terça-feira, 16 de março de 2010

Lembranças da gaiola - parte 2

Presidente: espero não estar infringindo nenhuma regra. Como tenho até quinta-feira para ficar na vitrine, vou dividir o tempo para postar logo a segunda parte, ok?


* * * * * * *
Meu pai tinha uma coleção de teologia da CPAD de uns 15 livros. Hoje sei que eram bem básicos, mas para mim, um garoto de 15 anos, ávido por conhecimentos bíblicos, aquilo era uma tremenda feijoada. Li todos eles e esta foi a minha base ortodoxa até pelo menos, os 26 anos.


Antes disso, como eu disse no último parágrafo do texto anterior, de tanto buscar o "batismo com o Espírito Santo", eu acabei tendo a experiência extática mais esquisita da minha vida. Naquela oração, cheia de um clima espiritual forte, com toda aquela emoção pairando no ar, a dirigente chama lá prá frente quem queria receber o batismo. Como eu precisava daquela experiência para ser diácono e prosseguir na hierarquia eclesiástica até o pastorado, busquei-a com todo fervor. E naquele culto de oração aconteceu.


Para os assembleianos a cena é familiar: Muita gente glorificando, muitas aleluias, muita emoção e um sincero desejo de poder "tocar em deus". Até que uma irmã pôs a mão na minha cabeça e a minha língua começou a pronunciar textos desconexos. Tenho que confessar que é uma experiência dramática em todos os sentidos.


Fiquei umas 3 horas seguidas repetindo aquelas "palavras" desconexas e estranhas e não conseguia parar de falar. O êxtese era fenomenal. A alegria indizível. Parecia de fato, que eu estava de frente a deus conversando cara a cara com ele. Não vou aqui discutir a validade da experiência, mesmo porque já fiz isso a algum tempo atrás lá na minha sala.


No ano sequinte eu era consagrado a diácono. Comecei a pregar mais e mais. Eu lia e estudava muito. Mas eu só fui mesmo conhecer o liberalismo teológico muito tarde, já com uns 23 anos. E conheci lendo um livro ortodoxo do pastor Abrãao de Almeida, que evidentemente, condenava totalmente os teólogos liberais. Nada de discussão, só condenação.


E aí, eu comecei a pôr as assinhas para fora da gaiola...

Se tinha uma coisa que me revoltava na Assembléia de Deus de uns anos atrás eram os usos e costumes. Hoje, praticamente não existe mais tantos "não pode". Mas naquele tempo ainda era uma coisa muito forte. Então, de tanto eu ouvir presbíteros e o próprio pastor sempre repetindo que irmã que cortava o cabelo ia para o inferno, não aquentei mais tanta idiotice e pedi prá sair.

A reunião que oficializou a minha saída do arraial assembleiano não foi muito tranquila. Nesse tempo, Miquel Ângelo começara a pregar a predestinação. E aí, eu fiquei fascinado com o tema. Apesar de ler muito, nunca tinha estudado a predestinação nos moldes calvinistas. E lá fui eu, passar uns tempos na igreja Cristo vive para aprender a predestinação. Nem precisa dizer que os meus antigos amigos de ministério que antes me viam como um futuro pastor, começaram a dizer que eu tinha virado herege, já que a predestinação para eles, era um heresia.

Comecei a procurar livros sobre o tema e fiquei espantado como haviam vários títulos sobre o assunto. Virei calvinista...não muito convicto. Mas depois de frequentar durante 6 meses os cultos do Miquel eu estava cheio de ouvir sobre predestinação, já que ele reformulou toda a teologia da sua igreja e começou a fazer literalmente, uma lavagem cerebral nos membros para que todos se convencessem que eles agora eram "pedras vivas predestinados antes da fundação do mundo"...isso repetido toda quarta e domingo me deu indigestão, principalmente com a arrogância do Miquel Ângelo que cheou a dizer que nem Calvino tinha a revelação que ele tinha.

Chutei o balde de novo e fui respirar ar puro.

Então, eu já era  meio ortodoxo, meio liberal, agora membro da primeira igreja neo-pentecostal do Brasil, a Igreja de Nova Vida, fundada nos anos 70 pelo pastor Roberto Macalister. Fiquei nessa igreja durante 10 anos e perdi por completo a vontade de ser pastor. Durante todos esses anos, dirigi um grupo teatral. Comecei a estudar teatro e me tornei um bom diretor teatral amador. Nosso grupo era muito bom e eu escrevia umas peças bem diferentes das que normalmente se viam nas igrejas.

Fazíamos muitas apresentações pelas igrejas aqui do Rio e sempre nos envolvíamos em projetos sociais. Foi um tempo muito bom. Minhas concepções teológicas agora, já estavam todas modificadas. Comecei a cursar o seminário e aí a coisa ficou boa. Lá encontrei alguns poucos professores com umas cabeças privilegiadas que me fizeram ver que teologia é uma coisa que se faz e que não existe teologia certa ou errada.

Foi nessa época que eu comprava livros teológicos de tudo que era jeito. Eu devo ter comprado com o nosso amigo Wagner uns 100 livros durante os quatro anos de curso. E comecei também a estudar muito as religiões e a ficar fascinado pela cultura religiosa do mundo. Não tinha mais como eu sustentar a pretensão do Cristianismo em ser a única religião que salva, visto que é o Cristianismo que possui o Salvador.

Pronto, forcei mais um pouco, quebrei a janela e fugi da gaiola.

A partir daí, comecei a formar a cabeça crítica e não domesticada que ainda estou construindo hoje, com a ajuda de todos vocês. Não gosto mais de comida enlatada. Não gosto mais de teologia fechada, absoluta, pretensiosa. 

E hoje, sou membro de uma igreja batista. Evidente que não penso como batista, mas não tenho como me livrar do cristianismo, muito menos de Jesus de Nazaré, que é o meu salvador. Sim, tenho Jesus como meu salvador. Quem mais teria as palavras de vida eterna...?
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