sábado, 16 de junho de 2012

Gradiva, aquela que resplandesce ao andar



Gostei da provocação anterior do texto do Márcio, e tanto mais nos questionamentos sobre as contribuições freudianas e suas implicações na análise da vida, e em toda ciência dos fenônemenos psíquicos.

Na obra do pai da psicanálise, há um único exemplo de 'tratamento bem-sucedido', comentado  por Fédida,  psicanalista francês. É uma história fictícia, que evolui em Pompéia na Itália. O tratamento conduzido por Zoe Gradiva com o arqueólogo Norberto Hanold. Zoe é sua amiga de infância,  mas Norberto esquece-se completamente dela...
"Norbert Harnold tornou-se um grande e sábio arqueólogo. Faz pesquisas acadêmicas e sua vida se caracteriza por não interessar-se por mulheres.
Uma dia enamora-se de um baixo relevo  que representa 'uma jovem que avança' - Gradiva. Ao enamorar-se dele começa a delirar: tem alucinações e parte em viagem a Pompéia. Empreende a viagem mas não percebe, que no percurso dela, alguém o acompanha em ligeira distância, sem jamais confrontá-lo, sem jamais obrigá-lo a realizar o que se passa em sua cabeça. Leva muito tempo para que Norberto descubra que a pessoa representada pelo baixo relevo é Zoe, sua amiga de infância. É ela que vai libertar-lhe o amor. É ela quem vai lhe tornar possivel o amor, libertando-o do delírio.
Quando Norberto estiver curado poderá de novo re-encontrar o sonho em seu sono. Renunciará a seu delírio e poderá amar diretamente Zoe Bertgang - Gradiva. Ao longo de toda sua viagem ela o acompanhou sem jamais esposar seu delírio, sem nunca fundir-se com ele no imaginário.
(...) Jamais Zoe sacode o herói para que ele acorde, ela sabe muito bem que isso não permitiria a cura de Norberto, pelo contrário, acentuaria suas alucinações e reforçaria o delírio. Ela sabe que é preciso deixar tempo para o encaminhamento do delírio."*
 O texto de Fédida é sobre o amor transferencial, e de como isso implica na 'cura'. Mas essa narrativa simbólica remete a muitas reflexões...
Zoe poderia simplesmente ter dito:
- Oi, eu sou Zoe, porque você nao enxerga isso logo de uma vez e desiste dessa viagem louca, eu sou real, essa gravura á só um sonho!!!

Precisamos forçar a 'porta das verdades' dos sujeitos e mostrar o que só é dado na caminhada pessoal de cada um?
Ha tantas e ricas questões nesse texto, por isso trouxe para  compartilhar com vocês.

* Transcrição do texto Amor e Morte na Transfêrencia, Pierre Fedida, gravado em 1981.
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