa vida! Logo hoje, vereador? O nosso trato foi que eu recebesse sem trabalhar, não era? Por isso é que sempre divido o salário contigo. Tá lembrado? A propósito, nem sei como faz esses requerimentos daqui.

Vereador: Eu errei com você. Só que, a partir de agora, as coisas vão ser diferentes. Se quiser continuar trabalhando, terá que ficar no gabinete de segunda à sexta-feira das oito até meio dia e depois das duas às seis da tarde. Peço que passe a redigir pelo menos umas três indicações pra cada sessão.

Assessor: Não estou entendendo o senhor. Desse jeito não interessa mais ser seu assessor. E, se for para trabalhar, por que vou ter compromisso de fazer campanha esse ano? Por favor. dê o meu contra-cheque porque preciso sair e abrir a loja. Hoje você me pegou de surpresa e assim não é justo.

Sem a ajuda do assessor, o vereador precisou fazer todo o trabalho sozinho. A todo momento o telefone tocava ou chegava alguém para pedir algum favor. E uma das pessoas atendidas foi o representante de uma empresa:

Lobista: Bom dia, vereador. Soube que Vossa Excelência estava na casa e resolvi procurá-lo.

Vereador: O que deseja?

Lobista: Represento uma empresa de limpeza urbana e que pretende participar da licitação da Prefeitura. Soube da influência que o senhor sempre teve junto ao prefeito desta cidade e por isso viemos pedir a sua intermediação para que ele direcione o edital. Rachamos uma comissão de setenta mil e ainda contratamos uns trinta varredores que o senhor nos indicar.

Vereador: Como é que é?! Repete novamente porque eu gostaria de gravar essa nossa conversa pra levar ao Ministério Público. Só um momento que vou pegar meu celular.

Envergonhado, o homem se levantou da cadeira, passou pela porta do gabinete e saiu batido sem se despedir. Depois disto, o vereador ligou para a portaria pedindo para só deixarem as pessoas subirem à sua sala na parde da tarde pois precisava redigir os requerimentos sobre o hospital e sobre a escola antes da sessão começar. Ainda assim, o telefone continuou tocando:

Vereador: Alô!

Telefonista: Vereador, sei que o senhor pediu para não ser incomodado mas é que chegou uma ligação importante de Brasília. Atende aí o deputado João, presidente da Executiva Estadual do seu ex-partido.

Imediatamente o deputado entrou na linha.

Deputado: Meu caro vereador, bom dia. Estou ligando para tratar de um assunto sério contigo. Ainda esta semana o setor jurídico do partido pretende ingressar com uma ação para reavermos o seu mandato visto que o senhor andou mudando de legenda.

Vereador: Bem, eu achei que tínhamos acertado tudo entre nós e que o partido não iria criar caso.

Deputado: Acontece que recebi uma reclamação do seu prefeito sobre você e o partido está fechado com ele para a campanha deste ano. Caso resolva partir para uma oposição ferrenha, vamos ter problemas. Se não quer mais permanecer alinhado ao governo, inventa uns casos inofensivos e joga pra plateia, mas nada de envolver a Polícia, Ministério Público e gravações de conversas sigilosas. O que você está querendo fazer é contra a ética! Inclusive, sou amigo do dono da companhia que faz serviços de limpeza urbana na sua cidade.

Vereador: Não vou voltar atrás e, se continuar me ameaçando, vou colocar essa ligação na internet. Agora me deixe trabalhar!

Na hora do almoço, o vereador quase foi atropelado por um carro preto que veio em sua direção quando atravessou a rua indo para o restaurante. Mesmo assim, manteve o seu propósito de ser honesto e, no começo da tarde, retornou à Câmara a fim de apresentar na secretaria os requerimentos de informação.

Ocorreu que, na hora da sessão, apenas seis edis e mais o presidente da Câmara se achavam em Plenário e os trabalhos não puderam ser iniciados por falta de quórum regimental. O nosso vereador foi então chamado para uma conversa particular na sala do presidente.

