segunda-feira, 15 de março de 2010

Lembranças da gaiola

1990.


A reunião daquele dia na igreja Assembleia de Deus no bairro de piedade, Rio de Janeiro, prometia ser conturbada. Um jovem diácono, com um futuro brilhante no ministério da palavra (segundo lhes diziam) estava prestes a chutar o balde...


1980.

O rapaz procurava com afinco, ser um bom cristão evangélico assembleiano. Passara pelas águas do batismo um ano antes e estava extasiado com todo aquele clima espiritual à sua volta. Muitas vigílias. Cultos de oração. Muitos "não pode". O mundo não tinha nada a nos oferecer. O mundo era território do Maligno, do mal, da oposição ao espírito e à vida santa. Santidade. Essa era, com certeza, a palavra que ele mais ouvia nas pregações.


Não podia ir ao cinema. Nem à praia. Nem jogar bola ou qualquer outra brincadeira que tivesse bola. Palavrão, era pecado capital. Namorar, só com o consentimento do pastor e sobre a vigilância implacável das "irmãs de oração", todas, com idades acima dos 50 e cheias de recalques. beijar a namorada na boca não podia. Agora, um abraço afetuoso, também não podia, oras! Andar de mãos dadas era tolerado, menos para o pastor Wilson, que vivia catando casais que descumpriam as suas normas.

1990, Meses antes da reunião.

O jovem diácono nunca tinha lido sobre predestinação, apesar de ler muito, inclusive sobre teologia. Ortodoxa, não preciso nem dizer.Mas ele jamais leria sobre predestinação nos livros que ele costumava comprar. A grande maioria dos seus livros eram devocionais. Livros que ainda hoje, não saíram da sua lembrança: "O Refúgio Secreto" - a história da holandesa Corrie que em plena Segunda Guerra, arriscou a própria vida para salvar judeus da morte. Ou então, "O Contrabandista de Deus" - a história do irmão André, que em plena Guerra Fria, contrabandeava bíblias para a países comunistas. Ou ainda, "A Cruz e o Punhal" - a empolgante história de David Wilkerson, que deixou o conforto de uma igreja de interior para se arriscar pregando para as gangues de rua de New York. E tantos outros.

Anos 80.

Apesar das aulas da EBD, da doutrinação constante na ortodoxia, o jovem tinha um quê de contestador. Ele era louco por alguns "não pode". Nada demais. O rapaz só queria poder jogar bola na rua, com a garotada, sem ser incomodado pelas irmãs de oração. O problema era que ele tinha em casa, uma irmã de oração fervorosa, ortodoxa e moralista até a alma: sua própria mãe.

Oficialmente, eu era proibido de jogar bola na rua. Em casa era até tolerado, mas era muito chato ficar só chutado para meu irmão agarrar e vice-versa. Então, de tanto que eu desobedecia à ordem de mamãe, ela acabou tolerando também os jogos na rua. Mas ela fazia tal qual pilatos: lavava as mãos! se algum irmão passasse e me visse jogando bola com os meninos "do mundo", eu teria que resolver sozinho quando o pastor me chamasse para me dar um sermão sobre como jogar bola impedia a minha santidade.

1988.

O jovem rapaz fez de tudo na igreja: foi líder da mocidade, líder de um grupo musical,  porteiro, professor dos adolescentes, tesoureiro da mocidade, pregador dos cultos da mocidade. Gostava de discutir assuntos bíblicos com os mais velhos e eles viam nele um potencial para o ministério pastoral. O pastor da igreja queria de todas as formas, alçá-lo logo para o presbitério, mas como tinha que seguir a hierarquia eclesiástica assembleiana, primeiro eu tinha que ser diácono.

Mas havia um problema: o jovem não era batizado com o Espírito Santo e por isso, por mais que o pastor quisesse fazê-lo diácono, sem que ele falasse as tais linguas estranhas, não seria possível. A ordem dada foi taxativa: "rapaz, quero consagrá-lo ao diaconato, mas você precisa buscar mais o batismo com o Espírito Santo".

Ele, empolgado com a carreira que poderia ter na igreja, tratou logo de resolver os problemas da língua...

continua.

Euzinho com 15 anos extasiado com as águas batismais
1979
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