sexta-feira, 19 de março de 2010

Confissões do Bill

Pessoal, farei aqui uma postagem rápida. Não esperem algo muito diferente, ou bonito, será apenas minha pequena jornada até aqui.

Aqui começa.

A anos e anos atrás, nascia em Vila Velha, no estado de Espírito Santo, no hospital Santa Mônica uma criança com nome de anjo. Gabriel.

Católica de criação, sua mãe o batizou lá. Mas não deu tempo de viver nem um cadinho na velha igreja. Aos 2 anos de idade, já era levado para o mundo evangélico.

Sua mãe se convertera a Jesus na Igreja Cristã Maranata.

E a cria foi crescendo ali dentro. Mais um nascido e criado no evangelho, ou pelo menos esperava-se que fosse.

--Espaço reservado para o salto no tempo à lá 2001 de Kubric--

O carro apertado, 1 diácono dirigindo, 3 obreiros, todos de terno, num calor infernal, correndo pela Rodovia do Sol, indo em direção a um bairro pobre. Lá ia ele prestar assitência numa igreja de periferia.

Era o momento mais empolgante de sua carreira na igreja. Finalmente era alguém especial, um obreiro, um trabalhador da obra. Era reconhecido e admirado, as pessoas lhe pediam orações, esperavam dele um exemplo.

O terrorismo psicológico era constante, a qualquer momento alguém podia ter uma "revelação" de que era sua vez de subir ao púlpito e pregar. Não é algo simples pregar alí, tem que se conhecer todo um linguajar específico, e saber interpretar a bíblia de acordo com uma cartilha extra-oficial, que eles chamam de "revelação além da letra". Logo, o medo de falar besteira era grande.

Ministrara algumas vezes o período de louvor, mas a execução deste momento importante do culto (que durava 15 minutos), devia ser feito de forma militar, e cada segundo, cada passo, cada fala, cada respiração era cronometrada e medida. Olhares de desaprovação eram dados em caso de movimentos imprevistos.

As pessoas lhe pediam oração, que eram feitas acopanhadas do diácono, e sempre seguidas da pergunta fatal: Teve algum don? (alguma revelação divina instantânea, qualquer coisa que tenha visto, não há uma definição exata).

Mas ele não suportaria isso por muito tempo. Desistira e voltara a ser apenas um membro de banco. Ouviria ainda mais vezes revelações de que Deus estava lhe dando uma última chance para voltar ao batente, mas ele não conseguia. Não tinha a estrutura espiritual dos outros para suportar aquela pressão. Era mais um derrotado, deixado de lado por Deus.

--Neste momento, a tela fica preta, e aparece um relógio marcando 09:30--
--Um grande auditório, cercado de árvores, com mais de 2 mil pessoas e um preletor à frente. Um clima agradável, e todo mundo bem vestido e sentados de maneira ordeira e comportada--

Lá estava ele, ouviu várias mensagens durante o sábado, e agora no domingo outra se iniciava. Não sabia se era só ele, mas estava impressionado pela falta de nexo do que havia ouvido. Não fazia sentido sob nenhum prisma, e eram provavelmente as mensagens mais vazia que já ouvira. Elas não lhe alimentavam como antes (já estivera ali antes), mas pensando bem, esta era a primeira vez que ele as ouvia atentamente. Provavelmente ele não havia ainda atingido o tal nível espiritual que lhe impedira de continuar como obreiro, e era melhor aceitar o que ouvia.

Olhava para os lados e via boa parte das pessoas cochilando. Alguns balançavam a cabeça como vaquinhas de presépio. Mas ninguém, disso ele tinha certeza, entendia nada.

Mesmo assim, ele pensava consigo mesmo: Que privilegiado que sou, praticamente nasci nesta obra, e conheço a Verdade. Não quero imaginar como seria se fosse diferente.

Mas algo lhe chamou a atenção naquela mensagem. O preletor começava a falar de alguma outra pessoa, que havia abandonado a igreja e estava se tornando contra ela, caluniando-a. Lágrimas vinham aos olhos do homem, que falava apaixonadamente. Era de dar pena.

--A tela apaga. 01:00am--
--Um quarto escuro, o brilho do monitor só deixa a face aparecer--

Ele precisava saber quem era esse miserável que ofendia a Grande Obra, aquela que lhe dera tanta segurança e certeza da Vida Eterna. Encontrou-o, e leu seus artigos. Justificou-os, encontrou saídas lógicas, negou-os até onde pôde*

Algum tempo depois, viu no youtube um homem barbudo, com anel no dedo, cara de maluco. Por algum motivo, resolveu ver o quê aquele homem tinha a dizer. Descobriu que ele tinha um site.

Seu mundo disabou.

Nada mais fazia sentido, tudo era relativo, tudo era falso, o quê era falso? O quê era pecado? Posso fazer isso?  Deus me ama mesmo assim? Sou menor por não ser tão bom quanto aqueles outros da minha igreja? O quê é igreja? Poderei ser pastor? O quê é ser pastor? São todos pastores? Por quê me enganaram por tanto tempo? Por quê me enganei? Por quê estou enganando as pessoas?

--Aqui entra um salto quântico, atemporal, sem nexo e provavelmente desnecessário--

E aqui estou eu. Pulei muitas partes dessa minha caminhada, muitas coisas aconteceram que não relatei, mas por hora é só o que tenho.

Abraços fraternais, em Cristo.

*dissonância cognitiva, para os entendidos
Postar um comentário
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...