Presidente: Meu caro vereador... Que requerimentos são esses que protocolou na secretaria? Por favor, não nos obrigue a contrariar o prefeito aprovando essas coisas ou nos colocando na incômoda situação de termos que votar contra o povo por mais uma vez. Por sua causa, a maioria teve que arrumar motivo para não comparecer hoje. Por isso, peço que desista logo desses papeis ou vai me colocar em maus lençóis.

Vereador: De modo algum farei isso, presidente. Fui eleito com oitocentos e quinze votos para defender o povo! Quero honrar o meu mandato.

Presidente: Pense direitinho. Senão pode ficar de fora do congresso remunerado que teremos em Maceió bem em frente à praia.

Vereador: Não me importo.

Quando anoiteceu, havia um grupo enorme de pessoas na casa do vereador aguardando-o depois de divulgado o manifesto que ele havia postado nas redes sociais sobre o seu rompimento com o governo. Além de seus familiares, da esposa e dos parentes desta, encontravam-se também os mais de dez assessores lotados no seu gabinete juntos com os vinte funcionários contratados pela Prefeitura que foram indicados por ele, mais a paciente do SUS encontrada de madrugada na fila, a recepcionista do hospital, o cônjuge desta, o médico que passava atestados falsos, o deputado e o lobista. Todos queriam uma explicação quanto às atitudes de rebeldia tomadas naquele dia pelo edil e se mostraram profundamente indignados:

Esposa: O que você está fazendo, meu bem? Esqueceu-se das nossas dívidas, das prestações do carro importado, do plano de viagem para Miami, onde celebraremos nossas bodas de prata, e daquele anel de brilhante que havia me prometido? Se você perder o mandato, terei que fazer programas numa terma a fim de pagar nossas contas e acho que estou um pouco fora da idade para prestar esse tipo de serviço.

Cunhado: O prefeito ameaçou que vai me exonerar do cargo de secretário de cultura e suspender o evento de sábado por tua causa. Se está cansado de ser político, terei o maior prazer de vir como vereador em seu lugar nas próximas eleições. Só não se esqueça de que investi mais de cem mil reais na sua campanha!

Funcionária do hospital: Meu chefe já está desconfiado de que fui eu quem passei as informações que botou na internet sobre a emergência. A barra ficou difícil pra mim lá e, se eu tiver que testemunhar algo, não confirmarei nada.

Marido da funcionária: E lá na escola também a diretora chamou as merendeiras, professores e inspetores para uma conversa sobre não expormos assuntos internos para terceiros. Não se esqueça de que eu e minha esposa dependemos desses empregos no Município, pagamos aluguel e temos filhos.

Deputado: Nosso advogado já entrou em acordo com o seu partido atual sobre a perda do seu mandato por infidelidade. Nenhuma das duas agremiações quer ser prejudicada com as denúncias estúpidas que pretende fazer.

Assessor: Se você perder o mandato, todos nós vamos pra rua procurar emprego. É isso que o senhor quer?!

Lobista: Tenho comigo um documento assinado pelo senhor confirmando que recebeu ajuda de outra empresa associada ao nosso grupo quando foi candidato a deputado estadual no ano passado. Se tentar algo contra a Aluganty, já sabe quem será o primeiro político que meu patrão entregará na delação premiada.

Vereador: Podem continuar com as ameaças porque vou seguir em frente. E, se necessário, procuro a Polícia Federal e conto tudo o que sei.

Naquele momento, o médico que vendia atestados aos políticos da cidade resolveu trazer a ambulância do SAMU.

Doutor: Senhores, esse meu ilustre paciente tem andado com muitos problemas de comportamento ultimamente. Ele precisa ser internado com urgência para tratamento em clínica psiquiátrica. Só neste ano tive que assinar treze atestados porque não estava em condições de comparecer nas sessões da Câmara. Vai dar tudo certo e o vereador ficará de licença médica por tempo indeterminado até que melhore. Agora vamos levá-lo ao hospital.

Em uma semana, tudo ficou acertado em Corruptópolis. No lugar do vereador assumiu o seu suplente com o compromisso de manter parte da assessoria já nomeada. Para não atrair a atenção dos eleitores e nem dos jornais, o nosso personagem principal foi conduzido para uma unidade do SUS em outro estado onde pacientes vip recebiam tratamento diferenciado num setor reservado (alguns usuários de planos de saúde também eram internados ali). Diariamente, os enfermeiros lhes aplicavam doses cavalares de psicotrópicos.

