terça-feira, 23 de março de 2010

Jesus: um homem (muito) além do óbvio

Creio que, mesmo quando já não houver mais nem um único ser humano aqui, a mentalidade do Homem de Nazaré ainda não terá sido perfeitamente compreendida.

Jesus possuia uma lógica "absurda", tanto para o seu tempo quanto para os dias de hoje; e de amanhã... Se atualmente já soa um tanto inadequado um homem tido como "santo" se "misturar" com prostitutas, vagabundos e mendigos, imagine há cerca de 2000 anos, num país oriental, com uma mentalidade muito mais rígida que a dos povos ocidentais.

Jesus era o próprio absurdo encarnado. Não era à toa que ele dizia frases como "quem tem ouvidos para ouvir ouça" e "quem pode receber isto receba". Ele compreendia perfeitamente o quão "extravagante" o seu discurso era - e, repito,  ainda é.

Ele veio numa época em que os hebreus seguiam uma infinidade de regrinhas, muito além dos famosos 10 mandamentos de Moisés, mais ou menos conhecidos por todo mundo. Só que ele simplesmente se saia com umas do tipo: "o que contamina o homem é o que sai da sua boca, e não o que entra através dela" e: "quem não tiver pecado atire a primeira pedra". Ele era o cúmulo da inconveniência. Questionava os valores do seu tempo, as figuras tidas como as mais "respeitáveis" e fazia tudo o que nenhum judeu em sã consciência faria se tivesse "amor à vida"; à sua própria vida...

Ainda hoje, quando algum cristão fala da necessidade de se apreender o espírito da Palavra, e não a sua escrita literal (a "letra morta") este é tido como um "liberal que acha que pode interpretar a Bíblia a seu bel-prazer". Mas, se era justamente isso que Jesus fazia! Ou o que explica o fato de ele e seus discípulos haverem descumprido várias ordenanças formais da Lei judaica e ainda assim ele ter afirmado categoricamente que cumprira toda a Lei? Seria ele um "mentiroso"? Ou na verdade estaria ele a demonstrar por seu próprio exemplo de vida que é a essência dos mandamentos que necessitam ser cumpridos e que as regras servem apenas como um caminho e uma sinalização até ela?

Alguns dizem que "nem todos podem compreender o espírito da Palavra, tendo assim que cumpri-la na sua literalidade afim de que não se percam". Isto não deixa de ser verdade, mas oculta e até mesmo combate uma verdade maior, que é o fato de que as Escrituras são um parâmetro  para a nossa vida, jamais um manual de instruções que tenhamos de seguir ao pé da letra, ainda mais sem termos feito as atualizações necessárias à época e ao espaço em que vivemos.

Jesus, o Homem muito além do óbvio, propôs a vivência de uma fé inteligente, sincera e prática, alicerçada no amor a Deus e na empatia, ou seja,  na capacidade de se colocar no lugar do outro, amando-o como a si mesmo.

Resultado: em seus dias, terminou crucificado como um bandido da pior espécie. Depois que se foi, seus supostos seguidores preferiam voltar à falsa segurança das ordenanças formais, escritas desta feita, quase todas por um ex-fariseu, classe de pessoas que Jesus, em vida, mais combatera.
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