sábado, 6 de março de 2010

NASCIDO E CRIADO NO "EVANGELHO"

Foto do editor do "Ensaios & Prosas" entre os seis e sete anos de idade. As "asas" simbolizam a "santidade" projetada sobre ele.



-->
Nunca ninguém havia encontrado algo que desabonasse a sua conduta de “menino crente”. Desde os primeiros anos de “banco” em sua igreja, era um exemplo de criança dedicada e obediente. Do jeito que a sua mãe o colocava no assento, ele permanecia sem se mexer durante todo o culto. Ficava tão impassível em seu lugar, que a um primeiro olhar, mais parecia uma estátua. A mãe se orgulhava quando todos sem exceção diziam: “esse menino é um santo, faz gosto mesmo de ver”.
Chegara à adolescência, sem ter recebido uma só repreensão de seus mestres da escola dominical. Era tido como um verdadeiro gênio das hostes divinas. Todos ficavam abismados com a sua capacidade de decorar textos. As pessoas ao seu redor extasiavam-se ao vê-lo recitar os comentários das lições bíblicas da escola dominical, decoradas em seus mínimos detalhes.
O Pastor eufórico dizia para a mãe do menino-prodígio: “Como é bom ter um filho nascido no evangelho, que nunca provou das coisas do mundo”. “Esse, minha irmã ─ vai longe” ─ dizia com muito orgulho. “Fique certa: Se a irmã o criar assim, separado do mundo, sem deixar ele se misturar com essa molecada imunda das ruas, a senhora vai ver Deus fazer maravilhas extraordinárias através dele. Disto eu tenho absoluta certeza” ─, concluía o entusiasmado ministro eclesiástico, mergulhado em seu paraíso utópico.
A casa do “menino que nascera crente” era todo o dia, visitada por parentes e outros que não faziam parte de sua grande família. A sua parentela era imensa, correspondendo, mais ou menos, a sessenta por cento de toda a igreja.
Certa vez, o Pastor em visita a sua casa, disse para sua mãe: “Olhe minha irmã, toda vez que eu prego sobre a parábola do filho pródigo, eu me lembro do seu filho. Vejo Deus mesmo, apontando para o seu filho, como se estivesse a dizer: Esse nunca procederá como o filho pródigo, pois foi criado dentro da doutrina santa e imaculada”.
Às vezes, o menino ouvia alguns admiradores dizerem: “Este foi escolhido desde o ventre da mãe para a obra do Senhor”.
Nunca passara por sua cabeça contestar algo, ou ir de encontro ao que se pregava como recado divino. Era enfim um robô passivo à serviço do Rei.

Foi por volta dos seus 9 anos de idade que um acontecimento surpreendente fizera desmoronar o seu mundo ilusório de santificação. Os “filhos pródigos da vida” ou moleques de rua como eram considerados por sua grande família “cristã”, desmascararam a esquisita história da cegonha contada desajeitadamente em seu meio. Foi um choque, ficar sabendo através do linguajar rude dos meninos de rua (os perdidos), a verdade escondida pelos seus, sobre como tinha sido gerado e vindo ao mundo.

Não era mais um anjo, pois perdera as suas asas. Agora, se sentia “um igual” entre os meninos mal educados de rua. As falsas certezas apreendidas desmancharam-se instantaneamente, dando lugar à desconfiança. Ao perceber que fora enganado, deixou de voar junto aos seus queridos pais, e, o único remédio que encontrou para aliviar as feridas feitas de maneira dolosa, foi sair da inocência do “Jardim do Éden”, caminhando com os seus próprios pés.

Agora, livre das amarras das asas angelicais, ele refletia sobre o avesso da parábola do filho pródigo. Ao ler e reler essa emblemática história bíblica chegou à conclusão de que, por caminhos tortuosos, o seu Pastor tinha alguma razão no que falava. É que, a continuar com o seu virtuosismo, ele estava fadado pela meritocracia eclesiástica, a ser o eterno irmão mais velho da “parábola do filho pródigo” , aquele rapaz exemplar, obediente e cheio de virtudes exteriores, mas que lá no fundo ardia-se de ressentimento e inveja, ao ver o seu desordenado irmão ser perdoado graciosamente pelo Pai.

Ele, enfim, abriu os olhos para enxergar o óbvio: não queria mais ser a cópia de um anjo, a exalar santidade através da mudez de seu comportamento exemplar. Não mais seria uma criatura arrogante e intolerante com os de fora, nem mais espargiria o veneno do ressentimento contra os desprestigiados, sem méritos e sem virtudes , os quais, pelas suas próprias condições, tinham tudo para serem alcançados pela graça e misericórdia Divinas. Aliás, graça e misericórdia, ele só conhecera de ouvir falar, pois, ao ser forjado e projetado para ser um anjo, jamais poderia entender a história de um Deus deixando o seu trono para provar em sua própria carne, da ambivalente fragilidade humana, e só assim, poder salvar os que tinham se extraviados pelos descaminhos do mundo.

A fotografia no topo desse ensaio revela claramente o olhar atemorizado do menino que, no dizer dos seus, “nascera no evangelho”. Sobre os seus ombros pesava o fardo da “santidade” regada pelos seus tutores, que ao invés de projetarem sobre ele a graça redentora de Cristo, transformaram-no na figura de um anjo submetido aos caprichos humanos.
A expressão vaga do menino, na foto, é a de quem realmente não pode corresponder ao que o Pastor e seus jovens pais tanto esperavam.

Olhando, agora, para o seu passado longínquo, ele não podia de maneira nenhuma negar que ali estampada na foto, estava a fiel imagem de quem se sentia realmente desamparado, triste, e ameaçado por temores vindos não sei de onde.

Analisando a sua imagem de menino de ontem, o velho de hoje não pode deixar de reconhecer que a fotografia, apesar de estar encardida pelo tempo, revela com cores fortes a contrariedade de quem foi forçado na infância a representar um “eu” irreal.

Ao continuar observando demoradamente o seu retrato de 55 anos atrás, por um instante, sentiu-se como o personagem principal de uma estéril peça teatral eclesiástica.

Estava tão absorto na concentração de sua antinatural imagem infantil, que em sua imaginação, via pender sobre os seus ombros, duas enormes asas angelicais. No entanto, a sua fisionomia triste emoldurada na foto, mais que tudo, revelava um coração bem distante de toda aquela antiga artificialidade religiosa, em que foi criado e exposto, para gáudio de uma platéia ávida de um “sacrossanto” perfeccionismo doentio e inumano.



Ensaio biográfico por Levi B. Santos
Postar um comentário
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...