Um mês se passou e pela primeira vez o nosso vereador recebeu uma visita. Era um ex-correligionário seu, pastor da Igreja dos Salvos da Última Hora Antes de Jesus Voltar pela Terceira Vez. Tratava-se uma seita apocalíptica que estava crescendo na cidade, a qual pregava ter ocorrido um pequeno arrebatamento de cristãos escolhidos no fim da Segunda Guerra Mundial, inaugurando um período de setenta anos de tribulação até Cristo voltar. Pregava ele que mais pessoas estavam sendo arrebatadas e que o fim do mundo chegaria em 2016.

Vereador: Até que enfim alguém se lembrou de mim. Por favor, não vai tentar me converter, pastor.

Pastor: Se estivesse preso com os caras da operação Lava-Jato, com uma pena fixada pela Justiça, não seria um destino melhor do que ficar esquecido nesse manicômio? Mas você sabe que, no fundo, sou ateu e só finjo ser crente para arrumar grana dos trouxas. Entre nós, o papo sempre foi diferente.

Vereador: Lamento que tenha perdido a fé.

Pastor: Nunca tive fé, meu vereador. Aliás, vou chamá-lo de futuro prefeito de Corruptópolis.

Vereador: Como é que é?!

Pastor: Isso mesmo! Vou eleger você prefeito daquela cidade.

Vereador: De que jeito? Meu nome deve estar mais queimado do que carvão de churrasqueira.

Pastor: Os impossíveis para os homens são possíveis para o Todo Poderoso. Isto é, para esse pastor poderosão da igreja mais do que visível.

Vereador: E estou vendo que será uma igreja mais do que visível mesmo. Tem um paciente membro da sua seita que falou sobre o plano que vocês têm de construir uma réplica do Templo de Salomão dez vezes maior do que o inaugurado pelo Edir Macedo.

Pastor: Não é bem assim. Vai ser uma réplica do templo do livro do profeta Ezequiel que pretendo construir em Corruptópolis para recebermos Jesus Cristo quando ele vier reinar. Na ocasião, pretendo lançar um missionário da minha igreja para ser candidato a Presidente da República.

Vereador: Eu tô fora! Resolvi deixar de ser corrupto. Prefiro anular meu voto!

Pastor: Só que você está esquecido aqui e com todo o tratamento vip que recebe nem direito a visita íntima de sua mulher tem num hospital psiquiátrico onde poderá permanecer pelo resto da vida. É pior do que uma cadeia em Bangu 8 ou na Papuda. Pelo menos lá os caras do tráfico conseguem mordomia com a carceragem, fazem ligações de celular, ainda dão trotes dos outros e ainda conseguem sair para dar um rolé molhando a mão do carcereiro. Se continuar por mais tempo no meio dessa malucada, vai acabar virando um deles.

Vereador: Você tem razão.

Pastor: Preste a atenção, filho. O povo de Corruptópolis ainda não compreendeu bem o verdadeiro motivo pelo qual foi licenciado do seu cargo e o colocaram aqui. Vou tirá-lo já dessa clínica e você dirá à população que aceitou Jesus tendo sido curado de sua doença. Consigo todos os laudos médicos para provar que agora está bem de cabeça e poderá voltar pra Câmara.

Vereador: E o prefeito vai deixar?

Pastor: Claro! Já articulei o seu retorno com ele. Aliás, o prefeito bem que preferiria que estivesse lá pois o seu suplente cobra uma propina muito mais cara e exige duas secretarias no governo pro irmão dele. Basta que esqueça essa maluquice de virar um homem honesto.

Vereador: Acho que não tenho outro jeito.

Pastor: E quando você se eleger prefeito, terá a chance de melhorar a saúde e a educação de Corruptópolis porque iremos roubar menos. E não vai ter mais problemas para lavar o seu dinheiro porque eu o promoverei a diácono na minha igreja com um altíssimo salário. Para justificar a origem da grana, declararei que o dinheiro roubado estará vindo das ofertas dos fieis e das vendas dos meus livros sobre o fim do mundo. Ninguém sabe o quanto entra na sacolinha, não é mesmo?

A ideia agradou ao vereador e ele acabou concordando em participar do plano do pastor. Afinal, era insuportável viver num hospital de loucos. Assim, após o psiquiatra diretor da clínica levar uma graninha do pastor e receber um telefonema do governador confirmando a sua futura promoção, assinou a alta médica.

De volta a Corruptópolis, o vereador reassumiu o seu cargo tendo entrado em acordo com os seus pares sobre não fiscalizar mais as coisas erradas do Município. Apenas faria os seus discursos na Câmara fingindo ser da oposição. Meses antes das eleições, conforme pactuado com o pastor, o prefeito lançaria um candidato sem chances pelo seu partido e todos os nomes principais do governo mudariam de lado a fim de preservarem seus privilégios...

Bem, essa é uma história sem fim porque, como sabemos, a safadeza insiste em jamais acabar nesse país. Assim ocorria nos tempos de Dom João VI e a essência permanece a mesma. Tanto em Brasília, como nos estados e mais ainda nas prefeituras dos grotões do Brasil.


sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Desespero




Alguma palavra definiria melhor o cotidiano da maioria dos brasileiros do que o vocábulo desespero? Duvido!

Quando assisto nos telejornais as frequentes matérias sobre o caos na saúde pública, as más condições dos meios de transporte, a violência nas preferias das grandes cidades, a precariedade dos serviços de saneamento básico e o abandono das escolas pela idolatrada e gentil "pátria educadora" (só aqui no meu município de apenas 40 mil habitantes existem centenas de mães aguardando vaga na creche para o filho), percebo o quanto é desesperadora a vida do pobre. Trata-se de um sofrimento que pouca gente das classes média e rica percebe na mesma dimensão. Uma realidade da qual só conseguimos dar conta quando passamos a vivenciá-la também em seus variados detalhes e condicionamentos.

Alguém tem ideia do que vem a ser o chamado ciclo de pobreza?

Se pensarmos nas condições em que as pessoas muito pobres vivem, veremos o quanto é difícil para elas terem alguma mobilidade social. Suponho que, se não fossem os programas assistenciais, a exemplo do Bolsa Família, diversas regiões do país teriam até hoje os seus bolsões de miséria em dimensões mais profundas, com a exploração do trabalho infantil em proporção ainda maior e agricultores recebendo uma renda mensal inferior a meio salário mínimo, conforme era bem frequente nas décadas do século XX.

Todavia, falta muito para quebrarmos esse maldito ciclo! 

São diversas as condicionantes e as políticas públicas permanecem deficientes. Pois, se até para o pobre desfrutar de uma vida razoavelmente digna está difícil, mais distante ele se encontra da tão sonhada mobilidade social. E os poucos que a alcançam acabam passando por sacrifícios e privações consideráveis que marcarão irreversivelmente suas vidas nesta sofrida terra.

Apesar da acessibilidade em relação à escola básica, um longo deserto precisa ser cruzado para o pobre entrar numa faculdade, conseguir sair dela com diploma e, finalmente, colocar-se profissionalmente no mercado de mão-de-obra qualificada. Ao se formar, um aluno de condição humilde já não costuma ser tão jovem quanto o filho de papai e isso conta muito para o sujeito ficar empregado e se aperfeiçoar.

Como se não bastassem as condicionantes materiais, o pobre também enfrenta desafios no campo das emoções. Um deles seria quanto à auto-estima muitas vezes rebaixada. Trata-se de uma dificuldade surgida desde a infância da pessoa mas que pode ser novamente retroalimentada por outros problemas que vão surgindo, os quais envolvem a vida pessoal e a família. Basta um parente adoecer, um irmão ser preso ou ocorrer uma perda considerável para as coisas ficarem abaladas a ponto de comprometerem o sucesso das metas traçadas.

Penso que não será fácil a superação coletiva dessa crônica situação desesperadora do Brasil sem haver um esforço coletivo e solidário dos membros da nossa sociedade. Junto com as políticas públicas, as pessoas precisam se apoiar mutuamente criando assim um ambiente propício para que construamos um futuro melhor dentro de duas ou três gerações. E aí o primeiro passo consiste em alargarmos a nossa compreensão, colocando-nos no lugar do outro, e evitando os julgamentos morais improdutivos.


OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro O Grito, pintura em óleo sobre tela feita em 1893 pelo artista norueguês Edvard Munch (1863 - 1944). Extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Um ateu no confessionário




Um ateu foi a uma igreja situada ao lado de um colégio religioso e lá procurou pelo padre que estava no confessionário aguardando ansiosamente dar a hora do almoço.

Ateu: Bom dia, padre.

Padre: Bom dia, filho. Em que posso ajudá-lo? Conte-me os seus pecados.

Ateu: Primeiramente, padre, quero que saiba que não acredito em pecado. Aliás, nem em Deus eu acredito. Sou ateu!

Padre: Então por que veio a esta congregação?

Ateu: Porque preciso de alguém que me ouça e suponho que aqui seja um canal 0800. Ou seja, de graça.

Padre: No posto de saúde da outra esquina há psicólogos e lá também é 0800. Basta levar o seu cartão do SUS...

Ateu: Não é bem assim. Por enquanto, ambas as duas psicólogas lá não têm disponibilidade de vagas e uma delas já atendeu minha mãe. Sabemos como é a saúde pública no nosso Brasil com esses políticos maravilhosos mamando no poder. Atendimento terapêutico só mesmo na emergência do CAPS para casos graves de pacientes psiquiátricos em crise, com problemas de alcoolismo ou de drogas. Eu que nem fumo nem bebo simplesmente não me enquadro.

Padre: Tudo bem, filho. Você me convenceu a atendê-lo embora não sei se vou conseguir êxito em ajudá-lo porque acha que não tem pecado para contar. Diga-me então sobre as coisas que andam afligindo a sua alma, isto é, sua mente.

Ateu: Ando desgostoso da vida!

Padre: Por que? Qual seria o motivo dessa tristeza?

Ateu: É que, mesmo tendo deixado de acreditar em Deus, gostaria que a vida fosse como o cristianismo prega. Gostaria que o céu e a ressurreição dos mortos realmente existissem pois assim ninguém acabaria quando morresse. Aí todo o bem que eu fizesse ao próximo faria sentido porque os anjos do Senhor estariam anotando cada ação positiva praticada para haver depois algum tesouro para ser desfrutado na eternidade. E todo sofrimento aqui já não seria em vão e a melhor coisa pra mim seria pegar a cruz e seguir a Jesus por mais pesada que ela fosse.

Padre: Então por que você não faz isso, filho? Experimente virar um discípulo de Cristo! Na próxima semana vai abrir uma nova turma de catequese na paróquia. Venha participar!

Ateu: Não é tão simples assim para mim. É que não quero me iludir, padre. Do contrário, vou pecar contra a realidade. Realidade esta que é muito dura, amarga, solitária e triste. Porém, não é hipócrita ou fingida como são as fantasias religiosas.

Padre: O "ame o teu próximo como a ti mesmo" não diz nada para você? Será que o valioso ensino de Jesus não pode ajudá-lo a colorir essa realidade e enfrentá-la com fé?

Ateu: Essa é a maior mentira que a sua Bíblia contou até hoje! Não passa de grande utopia inventada pelos antigos padres amigos de Constantino e dos sacerdotes judeus. Posso interpretar o mandamento de Jesus como um princípio que apenas inspira solidariedade e generosidade, coisas que a ética da necessidade melhor ensina.

Padre: Como assim? Explique-me melhor.

Ateu: Se desejamos viver em sociedade, precisamos de uma dose de generosidade e solidariedade com o outro ou, do contrário, o relacionamento humano torna-se insuportável. O que Jesus, Hillel ou os escritores sagrados pregavam seriam maneiras poéticas de expressarem isso. Fora da tradição judaico-cristã, outras culturas também chegaram a conclusões semelhantes acerca da famosa Regra de Ouro. Até os índios das Américas conheceram esse mandamento antes dos jesuítas virem pra cá rezar!

Padre: Filho, vejo que você é mesmo um caso quase perdido pra Igreja. Como não é cristão e nem parece arrependido dessas palavras, não tenho como te dar uma penitência. Vá em paz e sei que, por ser ateu, pro senhor não existe o céu e tão pouco o inferno.

Ateu: O senhor está me expulsando, padre?

Por um instante o sacerdote se calou e, em seguida, o sino da paróquia bateu doze vezes sinalizando ser meio dia.

Padre: Sabe o que que é, filho? Chegou a hora do almoço e eu não consigo pensar em outra coisa senão em saborear a deliciosa macarronada feita pelas freiras do colégio. Que tal me acompanhar no rango?

Ateu: Amém!


OBS: Imagem acima extraída do acervo virtual da Wikipédia referindo-se ao confessionário tradicional na igreja de Thann, França, conforme consta em https://pt.wikipedia.org/wiki/Confession%C3%A1rio#/media/File:Collegiale-Thann-p1010106.jpg


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Perder a fé...




Pode haver vantagens e desvantagens quando alguém "perde a fé". Sejamos racionais!

Se, por um lado, o ex-crente se sente aliviado por se livrar das recompensas e punições da religião, tornando-se mais conectado à realidade, eis que tal pessoa já não encontra o mesmo amparo psicológico das vezes quando costumava dobrar os joelhos em oração acreditando numa intervenção divina para os seus problemas. Diante de um desafio da vida, o descrente apenas conta consigo mesmo, isto é, com sua capacidade e habilidade para a superação dos obstáculos.

Assim sendo, já não existe mais para ele rituais que consigam dar jeito na coisa, quer sejam rezas, oferendas, leituras de cartas, banhos de erva, azeite ungido, a fogueira de Israel feita pelos pastores da IURD, os três pulinhos na festa do ano novo, jejum, etc. Trata-se de matar o leão ou ser comido pela fera, sabendo que, em qualquer dia desses, vamos acabar de algum jeito devorados pelos vermes dentro de um túmulo.

Certa vez um pregador falou em púlpito que "difícil não é ser crente", mas "ímpio", referindo-se ele aos não crentes. E, sem dúvida, ele falou de algo bem pertinente pois viver não dependendo mais de milagres requer uma enorme maturidade do indivíduo.

Obviamente que nem todas as religiões ou segmentos religiosos alimentam a crença no "sobrenatural". Dentro do próprio cristianismo, há grupos que entendem ter já se passado o tempo dos milagres, com o final da era apostólica no primeiro século, e uma minoria desses considera o aspecto meramente simbólico dos atos miraculosos de Jesus relatados nos evangelhos da Bíblia. Porém, o fato é que a grande maioria de religiosos ao redor do planeta prefere a ambiguidade de pedir ajuda aos céus e, ao mesmo tempo, procurar soluções práticas no mundo material mesmo contrariando os princípios da fé seguida. Por exemplo, conheço um comerciante, membro de uma igreja pentecostal, que justificou o seu pagamento de propinas aos agentes da fiscalização do Poder Público em defesa de suas atividades empresariais...

Mas será que um ateu "perde" a fé totalmente?

Em algum momento, ele não se sentirá tentado a falar com o Papai do Céu quando estiver diante de uma situação difícil ou praticamente impossível de resolver?

Como lidar com o sentimento de eternidade diante da inevitável morte física (do próprio corpo ou de alguém próximo)?

Tenho pra mim que um descrente acaba de algum modo encontrando os seus novos significados para a vida, caso não caia nas armadilhas da embriaguez ou da revolta ressentida contra tudo e todos. Permanece nele o desejo de se religar ou de se harmonizar com a realidade, buscando o sentido da existência. Logo, todas as desconstruções quanto à religião não importariam na "perda" da fé mas, talvez, em reencontrá-la.

E você? Qual a opinião que tem acerca do assunto?

Acredita que alguém, quando deixa a religião, "perde" a ré ou a reencontra?
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